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“ ...Viver!

E não ter a vergonha De ser feliz Cantar e cantar e cantar A beleza de ser

Um eterno aprendiz...”

(O Que É, O Que É? – Gonzaguinha)

Quando penso na minha jornada no doutorado, invariavelmente essa música me vem à mente, pois está sendo um grande aprendizado! O mestrado eu cursei conciliando a vida de empresária com a acadêmica; foi muito árduo, apesar de ter valido a pena. Porém, o doutorado sempre tive em mente fazê-lo com qualidade e sobre um tema que me despertasse paixão. A partir do segundo ano de doutorado, pude me dedicar exclusivamente a este projeto e acho que consegui transformar mesmo as situações de grande pressão em momentos vividos com alegria e grande satisfação!

Uma das dicas do curso de GT que segui foi a manutenção de um diário de pesquisa, para registrar as principais ocorrências sintetizadas nesta seção. Iniciei a redação do meu

jornal em novembro de 2008, quando aconteceram a minha qualificação de tese e as conversas com o Sebrae e Fórum de Inovação para definição da Movelaria Paulista como objeto deste estudo.

A primeira reunião com o representante do sindicato de móveis foi no dia 17 de fevereiro de 2009, e eu saí da reunião com duas percepções claras: 1) a necessidade de conhecer mais sobre as movelarias no Brasil, sendo que referências importantes me foram passadas, como: www.cetemo.com.br e www.movergs.com.br, e 2) desenvolver uma estratégia para me aproximar das empresas, quebrando resistências.

Nos primeiros meses de 2009, eu estava em redefinição de onde realizar o meu doutorado sanduíche, já que a minha futura orientadora estrangeira na Universidade de Lund na Suécia havia ficado doente. Nesse processo conheci duas pessoas muito importantes para o meu doutorado, o professor Stephen Roper da Universidade de Warwick (UK) e a Professora Cathy Uquhart, hoje na Universidade Metropolitana de Manchester (UK), na época professora da Universidade de Auckland (Nova Zelândia). Cathy, especialista em GT na área de TI, estava com muitos orientandos, mas me ajudou muito fornecendo material sobre GT e exemplos de pesquisas por ela supervisionados com o uso da GT. Por outro lado, o professor Roper é diretor do Centro de Estudos de PMEs (CSME) e me aceitou em Warwick, mesmo sendo um pesquisador quantitativo, especialista em estudos econométricos. Foi uma excelente vivência. Em maio, estava definida que a minha ida para Warwick seria em outubro, e assim eu passaria um ano de doutorado na Universidade de Warwick.

A ida para Warwick fez com que algumas decisões estratégicas fossem revistas. Focar o período no Brasil para efetuar as entrevistas de campo e concluir o processo de codificação no inverno inglês. Coincidentemente, essa decisão fez com que a circularidade do processo de coleta e análise se aproximasse mais da proposta de codificação da Charmaz (2006). A cada entrevista realizada, o diário de pesquisa era atualizado com as principais percepções e pontos

importantes para a próxima entrevista registrados, sem entrar na transcrição e codificação aberta das entrevistas. Das inúmeras anotações que fiz, me chama a atenção a vontade dos integrantes da Movelaria de fazer não só o próprio negócio dar certo, mas de melhorar o setor como um todo, havendo uma explícita preocupação com o social.

Primeiro realizei as entrevistas com os representantes de sindicatos, Sebrae e Agência de Desenvolvimento do ABC, com o que entendi a história da formação do grupo, o papel do sindicato e do Sebrae. Nesse período participei de fóruns técnicos promovidos pela Movelaria Paulista. Aos poucos fui marcando presença e conhecendo também seus parceiros, chegando a ser convida pela Movelaria para participar de uma reunião com parceiros para discutir um de seus projetos.

Durante o período de 13 a 15 de julho realizei um conjunto de entrevistas no pólo Moveleiro de Ubá (MG), e solicitei ajuda ao colega de doutorado Guilherme Martins para marcar as entrevistas, dado que ele já estava em contato com elas para realizar um trabalho sobre logística. Entrevistei a representante do sindicato das indústrias de móveis da região (Intersind) e mais quatro empresas moveleiras. Essas entrevistas foram fundamentais para eu ter uma referência diferente da Movelaria Paulista, quanto às características e a dinâmica das empresas que compõe um pólo moveleiro.

Em paralelo aos preparativos para ida para Inglaterra realizei os agendamentos das entrevistas e as entrevistas em si. Tive problemas para achar uma pessoa para me ajudar a trabalhar nas transcrições, e até chegar a Thaís foi tarefa difícil.

