Nesta seção estão detalhados os dados que foram relevantes segundo minhas observações nos serviços visitados. Ao longo das visitas e do percurso pelos bairros foram produzidos registros fotográficos que pudessem ilustrar o ambiente físico do território social no qual os serviços de saúde funcionam e fazem cobertura.
Recife e Olinda, Pernambuco
No PE2 da cidade de Recife, o bairro é heterogêneo em relação aos tipos de residência e de poder aquisitivo dos moradores. Na época das visitas havia lugares sinalizados com risco de desabamento de terra e pontos críticos de desabamento estavam cobertos por lonas pretas para evitar infiltração de água. As ruas e o calçamento do bairro não apresentam regularidades e muitas residências não possuiam calçadas (Figura 1). Ao longo do trajeto até a unidade é possível notar a constante presença de bares e mercearias pequenas. Na localização do serviço, a rua é estreita, com esgoto correndo a céu aberto e na rua há pouca movimentação de carros e um fluxo constante de pessoas.
Figura 1 - Vista da rua do serviço PE2
O serviço PE2 é de fácil localização e sua fachada é sinalizada e o acesso à unidade, mesmo que tenha uma escada, permite também o acesso de usuários/as com limitações motoras (Figura 2). O ambiente físico do serviço estava limpo durante os
dias de visita e algumas salas que não possuíam azulejos nas paredes apresentam infiltrações.
Figura 2 – entrada de acesso à unidade PE2
Nas paredes da sala de espera estavam afixados cartazes de campanhas de saúde e não havia nada que constituísse o ambiente como feminizado, sendo a decoração do serviço bastante neutra e ainda que a maioria dos cartazes abordassem a saúde materno-infantil e vacinação, também havia cartazes de campanhas voltadas para os outros públicos (DST/Aids, acidentes domésticos, tabagismo etc.) (Figura 3).
Figura 3 - Sala de espera da unidade PE2
Logo na entrada da unidade havia um banner contendo o fluxograma de atendimento do serviço e que ilustra uma estratégia recorrente nos serviços visitados (Figura 4) no estado do Pernambuco. Na recepção, um grande corredor dá acesso às salas de atendimento, que são semelhantes em relação ao tamanho e aos móveis. Foi possível notar que a farmácia e as salas de vacinação e de curativo funcionam o dia todo, o que parece manter certo fluxo de pessoas no período da tarde, quando as consultas já se encerraram.
Figura 4 - Sala de espera na unidade PE2, Banner do fluxograma de acolhimento. Durante a conversa com as profissionais e a gerente do serviço fui informado sobre algumas das atividades que são desenvolvidas e que atendem especificamente crianças, adolescentes grávidas e idosos. A atividade desenvolvida com os idosos era o HIPERDIA (hipertensão e diabetes), voltado para os idosos com diagnóstico de hipertensão e diabetes. Segundo a gerente do serviço13, essa atividade apresenta uma
presença maior de homens. Ainda sobre a presença masculina no serviço, a gerente relatou que percebe a pouca participação desse público no serviço e que este fato também está relacionado à escassez de recursos materiais e humanos no serviço. Para a gerente da unidade PE2, o serviço é muito restrito em termos de espaço físico, o que implica não conseguir atender de forma adequada nem às demandas que já fazem uso em do serviço e que, portanto, o público masculino seria uma demanda excedente. Ao longo da conversa, ressaltou que a atual mudança de administração municipal havia alterado algumas das atividades dos serviços e isso dificultou que algumas atividades fossem continuadas. Uma das médicas presentes no serviço que participou da conversa, se posicionou dizendo que as visitas domiciliares poderiam dar conta de acessar a clientela masculina e se queixou da falta de engajamento dos médicos nas atividades dessas visitas, inerentes à estratégia de saúde da família. Segundo esta médica, tal conjuntura poderia mudar com a política do “Mais médicos” do governo federal, pois talvez assim as visitas fossem efetivamente realizadas.
Já o PE1, localizado em Olinda, estava com a unidade em reforma e temporariamente funcionando na sede do conselho tutelar da região (Figura 5). O local não possuía sinalização na fachada que informasse sobre o funcionamento do serviço de saúde e os moradores do bairro não sabiam informar a localização precisa do serviço. Esse fato dificultou a visita, pois demoramos para encontrar a unidade.
