Após a morte de Sá Penella, em 1955, a sua viúva doou ao então re- cente Hospital Escolar de Santa Maria a biblioteca, o arquivo pessoal e a colecção de histopatologia pertencentes ao médico. A biblioteca foi in- cluída na biblioteca da Faculdade de Medicina sem referência à sua doa- ção; a colecção de histopatologia ainda hoje se conserva nos serviços de dermatologia; e infelizmente reporta-se que o seu arquivo pessoal terá sido então destruído.24
22Sampaio, 216-217.
23Carrasco, 15.
24Assim o testemunha um então jovem estagiário de dermatologia no serviço dirigido
Quanto ao arquivo pessoal de Caeiro Carrasco, assim como o catá- logo do museu que ele refere, possivelmente um manuscrito ilustrado com fotografias, poderão estar no arquivo do Hospital dos Capuchos, ainda inacessível aos investigadores.
Acessível à investigação está o arquivo dos Hospitais Civis de Lisboa, depositado na Torre do Tombo, onde pesquisámos minuciosamente os trinta livros referentes às décadas de 1930 e 1940 com os registos de ofí- cios da secretaria e de ordens de pagamentos, em busca de referências a Sá Penella, Caeiro Carrasco e ao ceroplasta – ou ceroplastas – que con- ceberam as moldagens. Encontrámos registos da acção dos dois médicos nos seus serviços, mas nenhum deles abriu pistas sobre os ceroplastas.25 O facto de não existir entre nós uma tradição de ceroplastia anatómica ou dermatológica, e o facto de o período em que a maioria das moldagens foi executada (1935-1945) coincidir com a ascensão e queda do regime nazi, faz-nos levantar a hipótese de que o ceroplasta possa ter sido algum artista refugiado temporariamente residente em Portugal. Recorde-se que no ano de 1935 o Desterro recebeu a visita Lucien-Marie Pautrier, um professor de Estrasburgo que incentivou várias reformas no ensino e na investigação da dermatologia portuguesa. Estrasburgo era então um centro de refugiados judeus e anti-nazis. Poderá algum deles, artista ceroplástico, ter integrado a equipa que Pautier deslocou a Lisboa – e aí ter permane- cido? Por ora trata-se apenas de uma hipótese a investigar. 26
Dos nomes estrangeiros registados nos livros dos serviços administra- tivos, excluídos os fornecedores de medicamentos e instrumentos, sur- gem a já citada Dr.ª Bronia Finkler,27judia polaca, que em 1945 emigrou para os Estados Unidos e trabalhou em clínicas de Nova York.28Também
25Embora sem fundamentação completa, cremos que as despesas efectuadas pela con-
cepção da moldagens poderão ter figurado como despesas pessoais destes dois médicos – vá- rios outros indícios sugerem haver sobre elas um certo sentido de propriedade.
26A investigar ficam também as pistas dadas num registo encontrado no livro dos serviços
administrativos com a data de 16 de Abril de 1938, onde está registado um pedido de Sá Pe- nella, deferido pelo enfermeiro-mor: «Do Director do Serviço 3 do H. Desterro, pedido para se adquirir, por conta do fundo de donativos do mesmo serviço, um atlas que está prestes a publicar-se em Budapeste, ‘Corpus Hominus Morfom...(?)’» (TT/ HSJ/Livro 5942, Liv.17, 5.ª Série, 130v.). Um livro publicado na Hungria não é obrigatoriamente em húngaro, mas então porque não adquiri-lo através de livrarias francesas ou alemãs?
27Agradecemos ao Dr. Aureliano da Fonseca (entrevista, Julho 2011) os preciosos depoi-
mentos sobre algumas destas personagens.
28Encontramos um registo de nome idêntico para uma residente no estado da Flórida –
aparece um A. Worn, que a 18 de Maio de 1938 se oferece como enfer- meiro estrangeiro com prática nos hospitais da Suíça, América do Norte e do Sul.29Também o Prof. Friedrich Wohlwill (Hamburgo 1881 – EUA 1856) emigrou para Portugal com toda a família, em 1933, expulso do serviço onde trabalhava no tempo do nazismo ascendente, intolerante à sua «condição não ariana». Em Portugal, Wohlwill foi professor de ana- tomia patológica no Hospital Escolar de Santa Marta. Dos seus cinco fi- lhos, três radicaram-se nos EUA. Após a guerra, em 1946, Wohlwill partiu também para Estados Unidos.30No Dicionário de Pintores de Fernando Pamplona consta o nome Gretchen Wohlwill, nascida em Hamburgo em 1878, que só emigrou para Lisboa em 1940, «onde vivia em casa do seu irmão Fritz» (Prof. Friedrich Wohlwill). Em 1952 Gretchen Wohlwill re- gressou a Hamburgo, onde faleceu em 1962.
Com dados biográficos semelhantes surgem outros dez nomes de ar- tistas estrangeiros que residiram em Portugal entre os anos de 1935- -1945. Entre esses, como possíveis autores das moldagens, temos:
Braumann (Dr. Max), 1880-1969 – Pintor e desenhador alemão. Nas- ceu em 1880 em Munique. Fixou-se em Portugal em 1934, onde veio a falecer. Era formado em ciências naturais. É sobretudo um pintor paisa- gista expressionista cotado no mercado de arte.
