TØNSBERG-REGIONEN
5.1 BARRIERER OG HVORDAN DE KAN PÅVIRKE TILTAKSURFORMING OG IVERKSETTING
De acordo com o vimos até o momento, tornar-se um sujeito empreendedor dependeria de um investimento do indivíduo mediante as oportunidades que a vida lhe apresentasse. E não faltam convocações: Desperte o milionário que há em você, conclama Carlos Wizard Martins (2010), fundador da escola de inglês Wizard, no segundo volume do livro 100 pensamentos: motivação, liderança e sucesso.
Um forte engate no discurso da pedagogia dita empreendedora remete à noção de que cada homem produz seu próprio destino, sendo a vida de homens bem-sucedidos uma prova e um exemplo a ser seguido. Assim, cada indivíduo poderia obter sucesso em seu próprio caminho, inspirando-se pelas narrativas de vidas exitosas: as biografias edificantes.
Em março de 2013, a Editora Cortez lançou uma coleção de livros intitulada
Empreendedorismo em sala de aula. No folheto de divulgação, dispõe-se aos educadores:
Ao contrário do que ocorria há algumas décadas, quando os jovens almejavam cargos em empresas públicas que ofereciam maior estabilidade e segurança, atualmente é comum mudar muitas vezes de trabalho, vivenciar mais de uma carreira profissional na vida, e, especialmente, fazer com que ideias gerem oportunidades de negócio inovadoras! Mais do que um conteúdo, empreender é uma postura, uma atitude de ousadia e criatividade que pode ser apoiada e fortalecida na escola – e a literatura pode ser um caminho muito rico para conjugar esforços com o professor neste desafio bem contemporâneo. (CORTEZ, 2013)
Endereçada às crianças, tal coleção compreende uma coletânea de biografias de personagens que passaram à historiografia com algum destaque, sendo investidos narrativamente como líderes: Paulo Freire, Nelson Mandela, Santos Dumont, Câmara Cascudo, Princesa Isabel, Leonardo da Vinci, Inezita Barroso, Luiz Gonzaga, Gabriel Joaquim dos Santos e o próprio José Xavier Cortez, proprietário da editora, que também publica o livro de sua biografia. Trata-se de personagens provenientes de diferentes campos e com trajetórias variadas, indo da música à ciência, de líder político a escravo emancipado. Segundo a iniciativa, qualquer existência tida como bem-sucedida seria passível de ser biografada e serviria de exemplo para inspirar as novas gerações. Isso porque se parte da ideia de que se trata de seres comuns que construíram um caminho de destaque na vida, que edificaram o próprio destino por seus méritos, talentos e valores, à revelia ou a favor dos acontecimentos da vida. Em comum, o que atravessa essas biografias é o mito do homem construtor de si, que partiu do nada e construiu uma grande obra.
O fenômeno da biografização de experiências de vida ganhou impulso no século XX. Jacques Marcovitch destaca esse fenômeno em seu livro Pioneiros & empreendedores: a saga
do desenvolvimento no Brasil. De acordo com ele, no século XX “começou-se a sistematizar documentos e a escrever sobre essa gente que instituiu entre nós a ideia de que o progresso pode ser fruto da iniciativa privada e não dádiva de um Estado paternalista, oligárquico e formulador único de estratégias” (MARCOVITCH, 2012, p.20).
O autor diagnostica um fenômeno destacado no século XXI: uma alteração do status moral do sujeito empreendedor e bem-sucedido. Até o final do século XX, segundo ele, ser economicamente bem-sucedido não era algo reputado como situação de virtude. Já na virada
do século XX para o XXI – e a produção sobre o empreendedorismo bem o dá a ver –, são exaltadas como virtuosas características que possam levar os indivíduos a uma vida de sucesso.
A publicação de biografias exitosas ocupa um lugar estratégico nas práticas de governo da conduta. Tais textos constituem uma espécie de espelho prospectivo, como de início apontado neste estudo: todos e qualquer um poderiam alcançar uma vida bem-sucedida.
A noção de homem empreendedor, esse novo homem biografável, é assente no mito do homem que se autoproduz. Pode-se afirmar que o mito constitui uma verdade que perdeu sua contingência histórica, mesmo tendo sido escolhido pela própria história, ou seja, trata-se do que vingou como verdade por meio de narrativas que se fincaram no tempo, assumindo um caráter de transcendência originária. Como afirma Roland Barthes (2012), o mito não nega as coisas, mas, ao contrário, é sua função falar delas; ele as purifica, inocenta-as, fundamenta-as em natureza e eternidade, oferecendo-lhes uma clareza não de explicação, mas de constatação. Assim, quando o mito fala sobre um objeto, faz a história evaporar.
Historicizar um mito implica quebrar a forma cristalizada da verdade e situar o acontecimento em sua contingência. Ora, a crença de que o homem é produtor da própria história está fundada na ideia recente de homem educável, sob a qual é possível localizar o empreendedorismo no processo de pedagogização da vida (NOGUERA-RAMIREZ, 2011).
Tal processo relaciona-se à crescente atenção que vem sendo conferida aos aspectos da educação nos mais diferenciados setores da vida cotidiana, bem como ao consequente aumento de importância da expertise pedagógica e das assistências profissionais. O termo
pedagogização constitui uma chancela para indicar a crescente difusão do discurso
pedagógico segundo o qual o indivíduo, ser de perpétuo endividamento, deve constantemente aprimorar-se e atualizar-se. Nesse sentido desdobra-se o dispositivo da formação continuada ou formação ao longo da vida, conforme a intitula Stephen Ball (2013).
A própria vida figura, assim, como um investimento em que o indivíduo é tomado como capital e renda de si mesmo, cada vez mais responsável por sua atualização e por seu aperfeiçoamento pessoal. O dispositivo da formação continuada, que ganha forte impulso especialmente ao final do século XX, torna-se, no início do século XXI, positividade
inconteste. A racionalidade pedagógica passa a ter, então, domínios expandidos para além das instituições escolares.
Tendo em vista o que é possível mirar, estando imerso neste tempo, urge efetuar um exercício de distanciamento a fim de estranhar a linguagem e as práticas em operação para, quiçá, provocar alguma ranhura no próprio pensamento. Com o intuito de imergir em formas de veridicção, práticas de subjetivação e a normatividade da espiritualidade política a partir do empreendedorismo, cumpre agora realizar um corte para a investigação.