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As lembranças de infância e adolescência das senhoras falam de experiências de vida bem diversificadas. Enquanto algumas contaram sobre a fartura de bens que tiveram acesso e trouxeram à memória as brincadeiras em companhia dos irmãos, os cuidados dos pais, do trabalho doméstico, as experiências na escola, outras falavam da dureza do trabalho infantil na roça, da precariedade do trabalho ao qual seus pais estavam submetidos, da impossibilidade de estudar. Muitos foram os relatos em que a família de origem das senhoras entrevistadas foram mencionadas, ora com ar de saudade, ora trazendo à tona os sofrimentos com elas compartilhados e os conflitos travados.

Alguns conflitos se fizeram muito expressivamente presentes na fase da juventude dessas senhoras, especialmente quando suas vontades e projetos próprios para o futuro começaram a ser elaborados e confrontados com os projetos, construídos para elas, por seus pais ou outros familiares. Falar dos processos de autonomização dessas senhoras em relação as suas famílias de origem, não se faz sem que sejam analisados os conflitos gerados em torno das mudanças de valores sociais que foram vivenciados por elas e suas famílias, nem tampouco sem explorar suas performances a fim de estabelecer seus próprios projetos, em contraposição aos projetos familiares já delineados.

A ambiência social sob a qual as senhoras viveram a juventude, na década de sessenta, era de profundas mudanças do comportamento feminino e de suas perspectivas de vida. Tal ambiência influenciava seus valores que divergiam das regras de comportamento sob as quais até então tinham sido socializadas. Tais mulheres buscavam uma posição que tivesse significado próprio para suas vidas. E também negavam em alguma medida, assim como observou Vaitsman (1994, p.28), em seu trabalho sobre identidade, casamento e famílias em condições pós modernas, “os valores hierárquicos que caracterizavam as sociedades tradicionais,

substituindo-os pelos valores igualitários que vieram caracterizar as sociedades modernas”. Tais mulheres buscavam autonomia, aqui compreendida como um processo baseado num projeto reflexivo que tem como perspectiva a ampliação da capacidade de se fazer escolhas e de se relacionar de maneira mais igualitária com outras pessoas.

A análise dos percursos biográficos evidenciou que o processo de autonomização das senhoras em relação aos seus pais ou seus cuidadores iniciou- se com o desejo de mudança para a “cidade grande” a fim de estudar e/ou trabalhar. Apenas para uma pequena parcela das senhoras, uma do segmento médio e duas do segmento popular, o acesso ao mundo externo ao da casa dos pais se deu via casamento. Este estava perdendo espaço enquanto única saída para a vida adulta, e talvez de maior autonomia, e o trabalho feminino trazia a possibilidade de novas expectativas de realização para além da vida doméstica, realizações para si mesmas, realizações referidas as suas próprias satisfações, além das relacionadas à esfera familiar.

O objetivo da escolarização foi perseguido exclusivamente pelas senhoras dos segmentos médios. Em alguns casos com o consentimento da família, em outros, como no caso de Rita e Penha, contra a vontade dela.

O trabalho foi almejado pelas senhoras de ambos os segmentos, no entanto, suas expectativas eram diferenciadas. Entre as mulheres do segmento popular, pretendia-se driblar as difíceis condições de vida, buscava-se sair de uma condição de trabalho árduo por um trabalho menos penoso, em condições menos opressivas, experimentados desde a infância. E entre as senhoras do segmento médio, projetava-se a construção de uma carreira profissional e ascensão social, além de conquistar independência financeira em relação à família. Não que este objetivo não estivesse presente nas expectativas das senhoras do segmento popular quando de suas decisões em “deixar a família para tentar a vida na cidade grande”. Como bem observaram dona Geralda e dona Val, o que mais se pretendia era sair da pobreza, ser independente não era algo pensado, naquele tempo, como prioridade entre elas.

