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Barriers and opportunities

Nas incursões do campo, a primeira história do Heitor com relação ao crime que me deparei, consistiu numa narração feita pelo seu irmão numa tarde enquanto andávamos pelo bairro.

Caíque começou a me contar sobre um assalto acontecido na semana passada: em meio a uma abstinência muito forte, Heitor havia se percebido sem dinheiro algum, então, sem a realização de um planejamento, resolveu por roubar uma mulher que vinha falando ao celular à noite nas proximidades de uma das praças do bairro. Num ímpeto de fissura arrancou-lhe o celular das mãos e saiu correndo. No dia seguinte, no entanto, fez uma descoberta importante, o celular pertencia à mãe de um dos traficantes do bairro e ela, que o havia reconhecido no momento do assalto, já tinha informado ao filho sobre o acontecido.

Heitor era bastante conhecido no bairro, sobretudo, pelo uso de cocaína. Em muitas situações do campo, em que estava na companhia de Pedrinho, ou ainda de outras pessoas, tinha ouvido falar dele. A própria Pérola, vizinha de Pedrinho, já havia compartilhado comigo um apelido pelo qual era conhecido no bairro em função do uso de cocaína. Além disso, sua exposição era grande, passava muitas madrugadas na rua, metia-se em muitas brigas e provinha de uma família que tinha sido dona de uma boca há alguns anos, depois disso, outros elementos da história o estigmatizavam negativamente: o pai tinha sido assassinado, Heitor tinha cumprido medida socioeducativa e era usuário de drogas, um de seus irmãos frequentava uma instituição para deficientes intelectuais do município, o outro era usuário de

crack, dentre outros. Dessa forma, explica-se como havia sido localizado tão facilmente pela

vítima.

Produções e a Tva2 Produções. Ambos colocam em discussão a política sobre as drogas vigente e contam com a participação de diversos interlocutores de renome como Raúl Zaffaroni, Antonio Escohotado, Jorge da Silva e Nilo Batista (no primeiro) e Bill Clinton, Jimmy Carter, Drauzio Varella e Paulo Coelho (no segundo). O ex- presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, teve participação nos dois documentários.

O traficante, por sua vez, mandou um dos seus à casa de Heitor e avisou Caíque de que o irmão estava jurado de morte, não haveria negociação. Neste momento, ressalta-se o suporte dado por Caíque, pessoa importante para a vida de Heitor. O adolescente, sem hesitar, propõe-se a resolver a situação e, neste dia na praça, contou-me como tinha procedido para defender o irmão e assegurar que nada lhe fosse acontecer. Relatou que fora pessoalmente falar com o traficante, mas, antes disso, recuperou o celular roubado por Heitor para devolver durante esse “acerto de contas”. Para além disso, o jeito de resolver era “botar banca” (sic), não se fazer de fraco para que o traficante hesitasse fazer qualquer coisa. Assim, sem entrar nos pormenores da negociação comigo, disse ter resolvido a “parada” (sic).

Outra situação de bastante complexidade apreendida durante o campo deu-se numa conversa com a mãe, eu perguntava a ela qual era a pior situação com a qual já tinha se deparado em função do uso de drogas do filho.

Dora me relatou, bastante emocionada, sobre um episódio acontecido há poucos meses quando Heitor havia saído de casa “drogado” (sic) em busca de mais droga e, então, resolveu roubar uma moça que estava sentada num ponto de ônibus para conseguir mais dinheiro. Ela reagiu gritando, chamando por seu namorado que estava nas proximidades do local e ele veio ao encontro de Heitor. Dora contou que o moço fazia muay tai81 e que espancou seu filho, “meteu o cacete” (sic) e “escarafunchou” (sic) a cara dele. Durante o conflito, policiais chegaram ao local, haviam sido chamados por outras pessoas no entorno e, após separar os dois jovens, contiveram Heitor e o levaram para a uma delegacia do município.

A partir daí, Dora relata:

Chegou lá e ao invés de levarem ele pro delegado, porque a lei é essa, bateram nele lá fora, acabaram com a cara dele, aí chamaram o namorado da vítima e deixaram ele bater também. Acabaram com ele, tem até foto lá no processo, no segundo DP e a advogada também pediu pra tirar foto dele assim, mas mexeram no nosso celular e a foto acabou sendo apagada. Ele foi espancado lá na frente da delegacia e ainda tentou correr, mas não conseguiu, mas ele estava algemado. Rasgaram a camiseta dele, eu cheguei lá e ele estava soltando sangue pelo nariz e pela boca. Aí levaram ele no Hospital Escola pra ver se ele não tinha quebrado nada, fizeram um raio x. Depois deram uma injeção nele e só então levaram ele pro delegado. Mas isso não pode acontecer, não importa quem seja. Foi o dia pior.

