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4.0 FUNN OG DRØFTING

4.3.6 Begrensede utviklingsmuligheter blant midlertidig ansatte

Mas ali no sertão, atribuíam valor aos nomes, o nome se repassava do espírito e do destino das pessoas, por meio do nome se produziam sortilégios. Guimarães Rosa (2006a)

De um tempo e um espaço indeterminados, passamos, no segundo parágrafo, à descrição do local onde fora construída a capela, um “templozinho, nem mais que uma guarita”, que servia de proteção à Casa, “a dois quilômetros” dali, que se situava numa “altura esplã, de donde a vista se produzia”. Num espaço amplo, a capela está totalmente integrada à paisagem: “parecia saída de um gear”, “lamuzada de sol” e dali emanava “um silêncio espalhável” no espaço.

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Curiosa a fala do boi Canindé, no conto Conversa de bois (Rosa, 2001b), em que sintetiza a relação boi/homem ao atrelar a atividade de pensamento à domesticação dos impulsos: “Os bois soltos não pensam como o homem. Só nós, bois-de-carro, sabemos pensar como o homem!...” (p.333).

Da casa, sabemos que fora construída também no alto, “na barriga serrã”, acima do “Córrego das Pedras”, onde Chico Carreiro pegava água todas as manhãs. Ligando a Casa ao córrego havia o riachinho. Quanto à sua organização interior, a narrativa aponta dois aposentos principais: a sala, onde se dá a leitura da carta de Frederico Feyre e onde almoçam os homens “mais importantes” da região, e a cozinha, onde estão as mulheres que contam estórias.

Como as compridas estórias, de verdade, de reis donos de suas fazendas, grandes engenhos e mais muitos pastos, todo gado, e princesas apaixonadas, que o canto da mãe-da-lua numa vereda distante punha tristonhas, às vezes chorando, e os guerreiros trajados de cetim azul ou cor-de-rosa, que galopavam e rodopiavam em seus belos cavalos – as estórias cantadas, na cozinha, antes de se ir dormir, por uma mulher (p. 184).

A relevância de tal distribuição será importante quando percebermos que a cozinha também é um aposento que diz respeito à mãe e à nora Leonísia. Por ora, vale salientar que os únicos homens que aparecem ouvindo as estórias das mulheres são Manuelzão e Camilo, que ouvem, mas não penetram na cozinha. Manuelzão “ouvia-as, já deitado, aqui, atrás de parede, quase encostado na cozinha” e Camilo “não entrava para a cozinha, tivesse ou não vontade, decerto tinha, não entrava era porque falhava ao jeito, se vexava sendo de amor”.

Da capela, pelo olhar no narrador, temos uma visão do amplo, do “vasto”, que “sobrelevava a capelinha”, e em seguida penetramos o seu interior. Manuelzão está montado num cavalo, vê tudo “de cima”, “do alto”, posição que sugere posição de mando, de superioridade16.

Ao adentrarmos a capela, a imagem da santa se faz presente, “sem tamanho e desjeitada”, “uma Nossa Senhora feia”, e não podemos deixar de perguntar: Por que a descrição de uma imagem tão fragilizada? O que o olhar de Manuelzão vê?

A santa é Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, um dos títulos conferidos a Maria, mãe de Jesus. Diante de tantos nomes da Virgem Maria, por que o autor, tão cioso na escolha dos

16 O estudo de Galvão (1972, p.32) sobre o sertanejo, ajuda-nos a vislumbrar os sentimentos de Manuelzão em cima do cavalo: “As lides da pecuária extensiva, tal como foi e é praticada no sertão, desobrigam o trabalhador da labuta no cabo da enxada, de sol a sol, cotidianamente. De um lado, a perambulação que ela implica dá, no mínimo, um simulacro físico da liberdade; de outro, e não menos importante, é um ofício em que se anda a cavalo, e isto, por si só, é sinal de posição desde a Ibéria”.

nomes de suas personagens, teria escolhido justamente este? Não sabemos; não deixa de ser curioso, porém, tratar-se de uma “mãe”. A escolha do nome “Socorro” não evocaria talvez alguém sem referências ou que se acredita sem elas?

A imagem mais famosa dessa santa é o ícone em estilo bizantino que a traz segurando no colo o menino Jesus. A criança está assustada e de seu pé cai uma das sandálias. Na parte superior da imagem voam os arcanjos Gabriel e Miguel: um carrega uma cruz, outro uma lança e uma cana com uma esponja ensopada de vinagre na ponta. A figura de Miguel e a presença do pé chamam a atenção e não terá sido à-toa que tantos signos importantes de

Miguilim ecoem nesta novela.

Retomemos: sabemos que Manuelzão sentou morada naquela “terra asselvajada”: “era a primeira ocasião em que se via sediado em algum lugar, fazendo de meio-dono”. A Casa, em maiúscula, pode também ser um índice da sua interioridade: “ali formava seu conchego firme sertanejo”. Não é uma casa qualquer; para ele, que até então levara uma vida errante, é uma referência.

Manuelzão manifesta então o desejo de inscrever o seu nome na placa da capela, debaixo do nome da santa. Seu desejo de “inscrever seu nome” no espaço da Samarra parece ser o de fazer-se “ver”.

“Manuel Jesus Rodrigues” ─ MANUELZÃO J. ROIZ ─: gostaria pudesse ter escrito também, debaixo do título da Santa, naquelas bonitas letras azuis, com o resto da tinta que, não por pequeno preço, da Pirapora mandara vir. Queria uma festa forte, a primeira missa. Agora, por dizer, certo modo, aquele lugar da Samarra se fundava (p. 111).

