A distribuição sócio-espacial de negros e brancos na cidade de São Paulo é caracterizada por marcos históricos, políticos e econômicos. Desde o início do século XX, os espaços da cidade sofreram demarcações dos espaços da riqueza e da pobreza. É nesse contexto que as diferenças, se deslocaram na capital paulistana. A ocupação sócio-espacial em São Paulo segue o modelo capitalista, dessa forma, as áreas centrais foram definidas como o lugar de viver dos setores sociais com melhor poder aquisitivo, e as áreas mais distantes do centro, como a única opção para os trabalhadores, e da mesma forma, para os negros.
A população negra iniciou o século XX habitando a área central e seu entorno, para posteriormente, ser desalojada por sucessivas medidas da legislação municipal, haja vista a desapropriação da Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em seguida, nas décadas de 1930 até 1970, teve que seguir em direção à periferia.
O processo de desapropriação imposto pelo poder legislativo, ocasionou a formação de bairros negros, como Bexiga, Barra Funda, Liberdade e Lavapés. A desterritorialização desses núcleos é resultado direto da constituição social de novos bairros que iriam abrigar a população negra.
No final do século XIX e início do XX, as principais cidades brasileiras receberam populações diversas, imigrantes oriundos da Europa e do Oriente. São eles: italianos, espanhóis, portugueses, alemães, japoneses, entre outros, gerando um panorama multicultural. A partir da economia cafeeira e da industrialização, as migrações internas (especialmente do nordeste) foram intensas para São Paulo.
O Quilombo, espaço construído a partir das revoltas empreendidas contra o sistema escravista, reuniu negros, mulatos, índios e brancos. O Quilombo de Zumbi de Palmares, tombado em 16955, combateu e resistiu às forças portuguesas e da sociedade escravocrata. No estado de São Paulo, a representação quilombola foi significativa, aglutinou focos de resistência em regiões rurais e nos arredores das cidades: Quilombos do Jabaquara, Mogi- Guaçu, Atibaia, Santos, Campinas, do Morro de Araraquara, da Aldeia de Pinheiros, Itapetininga, Piracicaba e da Fazenda Monjolinho (São Carlos), Jundiaí, e do Saracura
(Bexiga - atual bairro da Bela Vista) (Moura, 1994).
Na cidade e em seus arredores, a população escrava freqüentava as ruas, becos, bicas, chafarizes e as chácaras que se localizavam nas fronteiras do centro de São Paulo. Os lugares de encontro dos escravos criavam amplas dimensões para práticas sociais e culturais, para a indicação de empregos e as tarefas remuneradas, para a comunicação de festas e atividades culturais.
A partir de 1850 inicia-se em São Paulo, e principais cidades brasileiras, a imigração. Desembarcam no Bairro do Brás, via ferrovia, em direção à Hospedaria do Imigrante: italianos, alemães, espanhóis, portugueses e representantes de outras etnias.
Em 1854, a população da cidade girava em torno de 30 mil habitantes, era composta por oito mil escravos, pois quase 1/3 da população era livre (Rolnik, 1989: 30). Tempos depois, em 1872, dos 12 mil negros, apenas 3.800 eram escravos. Antes mesmo da abolição, estava sendo efetivado o desmantelamento do trabalho escravo, organizado pelas forças abolicionistas e por negros libertos.
Em 1881, a cartografia negra na cidade pode ser vista da seguinte forma: na região do triângulo financeiro, os serviços urbanos (carregadores, meninos de recado, vendedores, etc); o espaço da Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (igreja, cemitério e as habitações); o Pelourinho e Irmandade dos Remédios; na Rua da Liberdade, era o local de leilão de escravos; no Bexiga, existia o Quilombo do Saracura; na região sudeste, o Quilombo do Jabaquara; e nos arredores da cidade, os negros conviviam nos casebres e chácaras (Ver Mapa Nº 6 – Territórios Negros em São Paulo - 1881) .
O crescimento populacional, tendo como base a imigração, propôs transformações na cidade, que na época estava reduzida ao perímetro central. Com as novas transformações, quase todos os donos de chácaras localizadas perto da área central ou arredores, iniciaram a abertura de avenidas, ruas, alamedas e largos em suas terras (Bruno, 1984: 441-442).
Após a abolição, o cenário paulistano sofreu transformações, através da introdução do trabalhador estrangeiro na economia urbano-industrial, substituindo o nacional. O Governo brasileiro torna oficial o projeto de embranquecimento do mercado de trabalho tendo como base a imigração. A substituição do trabalhador nacional pelo estrangeiro propõe outras mudanças, além do trabalho, as mudanças nos espaços da cidade, criando territórios e bairros exclusivos para os estratos sócio-econômicos de alta e baixa renda.
