O poema estava no livro Elegies na primeira edição (1633). Na segunda edição, de 1635, foi colocado entre Letters to severall Personages. No século XX, Herbert Grierson colocou-o em destaque como um poema único, pois se assemelha em gênero às cartas heroicas de Ovídio, e não à elegia (GRIERSON, 1912). Assim, os editores estão indecisos com este poema desde 1635, pois ele de fato é único dentro da obra de Donne.
Em 1965, Helen Gardner publicou outra edição crítica. Nela, Sappho to Philaenis aparece na seção “Dubia”, dedicada a poemas cuja autoria seria duvidosa. Isto parece ter ocorrido fortemente porque o poema seria, segundo a editora, pouco característico da obra do poeta. Foram necessários quinze nos para que o crítico John Carey questionasse a divisão de Gardner, mas a sua edição já havia ganhado ampla aceitação. Patridge, por exemplo, que se utiliza amplamente dela, não menciona Sappho to Philaenis, e mesmo o editor contemporâneo Robin Robbins (DONNE, 2013) segue o exemplo de Gardner.
A seguir, transpõe-se a citação de John Carey de trechos do prefácio de Gardner à sua edição, pois não se obteve acesso a ela.
The congruence of ‘Sappho to Philaenis’ with Donne’s persistent concerns is worth remarking, for his modern editor, Dame Helen Gardner, finds it ‘uncharacteristic of Donne in theme, treatment, and style’, and accordingly denies its authenticity, despite its appearance in the first edition of his poems and in various dependable manuscripts. ‘I find it difficult’, states Dame Helen, ‘to imagine him wishing to assume the love sickness of Lesbian Sappho’. (CAREY, 1980).27
27 “A congruência de ‘Sappho to Philaenis’ com as preocupações persistentes de Donne vale a pena ser destacada,
já que sua editora moderna, Dame Helen Gardner, acha-o ‘desconforme a Donne em tema, tratamento e estilo’ e, portanto, nega sua autenticidade, apesar de ele se mostrar na primeira edição de seus poemas e em vários
Carey defende a autoria do poema por meio da própria poética de Donne:
To imagine him, on the other hand, wishing to depict a union of lovers so complete that the two identities, being identical, sink into one, is only too easy, and he could not do this unless he wrote about two precisely similar bodies. Sappho’s homosexuality recommended itself as the answer to an imaginative problem. (CAREY, 1980).28
A pouca tipicidade do poema é um argumento também utilizado por Robin Robbins em sua edição das obras completas de 2013: “The unparticularity of such phrases as ‘mighty, amazing beauty’ is also uncharacteristic” (DONNE, 2013, p. 929)29. Ele inclusive propõe duas possíveis datas para a sua escrita (1590 e 1609) e diz que em uma delas (1609), Donne se dedica já a outros assuntos, tais como cartas em versos e Divine Meditations (DONNE, 2013, p. 929). Em relação à tipicidade, perguntamo-nos por que um poeta não pode produzir em meio à sua obra algo de inusitado e nunca mais repeti-lo? Pode-se tomar como exemplo o poema
Metempsychosis (DONNE, 2013), cuja autoria nunca foi questionada, e consiste antes de tudo
em um experimento poético inacabado.
Berman, em Toward a translation criticism: John Donne (2009), dedica uma seção ao poema e defende a autoria de Donne, tendo por base este mesmo questionamento a respeito do tema: “This ‘incursion’ of the poet of the love of Woman has nothing to do with an erotic libertine curiosity. It obeys the need to explore and to think through the internal logic of the love of woman for woman, of the same for the same” (BERMAN, 2009, p. 115, destaque do autor)30.
Desta forma, pensando na discussão da tipicidade, seria possível argumentar que o poema se mostra característico da poética de Donne, pois se trata de uma investigação poética contendo todo um jogo de wit muito sutil que se dá nas contradições entre poeta e personagem, ambos diante de um espelho que não se sabe bem o que reflete: Safo, Filênis, Donne, Ovídio ou a própria poesia.
manuscritos confiáveis. ‘Eu acho difícil’, declara Dame Helen, ‘imaginá-lo desejando assumir a perdição amorosa da lésbica Safo’” (tradução nossa).
