Kapittel 2: Kristne samfunn i øst
V. Ibn Battuta
A Resolução 2.883/95 do MEC regulamenta as condições de realização das provas, em concurso vestibular, para o deficiente visual que utiliza o método Braile. E o Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, prescreve orientações gerais quanto a adaptações de provas para o acesso de todos os alunos, de acordo com as necessidades exigidas por cada deficiência:
Art. 27 - As instituições de ensino superior deverão oferecer adaptações de provas e os apoios necessários, previamente solicitados pelo aluno portador de deficiência, inclusive tempo adicional para realização das provas, conforme as características da deficiência. § 1º As disposições deste artigo aplicam-se, também, ao sistema geral do processo seletivo para ingresso em cursos universitários de instituições de ensino superior (BRASIL, 1999).
Os vestibulares de que os sujeitos desta pesquisa participaram são realizados semestralmente. As instituições em que estudam possuem grupos de apoio às pessoas com deficiência, que fazem a adaptação das provas e orientam os fiscais quanto a sua aplicação.
Nas instituições A e B, as pessoas com deficiência realizam as provas em salas especiais, são acompanhadas por fiscais individuais, dispõem de mais tempo que o convencional, as provas são ampliadas, impressas em braille ou aplicadas de forma oral, conforme a necessidade de cada candidato.
Na instituição C, as provas são aplicadas pelos alunos que compõem o C1, que recebem uma preparação específica para isso, e são supervisionados por professores da instituição, especialistas em educação especial. A preparação dos aplicadores das provas consiste em: manejo do candidato deficiente visual até a sala onde serão aplicadas a provas, leitura das provas (observação do tempo de fala, esclarecimentos necessários), transcrição das respostas ditadas pelo candidato. Vale ressaltar que esses alunos estão no C1 há no mínimo um ano e têm conhecimentos acerca da temática da deficiência.
Na instituição D, quando solicitado na ficha de inscrição, as devidas adaptações são realizadas pela comissão de vestibular, sendo as provas aplicadas por um fiscal.
Uma primeira queixa que emergiu nas falas dos alunos entrevistados, em relação ao vestibular, diz respeito à adaptação das provas, que não atende às necessidades específicas da limitação visual. Este aspecto está ressaltado nas falas a seguir.
Acho que é necessário questionar este vestibular. A prova é complicada, porque eles não ampliam na fonte 28; eles fazem xerox, o que amplia é o pape,l mas a letra quase que se mantém a mesma; eles alegam que a prova fica muito grande. Eu ainda falei: “não tem problema, faz um caderno grande, separado por disciplinas.” Então, como eles não têm condições de fazer isso, eu acabo fazendo a prova com um fiscal, que vai lendo, e aí eu vou tentando assimilar, mas na verdade eu queria ler, ir e voltar na leitura, parar na metade do texto e voltar, parar no início mesmo e voltar. Na prova específica foi tudo oral, e foi tudo bem. Outra coisa que questiono são os gráficos, pela minha patologia nem sempre consigo enxergá-los. Provas com gráficos são muito visuais, acho bem difícil. (Cantora)
No meu caso, o vestibular foi lido por um fiscal, não tive problemas. A dificuldade está na identificação de figuras; figuras eu não vejo, como tenho visão residual, eu não vejo detalhes de figura nenhuma. Só vejo figura plana, um círculo, quadrado desenhado no papel de forma bem simples, com contraste. Agora, quando é tridimensiona,l já é diferente, eu não dou conta, em alguns casos; na prova é solicitado em alguns exercícios a noção de tridimensional, eu não dou conta. (Historiadora)
Minhas primeiras experiências, minha prova de vestibular não foi difícil, eu fiz um cursinho preparatório e eu tinha interesse pelo curso; e eu fiquei apreensiva porque eu pedi a prova ampliada e, infelizmente, a prova não estava ampliada. Quando recebi a prova, eu perguntei ao fiscal: “Nossa, não está ampliada a prova?” Ele disse: “não, alguém vai ler pra você.” Eu perguntei quem leria a prova, o fiscal disse que me levaria à coordenação do vestibular, pra ver quem leria pra mim. O gabarito da prova é escrito em vermelho, daquele que liga os pontinhos. Aí eu pensei: “Nossa, como vou
preencher isso aqui?” Aí, realmente uma pessoa leu a prova pra mim; mas eu queria ler a minha prova, porque na parte de química, física, matemática, alguém ler pra você um gráfico, uma expressão e outras coisas que são mais visuais fica meio a desejar. Então, acho que eles poderiam ter feito a ampliação pra mim. Eu pensei assim: “não é possível que a faculdade não vai adaptar...” Mas, tudo bem. (Secretária)
Cantora e Secretária (ambas com baixa visão) relatam que suas provas de vestibular não foram adaptadas adequadamente. Segundo Cantora, em sua prova, o tamanho ds fonte estava inapropriado para sua deficiência. Ela faz uso de fonte 28 a 32 e necessita de contraste para fazer a identificação do material impresso, como também para a visualização de desenhos, gráficos, figuras. Secretária também necessita de adaptação através de contraste, preferencialmente preto e branco.