Ela ainda conta que, após ter recebido o jovem agredido, o juiz acabou liberando-o sob o aviso de que se fosse pego novamente seria preso. E então, após sua liberação, o jovem teria entrado com um processo por conta das agressões sofridas, Heitor teria feito até exame de corpo delito, mas nada havia sido resolvido sobre o caso. As marcas desse episódio,

entretanto, reverberam ainda em todos que foram testemunhas: Dora, Caíque, que também aponta esse dia como o pior com relação ao uso de drogas do irmão, e os outros irmãos. Heitor também chegou a mencionar a situação, contando sobre a sensação de achar que ia morrer e, depois, descrevendo os hematomas com os quais ficou, mas não se estendeu nos comentários.

A terceira situação, bem parecida com a anterior em seu início, possui, entretanto, um desfecho completamente diferente.

Quando cheguei à casa de Heitor numa tarde de maio, sua mãe me contou de um assalto realizado pelo filho no começo da semana. Assim como das outras vezes, não fora um evento planejado, ele estava indo para a casa da namorada buscá-la para dormir em sua casa, quando sentiu vontade de “cheirar” (sic) e, novamente, tentou assaltar uma mulher que passava. A pessoa teria reagido e negado a entrega do celular, correndo para longe. Houve, então, um desentendimento entre os dois e Heitor tentou pegar o aparelho à força, agredindo- a. Enquanto essa situação se dava, dois guardas municipais viram o que acontecia e foram socorrê-la, depois de acionarem a polícia.

Os policiais municipais contiveram Heitor até que os outros chegassem, então, foram todos para a delegacia. Nesse momento, a namorada do jovem, estranhando a sua demora, tentou ligar em seu celular e foi notificada por um dos policiais sobre o acontecido. Ao desligar, Débora ligou para a mãe de Heitor e para Caíque, informando-os também. Um vizinho levou-os para a delegacia e, ao chegarem lá, encontraram Heitor bastante desorientado, estava “louco de droga” (sic), segundo a mãe, e não entendia muito o que se passava.

Naquela tarde, conversando com Dora, ela confirmou82, então, que Heitor, dessa vez, havia sido preso numa penitenciária de uma cidade próxima a São Carlos. Apesar de apreensiva, apoiava-se na possibilidade de que ele não ficasse preso por muito tempo e, para isso, citava vários exemplos “bem sucedidos”: o vizinho da frente que havia sido pego vendendo algumas pedras83 (sic) tinha ficado apenas três dias na prisão, assim como outro moço no início da rua que, pelo mesmo motivo, tinha sido solto depois de dois dias. Assim, sucediam-se outras situações das quais ela já tinha ouvido falar. Repetia sucessivamente que não se ficava preso por pouco, era muito gasto que os presos davam e as cadeias andavam

82 Havia uma informação circulando naquela semana sobre a sua prisão, mas eu ainda não sabia se era verídica.

Comentários de alguns jovens do bairro tinham chegado aos ouvidos de uma amiga, educadora social de um Programa do Governo Federal em um Centro de Referência e Assistência Social da região.

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muito lotadas. No entanto, o desfecho foi outro. Heitor foi julgado e condenado a dois anos de reclusão.

Na semana seguinte haveria uma audiência para decidir sobre a situação de Heitor. As expectativas eram muitas, na medida em que a notícia ia se espalhando pelo bairro, especulava-se muito. Junto aos familiares, eu também estava abatida com a situação, pensava em possibilidades de auxílio, mas acabava sempre com um sentimento de impotência. Refletia frequentemente sobre o meu papel naquele momento e cruzava configurações hipotéticas: O que estaria fazendo caso fosse técnica da terapia ocupacional em atuação naquele território? O que poderia fazer enquanto pesquisadora? O que poderia fazer enquanto pessoa?