Ao chegar a Warwick a primeira pergunta feita pelo meu orientador foi: “Qual seria um bom resultado da sua estadia aqui em Warwick?” A minha resposta foi: “Consolidar o resultado das entrevistas e do material já coletado no Brasil e se possível visitar redes moveleiras no Reino Unido”. Então ele me pediu que lhe apresentasse o meu planejamento e a forma que eu gostaria que fosse a nossa interação, e assim estabelecemos um plano com

alguns marcos. A objetividade do professor Stephen, sem ser impositivo, mas me estimulando a apresentar resultados, dando constantes feedbacks e me convidando a participar de reuniões departamentais e de seminários foram fundamentais para a produtividade do meu período no exterior. Confesso que só depois de Warwick entendi e me encantei com os estudos quantitativos, principalmente o poder dos estudos econométricos. Quem sabe está aí a semente para o meu pós-doc... Além disso, o fato de submeter um artigo para um evento na área e ser aceito foi um importante estímulo para acelerar a „saturação‟ teórica e posteriormente ao submetê-lo a uma revista, mesmo não tendo sido aceito, o feedback ratificou a importância de retomar o contato com o campo no regresso ao Brasil.

Mesmo à distância, a interação com o meu orientador e o professor Gobbo aqui no Brasil foi importante, pois foi através do seu respaldo que as minhas opções foram avaliadas, evidenciando as lacunas a serem trabalhadas. Sem mencionar o apoio e conselhos valiosos do professor Rodrigo Bandeira-de-Mello, que sempre me ajudava quando eu me sentia perdida em relação ao uso da GT. Creio também ser relevante mencionar que tive acesso aos empresários e houve interação via email para validação de alguns documentos durante a minha estadia na Europa.

O inverno britânico foi muito propício a retomar o processo de codificação a la Corbin e Strauss (2008), linha-a-linha, entrevista por entrevista. Ter de explicar a metodologia, o contexto da Movelaria e apresentar os resultados para professores que não conhecem a nossa cultura e não são especialistas em trabalhos qualitativos foi um desafio valioso. A definição dos marcos no meu plano foi fundamental para manter a minha pesquisa nos trilhos. Entre eles, a apresentação do meu projeto num seminário aberto aos pesquisadores da universidade (4 de março) e submeter o meu projeto de pesquisa para um congresso da área, 55th International Concil for Small Business (ICSB). O seminário me ajudou a consolidar a minha questão de pesquisa e a sua relevância e a participação no congresso (25/jun) ajudou a manter

o foco e concentrar os esforços para finalizar o processo de abstração das categorias e pensar na construção da teoria substantiva.

Outro ponto positivo da universidade de Warwick é o acesso à informação. A biblioteca é fantástica e a facilidade de acesso e volume de informações eletrônicas disponíveis é invejável. A estadia em Warwick foi muito importante para eu atualizar e coletar mais material bibliográfico para a minha pesquisa.

No final de julho de 2010, contatei várias empresas moveleiras da região para marcar uma entrevista e percebi a dificuldade, para a qual nem eu e nem o meu supervisor britânico nos atentamos, durante o período de férias entre julho e agosto e a dificuldade de acesso a elas na falta de um mediador; eu subestimei o campo, o acesso deveria ter sido negociado com maior antecedência.

Antes do regresso ao Brasil recebi o convite da Movelaria para participar de uma reunião no dia 25 de setembro, um dia após o meu desembarque no Brasil, referente ao planejamento de suas ações para o biênio 2011-2012. O convite veio a calhar com o meu desejo de retomar contato com campo. Durante a reunião, pude ter uma visão geral do que foi o ano de 2010 para o grupo; a saída do investimento do Sebrae, por motivos legais internos da instituição no estado de São Paulo, o impacto negativo dessa saída nos projetos em andamento; as conquistas e amadurecimento do grupo; e o grande interesse pelo tema inovação.

A segunda rodada de reunião foi realizada pela Movelaria após duas semanas, e nessa reunião ficou explícita uma necessidade no grupo e uma oportunidade para mim de mapeamento das empresas da Movelaria. Para a Movelaria o diagnóstico era necessário para servir de base para a definição de projetos de melhorias para as empresas, tanto individualmente como de forma coletivas; para mim, uma grande oportunidade para explorar

uma das categorias que não havia ficado muito clara, bem como uma oportunidade para validar a teoria substantiva em campo.

No período de outubro e novembro, realizei 34 entrevistas e visitas às fábricas, gerei relatórios individuais para cada organização e fiz uma apresentação dos resultados consolidados para o grupo. Para realizar essas entrevistas contei com um apoio logístico e uma mobilização enorme dos empresários, dado que as entrevistas ocorreram num período que precedeu a minha mudança para a cidade de Palmas, no Tocantins.

Na próxima seção, apresento a Movelaria Paulista usando a teoria substantiva para explicar as inovações da rede, o restante do capítulo é usado para apresentar o processo de coleta e análise de dados usado para chegar a esta teoria substantiva.