No que diz respeito ao fim da coabitação com a família de origem, algumas mulheres de ambos os segmentos saíram da casa familiar somente após o casamento e com o consentimento de seus parentes. Do mesmo modo, em ambos os segmentos, houve situações de fugas da casa da família para se efetivar a união

consensual. Nestes casos se verificou que além da realização amorosa também se pretendia conquistar certa autonomia, especialmente em relação aos pais.

Algumas senhoras, sobretudo dos segmentos médios, mas também dos populares, destacaram em suas narrativas os problemas que tiveram de enfrentar para acessar um espaço próprio de autonomia em relação as suas famílias de origem. Entre as senhoras do segmento médio, Rita diz ter sofrido muito ao passar a morar sozinha, mas também destaca os aspectos positivos de ter tido tal oportunidade, enfatizando que a liberdade foi uma desses aspectos. Diz que amadureceu muito com essa experiência, conheceu ambientes e pessoas novas, ampliou suas redes de sociabilidades. Penha saiu da casa dos pais aos poucos, passava a semana em Campina Grande trabalhando e retornava nos fins de semana ao interior. Na medida em que avançava no curso de graduação, diminuía essas idas e assim ia se “libertando” de sua mãe. Já entre as senhoras do segmento popular, esse processo parece ter sido mais traumático. Dona Geralda saiu fugida da casa do pai para trabalhar em João Pessoa e somente o reencontrou três anos depois. Dona Val deixou a casa dos pais para trabalhar em João Pessoa sem a aprovação do pai, mas sem grandes contestações. E também ficou longo tempo sem poder retornar a casa paterna para visitar a família. Tais senhoras recorrentemente lembraram das noites de lágrimas, da vontade de voltar para casa assim como da impossibilidade de fazê-lo, pois passavam muitas dificuldades financeiras, além da falta de tempo já que como domésticas e morando das casas de famílias em que trabalhavam na informalidade, não possuíam folgas, nem tampouco férias em seus trabalhos.

A liberdade em relação à família, procurada com a saída da casa dos pais, fosse através dos estudos, do trabalho ou do casamento e até mesmo como as fugas, parecia apresentar-se a cada uma dessas mulheres, de ambos os segmentos, em maior ou menor medida, como ampliação dos horizontes de escolha e afirmação de outros modos de vida, mais de acordo com seus desejos e aspirações.

Penha, por exemplo, relata:

Penha: Comecei a adquirir minha independência financeira e minha

liberdade, mas ainda assim eu ainda era vigiada, era maior de idade, mas parecia uma adolescente, era difícil lidar com ela. Comecei a tirar aquele domínio dela [da mãe] sobre mim, comecei a me rebelar

um pouco, a crescer vamos dizer assim. Até as minhas roupas quem escolhia era ela, eu era um robô não tinha escolhas próprias, ela não deixava a gente ser a gente mesmo sabe, era um controle horroroso que tolhia nosso caráter, que tolhia nossas vontades, somente permaneciam os sonhos, porque nisso ela não poderia interferir. Em Campina as coisa começaram a mudar, porque ela foi perdendo o controle sobre a gente, longe da gente ela não tinha mais aquele domínio todo. Ela poderia até continuar tomando conta da gente, o cuidado de mãe, mas é que com ela era tudo além, ela não somente cuidava ela dominava.[...]

Penha, pertencente ao segmento médio, criou estratégias para reduzir e eliminar o controle materno sobre sua vida, morar em outra cidade, em Campina Grande para trabalhar e estudar foi fundamental para tanto. Seu objetivo, não era tão somente ser livre, mas construir experiências a partir de suas próprias escolhas, construir sua própria história. No entanto pretendia também manter uma relação afetiva com os parentes, desde que não fosse com base na dominação. Observa-se assim uma tensão entre os interesses em se individualizar e os de fazer parte de um grupo. Essa tensão também foi abordada por Velho(2008) em suas pesquisas.

Essa relação ser parte de um todo predefinido com um mapa delineado e a possibilidade de manobra no desempenho de papéis, explorando ou criando novas alternativas, indica a tensão existente no processo de individualização. (VELHO, 2008, p. 48).