Figura 5 - Fachada da unidade PE1
A sede provisória do PE1 fica em uma rua de tráfego pesado de carros e caminhões que dividem o espaço da rua com catadores de recicláveis e ambulantes. O bairro é considerado violento pela população e nos arredores do serviço existem muitos bares e pequenos comércios que vendem bebida (Figura 6).
Figura 6 - Rua nos arredores da unidade PE1
Na recepção havia cartazes que apresentavam os nomes dos integrantes das equipes integrantes do serviço, e os dias de funcionamento das principais atividades oferecidas pelo serviço: HIPERDIA, exames preventivos, planejamento familiar, testagem de HIV (Figura 7).
Figura 7 - Cartazes descritivos das atividades periódicas (PE1).
O imóvel apresentava pouca estrutura para atender o volume de usuários e a dimensão física do ambiente dificultava o fluxo de pessoas (Figura 8), sendo que muitas delas permaneciam em pé aguardando serem chamadas para o atendimento. A conversa com o gerente do P114 foi breve e como não havia espaço físico disponível
para sentarmos, ficamos em pé em um corredor com trânsito constante de pessoas. Na breve conversa, pude conhecer poucas informações sobre o serviço. O tema geral da conversa abordou a reforma da unidade, que segundo o gerente, já havia ultrapassado em muito o tempo de entrega. A insatisfação do gerente era visível e seu posicionamento diante das questões políticas envolvidas na mudança da administração municipal abordava o fato de haver pouca continuidade nas ações iniciadas pela gestão anterior.
Figura 8 – Recepção e sala de espera na PE1
As duas unidades observadas em Pernambuco apresentam semelhanças no que se referem ao funcionamento, programas oferecidos e formação da equipe. Tais semelhanças já que fazem parte de um modelo nacional de assistência à saúde nos moldes da estratégia saúde da Família (ESF).
Natal, Rio Grande do Norte
A Unidade do serviço RN1 está localizada em uma região residencial e nas ruas principais existem alguns estabelecimentos comerciais, tais como bares, lanchonetes, mercados e o acesso à unidade se dá por ruas sem pavimentação. Nas proximidades do bairro, também se encontram alguns condomínios de luxo e pequenas fábricas. Boa parte do bairro é cercado por dunas e em certos lugares as construções estão em uma região de mangue e as ruas não possuem pavimentação. Nos dias das visitas, foi possível notar a vulnerabilidade do local para alagamentos (Figura 9). Algumas casas do bairro possuem pouca infraestrutura e as ruas são de pouco movimento de veículos (Figura 10).
Figura 9 - Arredores da unidade RN1.
A unidade RN1 fica em uma rua sem pavimentação, mas possui sinalização e espaço físico adequados para acolher os/as usuários/as. Na sala de espera e na sala dos agentes de saúde, é notória a recorrência de murais e decorações que remetem a um ambiente feminilizado (Figura 11 e Figura 12).
Figura 11 - Mural na sala de espera (RN1).
Figura 12 - Decoração da sala dos ACS (RN1).
A presença masculina no serviço foi pequena durante o tempo das visitas à unidade RN1. Foi possível observar um maior fluxo de pessoas para a retirada de medicamentos na farmácia da unidade. No momento da visita e apresentação às profissionais que me atenderam, fui informado que a gerente não estaria no serviço pelos próximos dias e dessa forma pouco pude conhecer o serviço, pois as subordinadas à gerência não puderam me receber para uma conversa. Na visita no segundo dia, durante a observação na sala de espera, foi possível ouvir uma discussão15 entre duas funcionárias que se encontravam nas salas próximas à
15 Na situação, uma das funcionárias verbalizava de forma ríspida e em voz alta que a outra
funcionária, para a qual se dirigia, era uma pessoa difícil de trabalhar e que ninguém ali gostava de tê- la na equipe. A discussão durou alguns minutos e não causou mobilização entre os usuários que estavam a alguns metros de distância do local da discussão.
recepção. A unidade do serviço RN2 localiza-se em um lugar de fácil acesso e encontra-se em um bairro conhecido pela violência e pelo tráfico de drogas. A área de cobertura do serviço é uma região predominantemente residencial com bares e mercados e com avenidas de grande circulação de veículos. A pavimentação das ruas e calçadas são irregulares e com muitas casas em reforma ou sem a construção finalizada. A rua de acesso à unidade é de pouco movimento, mas o acesso é facilitado por estar próximo a uma avenida e ao transporte público (Figura 13).