Em 1893, a população de São Paulo totalizava 130.775 habitantes; desses 45,5% eram nacionais e 54,6% estrangeiros. A população negra correspondia a 13.559 habitantes, representando mais de 10% (Fernandes, 1964: 8-9).
Mapa Nº 6 – Territórios Negros em São Paulo – 1881
Fonte dos dados: Rolnik, Raquel. A Cidade e a Lei.
Entre 1890 e 1914, o poder público municipal de São Paulo, na gestão do prefeito Raimundo Duprat (1910-1914), ordenou a operação limpeza: "para a construção da Praça da Sé e remodelação do Largo Municipal, os cortiços, hotéis e pensões das imediações foram demolidos" (Bruno, 1984: 912). Este processo está ligado a dois fatores, o primeiro, foi semelhante ao "bota abaixo" no Rio de Janeiro, pelo Prefeito Pereira Passos, influenciado pelo urbanismo haussmaniano. No Rio de Janeiro, a limpeza foi completa, negros e pobres foram desalojados da área central, dando início à subida aos morros com o assentamento das favelas como habitação popular. O segundo, a limpeza urbana do centro paulistano dimensionou a formação e consolidação do Bexiga (atual Bela Vista) como território negro em São Paulo.
Segundo Bruno (1984: 912), "Antonio Prado, ao deixar a Prefeitura e ao caminhar ao Governo do Estado, escrevia que esse plano lhe daria o aspecto de cidade moderna, próspera e civilizada, conferindo-lhe um dos primeiros lugares entre as melhores cidades do continente". Para os setores dominantes, a cidade almejada teria ares modernos, de prosperidade, tudo o que se referia ao novo e ao europeu. O antigo e tradicional deveriam ser esquecidos, ou seja, a operação limpeza se empenhou em fazer a transformação; as mudanças visavam à eliminação dos setores populares do centro da cidade.
A diversidade cultural em São Paulo pode ser observada a partir do movimento de ocupação do espaço pelas diferenças culturais, em torno do trabalho e da habitação. Florestan Fernandes (1965: 10), ao analisar dados quantitativos de São Paulo (1893), descreve a distribuição étnica na cidade, classificada por divisão administrativa, classificada na época por Freguesias.
Tabela nº 26 - Divisão Administrativa da Cidade de São Paulo em 1893 de acordo com as Freguesias e Etnia/Raça
Freguesia Brancos Caboclos Pardos Pretos
Norte e Sul da Sé 88,3 0,40 6,3 5,0
Santa Ifigênia 86,4 0,30 8,9 4,4
Consolação 89,2 0,30 8,9 4,4
Brás 93,1 0,30 3,3 3,3
Subúrbios 75,1 0,20 15,3 9,4
Fonte: Florestan Fernandes, A Integração do Negro na Sociedade de Classes, 1964.
A partir da analise dos dados, é possível verificar que, em locais de alta concentração de imigrantes, como é o caso do Brás, por exemplo, há mínima presença de negros, e nos locais de alta concentração de negros, a população estrangeira diminui. As Freguesias do
Norte e Sul da Sé, Santa Efigênia, e o subúrbio (Nossa Senhora do Ó, Penha e São Miguel), são os espaços de concentração da população negra e pobre.
Se a cidade foi dividida por etnia e grupos sociais, o mercado de trabalho obedeceu a esta tendência. O mercado de trabalho sofreu o processo de embranquecimento, concentrando-se majoritariamente na população estrangeira. Do total de trabalhadores na cidade, 71,2% eram estrangeiros e, 82,5% dos estrangeiros na expansão urbana e industrial (Fernandes, 1965: 11), criando um cenário onde os imigrantes são os principais atores no mercado de trabalho, enquanto que para o nacional, restaram as ocupações mais desgastantes, atividades que exigiam empenho físico.
O trabalho em São Paulo teve o predomínio quase total dos imigrantes, e para os nacionais, o diminuto emprego em atividades manuais (onde se exigia redobrado esforço físico). Para os trabalhadores nacionais, principalmente ao negro, a cidade ficou delimitada, restrita à Várzea do Carmo, Largo Nossa Senhora do Rosário e a região conhecida como Sul da Sé (Santos, 1998: 83). Os serviços, nesses lugares, estavam fora do sistema fabril ou comercial, restando aos negros e pobres, os trabalhos de carroceiros, ambulantes, limpadores de ruas e praças, empregadas domésticas, criadas, amas-de-leite, entre outros.
