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Por fim, entre as cenas que se repetem, há uma que insiste naquela correção herdado do avô Ribeiro de Almeida, o ministro que morreu pobre (ver cit. 1). Esse parece ser um aspecto secundário da escritura, mas, de fato, ele remete ao primeiro elemento constitutivo da paratopia de Niemeyer, que é do seu advento ao mundo como membro de uma sociedade, dotado de um nome, uma ascendência. Por isso dissemos que essa cena realiza uma espécie de dobra sobre o primeiro momento da paratopia de Niemeyer. O enunciado abaixo é uma das narrativas dessa cena:

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Estive com Israel, que me disse: “Só poderei pagar-lhe como funcionário. Mas, como o Instituto de Arquitetos do Brasil estabelece, seria possível lhe

dar uma comissão sobre o custo das construções.” E a palavra “comissão”,

que detesto, me fez recusar sua proposta, projetando todos os palácios de Brasília com o salário mensal de um modesto servidor público. [...] Mas quando JK me telefonou – “Niemeyer, quero que você projete as sedes, em Brasília, do Banco do Brasil e do Banco do Desenvolvimento Econômico, e receba pela tabela do IAB” –, respondi-lhe: “não posso, sou funcionário” (MA, p.35-36, grifo nosso).

Não se pode deixar de perceber aí a presença do avô, na imagem de homem honesto e desinteressado por dinheiro. Mas há outro aspecto, menos evidente. Recusar-se a receber um valor baseado em critérios prosaicos, como a tabela do IAB, aponta para a percepção de seu trabalho como diferente de um serviço de arquitetura comum. Obras de arte, na verdade, não têm seus valores regulados por tabelas de associações profissionais. O enunciado abaixo, de certa forma, apoia nossa suposição:

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Duas coisas guardo com satisfação. Uma é esse desinteresse pelo dinheiro, que mantive por toda a vida; a outra, minha vontade de ajudar as pessoas [...]. Tendo trabalhado muito, é natural que pensem ser eu um homem rico. Como negá-lo, se os jornais anunciam os meus trabalhos? Como contestá-

lo, se andei pelo Velho Mundo e tanto realizei? [...] Ninguém imagina quantas vezes trabalho graciosamente, como fico longos períodos colaborando sem nada receber, como divido com meus amigos os projetos que elaboro [...]. Com que satisfação comprei o apartamento de Luís Carlos Prestes! Lembro que naquela época minha conta no banco estava curta e

apressei o Acácio, seu secretário: “Providencia a escritura rapidamente, que o dinheiro pode acabar.” Um ato natural de pura amizade. [...] “Teria

vergonha de ser um homem rico” (ACT, 163-165, grifo nosso).

O desprendimento com relação ao dinheiro é relacionado a uma satisfação em ajudar as pessoas, certamente ligada a um gozo. O que nos interessa aqui, entretanto, não é o retorno afetivo que a solidariedade e a amizade podem propiciar, ou talvez a herança da educação recebida em uma família católica124, embora esse aspecto não deva ser desprezado: a declaração de que “teria vergonha de ser um homem rico” confirma esse aspecto ligado a uma moral católica. O que queremos destacar é, antes, a apropriação que Niemeyer faz dessa herança familiar na sua prática. Não é por acaso que o exemplo de gesto solidário escolhido pelo autor envolva ninguém menos que Luís Carlos Prestes, “o cavaleiro da esperança”, comunista e não religioso. A figura de Prestes está ligada ao imaginário de um outro mundo, mais justo, uma sociedade sem classes. “O que poderia ser comparado à luta por um mundo melhor, sem classes, todos iguais?” pergunta Niemeyer (MSE, p.33). Amizade e solidariedade são aspectos necessariamente constitutivos desse outro mundo, dessa sociedade de iguais. E a arquitetura de formas livres do arquiteto seria, então, o cenário dessa vida futura. Essa visada não passou despercebida ao poeta Ferreira Gullar, no poema “Lição de arquitetura”:

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No coração de Argel sofrida faz aterrizar uma tarde uma nave estelar e linda

como ainda há de ser a vida (com seu traço futuro Oscar nos ensina

que o sonho é popular) (MSE, p.32).

É por isso que sustentamos que esse posicionamento ético é, ao mesmo tempo, elemento essencial de sua paratopia e um aspecto da proposição heterotópica de Niemeyer.

124

Seu irmão, o neurocirurgião Paulo Niemeyer, ocupou vários postos na Santa Casa até chegar ao cargo de

provedor, jamais recebendo um centavo por seus serviços no hospital. “Costumamos dizer que é o espírito de

misericórdia que nos move, de fazer algo pelo doente, além do interesse de aprender e de ensinar”, teria dito. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Niemeyer, consultado em 20/05/2012.

Finalmente, pode-se falar também da construção de um personagem heroico nessa longa narrativa na primeira pessoa que compõe o discurso arquitetural de Oscar Niemeyer, quase oito décadas. Como um herói, nosso autor é sempre guiado por ideais nobres como a liberdade, fraternidade, coragem e justiça. Mas se tomarmos Utopus como referência de herói, enquanto idealizador e fundador da cidade segundo um modelo virtuoso, então Niemeyer se parece mais com um anti-herói. É que Niemeyer propõe uma nova maneira de pensar a arquitetura, no entrelaçamento entre a surpresa e a defesa da construção de um mundo justo e igualitário. Le Corbusier é que estaria mais próximo de Utopus, e sua proposta modelar seria uma versão moderna do mito de Utopia. Mas a proposição de Niemeyer tende muito mais para uma heterotopia, um mito às avessas. E por duas razões: a primeira é que se trata de uma narrativa na primeira pessoa, enunciada no presente, enquanto o mito é sempre pretérito, em terceira pessoa. Além disso, o mito supõe a solução de contradições, enquanto Niemeyer quer deixar exposta a não relação entre a beleza (que é a verdade da obra), necessariamente ligada à singularidade, e a sociedade comunista, que implica em repetição, de maneira a que todos possam ter acesso aos mesmos bens.