A banda Les Artistes tinha combinado com Mariana da sala de concerto/discoteca Laboratório chegar pelas três da tarde. Antes juntam-se em casa do Hermano, onde têm estado a ensaiar nos dois meses anteriores, quase exclusivamente com vista a esta apresentação. Conta-me Henrique que neste período ensaiaram três vezes por semana, sempre em casa de Hermano, onde têm algum espaço para o fazer. É quase um reencontro da banda, visto não terem concertos há um ano (entretanto, entrou um baterista novo). Aliás, pelo que percebo das conversas, até poderiam ter alinhavado mais cedo uma data para o concerto, mas preferiram passá-la para a frente, para terem a certeza de estar prontos. Portanto, este concerto não é apenas mais um concerto, é sim um concerto especial que requeria preparação, ensaio, novas músicas, enfim, todo o cardápio.
Les Artistes é uma banda invulgar no underground, cujos elementos são muito qualificados em termos escolares e profissionais, boa parte deles profissionais em campos artísticos diferentes (ligados à música e ao cinema). A origem social predominante é de classe média qualificada (ligada a profissões liberais e intelectuais). Aliás, a banda foi formada no contexto
151 de sociabilidade juvenil num bairro com essa marca de classe. Este perfil social faz-se ver implicitamente em diferentes traços do concerto (em particular, na gestão do checksound, nos bastidores e na composição do público).
O Hermano tem formação superior em ciências sociais, mas trabalha em cinema (como assistente de realização e realizador de curtas e documentários, entre outros trabalhos na área); Jorge é assistente universitário (deu uma aula de dúvidas às duas da tarde, pelo que é o último a chegar para o checksound); Henrique também tem formação superior em ciências sociais, trabalha em produção de documentários e faz parte de outra banda, os «PA», projeto singular do circuito alternativo; Joana ainda está na universidade, mas também é atriz de curtas e vai fazer a banda sonora para um filme de um jovem cineasta do mesmo círculo de sociabilidade; Pedro tem formação musical de nível superior e é profissional em início de carreira; Hugo tem atividade intermitente como músico (integra outras bandas).
O concerto foi arranjado da maneira clássica, através do envio de maquete. Foi a irmã de Hugo quem primeiro lhes deu a ideia do espaço: tinha lá ido e depois de comentar que era um sítio muito bom para eles tocarem, Hugo enviou a maquete e o resto da parafernália habitual – disto nós até tivemos curioso feedback, porque quando referi, em conversa anterior com Mariana, que conhecia Les Artistes, ela disse logo que a maquete deles tinha sido uma ótima surpresa e que tinham enviado um portfolio muito cuidado. Depois de acertada a data, foi essencialmente o Hugo quem tratou do resto dos contatos, por exemplo para o fornecimento do rider técnico (folha com o plano de distribuição dos músicos em palco, lista e localização dos instrumentos e equipamentos necessários, etc.), maioritariamente com Júlio (técnico de som), ou para outros pormenores de produção executiva (como horários do dia de concerto, percentagens das receitas, 40% da bilheteira para a banda, €270), maioritariamente com Mariana.
15h10 – Portanto, tinham combinado chegar às três e assim é. A receber a banda está Júlio e cada um dos elementos vai montando o seu extenso estaminé de instrumentos. É nesta altura que surge o primeiro problema, porque se dão conta de que não há pés-de-microfone suficientes, o que criou uma pequena insatisfação nos membros da banda – porque o requisito consta do rider técnico que tinham enviado “com duas semanas de antecedência”, diz-me Henrique. De qualquer modo, resolvem a situação telefonando ao amigo do estúdio 56, pedindo-lhe os que faltam. Também em meios profissionais o improviso é comum, o contato e a amizade com uma estrutura musical foi crucial para resolver o que se poderia ter tornado um problema grande. Enfim, lá vai Hermano de carro ao Bairro Alto buscar os pés-de-microfone…
16h30 – Isto faz que o processo de montagem do palco se demore mais um bom bocado. Cada qual continua a montar e afinar os seus instrumentos e a habituar-se ao espaço. Depois chegam finalmente os suportes para os microfones. Segue-se uma espécie de checksound individual para cada um dos seis músicos e com isto já se passaram umas boas duas horas e meia. Há dificuldades em equilibrar os vários instrumentos de cada músico (uns têm maior saída de som, outros menos, mas boa parte não tem amplificação e necessita de microfone), que se tornam evidentes quando se chega ao checksound coletivo.