Num repente, os limites entre os papéis ficaram confusos e necessitei repensá-los. O que eu vinha fazendo era uma espécie de mistura entre todas as coisas: tinha um tanto de técnica, na medida em que me responsabilizava pelo acompanhamento de pessoas naquele território, no qual nos dispúnhamos a realizar uma intervenção social; tinha uma carga significativa de elementos pessoais, uma vez que propunha a um compartilhamento com meus colaboradores; e uma identidade de pesquisadora, já que de fato, com mais ou menos vínculos, era a missão colocada naquele momento e a forma através da qual, aliás, eu me (re) apresentava.

Percebia, no entanto que, em determinados momentos, papéis diferenciados se sobressaíam, em meio ao papel central de pesquisadora. Às vezes era mais guiada pelas ações pessoais, outras vezes reconhecia-me com posturas profissionais, embora fizesse um esforço para evitar essa última performance. Em meio a estes posicionamentos espontâneos, quando se decidiu pela prisão de Heitor por dois anos, a primeira reação que tive foi estruturar uma possibilidade de vê-lo na cadeia, fazer uma visita para saber como ele estava e oferecer apoio. Não cogitava, todavia, que essa entrada fosse profissional, através de uma porta diferenciada daquela pela qual entrariam familiares e amigos. Eu havia investido demais no distanciamento do papel profissional para fazer uma visita justificada por essa via.

Via-me disposta a tomar uma decisão que, dificilmente, a pesquisadora ou a profissional tomariam e esta fora também percebida pelos interlocutores em campo em diversas situações. Certo dia, comentei com Caíque sobre a possibilidade de fazer uma visita para o seu irmão e ele ficou muito surpreso: “Você vai lá na cadeia, dona? Acha? Claro que não!” (sic) Perguntei por que e ele respondeu: “Dona, você não tem que ir lá, você não é do crime pra ir naquele lugar” Então, questionei: “Mas o seu irmão é do crime? Você é do crime?” e ele respondeu que não, mas que ele, seu irmão e sua mãe sabiam o que era o crime, viviam o crime no bairro desde muito tempo, ele, desde que havia nascido vivia o crime

dentro da própria casa. Estavam acostumados e eu não, eu não podia estar ali no meio de tanto “bandido”.

Era interessante ver a preocupação que Caíque sentia comigo, assim como sua mãe que, posteriormente, demonstrou o mesmo espanto e tratou de me convencer que eu não deveria ir à penitenciária: “Você não merece passar por isso”, dizia. Colocava-se uma linha divisória entre mim e aquelas pessoas, para eles eu não pertencia “àquele mundo”, o mundo ao qual pertence quem é “bandido”, quem é da família de um “bandido” ou nutre amizade por um, fatores que dão a possibilidade de vivência do crime de alguma forma. Esta forma de vivência, no entanto, não pode ser institucional, tem que ser a vivida na pele e não observada, como no meu caso.

Do lado contrário ao meu, nesta linha divisória, estava Heitor e os seus entrecruzamentos com o crime. Era identificado como um “bandido” pelas pessoas do bairro; pela família, de forma indireta; pelos policiais, que dele desconfiavam cotidianamente; e até por si próprio, quando para mim narrava timidamente alguns dos eventos contidos acima. Essa identificação o diferenciava, no senso comum, de ser um “trabalhador”, ou seja, um jovem que tinha se inserido, mesmo que precariamente, no mercado formal de trabalho. Segundo Feltran (2008, p. 119), “aprende-se que o universo criminal e violento opõe-se pelo vértice à família trabalhadora. O fetiche discursivo opera a distinção entre trabalhadores e bandidos”.

O mesmo autor discute sobre as duas categorias contrapostas, “bandido” e “trabalhador”, nos explicando o contexto em que são criadas. Parte da análise da estrutura de uma família para exemplificar a discussão: os pais chegam a um bairro de periferia no início dos anos 1970, ali constituem família num contexto centrado na estabilidade do trabalho, que é coerente com uma conjuntura específica de alta necessidade de mão de obra industrial, e funciona até meados dos anos 1980. Os filhos crescem nos anos 1980 e tornam-se adolescentes na década de 1990, momento caracterizado pelo crescimento da violência e pela organização do “mundo do crime” naquela região. São, então, abordados por esse processo em suas trajetórias, muito mais do que a geração anterior. Frequentar a escola no bairro, por exemplo, era, de alguma forma, ter que lidar com as histórias de violência, vinculadas já diretamente ao crime local.