A adaptação de materiais para pessoas com baixa visão requer não somente a ampliação, mas uma reorganização do material, atentando-se para a combinação de cores (preto/branco ou preto/amarelo), a formatação do texto, respeitando-se o tamanho de letra adequado, espaço entre as linhas, margens, espaços maiores para as respostas, gráficos nítidos, com identificações ampliadas e legendas nítidas.
Secretária, Cantora e Historiadora relataram dificuldade na identificação de figuras. Historiadora demonstrou mais dificuldade, pois, apesar de ter baixa visão, sua visão residual também é comprometida, o que dificulta ainda mais a identificação de detalhes em figuras e gráficos. O que não é o caso de Secretária e Cantora, que, ao se aproximarem do objeto ou imagem, conseguem visualizá-lo. Cantora e Secretária demonstraram também um desconforto ante a leitura feita por outrem, uma vez que conseguem ler tipos impressos e ampliados, e gostam de ter autonomia na leitura, de sentir-se livres para percorrer o texto, indo e voltando como desejarem. Sabe-se que o entendimento de uma questão de prova às vezes demanda o ir e voltar na leitura, e uma leitura “seca” não permite isso. Os videntes têm a condição de fazer marcas no texto e voltar a determinado ponto, ler e reler certos trechos; no caso dos cegos, como o fiscal medeia essa necessidade? Este é um aspecto em que devemos pensar ao refletirmos sobre o vestibular nas IES.
Mesmo após serem feitas recomendações para os setores responsáveis para a adaptação das provas do vestibular, os sujeitos investigados ainda se depararam com algumas inadequações, de forma que suas reivindicações só foram atendidas em parte. Essa falta de cuidado nos leva a pensar que ainda predomina uma visão negativa das pessoas com deficiência, que são comumente consideradas incapazes.
Em nosso entendimento, para que a universidade estabeleça um diálogo entre os deficientes visuais e os órgãos/setores responsáveis pela elaboração e execução das provas, faz-se necessário compor uma equipe multidisciplinar com autonomia para adequar o material conforme as necessidades dessas pessoas. Reconhecemos que tais adaptações são dispendiosas, demandam recursos humanos, recursos materiais, espaço físico, tempo, além da necessidade de personalizar o material de acordo com a deficiência de cada sujeito. Todavia, não há outro caminho para uma efetiva inclusão dos deficientes visuais.
Cabe salientar que nem todos os nossos entrevistados se sentiram prejudicados devido ao não atendimento de suas solicitações. Músico, Mulher Falante e Garota Serena relataram não terem tido problema com a adaptação do material, anteriormente à prova foram informados sobre a existência dos setores a que deveriam se dirigir, e os mesmos solicitaram a adaptação necessária a suas particularidades. Neste caso, a adaptação foi mais tranquila, visto que para estes sujeitos a ampliação em fonte 14 ou 16 não modifica de forma expressiva a apresentação do caderno de provas, e não se faz necessário mobilizar monitores e/ou fiscais. Eis os seus relatos:
Eu solicitei da Comissão do Vestibular que eu tinha deficiência e que necessitava de tempo maior para a realização da prova, como também que eu precisava de ampliação em fonte 14,16. Foi bem tranqüilo, as coisas foram engrenando. (Músico)
Eu conhecia um pessoal do Comitê do vestibular e fui orientada por eles sobre os meus direitos com relação à adaptação da prova. Solicitei a ampliação, e foi feita, então não tive problemas, em na primeira e nem na segunda fase. (Garota Serena)
[...] foi tranqüilo aqui [na instituição B], falei para a moça que precisava de ampliação, e eles me mandaram uma prova ampliada em fonte 16, não tive problemas. (Mulher Falante)
Pai de Família e Mulher Mãe possuem cegueira, e durante as entrevistas ambos demonstraram ter preferência pela leitura feita por um monitor. Para o primeiro, o tempo gasto para a realização da leitura em braille poderia prejudicá-lo nas provas do vestibular.