18h00 – Este divide-se em duas partes. Como os problemas com o feedback não se resolvem e se começa a sentir alguma crispação de parte a parte, por agora suavemente, Júlio propôs uma pausa de vinte minutos para o lanche e para ele próprio tratar dos feedbacks.
152 19h00 – Depois do lanche, que a banda aproveita para fazer a lista dos convidados para dar a Mariana, a coisa começa a correr melhor e lá se resolve o problema do som. Por esta altura, junta-se-nos Ana, namorada do Hermano, que aparece para dizer olá mas acaba por ir ficando. Com isto, eram oito e tal, quase nove, ala jantar. Julgo que todo o processo leva tanto tempo, mais do que já costuma acontecer com os checksounds, porque a banda como que se fez demorar: tanta expetativa projetada, os dois meses de ensaios para o concerto, toda a antecipação dão-me a ideia de que não se vão agora simplesmente despachar e fazer tudo à pressa, mas antes que vão fazer bem o seu trabalho, com tempo e calma, desfrutando o mais possível a ocasião.
21h00 – Mariana dá-nos as senhas para álcool (eu estava como roadie!), espécie de brinde aos artistas e entourage, e vamos todos jantar a um sítio nas proximidades onde Júlio costuma ir. A meio do jantar – agradável, embora já admitam alguma nervoseira –, Hermano faz questão de frisar a Júlio que já tocaram tocado no Rivoli, com boas condições, técnicos de palco além de técnico de som e que o som esteve muito bom; que tocaram igualmente em Sarajevo, aí sim com pior som; outros concertos por aí fora. O tom não é agressivo nem cínico ou algo que se pareça, mas denota a necessidade de Hermano vincar o sentido de profissionalismo e de “saber fazer” da banda face ao técnico de som da sala, que depois das aflições resolvidas na montagem e da aparente distensão do jantar poderia passar despercebido. Provavelmente, Júlio pensou que iria fazer um checksound de 20 minutos a uma banda de bateria, guitarra e baixo, como diz ser o habitual, e acabou a passar a tarde de volta de uma afinação difícil e complexa.
Voltamos igualmente juntos, já com um certo aceleramento patente. Um dos elementos diz para nos despacharmos e irmos entrando antes de começar a chegar o pessoal conhecido. Esperam, e vêm a ter, muito público conhecido – apostaria que metade da casa, no mínimo, é preenchida por amigos. Não é de estranhar, por ser usual mesmo para as bandas mais “profissionais” do underground. Um dos aspetos que para isso contribui é a forma de divulgar o concerto. Também no desempenho desta tarefa, Les Artistes são exemplares quanto a empenho e organização: Pedro enviou e-mails com a imagem do concerto, o mapa para lá ir dar (fornecido pelo Laboratório) e um ficheiro áudio com um excerto de 30 segundos duma música; Henrique enviou uma série de mensagens escritas através do serviço de telemóvel que fornece o envio gratuito de mensagens sms via e-mail. Existe, portanto, uma colaboração ativa entre Les Artistes e Laboratório na divulgação do concerto. A expetativa de ter muita gente é irreprimível: brincam sobre quantas pessoas cada qual contatou e traz ao concerto – «Só eu, deve ser para aí metade da sala… terei direito a comissão?».