A cidade de São Paulo principia o século XX com a urbanização, criando e compondo territórios exclusivos, por meio da legislação urbanística. A legislação atuou no processo de zoneamento social, regulando a área da cidade, proibindo a construção de cortiços.
“Ao mesmo tempo em que a lei alinhou os territórios da riqueza, delimitou também aqueles onde deveria se instalar a pobreza. A constituição de um mercado imobiliário dual, no qual os pobres estavam alocados na periferia, começou com a proibição de instalar cortiços na zona central definida pelas posturas de 1886 e reiterada pelo Código Sanitário de 1894, que proibia terminantemente a construção de cortiços e permitia a construção de vila higiênicas fora da aglomeração urbana” (Rolnik, 1997:47).
Desde as primeiras legislações dos planos urbanísticos de São Paulo, os espaços reservados aos negros para moradia e trabalho, foram alvos do poder político e imobiliário E este teve como objetivo preservar a cidade legal, criando territórios exclusivos.
Os territórios fora da lei, segundo Rolnik (1997: 60), corresponderam, em primeira instância ao lugar dos negros na cidade. Com o passar do tempo, incorporou os bairros de imigrantes até serem completamente identificados como territórios estrangeiros até os anos 30.
Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos
A produção de territórios, tendo como referência a legislação urbanística, pode ser observada por meio da desestruturação física, social e religiosa da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de propriedade da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, organizada em 1711, localizada na época na Rua do Rosário, próxima do antigo triângulo econômico. A Irmandade foi constituída e organizada pelos escravos, libertos e forros. Nos idos do século XX, o poder público inicia a eliminação gradual dos pertences e da propriedade da Irmandade dos Pretos.
Primeiro, acontece a desapropriação da área física, que tinha como utilidade o enterro dos irmãos falecidos; segundo, a desapropriação das casas de africanos e descendentes, contíguos ao espaço da Irmandade.
A Irmandade escreveu sua história sobre as pedras da cidade, e o poder político e econômico desfez toda a edificação sócio-cultural, colocando por terra uma parte da história da cidade de São Paulo.
O Prefeito Antonio da Silva Prado eliminou, paulatinamente, os espaços reservados para as atividades religiosas, recreativas, sepultamentos, festas e batuques que os negros praticavam na localidade.
Por último, restou a desapropriação integral da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, finalizada em janeiro de 1904. Raul Joviano do Amaral (1991: 18), em seu estudo sobre a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, descreve o processo de desapropriação levado à frente pelo poder público (legislativo e executivo), por meio da Lei Nº 698, de 14 de dezembro de 1903.
“O Sr. Antonio da Silva Prado, Prefeito do Município de São Paulo, faz saber que a Câmara, em sessão de 19 do corrente mês, decretou o seguinte:
Art. 1º - Fica aprovado o auto da Prefeitura, em virtude do qual entrou em acordo com a irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, desta capital, para o fim de adquirir para a Câmara o edifício da sua igreja e outras dependências mencionadas no dito acordo, mediante a indenização por parte da mesma Câmara a quantia de duzentos e cinqüenta contos de réis (250:000$000) e uma pequena área do terreno no Largo do Paissandu” (...).
negros no centro da cidade, com a Lei nº. 794, de 4 de janeiro de 1905 (Amaral, 1991: 118).
O Dr. Pedro Vicente de Azevedo, vice-prefeito do Município de São Paulo, em exercício, faz saber que a Câmara em sessão de 31 de mês findo, decretou a lei seguinte:
Art. 1º - Fica denominado Praça Antonio Prado o atual Largo do Rosário
Art. 2º - Fica denominada Alameda Eduardo Prado a antiga Alameda Antonio Prado. (...)
Desapareceu tudo o que lembrava o negro. As habitações, o cemitério, a igreja e também o nome da Praça, o último vestígio negro que restava no centro da cidade. Não restou nenhuma história simbólica daquele espaço. Com a desapropriação, desmorona-se toda história de vida, e com isso a Irmandade segue para um local mais distante do centro, para se instalar em um terreno muito inferior ao anterior. A construção se inicia em meio de tumultos: de um lado, a vizinhança não queria ter ali como vizinho a Irmandade dos Pretos e de outro, os problemas que a irmandade encontrou para edificar sua nova sede, entre eles, os altos preços dos materiais. Nos dias 21 e 22 de abril de 1906 (Amaral, 1991: 126), a Irmandade dos Pretos celebrou a primeira missa em sua nova Igreja, localizada no Largo do Paissandu.
