Os relatos dos professores se tornam verdadeiros testemunhos de enfrentamento das condições, impostas socialmente, que dificultavam o seu acesso à educação. Isso demonstra a capacidade de resiliência (CYRULNIK, 1999), sendo esta a capacidade de reconstruir-se apesar de situações adversas. O conceito de resiliência dialoga
harmonicamente com o “ser mais” freireano, tentativa de superar as “situações-limite” em
busca do “inédito-viável” que foi percebida na história de vida destes educadores como a possibilidade de acesso à educação formal – isto foi identificado como o seu “sonho possível” (FREIRE, 2000, 2005, 2007). As narrativas mostram que o desejo de ter acesso à educação escolar construiu-se de uma forma além das possibilidades que lhes são apresentadas pelas condições de vida. Em relatos como o da professora Cléia, podemos notar a força do povo sertanejo, por tantas vezes destacada em versos e canções, caracterizando uma potencia de ação, mobilizada pelos afetos (SAWAIA, 2000).
E assim, depois eu vim estudar o 4º ano aqui no Missi, mas também com muita dificuldade, descendo e subindo serra todos os dias porque a gente não tinha casa de apoio e a gente vinha a pé em plena 12 horas do dia e ia estudar. Aí quando a gente passou para o ensino fundamental II, que já era pela escola, pela CNEC, só podia entrar se tivesse um sapato, né? E aí a gente não tinha muito essas condições, porque lá em casa eram sete filhos, todos estudando e a gente não tinha condições. Meu pai não tinha condição de comprar calçado para todo mundo e de sustentar a gente como deveria, mas a gente ganhou de algumas pessoas e a gente conseguiu estudar. A gente vinha e era feliz aqui na escola. A gente estudava e voltava para casa às vezes nesse clima que a gente tá vendo hoje12. A gente voltava para casa e subia a serra no escuro, chovendo, trovejando, com perigo de deslizamento de pedras. A gente sofreu muito, mas a gente tinha aquela coragem de não desistir, de ir em frente, de continuar (Cléia).
Chamo a atenção para a importância dos aspectos ambientais na construção de si, na relação com o mundo, com a escola e com a educação, também para a grande vulnerabilidade relativa aos fatores climáticos. Esse contexto é essencial na construção da subjetividade destes educadores ambientais moradores do semiárido.
12 Neste dia caiu uma chuva com grande volume de água, acompanhada por relâmpagos, trovões e queda no
Gostaria de destacar o fato de a professora estar consciente da relação entre o seu percurso de formação e o dos demais, do cruzamento entre sua experiência individual e a realidade comunitária. Seu relato traz não apenas a sua história, mas a de uma comunidade específica em um momento histórico determinado. A história de um, singular, reflete a história social. Isso fica ainda mais nítido no trecho a seguir.
E quando a gente terminou, quando eu terminei, a gente fala “a gente” porque a minha história não envolve só a minha, ela tá sempre junto com alguém, principalmente minha família, meus irmãos e as pessoas vizinhas, que moravam lá com a gente. E quando eu terminei a 8ª série, a gente já tinha se mudado para cá no ano de 1991 e a partir daí, já em 92, eu comecei a estudar em Irauçuba. Estudei em Irauçuba 92, 93, 94 e a gente... Como já foi falado em outros históricos, outros relatos, a dificuldade que a gente teve em estudar em Irauçuba por conta de ter que se deslocar (Cléia).
