9. Drøfting
9.2. Barnets tokulturelle og tospråklige situasjon som samarbeidstema
Na contraposição do modo de produção capitalista, o cultivo de outro projeto de sociedade se alicerça numa perspectiva crítica, impulsionadora da luta, com objetivo de elaborar uma nova cultura para a conquista da hegemonia popular e para materializar o projeto histórico-socialista. Esta perspectiva de transformação é concebida na visão de Gramsci como um movimento contra - hegemônico na esfera da sociedade civil, tida como espaço de disputas de poder, especificamente no aspecto ideológico, através da batalha de ideias para elaborar e disseminar uma nova cultura como visão de mundo da classe popular. A organização das camadas populares para a ação contra-hegemônica se coloca como instrumento de perturbação da ordem e do consenso estabelecido pela classe dominante.
Contudo, o MST (2001, p. 218) indica normas e regras necessárias à uma organização social, que deve privilegiar os interesses coletivos:
Uma organização social como o MST, ou qualquer outra que reúne diversas pessoas, somente terá sucesso se conseguir organizar um conjunto de normas e regras de forma coletiva e que, ao mesmo tempo sejam respeitadas pela totalidade dos seus membros. Quanto maior o grau de adesão de seus membros a essas normas sociais determinadas pela maioria que compõem a organização, maior será o grau de objetividade no alcance de seus interesses sociais.
As raízes da utopia revolucionária presentes no projeto de sociedade defendido pelo MST caminham na esteira gramsciana, e entre outros teóricos, reconhecendo que para materializar um projeto contra-hegemônico é preciso passar pela esfera econômica, mas também é preciso mudar o modo de pensar da classe popular. Isso pode se dar pelo fortalecimento da cultura da classe subalterna com a formação crítica para superar a visão de homem, de mundo e de sociedade imposta pela classe que tem o poder. Assim como Gramsci, o MST defende que a inserção
da classe popular como sujeito político na unidade entre teoria e prática é a base para reconstruir o saber capitalista e transformar num saber a serviço da classe popular.
São princípios educativos voltados para a formação permanente humanista e socialista/histórica, a qual exige:
Relação entre teoria e prática; combinação metodológica entre processos de ensino e de capacitação; a realidade como base da produção do conhecimento; conteúdos formativos socialmente úteis; educação para o trabalho e pelo trabalho; vinculo orgânico entre educação e cultura; gestão democrática; auto-organização; formação permanente dos educadores/educadoras; habilidade de pesquisa; combinação entre processos pedagógicos coletivos e individuais. (MST, 2005, p. 164-165).
No processo de atuação, o movimento tem demonstrado poder e habilidade política que lhe tem permitido construir alianças e articulações com outros movimentos, entidades organizadas da sociedade civil, dialogando com os complexos sistemas de relações da sociedade, conquistando importantes espaços na atual conjuntura política brasileira. Na análise de Caldart (2004, p. 347):
Trata-se de uma raiz que se multiplica em diversas raízes, e que por isso mesmo tem maior potencialidade de tornar-se projetiva, cultivando os pressentimentos de futuro. [...] um esforço (ação permanente) de manter cada pequena família sem-terra vinculada à grande família [...] de todo o país.
Neste sentido, os princípios declarados pelo próprio MST concebem que para cultivar o sonho de outro modelo de sociedade é preciso um permanente processo de busca, alimentado pelos sonhos e pela esperança. Assim, o movimento enfatiza
a necessidade da formação cultural dos militantes, como estratégias de preparação para a luta, ao declarar que é absolutamente necessário: “Ter amor ao estudo, querer sempre aprender. Sempre perguntar. E desenvolver o hábito da leitura, cada militante deve ter o hábito de ler, pelo menos uma hora por dia” (MST, 2001, p. 123.
A perspectiva educativa do movimento propõe a combinação entre educação escolar e a construção de uma pedagogia que conscientiza e prepara para a ação política em busca de concretizar outro projeto social e histórico. Trata-se de conceber a educação para além das instituições de ensino, podendo ser experienciada em diversas esferas da sociedade civil.
