Tendo em vista o objeto deste trabalho acadêmico, especialmente interessa considerar aspectos relevantes da formação do engenheiro civil para prática de sustentabilidade em todas as suas dimensões e especialmente na esfera ambiental.
A Engenharia Civil se caracteriza como a área que cobre o espectro amplo de áreas de atuação profissional das Engenharias, envolvendo subespecialidades diversas e um
mercado de trabalho diversificado. O profissional de Engenharia Civil, em sua formação, aprende a projetar e a dimensionar edificações diversas, pontes, túneis, barragens, estradas, aeroportos, vias férreas, redes de água e esgotos, portos, canais e obras correlatas. Aprende também as técnicas construtivas e de controle de obras.
As grandes áreas da Engenharia Civil compreendem:
resistência dos materiais e estruturas ( projeto e cálculo estrutural, que envolve
os métodos de análise de resistência dos materiais e o dimensionamento de estruturas diversas, tais como concreto, madeira e aço);
mecânica dos solos (análise e dimensionamento de fundações, escavações, obras
de estabilização e contenção);
hidráulica e saneamento (redes de abastecimento de água, levantamentos e
estudos hidrológicos, operação de reservatórios para geração de energia elétrica, instalações e equipamentos hidráulicos, dimensionamento e projeto de redes de drenagem urbana, sistemas de esgotos, limpeza pública, sistemas de abastecimento de água, controle de qualidade da água e do meio ambiente);
construção civil (técnicas de construção; controle e supervisão de obras; projeto
de instalações prediais de água e esgoto, gás, eletricidade, ventilação, combate a incêndio);
transportes (projeto e construção de estradas).
Por ser sua presença muito atuante na transformação do ambiente, a Engenharia Civil acaba causando impactos ambientais profundos, caso não sejam observados os meios corretos de eliminação dos resíduos gerados, especialmente no tocante à construção civil. Basta registrar que a construção civil é responsável por aproximadamente 40% da emissão de gases poluentes e também por 40% do consumo energético do Brasil.
A base teórica de formação dos engenheiros civis precisa desenvolver no estudante a consciência do seu envolvimento na formação da sociedade como sujeito que age, através da sua atividade profissional, na formação da qualidade de vida da comunidade. Para Lopes e Pedrosa (2014), a noção de sustentabilidade não deve vir como conteúdo, mas como modo de abordagem, pois a sustentabilidade no currículo acaba dependendo da atitude do professor frente à questão ambiental e à formação do futuro engenheiro.
É preciso registrar, porém, que está havendo ainda uma escolarização das temáticas ambientais e do conceito de sustentabilidade, ou seja, ainda não existe verdadeira ambientalização curricular, ficando esses temas restritos a operar mudanças na estrutura e na linguagem escolar. Os cursos ainda são muito tradicionais, neles predominando a técnica, a disciplina, a utilidade e a economia, com incorporação mecânica de conteúdos referentes ao meio ambiente nos currículos. A ambientalização curricular, que introduza as temáticas ambientais de forma crítica e reflexiva em prol de soluções sustentáveis nos processos de produção, ainda está só no campo das ideias e, talvez, longe de ser concretizada.
Face à necessidade de cumprimento de uma série de normas ambientais nos diversos empreendimentos, a engenharia civil trabalha na atualidade com um processo que pretende a restauração e também a manutenção da integração harmônica entre todos os ambientes do projeto, quais sejam, o natural e o construído, além da criação de paradigmas que observem condições para o exercício da plena dignidade humana.
Colombo (2004), em estudo realizado sobre a formação de engenheiros civis, constatou que as exigências da prática profissional se distanciam daquilo que compõe a formação dos engenheiros civis, porquanto há uma incoerência entre o ensino e o que a prática profissional requer, na qual a questão que se destaca é a necessidade de o engenheiro conhecer o ser humano, seja o cliente direto, enquanto aquele para quem serão feitas as construções; seja o cliente indireto, a sociedade (e seus requisitos de qualidade de vida), seja, ainda, o trabalhador da construção cujo trabalho é por ele coordenado. Destaca a autora que:
No que se refere ao conhecimento do ser humano, pode-se perceber que de acordo com a teoria de conscientização de Paulo Freire, o Engenheiro tem consciência ingênua (precisa ser levado à transitividade-crítica que só é alcançada com uma educação diagonal e ativa, voltada à responsabilidade social e política, que o leve a sua inserção como construtor e construído pela realidade), ele age não com reflexão e sim, instintivamente, dado que sua reflexão tem como base teórica o que é quantificável. Ele não sabe ter o homem como objeto de sua reflexão. Então, ele faz coisas concretas por si mesmas e não para os homens. Ele tem o homem como meio (cliente, trabalhador, empregador) e não como fim (para quem se destina sua atividade no sentido de atender às suas necessidades de qualidade de vida). Ele não sabe se relacionar com o meio, não sabe construir para o meio, suas respostas são matemáticas. Ele constrói, matematicamente, e não para seres humanos. Ele constrói espaços físicos, concretos e não espaços de vida, de convívio (Colombo, 2004, p. 129).
A formação de engenheiros civis conscientes de sua ação, enquanto construtores do ambiente material e imaterial de vida e das repercussões positivas ou negativas que sua a atuação pode gerar, certamente não ocorrerá com a mera introdução de ajustes pontuais no
modelo de ensino atual. O que se faz necessário é a mudança do paradigma que orienta essa formação, tanto no que diz respeito aos princípios práticos ou epistemológicos que a orientam e que guiam as escolhas do modelo de ensino e de aprendizagem e dos métodos adotados para sua realização, quanto no que tem pertinência com os princípios teóricos que são desenvolvidos na formação dos futuros profissionais.