28 “Por outro lado, é muito fácil imaginá-lo desejando representar uma união de amantes tão completa que
ambas identidades, sendo idênticas, mesclam-se em uma, e ele não poderia fazê-lo a não ser que escrevesse sobre dois corpos precisamente similares. A homossexualidade de Sappho apresentou-se como a resposta a um problema imaginativo”. (tradução nossa).
29 “A pouca tipicidade de expressões como ‘mighty amazing beauty’ também não é característica” (tradução
nossa).
30 “Esta ‘incursão’ do poeta no amor da Mulher não tem nada a ver com curiosidade erótica e libertina. Ela
obedece à necessidade de explorar e pensar por meio da lógica interna de mulher por mulher, do mesmo pelo mesmo” (tradução nossa).
Quanto ao argumento de Robbins, segundo o qual certas sentenças seriam atípicas por sua falta de especificidade, defendemos ainda que Donne trata Filênis da mesma forma como trata Elizabeth Drury, a criança a quem se dedicam as elegias fúnebres chamadas de
Anniversaries. A mulher, em ambos os casos, é antes uma ideia, como o próprio Donne diz ao
defender seus Anniversaries contra os comentários de Ben Jonson (TUVE, 1947, p. 41). O nome de ambas, por exemplo, não é mencionado uma única vez nos corpos dos poemas.
Segundo Rosemond Tuve, esta prática é autorizada por diversos autores. Poderia dar-se por meio da imitação de Cícero, que recomenda “the intellectual ideal by reference to which the artist represents those objects which do not themselves appear to the eye” (CÍCERO apud TUVE, 1947, p. 41) 31. Poderia ainda ser autorizada pela imitação de uma leitura platônica ou neoplatônica feita por meio de Plotino; ou, por fim, pela leitura de Aristóteles feita pelo renascentista Girolamo Fracastoro, segundo o qual seria necessário imitar não o particular, mas o universal vestido de suas belezas próprias (TUVE, 1947, p. 41).
Robbins, contudo, não se atém somente à questão da tipicidade e acrescenta novos argumentos à discussão, no âmbito do estilo:
The frequent end-stopping makes Sappho [to Philaenis] unlike D.’s [Donne’s] work, even pedestrian, as does the absence of any wit of unexpected reversal. […] The references to ‘gods’ in ll. 15-18 as real living entities are also unlike D.’s more detached references (except for [The] Perfume [l.] 65 , and even that is the past tense) though it may be argued that the poet is speaking as a classical persona. (DONNE, 2013, p. 929).32
Os argumentos são de extrema pertinência, mas Robbins já antecipa seu ponto fraco: trata-se antes de tudo, da cunhagem de uma personagem, a ficcionalização da poeta grega Safo. Donne se esforça por afastar-se de sua poética tradicional, criando algumas estratégias que o distanciam de sua personagem lírica.
Além disso, é pertinente levar em conta que o poema imita as cartas heroicas de Ovídio, gênero que não se repete dentro da obra de Donne. Assim, dentro do decorum apropriado a cada gênero, é natural que o estilo cunhado não se repita.
Contudo, Robbins não toma uma posição absoluta diante do problema, antes expõe tudo aquilo de que dispõe: “D. might have thought it so utterly paradoxical that one woman could
31 “O ideal intelectual pelo qual o artista representa aqueles objetos que não se mostram ao olhar” (tradução
nossa).
32 “O frequente end-stopping torna Sappho [to Philaenis], diferente da obra de D. [Donne], até mesmo banal,
assim como a ausência de qualquer wit de reversões inusitadas. [...] As referências a ‘deuses’ nos versos 15–18 como entidades reais e pulsantes também são diferentes das alusões mais desprendidas de D. (com exceção de The Perfume, verso 65, e ainda assim neste caso é no pretérito), apesar de que se pode argumentar que o poeta está falando como uma persona clássica” (tradução nossa).
gain sexual pleasure from another that this constituted sufficient ‘wit’ for his usual ironic love- elegy” (DONNE, 2013, p. 929)33.
Enfim, defendemos que a autoria do poema seja atribuída a Donne, mas há ainda outra camada desta questão sobre a qual se pode se refletir.