4. EMPIRI/AALYSE
4.3 S KOLEN SOM SOSIALT SYSTEM , BEGREPER
4.3.1 Begrepene i læreboka ”Menneske og samfunn”
O engajamento dos pacientes nas atividades do CS ocorria de diferentes maneiras. Os curiosos passavam por elas rapidamente (entravam, olhavam e saiam), alguns as frequentavam com certa regularidade, outros participavam da organização e coordenação.
Os pacientes mais assíduos, e aqueles que participavam da gestão das atividades do Clube, constituíam o núcleo dos grupos e contribuíam para sua estabilidade e continuidade.
As dificuldades mais evidentes no relacionamento com os pacientes, em relação à organização e desenvolvimento dos grupos, eram relativas ao uso dos espaços oferecidos que se desviavam da proposta de co-gestão, de acolhimento e respeito entre as pessoas. Nestes casos ocorria uma apropriação indevida dos espaços de convivência abertos e gerenciados pelo Clube. Pacientes que assumiam determinadas funções – como cuidar da biblioteca, usar o aparelho de som, coordenar atividades de artesanato –, as exerciam de maneira impositiva e autoritária: estabeleciam regras próprias, ditavam ordens à revelia dos interesses dos demais, e utilizavam a força física ou a intimidação para conseguir o que desejavam. Um exemplo disso ocorreu no Clube do Balanço. Alguns integrantes desse grupo, pessoas que haviam se oferecido para cuidar da sala e do uso do aparelho de som, exerciam controle absoluto sobre a entrada das pessoas (quem poderia ou não entrar), as músicas que seriam tocadas e em que volume. Embora eles tivessem assumido o compromisso de seguir as regras e os modos de funcionamentos, acordados por todos os participantes, na prática, adotavam outra postura.
No Artesanato também ocorreu um mau uso do espaço, das responsabilidades e da confiança concedida. Os artesãos, sem o nosso conhecimento, passaram a controlar quem poderia ou não participar das atividades oferecidas pelo grupo. O resultado disso foi a aglutinação de pacientes que eram amigos ou companheiros de ala95 – em geral eram da ala voltada à internação de alcoolistas ou dependentes químicos – os quais raramente admitiam a entrada de pessoas de outras
95 Outro exemplo da tentativa de fechamento do grupo pode ser percebida no seguinte trecho da ata do secretariado em que dois pacientes da ala de alcoolistas “propõe para cuidar da jardinagem só os dois” (Ata, maio de 2005).
alas no Artesanato, principalmente, das mais desorganizadas. Justificavam sua atitude afirmando que os últimos atrapalhariam o trabalho desenvolvido ali.96
Sem o nosso conhecimento, o produto da atividade artesanal passou a ser “vendido” por cigarro, comida ou objetos pessoais. Ao invés de ensinar, de compartilhar, com os outros, o que sabiam fazer, a preocupação com a quantidade de objetos artesanais que poderiam ser permutados tornou-se a preocupação central. A troca de saberes, a participação, o incremento das relações interpessoais, os acordos coletivos, a co-gestão – ingredientes das intervenções do Clube – foram desprezados. O grupo passou a funcionar à semelhança de uma oficina de produção, e as relações se assemelhavam mais a transações comerciais.
A tentativa de recuperar o enquadre do projeto terminava com o protesto e/ou a saída (desistência) de alguém do grupo, com sinceras ou dissimuladas promessas de mudança e respeito aos fundamentos do Clube. Em situações extremadas, após muita conversa, os coordenadores se viram impelidos a vetar a participação de uma ou outra pessoa no grupo.
A proposta do Clube, e a subversão desta, revela uma incongruência na apreensão e no uso dos espaços oferecidos pelo CS. O Clube do Balanço e o Artesanato mostram posturas autoritárias, a formação de panelinhas, relações firmadas por benefícios materiais (comida, cigarro etc) e não pela troca de saberes. Podemos relacionar esses comportamentos a características da personalidade dos integrantes do grupo, mas também a fatores mais gerais.
96 Nos registros escritos há outros exemplos, além do Clube do Balanço e do Artesanato, do tipo de deturpação das funções assumidas no CS. Na ata de uma reunião aberta do CS, em que se discutia as brigas no Hospital, é feita uma referência sobre o comportamentos de alguns pacientes membros do CS:
“Alguns tomam conta do Clube como se fosse deles. Não respeitam as regras coletivas”. Fala-se em
“impunidade [e] violência gratuita”. Outro registro, referente ao grupo responsável pela gestão da sede do CS, mostra uma relação de posse, de propriedade em relação ao local: “R. diz que só ele abre [a sala da sede e proclama] ‘Ninguém tira a chave do meu pescoço’ [sic])”(Ata, julho de 2004)
Por exemplo, a restrição da entrada de determinados pacientes, geralmente os mais desorganizados – a qual contribuiu para o fechamento do grupo e a formação de panelinhas –, seria o meio encontrado para manter separado o organizado e o não organizado, um modo de preservação psíquica e de proteção contra a própria desorganização interna mobilizada pelo contato com um outro desorganizado, em crise aguda. Mais uma vez nos aproximamos da questão da clivagem constitutiva e da clivagem social.
Por outro lado, a postura autoritária fez aparecer a identificação com a organização hierárquica piramidal do Hospital e sua forma de distribuir e conceber o poder, em que a vontade de uma pessoa, dependendo da posição hierárquica ocupada, pode prevalecer sobre a dos demais e ser exercida através da imposição, do submetimento do outro. O modelo organizacional do Hospital invade, portanto, o modelo de co-gestão do CS.
As panelinhas, o autoritarismo e a busca de benefícios materiais também podem ser compreendidos como tentativas de sobreviver à brutalidade e à violência da vida nas instituições totais, e se enquadrariam no que Goffman (1961, 2007) chamou de ajustamentos secundários. Segundo esse autor, os internados sofrem diversos processos de mortificação do eu. Afastamento do mundo exterior, vigilância e controle, despojamento dos bens pessoais, padronização da aparência (desfiguração pessoal), perda da autonomia sobre sua rotina, convívio forçado com desconhecidos, humilhações, que são elementos de uma série de processos que destituem, atacam, desconstroem a concepção de eu, o sentido de identidade dos internados, construídos ao longo de suas histórias, vivências, cultura, grupos sociais de pertencimento. É justamente na tentativa de reorganização desse eu atacado e mortificado que surgem os ajustamentos secundários:
... práticas que não desafiam diretamente a equipe dirigente, mas que permitem que os internados consigam satisfações proibidas ou obtenham, por meios proibidos, as satisfações permitidas (...) os ajustamentos secundários dão ao internado uma prova evidente de que é ainda um homem autônomo, com certo controle de seu ambiente; às vezes, um ajustamento secundário se torna quase uma forma de abrigo para o eu, uma churinga, em que a alma parece estar alojada (GOFFMAN, 1961/ 2007, p. 54).
Ser autoritário, controlar a entrada das pessoas nas atividades, controlar o volume do som, determinar as músicas que seriam ouvidas, trocar artesanato por outros bens, pode significar uma tentativa de sair da condição de objeto, de passividade e de falta de liberdade, uma tentativa de reorganização do eu desestruturado pelas condições de vida na instituição.
4.7O manicômio e o medo do manicômio, a hierarquia e o igualitarismo: os termos