As quintas da Madeira foram sofrendo várias alterações ao longo do tempo, quer no seu aspeto morfológico quer nas próprias funções. Passaram de quintas de apoio à agricultura, a quintas de habitação e lazer para quintas de aluguer do turismo terapêutico, sendo que são “todas diferentes e todas semelhantes no seu ‘estilo’ local, evocador duma sociedade ultrapassada” (Lamas, 1956, p. 303). Rui Campos Matos define, através do seu levantamento exaustivo das quintas da Madeira, três tipologias: a casa rural sobrada anterior ao século XIX, as villas dos wine merchants e a casa compacta de origem oitocentista.
III.II.I – Características morfológicas comuns
As quintas de aluguer podem ser consideradas arquitetura popular, “cuja arquitetura é feita sem arquitetos” (Matos, 2018), devido ao facto de ser uma arquitetura anónima, os autores e destinatários eram desconhecidos, exceto no caso de algumas
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villas dos wine merchantes. Conhece-se apenas a elite social que encomendava as quintas e a quem foram alugadas. Dir-se-ia que as quintas de aluguer eram um misto de arquitetura popular e erudita. Uma arquitetura doméstica insular, construída com profundos e vastos conhecimentos do povo, adquiridos ao longo de vários séculos com algumas influências da ‘casa da macaronésia’ transportada para a Madeira pelos primeiros povoadores. As quintas eram encomendadas com apenas um acordo verbal ou escrito, com a ausência do desenho, era pedida apenas uma boa construção, conforme as exigências particulares.
As fachadas das quintas eram planas, com os planos cheios a prevalecerem sobre os vãos com persianas de correr ou de abrir instaladas à face. A simetria era, regra geral, a métrica de composição dos vários elementos da fachada, fossem eles, vãos ou alpendres. Os alpendres e os beirados salientes eram os únicos elementos que introduziam sombra à casa. As cores mais comuns utilizadas nas fachadas eram o branco, o ocre e o rosa-forte, conseguidos através de pigmentos a cal.
A cobertura do edificado era uma característica comum a todos os tipos de quintas, sendo a mesma em telha, incluindo as quintas de influência inglesa. Os telhados regra geral “eram de quatro águas com beirado saliente” (Matos, 2016, p. 174), mesmo em quintas que eram constituídas por vários corpos como a Quinta Avista Navios. O telhado era o tradicional ‘sanqueado’, com uma curvatura das águas que depois era rematado com o duplo ou triplo beirado que substituía a cornija.
Os principais materiais de construção das quintas de aluguer, incluindo as quintas projetadas pelos ingleses, eram paredes portantes em alvenaria de pedra e estruturas de madeira para suporte de pavimentos e telhados. Nas paredes o basalto cinzento, também conhecido por ‘pedra viva’ ou ‘cantaria rija’, era utilizado porque é a pedra vulcânica mais uniforme e pesada da ilha da Madeira. Esta era assente com argamassa e depois rebocada e caiada. Para além das funções estruturais, a madeira era utilizada nos detalhes
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Figura 17: Panorâmica da zona sul da freguesia de São Martinho, vendo-se a cidade do Funchal com as quintas pontuando o anfiteatro, 1934 - 1939
interiores como as escadas, portas, janelas, venezianas e acabamentos. Alguns destes elementos em madeira eram pintados com tinta de óleo ou envernizados. O ferro era outro elemento comum nas quintas de aluguer, utilizado nas guardas das varandas ou suportes dos alpendres. Com a utilização do ferro forjado, o ferro passou a ser um elemento decorativo das varandas e alpendres das villas dos wine merchants.
Em muitas quintas, a casa e o jardim localizavam-se em terrenos esculpidos horizontalmente aos socalcos apoiados por muros de suporte, uma configuração comum na paisagem da Madeira. Devido a esta configuração, os jardins das quintas de aluguer eram pequenos, em que as quintas de influência inglesa eram exceção. Os jardins das primeiras quintas foram perdendo as suas funções de cultivo e passaram a ser espaços que rodeavam as casas, protegendo a sua intimidade. Além desta função, o jardim também era utilizado para fins de lazer e como “instrumento de cura” (Matos, 2016, p. 171), onde os enfermos repousavam, absorvendo o ar puro. Outra característica dos jardins era as alamedas que conduziam até à entrada formal da casa, rasgando os muros altos de alvenaria que vedavam as quintas. Os jardins eram irregulares, um contraste evidente com a regra de simetria das fachadas das casas.
