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Barne- og ungdomspsykiatrisk poliklinikk (BUP), Midt-Finnmark

11 Oppfølging i spesialisthelsetjenesten

11.1 Barne- og ungdomspsykiatrisk poliklinikk (BUP), Midt-Finnmark

Os discursos oficiais sobre a educação costumam delegar novos modelos de ensino a partir de contradiscursos sobre os modelos anteriores e, deste modo, anunciar a inauguração de projetos educacionais inéditos. Segundo CHARTIER & HÉBRARD, “freqüentemente, quando se aborda a questão da leitura e de sua aprendizagem, um ou outro método é posto em acusação”.65 Seja como for, não se pode desconsiderar o caráter processual da escolarização dos saberes e da organização do ensino que vem sendo construídos pela humanidade. Mesmo que se ensinem línguas diferentes, as formas de ensiná- las e os materiais utilizados foram produzidos nas trocas de experiência de um povo ou de nações diferentes, considerados os objetivos educacionais próprios.

O método analítico da palavra, adotado para o ensino da leitura em Minas Gerais, sofreu deste contra-senso: foi dado como novo na criação dos Grupos Escolares, sendo que existiam tentativas do seu emprego desde os anos oitenta do século XIX, malogradas devido às muitas dificuldades encontradas em sua aplicação. No início do ensino graduado também foram encontradas outras dificuldades, que também atrapalharam o sucesso na adoção do novo método. Segundo o diretor do Grupo Escolar de Juiz de Fora, José Rangel, o método

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analítico da palavra era difícil de ser usado pelo professorado, porque ele não contava com um manual próprio para o ensino, “só muito mais tarde apareceu o excelente trabalho do professor Arthur Joviano [Primeiras Leituras, lançado em 1907], onde se encontrassem compendiadas, mediante seriação gradativa, as lições sistematizadas”.66

O termo novo — atribuído ao método de ensino da leitura adotado para o ensino graduado, visto como símbolo do progresso e da modernização —, produzia a idéia de ruptura com o ensino passado e com todos os seus problemas, principalmente com o analfabetismo. É o que se vê no relatório do diretor do Grupo Escolar de Lavras, Firmino da Costa Pereira: “considerada em seu conjunto, não há dúvida, a reforma da instrução primária satisfaz uma das maiores necessidades do povo mineiro, isto é, a guerra ao analfabetismo”.67 O método analítico da palavra representava, então, ao menos no plano discursivo, uma gênese, uma inauguração que deveria romper com as referências metodológicas anteriores, e os elogios presentes nos relatórios de diretores de Grupos Escolares, como o de José Rangel, reforçavam seu papel inovador: “As lições ou antes as noções de cousas que acompanham o progresso da leitura, trazem ao cérebro infantil um desenvolvimento gradual, que é, a meu ver, o lado mais atraente e proveitoso do processo, feição essa que o tornaria por si só muito superior aos até então adotados”.68

Observa-se, nestas argumentações, que os manuais foram propostos como solução para a aplicação do método de ensino, como se deles dependesse o seu sucesso ou o seu fracasso. De modo que, quando o livro do professor JOVIANO foi considerado pelo professorado, na década de dez, como difícil para a aplicação do método analítico da palavra69 e desaprovado pelo Conselho Superior, outros manuais foram adotados. E assim, sucessivamente, os manuais eram aprovados ou rebatidos, o que ajudava a ampliar ainda mais

66 Relatório de 14/02/1907, APM – SI 2829. 67 Relatório de 02/12/1908, APM – SI 2850. 68 Relatório de 14/02/1907, APM – SI 2829. 69 EFEMÉRIDES MINEIRAS, 1910, p. 78.

a edição de livros didáticos no País, enquanto o contrário, a produção de um mercado editorial, também contribuía para a concorrência entre os autores ou entre as editoras.70 Contruia-se, deste modo, uma articulação discursiva por parte dos professores-autores de livros de leitura, editores e legisladores, através da qual se tentava garantir a prescrição dos livros que lhes interessava divulgar.

O texto do Programa de Leitura (1906),71 que detalhou sobre a aplicação do novo método de ensino, por exemplo, estava em consonância com o forte movimento em favor do método analítico da palavra,72 também conhecido como método da palavração ou método científico da palavra, o qual, segundo Maria do Rosário Mortatti “aliando o impulso affectivo e a analyse da fala, a concretização do ensino pela leitura palavrada, remetia, por sua vez, a uma concepção de ensino da língua fundada em determinadas idéias sobre criança e educação”. (grifos da autora)73 A criança, deste modo, era colocada como centro do processo educativo, devendo ser respeitada em suas características e necessidades, mediante a aplicação método de ensino simultâneo da leitura com a escrita.

Embasados nas concepções que a nova psicologia infantil implementou no final do século XIX — sobre o respeito que se deveria ter ao processo psicológico da leitura de acordo com o desenvolvimento das crianças —, os Programas de Ensino, os livros didáticos e os argumentos dos intelectuais que participavam dos congressos de educação, eram enfáticos quanto aos cuidados que se deveria ter com o ensino simultâneo da leitura com a escrita, em cada fase do desenvolvimento da criança. Verifica-se isto em discursos como os de JOVIANO, que ressaltava a importância da escrita para o ensino de leitura, ao dizer as vantagens dessa

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A grande maioria dos livros adotados no Estado de Minas Gerais nos primeiros trinta anos do século XX eram publicados pela Editora Francisco Alves & Cia. Sobre a história desta editora Cf. BRAGANÇA, A política editorial de Francisco Alves e a profissionalização do escritor no Brasil, 2000.

