KAPITTEL 2 TEORETISK RAMMEVERK
2.4. Barnas rolle i meklingsordningen
Os lugares ocupados pela família, apontados por cada uma dessas Epistemes específicas, parecem ser os grandes alvos que justificam as investidas sobre o grupo familiar. Nesse momento, entendemos ser importante fazer duas ressalvas. A primeira diz respeito a não ser nossa intenção anunciar que o conjunto de diferentes Epistemes apresentadas faz um corpo coeso em suas regularidades internas, embora em alguns casos possam ser feitas aproximações. O que pretendemos deixar claro é que essas Epistemes não se reduzem umas às outras e que, portanto, não podem ser articuladas como uma soma linear de contribuições, ainda que, sob algumas perspectivas, aproximações entre fenômenos destacados por cada campo específico de saber possam influenciar-se mutuamente. Por exemplo, a ideia da interdição do incesto cara à Psicanálise e presente na Antropologia Estrutural de Lévi-Strauss.
A segunda intenciona esclarecer que, embora algumas dessas Epistemes possam ter seu estatuto científico questionado, como a Psicanálise, por exemplo, são utilizadas muitas vezes como suporte a outros campos do saber científico, como a Medicina. Nesse sentido, findam por servir, nessa integração, às diretrizes do campo científico e operar com seus valores.
Queremos, no entanto, dizer que incluídos em um projeto maior, o do saber científico, essas Epistemes operam como grupos táticos diferentes, perseguem e são validadas
pelos valores da ciência que, como consequência, parecem produzir efeitos em conjuntos quase totalizantes, incidindo sobre a família em múltiplas dimensões.
De tal modo, mostramos que as contribuições do materialismo-histórico e do positivismo, cada um a sua maneira, ao pôr fim à ideia de uma família natural e a um plano divino de continuidade das organizações familiares, trazem a dimensão de construção para a instituição familiar e de seu papel estruturante na organização social mais ampla, por meio da maneira como se configura. Família e sociedade apresentam estreita relação, modificar uma é modificar a outra.
Sob a perspectiva feminista, temos o desvelamento das relações de conflito e desigualdade no interior da família. A família não pode mais ser encarada como um todo coeso. Muitas das relações conflitivas intra-familiares, para essa perspectiva, encontram eco nas relações sociais mais amplas a partir do espaço de desvalorização da mulher presente na sociedade como um todo, inclusive na família. Atentar para os conflitos e desigualdades na família é atentar também para os mesmos elementos na sociedade.
No Funcionalismo, a família é tomada a partir de seus aspectos que colaboram com a coesão e integração social. Esclarece-se como as funções exercidas no momento atual pelos membros da família, entre si, organizam e ordenam a sociedade. Controlar a família é controlar, em tese, a sociedade.
No Estruturalismo, as rediscussões em torno das questões de natureza e cultura – com a conclusão da vitória da afetividade sobre a consanguinidade a partir do princípio geral, no Ocidente, da exogamia – permitem pensar a mobilidade e as diferenças familiares que se originam em um mesmo lugar. A família só se subsistiria pela presença de algum tipo de permanência, alguma estrutura ainda que seja uma regra cultural.
Na Psicanálise, traz-se para a família o lugar de origem dos conflitos psíquicos e o seu caráter mítico, onde se sugere uma não preocupação a respeito de seu início e origem, não sendo uma preocupação psicanalítica (pelo menos inicialmente) quando a família se tornou família e como se configurou a partir de uma lógica entre pais e filhos. Toma-se como fato que família tem um caráter hegemônico na maneira de socialização humana, estando presente para todos e em todos os lugares. A forma família é, então, o pontapé inicial das relações do sujeito com o mundo. Atuar na família é agir sobre os conflitos psíquicos, tendo repercussões nas posteriores relações sociais.
Na perspectiva comportamental, a ideia de três níveis de seleção, o paradigma de seleção por consequências e a dimensão ampliada que dão ao conceito de ambiente possibilitam pensar um lugar para a família como aquele que também compõe as condutas dos
indivíduos e que, a partir da forma como respondem às condutas de cada um de seus membros, protagonizam a constituição de novos comportamentos. Garantir determinadas formas de reação familiar é fomentar situações específicas para os indivíduos.