Entre as décadas de 30 e 40, a Irmandade foi novamente incomodada com mais uma proposta de desapropriação.
“O Prefeito de São Paulo, engenheiro Francisco Prestes Maia, visou à demolição da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo, no Largo do Paissandu, devendo este logradouro público passar por grandes reformas, de moda a adaptar-se não só à transformação urbanística, a que São Paulo está sendo submetida, mas, ainda, à edificação do monumento ao Duque de Caxias” (Amaral, 1991: 132).
O Prefeito Prestes Maia, responsável pela implantação do Plano de Avenidas na cidade de São Paulo, quis tirar do caminho a Igreja. Novamente por mais uma legislação urbanística, a Igreja é quase demolida. O Plano de Avenidas implantou a abertura de radiais, ligando o centro aos bairros periféricos, impulsionado pelos transportes e, sobretudo, pretendia “melhorar a estética” da área central, dando uma feição de beleza à zona urbana de São Paulo.
A legislação que visou à desapropriação da Igreja do Rosário dos Homens Pretos propôs um terreno na Vitorino Camilo, bairro da Barra Funda. A Barra Funda já era
conhecida como um reduto negro em São Paulo (Rolnik, 1997: 77). A instalação da Irmandade no bairro viria ampliar os aspectos sócio-culturais do negro, porém, a desapropriação não se concretizou.
Associações e Organizações Sociais e Recreativas
Entre as formas de organização social em São Paulo, os primeiros movimentos de negros, nasceram da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos; colaborando para o nascimento das primeiras organizações (Silva, 1997: 111).
A história da Imprensa Negra em São Paulo é classificada em três períodos (Ferrara, 1986: 45). No primeiro período, de 1915 até 1923, as organizações responsáveis pela confecção dos periódicos jornalísticos, se preocupavam em veicular pequenas notas, como falecimentos, casamentos, festas religiosas e quermesses. A partir do segundo momento, de 1924 - 1937, o conteúdo jornalístico assumiu posturas de organização sócio-racial, visando exclusivamente, o combate à discriminação racial. No terceiro, de 1945 até 1963, a sociedade brasileira estava entrando num processo de redemocratização, onde todos os grupos sociais e políticos procuraram reorganizarem-se como também os grupos negros. A história da Imprensa Negra em São Paulo fez despontar e nascer outras entidades negras.
A cartografia das organizações culturais e recreativas do negro na cidade de São Paulo concentrava-se, principalmente na região central, nos bairros da Liberdade, Sé, Consolação, e Bela Vista, e depois na periferia, Campos Elíseos, Santa Ifigênia e Santa Cecília. As organizações negras na cidade se organizavam em torno das seguintes atividades: os blocos e cordões carnavalescos, as entidades promotoras de bailes e festas, as atividades esportivas e a publicação da imprensa negra (Ver Mapa 7 - 1924).
Nesse período, duas entidades se destacaram no cenário paulistano, publicando a Imprensa Negra e intervindo em outros espaços onde o negro vivia: a Frente Negra Brasileira e a Associação Cultural do Negro, ambas prestando grande serviço para as organizações negras do século XX.
Mapa Nº 7 – Territórios Negros em São Paulo – 1924
Fonte dos dados: Raquel Rolnik, A Cidade e a Lei.
Fonte da base cartográfica: Arquivo Púlibco da Light São Paulo
A Frente Negra Brasileira, fundada em 1931, por Arlindo Veiga dos Santos, publicou
A Voz da Raça, que tinha como objetivo (Ferrara, 1986: 67) à ascensão social do negro por meio dos estudos, trabalho, e o acesso à casa própria.
A Associação Cultural do Negro teve como diretor, a pessoa de José Correia Leite, um dos principais articulistas da Imprensa Negra da época. A entidade preocupava-se em
organizar a população negra carente de recursos, como a educação e a habitação e também tinha como objetivo promover atividades culturais e artísticas (primeira fase), e depois criar uma ideologia para o negro paulistano (segunda fase), pensamento esse que acabou afastando e desagregando alguns colaboradores da associação.
Com relação à imprensa negra paulistana, ela passou a ser militante com o Clarim d’Alvorada. Antes os jornais existiam para comunicar assuntos especificamente sociais, como batizado, casamento, falecimento e alguns trabalhos literários. O Clarim d’Alvorada é que partiu para uma militância ideológica onde conseguiu seguidores e militantes (...) (José Correia Leite) (Leite e Cuti, 1992: 19).