Figura 13 - Rua de acesso à Unidade RN2.
A unidade possui um amplo espaço de sala de espera com bancos de alvenaria e cartazes de campanhas de saúde nas paredes. Algumas informações sobre as equipes do serviço, agenda médica e a área de cobertura também estão informadas por cartazes, que dividem espaço com publicidade de campanhas direcionadas a diferentes públicos (Figura 14). No corredor que dá acesso às salas, permanecem os usuários que estão aguardando para atendimento e com maior presença de mulheres e crianças.
Dentre as campanhas presentes nas paredes da unidade, encontrava se uma campanha direcionada aos homens (Figura 15), que dividia espaço com outros cartazes que remetem a uma homenagem ao dia das mães (Figura 16).
Figura 15 - cartaz de promoção à saúde do homem afixado na entrada do serviço RN2.
Figura 16 - Cartaz em homenagem ao dia das mães afixado na parede da unidade RN2. No segundo dia de visita, após aproximadamente uma hora de espera, fui chamado até a sala da administração da unidade para a conversa com o gerente da unidade RN216. A conversa transcorreu de forma informal, com demonstração de muito interesse da parte do gerente quanto aos meus objetivos em conhecer o serviço. Logo no início da conversa, ele informou que havia assumido o cargo recentemente, visto que a nova administração municipal, eleita no ano de 2013, havia realizado alguns remanejamentos de pessoal entre os serviços do município.
Ao longo da conversa, as falas desse gerente do serviço RN2 abordaram dois elementos principais: as dificuldades de infraestrutura do serviço e os avanços que já
16 Gerente da unidade RN2: homem, não abordou área de formação e atuava há seis meses como
havia conseguido no primeiro semestre de sua administração. Grande destaque foi dado para a impossibilidade de ter acesso à internet naquela localidade do bairro e que segundo ele, dificultava a marcação de consultas de encaminhamento. Ainda informou que como não havia acesso à internet no serviço, era necessário que ele levasse os encaminhamentos para casa e lá fizesse todas as marcações e encaminhamentos dos usuários. Segundo o gerente, mesmo com os obstáculos organizacionais e físicos, ele estava conseguindo marcar consultas e dar encaminhamento para os usuários com aproximadamente sete dias.
Questionado sobre a presença dos homens no serviço, o gerente da RN2 relatou que a presença era ainda muito pequena, mas que no serviço havia atividades voltadas ao público masculino (fazendo referência ao HIPERDIA) e que os encaminhamentos para consultas com urologistas e cardiologistas estavam sendo marcados com no máximo sete dias de espera, e que ainda era priorizado que o usuário fosse atendido sempre pelo mesmo médico especialista.
As observações realizadas nos serviços RN1 e RN2 no segundo dia de visita possibilitaram conhecer a rotina do serviço e fluxo de usuários, reiterando a ausência dos homens nos momentos da observação. Durante o tempo que permaneci nos serviços notei a presença de homens que acompanhavam suas esposas, mas que pouco permaneciam dentro da unidade. De modo geral, o movimento de pessoas nos serviços era alto, com bastante ruído e no serviço RN1 muitos/as usuários/as entravam para retirar medicamentos e logo iam embora. Durante a espera pelo transporte público que utilizei para chegar aos serviços, fui informado que os bairros das unidades RN1 e RN2 eram considerados perigosos pela população da cidade, no entanto não presenciei nenhuma situação de perigo, sendo que nas ruas dos bairros o movimento era calmo e com poucas pessoas, que estavam ali para sua vida diária, lavando calçadas, arrumando as casas e saindo ou voltando do trabalho.