A educação não é sinônimo de escola. Ela é mais ampla por que diz respeito à complexidade do processo de formação humana, que tem nas práticas sociais o principal ambiente dos aprendizados de ser humano. A escolarização é um compromisso fundamental nesse processo e um direito de todas as pessoas. Desde os primeiros acampamentos e assentamentos esta é uma das luta do MST (MST, 2001, p. 126).
A ação política, a luta social propriamente dita, deve estar articulada à uma prática educativa alicerçada nos interesses de classes. A perspectiva de construção de uma nova hegemonia explícita no projeto societário do MST se alimenta dos pressupostos de que a elevação cultural e a consequente superação do pensamento acrítico do povo vislumbra um horizonte para outro mundo possível.
Trata-se de pensar a educação a partir da realidade com o objetivo de ampliar a luta para outras esferas da sociedade. Por isso, é uma educação pensada para a intervenção social, pois, o seu caráter classista se preocupa com a formação crítica de sujeitos históricos. Assim, para o MST, as práticas educativas se manifestam desde as experiências informais como organização, marchas e ocupações, de modo que são experiências que dão sentido pedagógico a luta social, como também a perspectiva da educação formal que se inicia na alfabetização, passando pela
educação de jovens e adultos, educação profissionalizante, graduação, estendendo- se até a pós-graduação.
Para o movimento:
O processo de formação completa de um militante de uma organização social é muito mais complexo e abrangente. É certo que os cursos desempenham um papel importante. São neles que o indivíduo pode ter acesso ao conhecimento mais sistematizado e que contribui para sua disciplina coletiva, do debate das ideias com outros companheiros. Mas os cursos são apenas um aspecto complementar. São indispensáveis, mas não suficientes por si só. (MST, 2001, p.118).
Neste sentido, o movimento entende que a formação crítica é indispensável para garantir possibilidades de intervenção social. Por isso, além de outras reivindicações, a luta por educação pública e voltada para a classe popular aponta algumas conquistas significativas para os trabalhadores do campo, através da implementação de projetos e programas governamentais, voltados especificamente para essa parcela da população. D‟Agostin (2011, p. 162) destaca:
O Programa nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA) em 1998 e o Movimento Nacional Por uma Educação do Campo, que desde 2002 obteve reconhecimento com a lei das necessidades e especificida2des da educação no e do campo – resolução CNE/CEB nº 1 de 3 de abril de 2002, e o decreto 7.352, de 4 de novembro de 2010.
Ainda é importante destacar outras conquistas, que tiveram origem nas lutas políticas, como o curso de graduação em história para os movimentos sociais – voltado para a formação de militantes de movimentos sociais do campo; o curso de pedagogia da terra para professores que atuam em áreas de assentamentos rurais e
o curso de licenciatura em educação do campo que forma educadores para atuar em escolas do campo.
Obviamente, o campo ainda encontra-se com visível insuficiência quando se trata de projetos governamentais, especialmente em relação à educação, mas de fato as conquistas obtidas demonstram a importância das lutas politicas como impulso para ter acesso aos direitos declarados constitucionalmente, mas historicamente negados.
Por isso, pensar a educação de acordo com os principio do Movimento Sem Terra consiste em identificar os problemas da realidade, refletir e buscar solução para eles, dado que a realidade representa as condições materiais de existência, está relacionada com expressões culturais, com a vida prática e formas de pensamentos.
Segundo MST (2005, p. 51) é possível compreender a realidade como:
Tudo aquilo que fazemos, pensamos, dizemos e sentimos da nossa vida prática. É o nosso trabalho. É a nossa organização. É a natureza que nos cerca. São as pessoas e o que acontece com elas. São os nossos problemas do dia a dia e também os problemas da sociedade que se relacionam com nossa vida pessoal e coletiva.