Os diretores das associações culturais e recreativas ocuparam melhores posições no mercado de trabalho, em relação aos atores sociais que moraram e viveram nos territórios negros (Bexiga, Barra Funda, Liberdade, Cambuci). O "grupo de letrados" não ocupou posições de subproletariados, foram integrados às atividades do mundo urbano-industrial, enquanto a outra parte desenvolveu suas atividades na informalidade e no subemprego. Diversos posicionamentos das associações veiculavam nos órgãos de imprensa, informações para serem adotados pelos negros: os valores urbano-industrial, higienista e moralista da sociedade de São Paulo, entre eles as formas de se portar e as vestimentas.
Os noticiários da Imprensa Negra procuraram transmitir maneiras de socialização, integração e certo controle do mundo urbano-industrial aos grupos negros (Ferrara, 1986: 196) .
A aproximação que esses grupos de letrados chegaram a ter com a população suburbana da cidade, além da distribuição do material de comunicação social, começou a fomentar propostas de melhoria social, especificamente, sair dos porões e cortiços. A Frente Negra Brasileira, através de seu órgão de imprensa refletiu um de seus ideais, o acesso à casa própria, da seguinte forma: "(...) muitos negros começaram a comprar terrenos na periferia: São Judas, São Mateus, Freguesia do Ó, Bairro do Limão, Cantareira, (...)" A proposta refletia o ideal de deixar os porões da cidade e caminhar rumo à periferia.
“Outro tipo de participação empreendido para os negros suburbanos, esteve circunscrito à divulgação dos bailes, festas e desfiles dos blocos carnavalescos nos órgãos de imprensa. (...)1º número - Iniciando a noitada artística, o corpo Cênico Frentenegrino, cantará a MARCHA PALMARES, música de Isaltino B. Veiga dos Santos, e letra de Lino Guedes. 2º número - O menino Otelo, o menor artista negro
brasileiro, em brilhante improviso, saudará os Cordões Carnavalescos Paulistanos, representando também, o Cordão Flor da Mocidade, donde faz parte ” (Jornal A Voz da Raça, 1933: 4).
A Associação Cultural do Negro, da qual José Correia Leite participou a foi se instalar distante do centro, indo pós-Rio Tietê, no Bairro da Casa Verde, onde desenvolveu atividades sociais e culturais para os moradores (Ferrara, 1986: 68) .
Quanto às práticas de entretenimento e lazer, segundo Silva (1997) e Bernardo (1998), o lazer ocupa um lugar especial: é o espaço do não-racismo, onde as pessoas podem freqüentar, sem hierarquias em função da raça ou posição social. É também onde o grupo reúne forças para enfrentar o trabalho e, sobretudo, o racismo da sociedade. Pode-se compreender o lazer negro da seguinte forma: criado, dirigido e freqüentado por negros. As atividades negras são extremamente amplas nesse contexto, reúnem os bailes, cordões e escolas de samba, grêmio recreativo, associações culturais, irmandades religiosas, piqueniques, excursões, concursos de beleza, sessões literárias, esportes em geral e futebol em particular, que tinham como objetivo a congregação do negro, criado por negros, com o objetivo de reunir o próprio grupo.
Havia também o baile familiar que proporcionava o encontro e garantia os casamentos no interior dos grupos. Para homens e mulheres, era preciso encontrar parceiros que compartilhassem os gostos, comportamentos e o mesmo círculo de amizade. Esses bailes muitas vezes eram uma das extensões dos grupos culturais, entre eles o Clube Negro de Cultura Social, Evoluídos, KWY, Campos Elíseos, Frente Negra Brasileira e outros.
Práticas Religiosas
“Outro enfoque que contribui para a discussão do tema território negro, é o religioso, o território aparece assim, como um dado necessário à formação da identidade grupal/individual, ao reconhecimento de si por outros (Sodré, 1988: 14). (...) as comunidades litúrgicas negras são constituídas no Brasil como terreiros de culto, constituem exemplo notável de suporte territorial da cultura do antigo escravo (“...)” (Sodré, 1988: 95).
O terreiro de candomblé figura, assim, num lugar afro-brasileiro, dotado de força simbólico-cultural para uma etnia que experimenta a cidadania em condições desiguais. A força é o axé, elemento que constitui a força do território terreiro, e o axé se constitui como
um elemento imprescindível atua como eixo central pela criação/renovação de espaços