A inscrição de seu nome não se efetivará, conforme veremos, pois apesar da missa e da festa, Manuel ali não sentará “morada”. O “nome que não cabe” na placa “pequena” é mais uma figuração da marginalidade da personagem, que se sente “estranho” e “fora” do grupo local. Como sujeito a ser visto e reconhecido, seu nome ali não cabe!

Para que o desejo de “inscrever um nome” se confirme, é precise “ser dono”, ter dinheiro, “ser visto”, como observamos em trecho posterior, quando seu nome completo novamente é citado na leitura pública da carta enviada por Federico Freyre:

Aquilo eram proezas para com respeito se dizer: o valer dele, Manuelzão; a Samarra, lugar de bases; Federico Freyre – o poder do dinheiro moderno!

Todos, exaltados, falassem: – Este é o Manuel Manuelzão J. Jesus Roiz

Rodrigues!... Mais falassem. Um pouco, esse respeito, se falou (p. 169).17

Se, na primeira menção ao nome completo da personagem, observamos, dispostos em sequência, a repetição de dois modos diferentes de grafá-lo (o primeiro, registro da forma escrita do nome, assinado em “letra de máquina”; o segundo, registro da forma oral em “letra de forma”), agora percebemos a entrada de uma segunda voz, marcada pelo uso das aspas, mesclando, em negrito, os dois registros: o universo da oralidade e da escrita, do homem letrado e do sertanejo. Tal duplicidade parece reforçar a necessidade de Manuelzão de conquistar um nome para si, mas, para que isso se dê, faz-se necessário também o diálogo e o reconhecimento do outro18. Nesse sentido, a cena da leitura da carta enviada por Federico Freyre chama a atenção: como já dissemos, a leitura é feita na sala, onde homens “de importância” estão presentes, e faz um simulacro do desejo de Manuelzão inscrever seu nome na capela: se não há espaço na placa, a leitura oral da letra reivindica a confirmação do seu lugar.

Leu. Esse Joaquim Leal era um bom amigo, de pessoa. Leu correto, os pontos das palavras, mas menos leu: porque faltou dar na voz o rompante fraseado ─ o ser do sido, a fiúza de Federico Freyre, alta amizade, esclarecendo o acato a ele, Manuelzão, fazedor da Samarra, lugar de gado

17 Para Machado (2003, p.171), o nome de Manuelzão tem várias camadas: “por um lado, é a soma da

mão (que comanda), Noé (que inicia) e –zão (que é grande). Por outro lado, é Manuel Jesus Rodrigues ou Roíz. Manuel diz em hebraico que Deus está conosco e anuncia o Messias, Jesus. A encarnação cristã é reiterada ainda pelo sobrenome Rodrigues, descendente de Rodrigo, ou Ruiz, descendente de Ruy, respectivamente Nome e apelido do Cid, o grande herói cristão na expulsão dos árabes muçulmanos da península ibérica, o grande Nome da luta medieval contra os infiéis e o Islã”.

Conforme verbete, vemos também: “Manuel é a forma aferética de Emanuel e, popularmente, atribuído a Jesus Cristo, reduplica-se no segundo prenome (Jesus), estendendo-se para o sobrenome Roiz (forma proclítica de Rodrigues/Rodrigo = glória)” (Nascentes, 1952).

No próprio texto de Rosa (p. 116) temos reiterado o sentido de “mão grande”: “Na Samarra, aliás, Manuelzão conduzira o início de tudo, havia quatro anos, desde quando Federico Freyre gostou do rincão e ali adquiriu seus mil e mil alqueires de terra asselvajada. ─ ‘Te entrego, Manuelzão, isto te deixo em mão, por desbravar!’ E enviou o gado. Manuelzão: sua mão grande. Sua porfia.”

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Curiosa também a duplicidade com que descreve o nome da santa grafado na placa da capela – inicialmente, eram “bonitas letras azuis”, depois, “desastradas letras”. O que tais “misturas” poderiam apontar?

com todo funcionar, e que tudo se agradecia era a ele mesmo, só a ele, Manuelzão… – faltou o em-tom encarecido (p. 169).

Entretanto, a qualidade duvidosa da leitura oral empreendida por Joaquim Leal e o conteúdo da carta não “exaltam” o nome e as qualidades de Manuelzão. Ao contrário, reinscreve, no espaço da festa, a importância do trabalho: “aumentava na gente o dever de dobrar os esforços”. Aos poucos, Manuelzão começa a perceber o engodo: seu nome não é seu, o desejo de ser “reconhecido” não se cumpre, pois a figura que vale é a do rico proprietário, a dos “hóspedes principais”: “O Nhão, seo Filipinho, Joãozim da Venda do Pôrto, Compadre Lindorífico, Joaquim Leal, o Nicanor, falavam com louvores a respeito de Federico Freyre”.

Assim, Manuelzão vai se dando conta do caráter ilusório da “inscrição do nome” que a festa simbolizava: para tê-lo, “carecia de estreitar os desejos, continuar seus caminhos” e ele percebe que “chegava uma hora, tudo se queria, mas quase tudo, por metades, a gente se afastava”. Tal evidência será gradativa e não demorará até que Manuelzão procure novos caminhos na sua busca de sentido para a vida.