Essa tensão entre o processo de individualização e a permanência no universo dos parentes, da qual nos fala Velho, e evidenciada nas narrativas das senhoras, aponta para os processos de construções identitários. Percebeu-se que foi através da performance em lidar com essas e outras tensões que cada senhora construiu suas individualidades. Penha tornou-se uma “exímia datilógrafa” e profissional da área contábil e administrativa, Rita tornou-se economista, Selma professora, dona Val e dona Geralda domésticas em casa de família.

Nos relatos das senhoras a decisão de sair da casa dos pais voluntariamente marca e enfatiza o processo de construção do indivíduo que se destaca para “fazer sua própria vida”, para ser ele mesmo, para lutar, para viver uma vida própria, uma vida segundo suas regras. Isso não somente foi verificado entre as mulheres dos segmentos médios, apesar de ter sido mais forte neste grupo, o desejo de se destacar da família de origem também foi percebido nas narrativas das mulheres dos segmentos populares. O que por sua vez nos leva a considerar que o

processo de autonomização da família de origem, a partir da saída da casa dos pais, trata-se de um processo geracional e não exclusivo de um grupo social. Representa uma das etapas associadas à passagem para a vida adulta bem próprias a essa geração (Galland,2004), e que apesar das diferenças em relação as origens dos indivíduos podem se faz presentes nos diferentes segmentos sociais.

Entre as senhoras sair da casa dos pais representou um processo que envolveu múltiplas expectativas: autonomização, independência financeira, melhores condições de vida, entre outras. No entanto, tais expectativas nem sempre se efetivaram em sua plenitude, especialmente entre as senhoras do segmento popular que passaram a trabalhar como domésticas em casa de família ou entre aquelas que, no casamento, estiveram submetidas a situações de violência. Nestes casos, tal movimento associou-se a fuga de uma situação de pobreza extrema para outra situação opressiva.

Dona Geralda: Eu queria muito ir me embora dalí, sair daquela

pobreza[...] Eu sei que minha prima chegou na quinta feira, aí disse que a mulher tinha mandado um dinheiro que era pra ela levar uma pessoa pra trabalhar tomando conta de menino na casa dela, aí eu disse eu vou, eu queria ter minhas coisinhas e não tinha quem me desse, eu queria ir pra um canto não podia, lá no interior naquele tempo não tinha escola, e pai dizia que não precisava aprender a escrever pra não mandar carta pra namorado, a gente trabalhava alugado e o dinheiro ficava com pai, por isso que eu queria vir embora, eu queria ter meu dinheiro. Mas pai não podia saber senão ele não ia deixar eu ir.

[...] No começo era bom, tinha conforto na casa das patroas, mas ao mesmo tempo era ruim, porque vivia dia e noite sem sair de casa, não tinha liberdade, era ruim ficar morando na casa da minha patroa, apesar que era um povo bom pra mim, mas eu queria ter um canto meu, pra eu ter minha independência. Porque morando na casa dos outros você não tem independência.

Dona Ciça: Eu casei foi pra sofrer, saí da casa do meu pai e da

minha mãe, que eram pobres, mas tinha paz, pra ter uma vida até mais ou mesmo, só que debaixo de pau. Casei pra levar peia todo dia. Um dia cansei e fugi, fugi com a roupa do couro.

Deixar a casa dos pais também representou um grande desafio que exigia coragem para cuidar de si mesma e enfrentar os riscos da cidade grande longe dos parentes trazia medo e sofrimento. Principalmente entre as mulheres dos segmentos populares, com pouca ou nenhuma experiência na vida urbana.

Dona Val: Eu era muito boba naquele tempo, nunca tinha saído de

casa, eu lembro que eu chorava, no serviço com saudade de minha mãe e de meu filho. Cada dia eu ia menos em casa para[silencia]. Era muito sofrimento pra mim, a vida daqui era diferente demais da vida do interior. A gente vai se acostumando. [...] Eu me lembro que quando cheguei aqui eu não sabia andar de ônibus, me perdia direto. Não conhecia a cidade e não sabia ler, aí pra onde eu ia era uma dificuldade, ou ia de pés, ou se fosse pegar um ônibus, tinha que ficar perguntando a um e a outro. Pra ir num hospital, era complicado porque era tudo difícil, a cidade diferente, muita gente desconhecida, eu ficava perdida. O povo também nem liga pra você, vê uma pessoa doente, passa e nem liga.

