1. Innledning
2.1 Barn før skolealder 15
No esforço de pensar a conectividade clínica e beatitude, aos três elementos de uma clínica – experiência, comunhão e amor, somam-se outros: disposição / disponibilidade, humor, resistência / entrega à dor e ampliação da vida. Matérias de uma clínica, no sentido de materiais, de elementos da cena, no sentido quase mineral, dos minérios que se misturam na terra.
A disponibilidade, isto é, o estar ali, o corpo que posiciona para a clínica, base da concretude dos encontros, aproxima-se da disposição, a força com que este corpo se apresenta, ou seja, a vitalidade, que por sua vez, aumenta ou diminui a cada encontro clínico. O humor, diferentemente da ironia, desdobra linhas quebradas, humor como traição, ligado a um devir minoritário, nas palavras de Deleuze; mas também como modo de funcionamento, modo clínico, que aumenta a potência da clínica. O humor como arte e tecnologia do encontro. A resistência e a entrega à dor, a relação com a dor a partir de seus quantitativos, o grau de variação das intensidades e o processo das variações em cada clínica: a resistência como criação e fuga, partida, escape e a entrega como aceitação tácita, incondicional, afirmativa da vida. A ampliação da vida, o aumento das potências operantes na clínica, na literatura, na vida, é quase beatitude, experiência de transpassagem, momento raro e difícil. Mas como sabê-lo? Como escrever uma beatitude?
Beatitude nem como ponto de partida nem como ponto de chegada, mas como experimentação dos limiares de intensidade de uma clínica. Uma idéia bem simples: quanto mais vida, mais morte; quanto mais morte, mais vida. Contra toda uma tradição que opõe vida e morte, a experiência clínica parece fazer coincidir intensidades aparentemente inconciliáveis. Quanto maior a vitalidade de uma clínica, mais ela se aproxima de seu limite de possibilidade. Da mesma forma no seu limite de impossibilidade: quando nada mais é possível, a experimentação clínica libera suas potências mais avassaladoras, configurando e desfazendo margens de beatitude.
Beatitude como dimensão da experiência clínica surgida no espaço terapêutico, onde conhecimento e criação produzem mais vida, liberam mais intensidade. Amor intelectual de Deus. A experiência clínica ao mesmo tempo em que é interativa é permanentemente instável, produzindo estados novos a todo o momento. Eis a utilidade do terapeuta, a produção de linhas de fuga, a qualificação de alguns estados de saúde, justamente quando alguma coisa como a amizade sustenta travessias caóticas. Travessias que se
constituem na medida em que buscamos, nos termos de Espinosa, a salvação, desejo de encontro entre vida e potência.
Na escrita de uma beatitude algo se perde daquilo que foi experimentado no encontro. Por outro lado, na escrita de uma beatitude algo se ganha, na medida em que a própria escrita traz consigo a possibilidade de alegrias ativas e beatitudes. As processualidades dissonantes da clínica e da escrita conectam-se exatamente onde ambas, no plano dos modos de existência, podem ser beatíficas.
Maria Aparecida levava uma vida aparentemente calma como dona de casa: cuidava da família, gostava de ir à igreja e se considerava feliz – um modo de existência pouco comum nos dias atuais. Pouco falava de seu passado ou de suas experiências, elas não contavam como importantes, para si própria, e aparentemente para aqueles que a rodeavam, dado que tinha assumido um papel secundário, um papel secundus no contexto familiar, e ao mesmo tempo fundamental, na vida do marido e dos filhos. O nome do romance de Robert Musil caberia perfeitamente em Aparecida: uma mulher sem qualidades, comum.
Aos quarenta e sete anos recebeu o diagnóstico de um câncer no seio, sentença que naquele momento, levando em consideração os parcos recursos da paciente e de seu ambiente, significava morte. Seriam parcos estes recursos? O diagnóstico lhe caiu como um raio, uma descarga elétrica que convulsionou seu corpo. Maria Aparecida se submeteu à quimioterapia. Logo no início me procurou para ‘terapia’. Dizia ter certeza de que morreria e lastimava a vida dos seus a partir de então. Perguntava-se por que ela, porque aquela doença, e se queixava das dores, da queda de cabelo, do emagrecimento, mas fazia o possível para seguir com suas rotinas. Vou perder a vida, era a expressão usada quando se acalmava em determinados momentos em que o caos de pensamentos e sensações, durante as sessões, se abrandava.
Na primeira sessão fez o seguinte relato: quando recebi o diagnóstico senti que havia um animal dentro de mim, uma agitação interna, algo que virava de cabeça para baixo minha vida. Chorei muito, temi pelo futuro, inquietei-me... Em outros momentos fiquei louca, possessa, o animal queria sair.
O tempo de seu tratamento comigo corresponde ao período que vai do pós- diagnóstico até a estabilização de seu quadro, após cirurgia e retirada de nódulos, isto é, o tempo da quimioterapia e da doença. Ela sobreviveu ao câncer e é, portanto, uma sobrevivente. A doença para Maria Aparecida foi um acontecimento, algo que efetivamente promovera uma ruptura com seu modo de existência anterior. Em uma das sessões finais disse
que o animal saiu e que se sentia como uma santa, alguém que falava com Deus – mas não sou louca, hein! – e que se sentia mais cheia de vida.
Experiências como a de Maria Aparecida, doença com teor estigmatizante e sobrevivência, são muito freqüentes. O acontecimento singular deste encontro terapêutico é o animal que sai de dentro, a potência que explode quando o animal fareja o perigo. A vida simples se converteu em tanta coisa: envolvimentos, rupturas, ações, amores, amplificação de intensidades adormecidas que fizeram explodir modos de vida – a doença estava antes, como ela mesma disse.
Observei certa vez que seu rosto mudara durante o tratamento, no hospital e comigo, e ela tomou isto como um elogio a sua beleza: olhos castanhos, nariz aquilino, o queixo com a covinha, a pele morena. Nas últimas sessões percebi que ela sentia a vida como encantada.
No relato de caso perdemos a mutação clínica processada ao longo do tratamento. A linguagem é insuficiente. A vida comum, carregada de excepcionalidade, fica mais potente quanto mais experimenta suas mortes, seu fim, seu próprio aniquilamento. Virtualidade e potência de uma clínica: beatitude como questão.
A beatitude na clínica contempla o factível e a fatalidade, preende algo de fatalista, de aceitação incondicional do sofrimento e da dor, e ao mesmo tempo prende-se à vida, preende a vida, beatitude de um único estado, de um desejo potente em demasia e de uma saúde das intensidades. De um lado, a beatitude dos instantes, de outro, a beatitude das passagens. Tempo e espaço unidos pelo trabalho da criação; desejo de eternidade como desejo de criação.
A beatitude que se desprende de uma clínica, a singularidade de um nome, este que tem seu encontro com a morte, Maria Aparecida, por exemplo, é a beatitude da criação de um modo de existência, a produção de linhas singularizantes, indiferentes às formas e à excepcionalidade; e a potência do encontro transborda para fora da subjetividade, excede a vida, reinventa, vira outra coisa, outro estado, outra saúde. Subjetividade que transborda ou subjetividade des-subjetivante. No jogo das forças, o corpo experimentava o nome Maria Aparecida como encantado. A beatitude clínica, inevitavelmente trágica, comporta os processos do encantamento, espécie de feitiço destinado ao apagamento, à destruição, à aniquilação.