4.2 Egenskaper ved barnet
4.2.1 Barnets eventuelle diagnose
As famílias que vivem a realidade da fome e da escassez de alimentos desenvolvem ajustes alimentares e uma série de estratégias para conviver com a fome e poder enfrentá-la no seu dia-a-dia. Esses ajustes alimentares realizados no interior das famílias variam dependendo da gravidade da situação de fome vivida, sendo que os principais são: acordar tarde para não precisar realizar a primeira refeição do dia, qual seja o desjejum; tomar água quando se está com fome ou se tiver erva disponível tomar chimarrão para aliviar a sensação de dor provocada pela fome; comer pouco nas refeições que são possíveis de serem feitas para deixar sobrar para a próxima refeição ou para o dia seguinte; comer pouco ou não comer para sobrar para as crianças. Os relatos a seguir evidenciam esses resultados:
“Café nós não tomamos hoje. Ninguém tomou, só almoçamos de meio dia” (Rosanita)
“A gente não toma café. Almoça e janta só” (Lúcia)
“De manhã elas acordaram 11 e meia e tomaram café aí depois jantaram de
noite” (José)
“Ontem fiz uma polenta que nós comemos de tarde [...] elas levantaram de
meio dia” (João)
A prática de acordar tarde e não realizar o café da manhã é o principal ajuste alimentar encontrado em todas as famílias entrevistadas. Dependendo da gravidade da situação de escassez de alimentos e da presença ou não do pão no dia pode ocorrer duas situações, fazer a refeição café-almoço ou almoço-café de modo a eliminar uma das refeições do dia e assim totalizar duas refeições diárias como uma prática que foi relatada em todas as famílias.
Outro aspecto que chamou muito a atenção foi o consumo da água e de chimarrão para driblar a fome. A água não tem custo pra eles porque em todas as famílias o sistema de água é irregular, já o chimarrão é possível tomar somente quando tem erva mate que as vezes é comprada pelas famílias outras vezes recebem de doação e ainda assim a erva é sempre (re)aproveitada ao máximo:
“Não de madrugada assim me dá aquela dor no estômago de fome, daí eu me
levanto toma água” (João)
“Ontem mesmo foi um dia que ele não comeu nada, só tomou mate. De
madrugada tava ele: tá me doendo meu estômago de fome. Eu disse pra ele, mas não adianta, o que vai fazer, não adianta não querer comer, sabe”
(Maria).
“Ontem eu não comi nada, tomei chimarrão [...]. Eu como muito pouquinho” (José)
As famílias que vivem a fome contornam as dificuldades e encontram estratégias e ajustes alimentares que lhes permitem afirmar-se como pessoas e impor sua identidade em relação à fome quando de fato enfrentam-na e passam a aprender a conviver com esse fenômeno cotidianamente. O relato a seguir evidencia tal aspecto:
“Não sei, as vezes eu como as vezes eu não como, eu não sinto fome. Não
sinto. As vezes eu fico assim oh, não vou comer hoje, eu não como. Tomo água e não me dá fome” (Lúcia)
Em relação ao comer pouco ou deixar de comer para sobrar pensando na próxima refeição ou nas crianças também foi um ajuste frequentemente, ou melhor, diariamente usado pelas famílias. O que muda no dia-a-dia em relação a essa estratégia é a intensidade com é feita, o que vai depender da gravidade da situação de fome ou escassez naquele momento. Os relatos a seguir demonstram essa problemática:
“Come até que tem né e depois. Se tiver como comer uma fatia de pão come
uma e deixa outra pra amanhã” (José)
“Daí não tem, não tem. Daí eu começo a poupa pra deixa pra ela
(companheira) e as guria. É assim” (João)
“Sempre tem como dá um jeito [...]. Eu comia um pouquinho ou não comia pra
pode deixar as sobras pras gurias” (Marta)
“É porque, geralmente, até nem falo em mim e na Maria, a gente Deus que me perdoe faz horas que tamo sofrendo assim. Mas as crianças levantam fazem o café comem o pão né [...] aí quem se preocupa né, o pai que fica loco né” (João).
“É a gente, sim a gente passa necessidade sim. [...] Aí tem vezes que eu, que eu do pras gurias e eu fico sem, pra não pedi pra nós três né” (Rosanita).
Há ainda o ajuste monetário por assim dizer que também é necessário ser feito para poder garantir minimamente alguns alimentos todos os dias:
“Vamos dizer assim se eu tenho, vamos supor 10 pila se dá eu vou gastar 5
De uma maneira geral esses ajustes, embora alguns realizados de forma individual, são planejados no interior da unidade doméstica e por isso podemos dizer que são realizados a partir de decisões planejadas no coletivo das famílias. Segundo Aguirres (2004) as estratégias não são individuais, mas sim da família ou unidade doméstica porque ali se realizam os mais importantes e significativos eventos para a alimentação das pessoas, quando decidem em conjunto e com todas as negociações culturalmente admitidas o destino das receitas e despesas, da preparação, distribuição e do consumo de alimentos, tudo justificado pelas crenças e valores a cerca do que se deve ou pode comer. A autora justifica ainda que o termo “estratégias domésticas de consumo alimentar” leva em conta a concepção téorica latinoamericana de estratégia e não europeia baseada no individualismo, porque apesar de ser os indivíduos que praticam os ajustes, suas práticas são condicionadas por decisões no coletivo.
Nossos resultados assemelham-se com o estudo de Arboleda-Montoya (2014) realizado na cidade de Medellín, Colômbia. A autora verificou que as principais estratégias instauradas nos domicílios beneficiários de programas de complementação alimentar para preservar o consumo são: fazer preparações com alimentos que tem disponíveis, servir porções pequenas, consumir alimentos mais baratos e diminuir o número de refeições ao longo do dia.
6.2 ESTRATÉGIAS DE ACESSO AOS ALIMENTOS: REDE DE APOIO E AJUDA