As mudanças operadas nos modos de vida com a intensificação dos processos de urbanização discutidos por autores como Simmel (2005) e Wirth (1976), encontram lugar nas narrativas das senhoras quando discorreram sobre a transição da vida no interior para a cidade. Suas falas recorrentemente enfatizam que “a vida na cidade era muito diferente da vida no interior” destacando-se assim discussões relativas às transformações entre viver em sociedades simples e sociedades mais complexas. A vida na cidade, diferentemente daquela desenvolvida em pequenas comunidades, oferece aos indivíduos maior sensação de liberdade, de poder tomar decisões próprias, a partir das múltiplas possibilidades que lhes são apresentadas.

Nas sociedades industrializadas, urbanizadas e densamente habitadas, os adultos têm muito mais oportunidade, bem como necessidade e capacidade, de ficar sozinhos, ou pelo menos aos pares. Escolher por si entre as muitas alternativas é exigência que logo se converte em hábito, necessidade e ideal. (Elias, 1994.p.108)

Mas ao mesmo tempo implica em riscos (BECK, 2010) assim como em convívio com o desconhecido e com a indiferença. A expressão de dona Val, “a gente vai se acostumando”, no último trecho da narrativa, encontra concordância na fala de Elias(1994) quando ele compreende que as estratégias de vida na cidade, entre elas a de fazer escolhas, válidas para qualquer segmento, muito embora encontrando seus limites, dentro do que Velho(2008) chama de campos de possibilidades, se converte em hábito.

A vida urbana estimula a individualização, nos termos de Elias(1994), mas isso não se dá sob um processo natural, antes é desenvolvido através de uma aprendizagem social. A pessoa não escolhe livremente esse ideal em detrimento de outros. Para Elias, “ele é o ideal socialmente exigido e inculcado na grande maioria das sociedades altamente diferenciadas” (ELIAS,1994.p.118). Isso pode ser percebido nas narrativas das senhoras através das passagens de suas falas quando destacam as influências de amigos e parentes em suas decisões para mudar de vida, para deixar o interior, para sair da casa dos pais. Dona Geralda, por exemplo, foi trabalhar na cidade por intermédio de uma prima, que segundo ela a estimulou a vir, contando como era a vida na cidade, falando dos benefícios que aqui encontrara em detrimento das dificuldades do interior. Dona Ciça e dona Val, também tiveram o incentivo e apoio de conterrâneos para mudar de cidade. Nestes casos a existências de redes de parentesco e de amizade facilitaram a saída de casa dos pais e também funcionava como rede de proteção.

Entre as mulheres do segmento médio do mesmo modo, a influência, especialmente do ambiente escolar, estimulava a continuidade dos estudos que abriria caminho para a profissionalização e para o mercado de trabalho feminino.

Percorrer a cidade, passando a conhecer novos espaços e a se inserir em outros ambientes - ainda que em condições subalternos de trabalho como às senhoras do segmento popular - possibilitou às mulheres o contato com novos horizontes cujas ideologias e práticas eram na maior parte das vezes diferentes daquelas que tiveram acesso até então na companhia de suas famílias nas pequenas cidades onde habitavam.

Vê-se que a vida na “cidade grande” favoreceu na diferenciação das possibilidades de vida entre as mulheres, ampliando o universo de suas escolhas e de trajetórias a serem seguidas, incorporando novos hábitos e estratégias de vida. Permitindo a construção de suas individualidades, “não simplesmente dada pela natureza” (ELIAS, 1994), mas constituída no decurso de múltiplos processos sociais. A seguir destaco alguns desses processos de maior destaque nas narrativas das senhoras, importantes para pensar as trajetórias de individualização por elas percorridas.