Na abordagem sistêmica, as relações de comunicação da família, em seus efeitos pragmáticos, são colocadas sob a perspectiva não de como ela afeta um indivíduo em particular, mas, sim, todo o sistema familiar. Nesse sentido, as dificuldades familiares se dão por problemas nos padrões de comunicação e geram efeitos sobre todos os membros ao mesmo tempo, embora sob aspectos diversificados. Alterar os padrões comunicacionais de um membro significa alterar todo o sistema.
Por último, as contribuições da Escola de Annales, particularmente as de Phillipe Ariès, trouxeram reflexões a respeito de como culturas específicas pensam as questões naturais, e como os aspectos objetivos de uma realidade social determinada e a mudança em seus padrões culturais podem repercutir sobre as ordens mais privadas, como a dos sentimentos e afetos. Como mudanças em práticas comuns e cotidianas e modificações objetivas, tal qual o aparecimento da escola, podem implicar em mudanças afetivas na família. Modificar o cotidiano pode acarretar transformações em todas as dimensões, inclusive na ordem dos afetos.
Esses lugares feitos visíveis pelas diferentes Epistemes tornam-se, então, potenciais alvos a serem avaliados pela lógica social contemporânea da Gestão dos Riscos e da Performance. Como nos fala BECK (2011), há uma relação próxima e de dependência entre associações cognitivas e risco. O risco torna-se visível por meio de nexos de causa entre eventos aproximados pela reflexão. Retomaremos posteriormente e em maior profundidade a questão do risco.
Nesse sentido, de forma simplificada, cada Episteme torna visível uma variedade de riscos encontrados a partir da leitura sobre a família, no que se refere às coordenadas lógicas internas e próprias a cada Episteme em particular. Dessa forma, se para a matriz materialista-histórica e para a positivista é apresentada a ideia de que a família é uma construção social, logo as modificações, transformações e vicissitudes na configuração familiar e na divisão social de seus papeis podem potencialmente apresentar-se como riscos.
Diante dessa lógica, seguem as demais matrizes que identificam riscos potenciais a partir do que tornam visível no próprio grupo familiar. Nas demais matrizes sócio- antropológicas, observamos que: para o feminismo, podem ser visualizados riscos no conflito e na desigualdade presente no interior das famílias; para o funcionalismo, os riscos estão relacionados à dimensão da coesão e integração social que pode ser excessiva ou precária, por
exemplo; para o estruturalismo, os riscos podem estar presentes na forma como as relações da cultura repercutem sobre as bases estruturais da família.
Nas matrizes psicológicas: para a Psicanálise, as relações entre pai, mãe e filhos a partir das posições e funções que ocupam, por serem o núcleo estabelecedor das neuroses, podem ser tomadas em alguma medida como arriscadas; para a abordagem comportamental, as reações às atitudes e comportamentos de qualquer um dos membros da família em relação aos outros pode ser encarada como um risco na medida em que essas reações constituem os comportamentos individuais de cada membro; para a abordagem sistêmica, os riscos estão na forma como se estabelecem os padrões de comunicação familiar.
Na matriz histórica, referente à Escola de Annales, os riscos podem ser identificados a partir das mudanças nas práticas culturais e na história da mentalidade de uma cultura a respeito dos eventos da própria cultura. Todas essas relações mapeadas e encontradas na família tornaram-se aspectos visíveis e possíveis alvos no contemporâneo. A partir do momento em que as relações visibilizadas na família podem se apresentar como problemas à Performance ou como expressões de Risco é que se justificam intervenções sobre o grupo familiar, possibilitando administrações e regulações da vida familiar, tornando-a menos arriscada e obtendo um melhor desempenho dela. Essas questões implicam diretamente nas dimensões da liberdade, da diferença e da Alteridade.
4. AS MODIFICAÇÕES NA FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA: UMA REVISÃO