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Cf. ANEXO I.

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Maria do Rosário Mortatti (Os sentidos da alfabetização, 2000) tem um capítulo que trata da institucionalização do método analítico no Estado de São Paulo. Segundo depoimentos das ex-professoras entrevistadas, entre 1909 e 1920 este método era obrigatório, com objetivo de uniformizar o ensino da leitura e da escrita.

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proposta: “se evidencia desde logo a quem atender no que se passa no cérebro da criança”.74 Para fundamentar suas argumentações, ele citava os estudos de William James, Alfred Binet, Emile Javal, Eduard Claparède e Rui Barbosa.75 Esta mesma polissemia discursiva fundamentava os artigos da Revista do Ensino e as teses dos congressos de educação, dando o teor de cientificidade e, portanto, respeitabilidade aos métodos propostos.

A criança, como já foi dito, era referendada a todo o momento em que se defendia o método analítico da palavra, estabelecendo-se relações entre as formas de ensinar e o desenvolvimento das capacidades infantis. Nesta perspectiva, estabeleceu-se, entre outras, uma relação entre a aprendizagem da leitura e da escrita com a oralidade e a ilustração,76 partindo do que a criança já conhecia, a palavra e o meio, como sugeria o diretor do Grupo Escolar de Lavras, Firmino da Costa Pereira:

Tratando-se de método de leitura, consiste a principal preocupação de muitos em ensinar a ler no mais breve tempo. Ainda neste ponto quero crer na superioridade do novo método, que desde logo vai ensinando a ler por cima, isto é, a conhecer o vocábulo escrito por inteiro, com a pronúncia da qual o aluno se familiarizou desde pequenino. Em tal caso, a palavra escrita deverá despertar no menino grande interesse como representação da palavra falada, que é sua conhecida antiga.77

Os métodos sintéticos eram considerados pelos autores dos livros didáticos, que ensinavam pelo novo método analítico, como “processos artificiais, mecânicos, sem naturalidade”,78 enquanto o analítico da palavra era considerado aquele “que a psicologia

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JOVIANO, Primeira Leitura, p.III.

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Respectivamente as obras: Principles of Psychology; Le idées modernes sur les enfants; Psychologie de la Lèctur et de l’E’criture; Psychologie de de l’Enfant et Pedagogie experimentale e Lições de Coisas de Calkins.

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Segundo Christiane Juanéda-Albarère (1998), sob as influências das concepções de Locke (1693), de Fénelon (1687) e de Coménius (1653), certos preceptores do século XVIII adotaram procedimentos atraentes e lúdicos como uma solução para facilitar a aprendizagem da leitura. Em 1719, Monseieur de Vallange utilizou, para acelerar e ser mais agradável à memorização dos sons da língua, diferentes figuras representando os objetos familiares da infância.

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Relatório de 29/01/1908, APM – SI 2850.

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infantil está indicando como mais úteis e consentâneos ao desenvolvimento intelectual da criança”.79 Segundo JOVIANO,

Os psicólogos estão de acordo em que as crianças, reproduzindo o estado mental do homem primitivo, somente percebem as cousas que as rodeiam, pela visão do conjunto, em globo, sem cogitarem dos detalhes, porque o que lhes importa é a forma geral, tendo em mira o interesse que o objeto em bloco possa trazer. Com as palavras escritas esse fato deve ser mais evidente manifesto, porque a criança, antes de vê-las, já as tinha ouvido, habitualmente, e pronunciado sempre por inteiro, de forma que esse conjunto de sons, significando, em globo, uma determinada cousa, e nunca a letra ou sílaba, é o que se imprimiu no seu cérebro e tem de ser reproduzido pela articulação verbal.80

O texto de Arthur Joviano, como outros textos contemporâneos ao seu, estava embasado em experiências científicas, com o fim de explicar que o ensino simultâneo da leitura com a escrita era ideal no primeiro ano da idade escolar, considerando que essas aprendizagens se prestavam vantajosamente nesta idade, na qual “mais intensa se manifestam as tendências para o brinquedo e para a coleção”.81 Neste caso, JOVIANO aconselhava:

Demos então aos alunos essas palavras, para que as desarticulem [como fazem ao desmontarem brinquedos] nos seus sons elementares, e lhes despertemos o interesse de poderem, com esses elementos, construir, ler e escrever palavras novas. O pequeno colecionador de palavras terá aqui um campo vasto para exercitar a sua paixão, pondo em contribuição os três pendores naturais, a competir, brincando com os seus companheiros de classe. As aquisições serão agora produto do seu próprio esforço, cabedal preciosíssimo que ele observa, assimila e usa, tornando-se dia a dia mais familiarizado com os vocábulos novos que vai obtendo e com os elementos da sua construção.82

O Prefácio de JOVIANO estava em pleno acordo com o Programa de Ensino de 1906, no qual a aplicação o método analítico da palavra foi detalhadamente descrito para aplicação no primeiro ano escolar:

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JOVIANO, Primeira Leitura, p.I.

80 Ibidem, p. III. 81 Ibidem, p.IV. 82 Ibidem.