22h45 – Hora de camarins, começam todos a concentrar-se à sua maneira, uns mais auto- centrados, outros menos, mas uma atmosfera calma e sem nada de loucuras. Uns quantos vão ao bar buscar bebidas, outros fazem exercícios, algumas piadas, não há drogas, o Hermano até gracejou depois do jantar – «Esta merda não é rock, meu!». Enfim, a espera ansiosa…
Esta espécie de tempo morto imediatamente antes da entrada em palco, ou seja, o último compasso de espera que antecede o rito propriamente dito, é uma constante do concerto. Na grande maioria dos casos o consumo de drogas (principalmente haxixe) é de regra – não agora, com ironia. Em todo o caso, é o momento de invocação do grupo (Bennett, H. Stith 1980: 48ss)
23h15 – O concerto está inicialmente marcado para as onze, mas opta-se por esperar que o público vá chegando e aponta-se para as onze e meia. É também um expediente característico
153 dos concertos em bares e discotecas – é uma outra componente da espera, desta feita ligada à expetativa de receita comercial, para a casa e para a banda (Gomes 2004). Saio cá fora, dos bastidores até à sala, e vejo a casa já bem composta, entre 100 e 150 pessoas, que me parece chegarem a 200 durante o concerto. No geral é um tipo de público específico e qualificado: muito pessoal de profissões artísticas, nomeadamente de cinema e teatro; vejo a composição de quase meio/meio entre rapazes e raparigas (um presença do sexo feminino muito superior a um 1/3, proporção modal segundo a regra de algibeira apurada durante a observação de terreno, acima da qual se trata quase sempre de trupes com maior escolaridade); e segundo os nossos parâmetros um público muito qualificado (quase, quase 50/50,); vejo Tó e Toni do estúdio (com a história dos microfones foram dos que tiveram convite); falo um bocado com Mariana e volto para dentro.
23h35 – Volto para os camarins, uns últimos cigarros, umas últimas piadas com referências a mitologias pop – «Agora era a altura de snifar coca, não era?» pergunta-me um deles –, Júlio a dizer que vai começar e…
[Registo de campo 58]
Este episódio remete para diversos elementos característicos do rito de concerto, como por exemplo, a demora/espera do checksound que antecede o palco (ver adiante o tópico sobre a espera) ou a mimetização jocosa de mitologias da música pop, entre outros.
De facto, os concertos underground, de diferentes géneros musicais e tipos de pulsão musical, assemelham-se bastante num conjunto de elementos que me proponho categorizar – aliás, há uma boa dose de semelhança com os concertos profissionais (cf. Fonarow 2006; Frith 1998 [1996]). Isto implica, em termos de utilização de material empírico, em particular dos Registos de campo, alguma redundância entre os episódios descritos. A redundância das descrições é um efeito necessário de me reportar a múltiplas instanciações do rito de concerto, mas é também uma dimensão analiticamente relevante da construção social desse mesmo rito.
Porém, aquilo para que chamo a atenção neste caso é o modo como, num quadro de interação em que se manifesta a pulsão ponderada como matriz disposicional, o entendimento – ou desentendimento, a dada altura – é feito através de ferramentas de trabalho que supõem uma competência técnica (do ponto de vista cognitivo e pragmático) específica, bastas vezes tomada como indicador de profissionalismo.
Já o episódio a seguir relatado dá conta de uma zona de fronteira dos circuitos subterrâneos, onde existe uma possibilidade verosímil de acesso ao mercado profissional – ou pelo menos a oportunidade de “usar a coroa por um dia”. Neste caso, é muito patente que essa fronteira é absolutamente assimétrica – na relação entre organizadores profissionais e músicos aspirantes – e organizada de modo procedimental rigoroso – a seleção de bandas, sequência das prestações e consequências contratuais e comerciais do resultado final do concurso estão
154 estabelecidas sem margem para dúvidas, não obstante a informalidade de regra no quadro de interação entre os presentes.