Klanche (Fritz Ernest) – Pintor alemão de origem israelita, paralítico, sobre o qual não temos mais informações, mas um artista paralítico nas enfermarias dos hospitais, perdura na memória.
Semke (Hein), 1889-1995 – Escultor alemão, nasceu em Hamburgo em 1899. Fixou-se em Portugal em 1932, onde faleceu. Não era judeu. Veio para Portugal por questões de saúde. A expressão plástica da colec- ção de bustos guardados no Museu do Chiado sugere que o seu autor tenha sido alguém que trabalhou com anatomia humana. Semke foi ho- menageado em Lisboa em 2005, com diversas exposições. O catálogo da exposição do Museu do Chiado inclui uma nota bibliográfica, de Paulo Henriques, que refere a diversidade de materiais que este artista utilizava:
Com uma produção inicial centrada na Escultura, Hein Semke inscreveu o seu pensamento artístico numa fusão criativa que escolhe indiferentemente as mais diferentes disciplinas, o Desenho, a Cerâmica, a Gravura, a Aguarela
29TT/HSJ/Livro 5931, 75.
e a Pintura, atitude que revela a integralidade do ser realizada na pluralidade expressiva.
Com larga experiência e multivalente, este artista aparece-nos como um forte candidato a preencher o lugar do misterioso ceroplasta por iden- tificar.
A colecção
A história recente
Em 1969-1970 os serviços de dermatologia e venereologia do Hospital dos Capuchos encerraram; a colecção de moldagens de Caeiro Carrasco foi para o Hospital do Desterro e ficou incluída no «Museu Sá Penella».
O museu não era mais que uma sala, com paredes cobertas por ar- mários onde se guardavam as moldagens, consideradas obsoletos diapo- ramas do exercício da clínica dermatológica. A maioria das doenças re- presentadas tinham desaparecido com novos medicamentos ou já não se mostravam com a exuberância plástica de outrora. Por outro lado a fotografia e a informática tinham ocupado o lugar dos diaporamas do ensino dermatológico.
A colecção de moldagens representa para a história da medicina a fase imediatamente anterior à introdução da penicilina na terapêutica derma- tológica. Por outro lado é plasticamente bela, de um hiper-realismo criado pelo próprio processo de manufactura: negativo em gesso sobre partes do corpo dos doentes representados, positivo em cera policromada com a introdução de pelos nas partes pilosas.
Foram estes valores que incentivaram João Carlos Rodrigues (1951- -2008) à preservação e ao estudo da colecção. A este dermatologista, chefe de serviço no Hospital do Desterro, encerrado em 2007, deve-se a salva- guarda das moldagens. A sua morte prematura não lhe permitiu concre- tizar o sonho de um museu aberto a públicos mais amplos.
Mas para que serviam estas moldagens? A resposta sempre nos pare- ceu óbvia: para o ensino da dermatologia. Porém, após entrevistarmos o Prof. Aureliano da Fonseca (Julho de 2011), colocaram-se-nos algumas dúvidas sobre esta função pedagógica. Este dermatologista e professor jubilado da Universidade do Porto fez o seu estágio no Hospital dos Ca- puchos entre 1941-42 e frequentou os serviços de Sá Penella, mas desco- nhecia a existência das moldagens. É certo que as colecções ainda esta-
vam em formação e o museu só viria a abrir em 1955, mas o não-acesso de um estagiário às moldagens já então existentes sugere que estas peças tiveram, pelo menos durante algum tempo, uma função de prestígio que não se traduzia necessariamente na sua exposição pública.
Referências
Carrasco, Manuel Caeiro. Curriculum Vitae – Títulos e trabalhos científicos, Lisboa, 1944. Esteves, Juvenal, e Caeiro Carrasco. Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Dermatologia, XXVI/
1, (1968).
Esteves, Juvenal. «O Dr. Luís de Sá Penella e a fundação da Sociedade Portuguesa de Derma- tologia e Venereologia». Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Dermatologia, XIII, 4, (1955): 221-223.
Fonseca, Fernando, Mário Moreira, Diogo Furtado, Luís Penella, Chaves Ferreira, Juvenal Es- teves, Manuel Carrasco, Meneres Sampaio, Dias Amado, Morais Cardoso. Lições sobre sí-
filis. Lisboa: Edição Casa Wander, 1946.
Henriques, Paulo. Hein Semke, Catálogo de exposição. Lisboa: Museu do Chiado, 2005. <http://www.museudochiado-pmuseus.pt/pt/node/224?page=3>.
Jarck, Félix. Correio Luso-Hanseático, n.º 28. <http://p-hh.de/index.php?page=40&id=723>. Pamplona, Fernando, e Ricardo Espírito Santo. Dicionário dos Pintores e Escultores portugueses
ou que trabalharam em Portugal, 5 Vols., 2.ª edição. Lisboa: Editora Civilização, 1987-88.
Penella, Luís de Sá. «Os progressos da sifiterapia». Imprensa Médica, XI/20, (1945): 304-313. Sampaio, Meneres. «Sá Penella e o seu labor hospitalar». Trabalhos da Sociedade Portuguesa de
Dermatologia, XIII/4 (1955): 215-218.
Trincão, Mário. «O Dr. Luís Alberto de Sá Penella». Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Der-
António Perestrelo de Matos*