Novamente, o fato de as pessoas terem que pagar a escola me chama a atenção, pois relatos que discorrem sobre as dificuldades financeiras e necessidade de começar a
trabalhar para poder “pagar os estudos” se tornam recorrentes nas falas, como pode ser
observado nas narrativas das professoras Cléia e Elizandra. Eis o primeiro trecho:
Estudava até as 11horas da noite, muitas vezes ia sem jantar, tinha muita dificuldade de arranjar dinheiro para lanche, para pagar colégio... E o diretor da escola, que era conhecido da gente e acompanhava a trajetória escolar da gente desde quando a gente morava na serra, porque os pais dele moravam no pé da serra, em uma fazenda, e ele já conhecia a gente, então, ele arranjou um trabalho para mim. Ele era secretário de educação na época, então ele arranjou uma sala de aula para que eu pudesse sustentar o colégio, pagar o colégio, porque lá em casa o meu pai e a minha mãe tinham que pagar colégio para quatro filhos. O meu pai sobrevivia da agricultura e minha mãe costurando, assim ninguém mais tinha emprego e a gente foi levando a vida, superando as dificuldades (Cléia). Como disse, também no relato da professora Elizandra, destacam-se as precárias condições econômicas que exigiam que passasse a trabalhar para custear seus estudos e a tentativa de superação das dificuldades.
Sempre trabalhei muito, quase não tinha tempo para outra coisa, como estudar, por exemplo, mas apesar do contraste, enfrentei vários desafios e concluí o ensino fundamental em 1990, em uma escola privada da CNEC, que funcionava em um anexo do distrito de Missi, bem próximo a minha residência, e em 1991 resolvi cursar o ensino médio na sede do município de Irauçuba, na mesma escola da CNEC. Minha mãe não queria e dizia que se algum dia eu tivesse que estudar, eu teria que esperar o surgimento aqui no próprio distrito Missi. Porém meu pai determinou que os filhos deveriam estudar, por isso eu continuei os meus estudos, enfrentando obstáculos e tendo que trabalhar para poder pagar meus estudos (Elizandra).
O desejo de continuar estudando, apesar dos desafios, marca a história desses educadores. Aqui, onde a racionalidade poderia apontar para uma desistência, a afetividade impulsiona. A vontade e a esperança se apresentam como afetos potencializadores e emancipadores (SAWAIA, 1999, 2000), forças que proporcionam e estimulam a luta por transformação da situação de exclusão. No relato apresentado pelo professor Nacélio, observa-se a clara leitura da realidade excludente, a compreensão dos fatores que o limitavam, mas não a aceitação dos mesmos como determinantes. Sabendo-se condicionado, mas não determinado (FREIRE, 2007), insistiu na tentativa de mudança. A permanência de afetos potencializadores (SAWAIA, 1999, 2000) gerou a procura por soluções para limites impostos socialmente, direcionando-se para uma busca do “ser mais” na construção de si.
Quando terminei o chamado 1° grau, eu passei alguns anos sem estudar porque só tinha 2º grau em Irauçuba, que fica a 23km do Missi e tinha de pagar uma mensalidade e minha tia já pagava o do meu primo. Então eu resolvi não estudar para não aumentar a despesa, porque eu já morava com ela e não tinha renda, mas mesmo não estando em sala de aula eu permaneci estudando em casa... assim, por decisão minha, talvez que até hoje ela não saiba disso, eu não contei pra ela, mas ela perguntou se eu queria estudar, aí eu vi, de certa forma, a dificuldade financeira de manter duas pessoas estudando, aí eu passei três anos sem estudar. Mas mesmo assim, em casa eu não parei de estudar, eu estudava direto, pegava alguns livros e estudava... e no final de 1997 meus conhecimentos foram colocados à prova no concurso público do município de Irauçuba, sendo aprovado em 2º lugar para o cargo de professor do ensino fundamental, sendo empossado em fevereiro de 1998. Com a aprovação no concurso público, eu tive a necessidade de voltar a estudar, pois só tinha o fundamental e precisava concluir ao menos o magistério (Nacélio).
Paulo Freire nos traz uma grande contribuição na compreensão de nossas limitações e na força da esperança por transformação. O autor se apresentou como um grande esperançoso na modificação das condições de opressão. A educação impulsionaria esta mudança a partir da transformação dos sujeitos, pois para o autor a educação muda as pessoas e estas mudam o mundo. Também acreditou e defendeu a compreensão do nosso inacabamento, negando veementemente a determinação dos sujeitos pelas condições sociais impostas.