A análise do trabalho antecede a todas as acções que visem contribuir para a melhoria das condições de trabalho. “ (…) é a análise do trabalho que coloca com
precisão o problema científico àquele que investiga. Pretender resolver um problema desta natureza sem a análise prévia do trabalho é o mesmo que prescrever
medicamentos a um doente sem o ter examinado” (Teiger, 1993, pp. 34).
O objectivo desta análise apresenta uma dupla orientação: a análise da tarefa, com o objectivo de descrever as condições de trabalho no seio da qual são desempenhadas determinadas funções, e a análise da actividade, que explica como o trabalhador desempenha a sua função perante os constrangimentos que necessariamente a caracterizam (Lacomblez, 1997).
2.2.1. Actividade e tarefa de trabalho
A actividade de trabalho é o elemento central que organiza e estrutura os elementos da situação de trabalho propriamente dita. A actividade reporta-se ao comportamento do trabalhador na execução de uma tarefa, isto é, à maneira como o trabalhador procede para alcançar os objectivos pretendidos (Iida, 2005).
A actividade a realizar pelos trabalhadores é, frequentemente, diferente daquela que está prescrita, pois os seus comportamentos correspondem a exigências da tarefa, a condições não previstas (nomeadamente ambientais) e a características individuais não perceptíveis (Faverge e Ombredane, s/d, citados por Freitas, 2005).
Desta forma, e para melhor compreender os efeitos do trabalho na saúde e bem- estar dos trabalhadores, torna-se pertinente a distinção entre o trabalho prescrito e trabalho real.
O trabalho prescrito ou tarefa define o trabalho de cada trabalhador na organização: objectivos a atingir, modo de os alcançar, equipamentos de trabalho disponíveis, divisão das tarefas, condições sociais e de organização do tempo de trabalho e a envolvente física (Freitas, 2005).
O trabalho real ou actividade é o que efectivamente se executa no local de trabalho, em função dos equipamentos existentes, dos processos determinados e de uma vivência profissional concreta, ou seja, refere-se à condutas e atitudes do operador para executar uma determinada tarefa num determinado momento (Freitas, 2005).
Falzon (2007) também salienta a importância da distinção entre tarefa e actividade de trabalho. Segundo o autor a tarefa diz respeito ao que é prescrito pela organização, que se define por um objectivo e pelas suas condições de realização. Já a actividade é o que efectivamente é feito, o que o sujeito mobiliza para realizar a tarefa, o que inclui o observável (comportamento) e o inobservável (actividade mental).
A metodologia da análise do trabalho estuda o desvio que existe entre ambas, visando a compreensão das falhas organizacionais, dos efeitos sobre a saúde e a explicação das relações entre as condições individuais e as inerentes às condições de trabalho (Guérin, 2001).
De facto, é também esta a ideia central, a da distinção entre tarefa e actividade, que é partilhada tanto pela psicologia do trabalho como pela ergonomia, dotando estas disciplinas de um olhar específico sobre o trabalho (Barros-Duarte, 2004). O conhecimento do trabalho real do dia-a-dia da confrontação do operador com a sua situação de trabalho (Lacomblez, 1997), permite uma melhor compreensão do indivíduo na situação de trabalho: as suas condutas, os seus raciocínios, as suas maneiras de pensar, as explicações que encontra, os afectos, o prazer que sente no trabalho, afastando qualquer suposição de considerar o trabalho como mera aplicação de conhecimentos e capacidades (Barros-Duarte, 2004).
Na actividade de trabalho está subjacente a influência de factores internos e externos. Os factores internos são aqueles inerentes ao próprio trabalhador, como a idade, o sexo, a sua formação e experiência, assim como a sua disposição momentânea, motivação, fadiga, etc. (Iida, 2005).
Os factores externos, estão aliados às condições em que a actividade é realizada. Iida (2005) classifica estes factores em três principais tipos: conteúdo do trabalho (objectivos, regras e normas); organização do trabalho (constituição de equipas, horários, turnos, etc.); e meios técnicos (máquinas, equipamentos, disposição do posto de trabalho, iluminação, etc.).
A preocupação em estudar os efeitos das condições concretas de trabalho no bem- estar e saúde dos trabalhadores, a partir dos anos 60, tem vindo a engrandecer-se. Um contributo decisivo foi de Ombredane e Faverge, “Lá analuse du travail” (Ombredane & Faverge, citados por Barros-Duarte, 2004) que contribuíram para o aparecimento de um novo olhar sobre o trabalho e para os contributos da psicologia do trabalho e da ergonomia da actividade no estudo das condições de trabalho.
Uma situação de trabalho pode então definir-se como um confronto de uma pessoa, com as suas próprias características, com os objectivos e meios de trabalho socialmente determinados. Com esta definição pode concluir-se que os mesmos objectivos e meios de trabalho, atribuídos a pessoas diferentes, constituirão situações de trabalho diferentes, que se vão traduzir em resultados no trabalho e efeitos nas pessoas, de forma distinta (Figura 1) (Daniellou, 2005).
Figura 1 Situação de Trabalho
O trabalhador desenvolve a sua actividade em função das suas características pessoais, das suas crenças, dos seus valores e das exigências do seu trabalho, dentro dos modelos de comportamento aceitáveis. Para tal, incrementa estratégia que, na sua perspectiva, lhe possibilitam gerir as exigências de produtividade e a sua saúde e bem- estar. O intuito é o de alcançar uma forma de estar “mais confortável” e que tenha um sentido, um significado para o trabalhador (Barros-Duarte, 2004).
O mundo laboral suporta grandes desafios resultantes não apenas dos riscos mais
convencionais, mas, também, da aceleração na utilização de novas tecnologias, de novas estruturas de comunicação, da globalização dos mercados, das alterações nas relações
O TRABALHADOR Características Pessoais: Sexo Características físicas Idade Experiencia, formação Estado instantâneo: Fadiga Ritmos biológicos Vida fora do trabalho (transportes, preocupações, etc.) TAREFAS A CUMPRIR/ TRABALHO PRESCRITO A EMPRESA OS OBJECTIVOS E OS MEIOS Tempos: Duração Horários Cadencias Normas de produção Organização do trabalho: Tipos de aprendizagem Informações Repartição de tarefas Modos operatórios Critérios de qualidade Ferramentas: Natureza, numero, regulações Documentação Meios de comunicação Programas informáticos O TRABALHADOR Características Pessoais: Sexo Características físicas Idade Experiencia, formação Estado instantâneo: Fadiga Ritmos biológicos Vida fora do trabalho (transportes, preocupações, etc.) TAREFAS A CUMPRIR / TRABALHO PRESCRITO A EMPRESA OS OBJECTIVOS E OS MEIOS Tempos: Duração Horários Cadencias Normas de produção Organização do trabalho: Tipos de aprendizagem Informações Repartição de tarefas Modos operatórios Critérios de qualidade Ferramentas: Natureza, numero, regulações Documentação Meios de comunicação Programas informáticos ACTIVIDADE DE TRABALHO / TRABALHO REAL SAÚDE PRODUÇÃO (Trabalhador) (Empresa) (Adapatado de Daniellou, 2005)
crescimento de subcontratação, entre outros factores (Freitas, s/d). Desta forma, iremos de seguida abordar os riscos profissionais, nomeadamente os riscos do ambiente físico e os riscos psicossociais.