Como se vê, para o movimento, a formação cultural favorece a abertura de novos horizontes à medida que o processo formativo relaciona o problema da terra com outros desafios a serem enfrentados na sociedade. Além da preocupação com elaborações teóricas de interesse popular, os valores humanos, cultivados por um projeto de educação popular impulsiona a luta pela libertação das condições de opressão. Esta possibilidade inspirada no pensamento Freireano não separa o conhecimento prática do processo de conhecimento teórico, uma vez que o mundo é apresentado como mediatizador do processo de formação da consciência ao ser
problematizado, e não apenas comunicado, de maneira que a práxis social possibilita o conhecimento crítico do mundo a partir da ação dialógica para a sua transformação. Para Caldart (2003, p. 54):
Um dos grandes desafios pedagógicos do MST com sua base social tem sido justamente ajudar as pessoas a fazer uma nova síntese cultural, que junte seu passado, presente e futuro numa nova e enraizada identidade coletiva e pessoal. Viver como se luta, lutar como se vive… esta é uma coerência que tem sido vista como necessária aos objetivos de transformação social do movimento; também em seus conflitos e desafios permanentes.
Trata-se de uma proposta que deve pensar a educação na perspectiva de construir o projeto de educação para o campo, gestado a partir da ótica da população camponesa e da sua própria história de organização e luta. Assim, a educação está vinculada à formação política e pedagógica da classe, permeando os interesses políticos, sociais e culturais, sem perder o caráter universal, tendo em vista os sujeitos inseridos no seu contexto de existência como sujeito histórico, de modo que o projeto de educação do MST ao assumir o vínculo com os sujeitos sociais nas condições concretas de existência não perde a dimensão universal da luta.
O movimento contesta e desafia o atual sistema capitalista e a sua ação cultural reproduzida e consolidada na sociedade, projetando e cultivando valores contrários aos que são cultivados pela sociedade movida pelo capital. Este processo de luta procura formar uma visão crítica acerca da propriedade privada construída historicamente pela classe dominante e a não aceitar a apropriação dos meios de produção, da terra e do conhecimento como se fosse uma condição natural já determinada. Sobretudo, trata-se de compreender criticamente que a prática burguesa oprime, aliena, coisifica o ser humano, e embora seja uma perspectiva de longo prazo, é absolutamente necessário superar a condição de subalternidade e a sociedade de classes.
Falar de um projeto político nacional para o Brasil, a partir dos interesses populares, é falar de um projeto estratégico, que representa um processo de disputa de longo prazo. E embora se resolverá em longo prazo, é um desafio que está colocado agora, pela disputa com a burguesia. (MST, 2001, p. 25).
E mais,
É preciso incorporar uma análise cientifica da realidade brasileira, da natureza dos seus problemas econômicos e sociais para, a partir disso, apresentar propostas concretas que resolvam os problemas da maioria da população como: desemprego, terra, alimentação, educação, saúde e moradia, e ao mesmo tempo, produzir um desenvolvimento com justiça social. (MST, 2001, p.26).
Para o MST, a possibilidade de desenvolver a consciência de classe e a consciência revolucionária está ancorada fundamentalmente na educação e na formação de educandos e educadores, pois, trata-se de formar para transformar, sendo que o espaço escolar deve ser um espaço de palavra e ação. A construção do conhecimento teórico-prático como instrumento de reflexão para intervir, é práxis. Dalmagro (2011), no artigo “A escola no contexto das lutas do MST”,argumenta que para o movimento:
A ação só poderá ser revolucionária se captar corretamente a realidade. A ciência e o conhecimento por si mesmos não mudam o mundo; é preciso ação, mas a ação isenta de conhecimento profundo e amplo é menos eficaz (2011, p. 52).
Essa preocupação com o acesso ao conhecimento está alicerçada no tipo de conhecimento que deve ser construído pelo povo. Trata-se de pensar e discutir o conhecimento que interessa, que é significativo e capaz de superar o pensamento
espontâneo do senso comum, rumo ao conhecimento elaborado e com a intencionalidade de torná-lo instrumento de transformação da realidade, pois este conhecimento é fundamental para a organização e planejamento das estratégias de ações políticas.
Assim, a transformação da estrutura social não acontece através da tomada do poder, mas pela construção ideológica, tornando hegemônico o sistema de pensamento das classes populares. A desconstrução da ideologia da classe dominante e a construção da nova hegemonia popular são instrumentos de transformação social através do consenso e da ação.