Na formação em Engenharia Civil com foco centrado na sustentabilidade e no desenvolvimento sustentável, a temática ambiental tem relevância especial, como tema condutor e integrador das diferentes disciplinas necessárias para a formação desse profissional, uma vez que ela traz em sua essência princípios éticos de comprometimento com a população contemporânea e de solidariedade com as gerações futuras. Além disso, como destaca Colombo (2004), essa temática é essencialmente multidisciplinar, dado que envolve diversas áreas de conhecimento, o que torna possível realizar-se uma formação interdisciplinar e até mesmo dar-se início à caminhada rumo à transdisciplinaridade. Ela enseja visão ampliada e senso de responsabilidade perante todos os seres e elementos da natureza. Ela propicia o desenvolvimento do senso de responsabilidade socioambiental.
A formação em Engenharia Civil para práticas sustentáveis envolve múltiplos e complexos aspectos, como as diretrizes políticas e pedagógicas da instituição formadora e do curso, a formação epistemológica e pedagógica dos professores e a organização curricular, entre outros, que tornam praticamente inviável a adoção de receita pronta, sendo, no entanto, possível apresentarem-se propostas com conteúdo adequado para reflexão sobre o tema. Segundo Colombo (2004), formação desse tipo requererá, entre eventuais outros aspectos:
desenvolver uma nova organização curricular e não apenas reformular a
estrutura curricular atual, assumindo a liberdade de criação de outro modelo sem ficar preso a modelos existentes;
inserir o ensino, professores e estudantes nos novos paradigmas que consideram
a complexidade, que trabalham a integração do todo e as partes, com vista a despertar da consciência holístico-ecológica;
assumir uma “linha de orientação” que tenha como base os referenciais
holístico-ecológico, da sustentabilidade (social, cultural, ecológica, econômica, espacial, política, temporal, técnica, convivial), da responsabilidade socioambiental e da ética e estética de viver saudável.
promover a formação docente como passo inicial do processo de mudança do
ensino de engenharia, uma formação que ofereça os meios e métodos que permitam realizar a mudança, envolvendo as questões paradigmáticas e epistemológicas (visão de mundo) e as pedagógicas (métodos de ensino- aprendizagem);
desenvolver uma educação que ajude o homem a organizar reflexivamente o pensamento, colocando “o pensar”, entre o compreender e o atuar, levando-o a substituir a “captação mágica” por uma captação cada vez mais crítica e
ajudando-o, assim, a assumir formas de ação críticas e comprometidas;
desenvolver processo de ensino-aprendizagem com modelo próximo ao do
desenvolvimento das atividades cotidianas (atividades práticas - pesquisa, trabalho em empresa júnior ...), requeiram modelo interdisciplinar e não subdividido em disciplinas;
adotar ensino que possibilite a interdisciplinaridade e não, apenas, usar outros
métodos de ensino para as mesmas disciplinas, com permanência no modelo cartesiano e fragmentador;
aplicar princípios de integração e de conexão das disciplinas com o contexto
social, de modo a levar o profissional a ser capaz de perceber as inter-relações entre o que estuda, o que realiza enquanto profissional e a vida da sociedade em que se insere enquanto cidadão e profissional;
promover a formação não mais centrada em disciplinas e, sim, a que inclua a
possibilidade de atuação na pesquisa e no desenvolvimento de projetos reais, ligados à sociedade e tendo a interdisciplinaridade como princípio;
criar modelo de formação flexível que permita maior autonomia de escolha ao
estudante quanto aos caminhos de sua formação e que possibilite a criação de um ambiente de pesquisa e de desenvolvimento de projetos com criatividade e crítica;
possibilitar que o curso se torne uma empresa-laboratório de engenharia, que
realiza, com equipes multifases (diferentes níveis da formação), projeto e acompanhamento da execução de obras e pesquisas de desenvolvimento da engenharia;
promover integração escola-empresa-comunidade no desenvolvimento das
atividades de construção do conhecimento.
Faceta relevante na formação em Engenharia Civil para práticas sustentáveis é certamente o currículo. A esse respeito, vale registrar a ponderação de Lopes (2014), que indubitavelmente é extensiva à maioria dos cursos no Brasil:
Percebe-se que na prática tradicional, a temática da sustentabilidade entra no currículo da Engenharia Civil, mas, no fim, não é capaz de desalojar a estrutura curricular disciplinar utilizada atualmente. Existe, então, devido às prescrições curriculares, uma tendência da escolarização da sustentabilidade e das questões ambientais, isto é, a incorporação mecânica de conteúdos referentes ao meio ambiente nos currículos dos cursos de Engenharia Civil. Mas uma ambientalização curricular, que introduza as temáticas ambientais de forma crítica, reflexiva, inovadora, em prol de soluções sustentáveis para os processos de produção, ainda está longe de ser concretizada (LOPES, 2014, p. 166).
É preciso concordar com que, sem desalojar a estrutura curricular vigente ainda na grande maioria dos cursos de Engenharia Civil e sem que se adote uma ambientalização curricular capaz de introduzir a temática ambiental de modo crítico, reflexivo e inovador em
busca de construir soluções sustentáveis para os processos de produção e construção, muito dificilmente se estará fazendo formação para práticas de sustentabilidade.
À luz das ideias contidas neste Capítulo, pode-se, sem hesitações de dúvida, afirmar que a educação, é de fato a pedra angular, traço de união e de sustentação, na construção do desenvolvimento sustentável e da sustentabilidade. Sem ela a casa velha cairá e a nova não será jamais construída. É ela que orientará a construção de universidades sustentáveis em que se formem profissionais com consciência de sustentabilidade e capazes de práticas que promovam desenvolvimento sustentável.