A faculdade me deu a opção braille ou oral. Para que eu conseguisse responder mais questões, preferi prova oral. A leitura foi bem precisa, devagar, não vi problemas. Em braille eu demoro muito para ler e corria o risco de eu não responder a metade da prova. Na parte escrita da prova o monitor transcrevia o que eu ditava para ele. (Pai de Família)
Historiadora, Massoterapeuta e Estudante Tecnológica, que também tiveram suas provas lidas por fiscais, já estavam acostumadas a este tipo de adaptação. Somente após o ingresso no ensino superior é que tiveram contato com os recursos tecnológicos; Historiadora utiliza o Programa Jaws e Estudante Tecnológica, o Virtual Vision. Massoterapeuta ainda não faz uso desses recursos, mas já demonstra interesse em utilizá-los.
No vestibular minha prova foi oral, não tive problemas, o núcleo responsável ajeitou isso. (Massoterapeuta)
A minha prova foi lida por um fiscal, não tive problemas. (Estudante
Tecnológica)
Meu vestibular foi todo oral, com algumas provas em braille; como exemplo na área de exatas, que é mais complicado, eles trouxeram uma tela para desenhos, eles desenham de forma que a gente possa tatear o que está sendo mostrado. (Mulher Mãe)
A minha prova foi lida por um fiscal, não tive dificuldade porque já estou acostumada. (Historiadora)
Para Mulher Extrovertida, o vestibular foi “assustador” por ser aquela a primeira situação de avaliação que enfrentava após a perda visual, e por ser uma avaliação oral.
O vestibular foi oral, um monitor lendo e eu respondia. Nossa, foi muito difícil, depois que você fica um tempo afastada dos estudos é muito difícil. Depois que perdi a visão, foi a primeira avaliação que eu fiz, foi assustador, porque uma coisa é a gente estudar quando enxerga, outra coisa é você estudar cega, e fazer uma avaliação cega é mais ainda. (Mulher Extrovertida)
Logo após a perda da visão, há nove anos, Mulher Extrovertida iniciou o curso de alfabetização braille, mas poucas vezes colocara em prática a leitura e a escrita em braille.
Martín e Bueno (2003) explicam que a pessoa com perda visual tardia (como é o caso da Mulher Extrovertida) deve buscar o sistema braille como código suplementar ao sistema de leitura e escrita que ela já conhece.
Cabeleireira também sentiu dificuldade para fazer as provas do vestibular, em razão da patologia visual que a impede de manter por muito tempo a leitura de um material, e após um grande esforço visual apresenta fadiga visual e confusão mental. Disse que foi “muito difícil”, por alguns momentos precisou sair da sala para se recompor do cansaço visual e mental.
Observa-se que, nas IES pesquisadas, as provas do concurso vestibular para as pessoas com deficiência visual têm sido, em sua maior parte, orais, o que impossibilita do
aluno de ir e vir na leitura dos textos e questões, impede-o de fazer as pausas no seu ritmo, ficando sua leitura fica aprisionada ao “tempo” do fiscal ledor.
Acreditamos que as IES poderiam disponibilizar para as pessoas com deficiência visual opções de tipos de provas e de recursos auxiliares para sua resolução, tais como: prova em braille, prova impressa em fonte ampliada, prova com o auxílio de ledor, sendo este devidamente capacitado para ler para cegos, máquina Perkins17, software leitor de tela, entre outros, podendo o vestibulando utilizar mais de um recurso, se necessário. A máquina de datilografia em Braille, por exemplo, permitiria ao candidato escrever as respostas em braille em muito menos tempo do que por meio da escrita manual, utilizando reglete e punção.
A oferta de múltiplas opções evitaria desconfortos, como o experimentado por Secretária, cuja necessidade é que o material seja ampliado mas, mesmo tendo feito essa solicitação, deparou-se com a prova não adaptada, sendo esta aplicada oralmente. Ela não tinha muita experiência em fazer provas orais, com o ledor, visto que possui uma deficiência visual mais moderada.
Observamos nos relatos dos sujeitos entrevistados que somente Estudante Tecnológica e Mulher Extrovertida mencionaram a satisfação pela aprovação no vestibular. Talvez, para essas pessoas, o vestibular represente apenas mais uma das inúmeras barreiras transpostas até aqui. É como se não se iludissem, por saber que ainda há outras tantas barreiras a superar, até poder experimentar a sensação de inclusão.
As falas dos sujeitos, como um todo, reafirmam a persistência na luta pela inclusão social. Mostram que as pessoas com deficiência têm buscado orientações no sentido de somar esforços na tentativa de assegurar que as suas necessidades sejam atendidas. Os eixos de análise a seguir abordam as necessidades dos deficientes visuais no contexto da universidade, a partir das experiências relatadas pelos alunos entrevistados