As cadeias de carne bovina brasileira e americana têm tido problemas com a sanidade animal nos últimos anos, após a persistência de focos de febre aftosa no Brasil e a descoberta da Encefalopatia Espongiforme Bovina em um animal norte-americano. Diante disso, novas discussões e pesquisas atualizadas sobre os temas relacionados à sanidade animal, principalmente o sistema de rastreabilidade, parecem oportunas. O funcionamento adequado de um sistema qualquer de rastreabilidade, seja ele brasileiro ou americano, precisa dispor de tecnologias de rastreabilidade (GPRS, Bluetooth, entre outras) e de identificação (RFID, código de barras, bolus, entre outros).
Dentre as tecnologias de idenfiticação mais utilizadas nos sistemas de rastreabilidade brasileiro e americano, a RFID é a mais atual e auxilia na transmissão da informação e dos dados dos animais pelos agentes da cadeia. Unida a ela, o código de barras também tem sido bastante utilizado nos brincos plásticos aplicados nos animais vivos e nas etiquetas presentes nas embalagens dos cortes. Nos EUA há também a utilização de brincos plásticos numerados manualmente, o que não ocorre no Brasil. Neste país os produtores utilizam os brincos fornecidos pelas certificadoras, já com o código de barras que o animal possui na DIA impresso no plástico.
O registro dos animais nos EUA - quando não há RFID - é realizado por meio da anotação na “caderneta vermelha” que o produtor ganha anualmente da Associação em Utah. No Brasil, alguns produtores utilizam planilhas Excel, softwares e ou ainda papel, na forma de pequenas fichas onde constam o código de barras da DIA e todos os dados do animal (nascimento ou data de entrada na propriedade, vacinação, medicamentos, data de venda) datilografados. Segundo alguns entrevistados brasileiros, há softwares disponíveis para uso em propriedades de produção pecuária, mas eles estão voltados para produtores que criam animais para exposições e premiações.
A tecnologia RFID possui suas vantagens relacionadas à leitura dos dados, tempo de leitura, simultaneidade, resistência do material utilizado nas etiquetas, programação, condições de uso, reutilização, entre outros. Entretanto, a RFID apresenta desvantagens como: custos altos; falta de um padrão internacional para as etiquetas; complexidade da integração do sistema; o debate sobre privacidade e segurança do consumidor; e questões técnicas, como algumas limitações em termos de largura de banda necessária para transmissão dos dados e problemas com proximidade com água e metal que faz com que a taxa de leitura decline. Essa discussão na Academia e nas empresas tem levado a outra discussão: a utilização, a viabilidade e quais seriam os principais aspectos a serem considerados na avaliação de uma tecnologia de identificação, como a RFID.
Apesar das tecnologias, principalmente as de Informação e Comunicação, representarem investimentos altos, as empresas não avaliam as fases de implantação de uma TIC, como as de identificação. Essa ausência de uma avaliação por etapas e com base em variáveis organizacionais e gerenciais, técnicas e econômicas leva as empresas a desperdiçarem seus recursos, perderem os ganhos provenientes das implantações e permanecerem desatualizadas e com estruturas arcaicas de gerenciamento de suas operações.
Para o auxílio à avaliação de TICs de identificação, foi proposto nessa tese um método de avaliação para essas tecnologias, em especial as utilizadas em sistemas agroindustriais, sendo aplicado na cadeia de carne bovina. Constatou-se que o método foi útil na medida em que possibilitou um aprofundamento das pesquisas sobre métodos de avaliação de TI/SI/TIC, com uma contribuição adicional no acréscimo de variáveis e subvariáveis e na divisão em três grupos (organizacional, técnico e econômico). Além disso, ele concede aos entrevistados a oportunidade - a partir das pontuações de cada um – de refletirem e analisarem com o material entregue após a pesquisa as principais deficiências das TICs utilizadas, as subvariáveis que eles devem analisar em suas avaliações na fase de pré-implantação e/ou post
mortem.
Os pontos fracos do método, a serem melhorados em trabalhos futuros, são: alguns entrevistados nos EUA tiveram dificuldade em entender alguns termos técnicos; as Variáveis Organizacionais quando eram explicadas pelos seus atributos foram menos inteligíveis do que quando utilizadas somente as suas subvariáveis; e a avaliação post-
mortem terá que ser explicada por outro termo em lugar do ‘abandono do projeto’, uma
vez que foi observado, principalmente na amostra brasileira, uma resistência ao termo e, talvez, uma resposta afirmativa para a omissão de uma desistência de um projeto de TIC. Nas Variáveis Técnicas, nos aspectos ambientais, a sub-variável proximidade com água
pode ser acrescida de outro tipos de interferência conforme está no texto (ruídos, metais, entre outros materiais). Apesar desses pontos fracos, acrescido aos pnotos fortes destacados no parágrafo anterior, a aplicação do método foi facilitada pelo uso da escala de 1 a 5 e as Variáveis de Segurança foram todas compreendias, apesar da sub-variável consistência ter um conceito mais técnico, todos os entrevistados a entenderam.
A partir da aplicação do modelo conclui-se que no Brasil há mais resistência por parte dos frigoríficos do que pelos produtores à implantação de TICs, principalmente a RFID. Nos EUA, dependendo do agente, esta resistência foi igual. Além disso, as empresas precisam treinar mais seus funcionários para que eles tenham maior conhecimento das novas tecnologias, das tecnologias existentes na empresa e a integração entre elas.
A resistência a RFID pode ser justificada por alguns aspectos: o desconhecimento da tecnologia e de seu uso; o custo das etiquetas e equipamentos a serem utilizados (um motivo que se tornou senso comum e é discutível se o entrevistado já analisou os custos ou está repetindo o que leu ou ouviu); baixa qualidade dos equipamentos acessórios à etiqueta; mudança na rotina dos empregados, devido a possíveis mudanças a serem implantadas no processo produtivo, gerencial e com outros elementos da cadeia; dificuldade em encontrar um sistema que comporte as informações provenientes do chip; e falta de definição do governo das exigências de rastreabilidade para mercado externo (o que leva as empresas a estarem esperando esta definição para decidirem se há necessidade de investir em RFID). Esta postura dos governos brasileiro e americano foi bastante criticada pelos produtores que, nas entrevistas realizadas no período das entrevistas, estavam bastante sensíveis (principalmente os brasileiros, já que as entrevistas ocorreram no período do embrago da UE a carne brasileira) em relação à falta de novas regras, de uma organização maior e da observação de intermediários na relação produtor-consumidor final.
Em relação à fiscalização e legislação, a maioria dos casos (tanto frigoríficos, quanto produtores) não criticou seus governos. Contudo, segundo um dos produtores, o governo brasileiro inicia projetos (como programas relacionados à fiscalização), mas não finaliza, então quando surgem novos programas os produtores não ficam motivados a participar por causa dessas experiências passadas. Já a empresa de hardware considera a fiscalização nos produtores muito fraca, segundo o diretor deve haver uma verificação destes procedimentos e torná-los eletrônicos. Para este agente da cadeia de carne o frigorífico está bastante avançado, mas não é o caso dos produtores. Este problema brasileiro não ocorre nos EUA, onde há uma organização das informações, mas não há instrumentos de controle como existem no Brasil, na questão da rastreabilidade.