A partir daí, as famílias formadas pelos operários começam a mudar seus trajetos, podendo apresentar interconexões com o “mundo do crime” por seus filhos. Tais eventos são, em muitos casos, compreendidos como verdadeiros desvios às boas normas e costumes antes valorizados, configurando-se numa desgraça e numa vergonha para a família que tem alocada

a ela todo tipo de adjetivo de cunho pejorativo. Em outros casos, entretanto, percebe-se uma mistura entre diversas categorias, tradicionalmente opostas, dentro das composições familiares. Não se distingue, nestes casos, uma linha que separa a família e seus valores dos episódios vividos no mundo social, ou no mundo do crime. É como se a família fosse tomada por estes mundos, mas, apesar disso, tivesse se mantido coesa (FELTRAN, 2008).

Tomemos por base tais exemplos para refletir sobre Heitor e sua família. De forma similar à relatada, seus pais chegam ao bairro do Gonzaga quando lá ainda “não havia nada, era só mato” (sic), os filhos nascem nas décadas de oitenta e noventa e chegam à sua adolescência na década de 2000. Antes de atingir os 18 anos, no entanto, Heitor já teria vivenciado muitas situações do “mundo do crime”, pois cresce durante a década de 1990, muito permeada por mudanças na conjuntura social até então vigente, sendo caracterizada pela crise do emprego formal, do trabalho, do projeto de ascensão social, dos movimentos sociais e pelo crescimento da criminalidade violenta (CASTEL, 1998). Entretanto, há uma peculiaridade já citada em sua história: quem se envolve com o crime naquele momento é o pai e não os filhos. Assim, Heitor e os irmãos passam a vivenciar diariamente o crime dentro de casa.

Dora diz ter brigado até o último momento para que o marido deixasse o tráfico de drogas. Para ela, aquele envolvimento teria destruído a família. Vejo, na maneira como conta essas histórias, a figura materializada da vergonha e da desgraça por ter tido a família invadida pelos códigos do crime quando os filhos eram ainda crianças. Hoje lamenta da mesma forma por Heitor, que teria seguido o caminho do pai na ligação existente com o crime, com diferentes configurações, pois nunca havia se comprovado nenhuma associação do filho com o tráfico, embora houvesse boatos. Heitor roubava “sempre que tinha uma oportunidade”, dizia ela.

Dando continuidade ao paralelo, colocou-se fortemente a reflexão sobre a categoria pela qual Heitor era comumente re (conhecido) no bairro, a de “bandido”. Seria mesmo um? Recordo-me que, assim como a vivência citada por Feltran (2008), no início do campo, quando caminhava até a sua casa, por vezes a ideia de que visitaria um “bandido” me contaminava e eu sentia medo. Mas era só chegar lá e me sentia mal por ter tido medo, era um absurdo. O jovem sempre me tratava com muito respeito, não me sentia ameaçada em nenhum momento. Trago esse comentário para tratar do processo de desconstrução pelo qual passei com relação ao Heitor, desconstrução do senso comum, do imaginário social tido sobre ele e sobre muitos outros “Heitores” existentes no Brasil.

No entanto, não é disso que estou falando quando questiono: Seria este jovem um “bandido”? Refiro-me à dúvida colocada sobre seu ofício enquanto “bandido”: roubar. Atento para o fato de que nenhum dos roubos realizados por Heitor tinham sido planejados, aliás, o processo se fazia praticamente sem critério algum, eram pessoas quaisquer, em lugares indeterminados, com objetivos também imprecisos, sem a mensuração de riscos ou a presença de medo. Eram ações feitas no desespero, pela necessidade de obtenção de droga, muito diferentes das ações criminais de um grupo de irmãos “envolvidos” com o crime, descritas por Feltran (2008) em sua tese, que eram, evidentemente, encaradas como trabalho.

Por esse motivo eu costumava dizer que Heitor era um “bandido” mal sucedido, era como se não tivesse “dom para a coisa”. Relembrando as suas histórias criminais isso fica bastante evidente, os deslizes ou os episódios de “azar” eram muitos. Acreditava, no entanto, que caso fosse capaz de obter auxílio por conta do uso de drogas, formal ou informal, os episódios criminais poderiam se sanar, mas isso me levava a outros questionamentos: Quais eram (e são) as possibilidades de inserção para jovens pobres usuários de drogas? Quais eram os lugares possíveis para essas pessoas?

2.3. O crime como direcionador dos espaços possíveis para um jovem de periferia