Os espaços de mediação eram fulcrais para os enfermos, utilizados o ano todo como locais de estadia exterior, juntamente com os jardins. As varandas, nas suas variadas formas, eram comuns em todas as quintas de aluguer, tendo por vezes ligação ao alpendre. O alpendre, presente em todas as quintas com escada exterior, existia de várias formas: rodeava apenas uma fachada da casa, várias fachadas ou ligava com a varanda. O alpendre era coberto por chapas de zinco ou revestido a telha, protegendo os enfermos da chuva e do sol, sendo que o clima permitia a utilização destes espaços o ano todo. Os terraços eram quase extintos devido à morfologia das coberturas em quatro águas (Matos, 2016, pp. 163–177).
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Figura 18: Planta de cobertura a rés-do-chão da Quinta Avista Navios (tipo 1), escala 1:500
Figura 20: Planta de cobertura a rés-do-chão da Quinta da Calaça (tipo 2), escala 1:500
III.II.II – Tipo 1, a casa rural sobrada anterior ao século XIX
Esta tipologia era caracterizada por uma construção em dois pisos, o térreo que servia de apoio à agricultura, a ‘loja’ e o piso nobre localizado no piso superior. As ligações destas duas cotas eram feitas por uma escada exterior que na cota superior resulta em alpendre. A cozinha localizava-se por norma no piso inferior, mas podia por vezes ocupar o piso nobre. A casa, normalmente de planta retangular ou quadrada, estabelece uma ligação direta entre os vários compartimentos (tal como na Quinta das Angústias localizada na Avenida do Infante, Funchal), sendo que o corredor foi introduzido posteriormente.
A capela era uma particularidade mais comum desta tipologia, por vezes integrada na própria fachada da casa (Quinta das Angústias) ou como um elemento autónomo (Quinta das Cruzes localizada na Calçada do Pico, Funchal). As capelas normalmente eram um elemento anterior à casa que transparecia uma dissemelhança na fachada que salientava essa construção ao longo do tempo (Matos, 2016, pp. 203–206).
III.II.III - Tipo 2, as villas dos wine merchants
As influências dos ingleses criaram uma segunda tipologia, que surgia através da adaptação da tipologia anterior, conforme as exigências de um modo de vida e conforto elevado dos wine merchants. Estas quintas continuavam com os aspetos vincados em termos do modo de construção, sendo que as relações da quinta são repensadas como um lugar de habitação e lazer com disfruto da paisagem. A quinta perde a função de exploração agrícola, sendo que a ‘loja’ passa a ser um piso habitável, associado aos novos espaços de estar como a sala de jantar, biblioteca, etc. Consequentemente começam a aparecer em algumas quintas duas escadas interiores, uma principal e outra de serviço, sendo que a exterior se mantém em conjunto com o alpendre. Começa também a surgir o
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Figura 21: Alçado principal da Quinta Avista Navios (tipo 1), escala 1:500
Figura 22: Alçado principal da Quinta da Calaça (tipo 2), escala 1:500
corredor como elemento de ligação entre espaços que são relacionados com o jardim. Desta relação surge as bow e bay windows que são absides salientes nas fachadas, dando origem a plantas retangulares ou elípticas. Uma grande influência dos ingleses foi o jardim de mentalidade romântica que se estende pelo lote abrigando os vários elementos que compõem o complexo da quinta, todos interligados por pequenos arruamentos. Um jardim assimétrico que contradiz a simetria das fachadas, que é utilizado não só para contemplação, mas como instrumento de cura (Matos, 2016, pp. 177–203).
Todas estas quintas procuram uma relação contemplativa com a natureza, em que “a inserção da casa em contextos que convidavam a meditar sobre a alma da Natureza e a natureza da Alma” (Matos, 2016, p. 191). A própria torre mirante com esta função de contemplação e observar os navios que circulavam na baía do Funchal.
III.II.VI - Tipo 3, a casa compacta de origem oitocentista
Esta tipologia marca o fim da evolução das quintas da Madeira e acaba por ser o resultado das duas anteriores tipologias, uma fusão entre a arquitetura popular da Madeira e o conhecimento/exigências da elite Inglesa.
A quinta surge como um refúgio da vida urbana, o jardim garante a salubridade, protegendo a vida privada e intimidade dos habitantes. O jardim continua a relacionar-se com os espaços comuns da casa, sendo que a bow windows já não se encontra nesta tipologia. Em termos de planta mantém-se uma forma retangular ou quadrada compacta com as circulações através do corredor longitudinal e a eixo com as duas escadas interiores. A zona de serviço é isolada das áreas comuns, sendo que o sótão é reservado aos empregados e os quartos principais encontram-se no piso inferior. Em termos do número de pisos, de fachada e de cobertura, mantêm-se as características morfológicas comuns referidas anteriormente (Matos, 2016, pp. 208–210).
Figura 24: Fotografia a partir do miradouro da Quinta das Angústias
“Hoje, sem exagero, o Funchal é uma cidade de quintas! Fora do centro e dos velhos bairros chegados à beira-mar, as ruas correm, algumas inteiramente, por entre os seus muros, todos debruados de trepadeiras