Voltávamos a Milho Verde conforme a promessa. O filme ficara pronto apenas dois dias antes de nossa viagem e a expectativa aumentava na mesma proporção de terra e poeira na pintura do carro. Vencida a última colina, chegávamos exaustos pela madrugada inteira de estradas, já no sábado da festa. Fomos ao instituto Milho Verde para anunciar nossa presença. Nando e Bruno nos receberam calorosamente, contando as novidades e os desdobramentos dos últimos projetos. Neste encontro, acabamos sabendo que Enílsson, filho de seu Crispim, assumiria seu lugar como embaixador nos
catopês. Pelo clima da comunidade, percebíamos que a festa do Rosário de
Milho Verde acontecia com uma dinâmica diferente à do Serro. A ausência das barracas e o baixo movimento de pessoas nas ruas causavam uma estranha sensação para quem já vivera o Rosário no Serro. Porém, alguns preparativos
estavam sendo ensejados. De algumas casas, o cheiro da cebola, da farinha torrada e da carne de porco era percebida de longe. Das janelas abertas, o colorido dos fardamentos trasbordava para o lado de fora, enquanto o fluxo de pessoas entre as casas vizinhas era constante. Em uma especial, havia um altar improvisado sobre uma mesa de canto com uma toalha de linho, imagens diversas de Nossa Senhora do Rosário se misturando a velas vermelhas, azuis e verdes. Do alto do teto, fitas de cetim coloridas pendiam como uma chuva imaginária.
Caminhamos pelas ruas, encontrando vacas pastando soltas ao lado de cercas com toalhas e roupas secando ao sol, e campos improvisados de futebol onde garotos descalços disputavam uma animada partida. Uma pequena cobra atravessava calmamente uma estreita ruela. No mais, apenas uma rodinha de amigos degustava latinhas de cerveja, sentados no chão, apreciando o movimento dos raros carros que passavam.
Caíaa noite em Milho Verde e o movimento começava a aumentar. Ao fundo, um paredão de rochas, conhecido como Lajeado, brilhava com os últimos raios do sol. No largo principal da cidade, a pequenina igreja em marrom e branco, ocupa a área isoladamente, com sua única torre ostentando um grande galo no alto de sua cruz. Ao lado, limitado por um muro baixo, o cemitério de túmulos pequenos e cruzes de madeira com o mato avantajado tomando conta. Em uma das pontas, um oratório de pedra com iluminação elétrica, ostenta uma imagem por trás do vidro e da grade que o protege. Ao redor, dois bares afastados um do outro, são o deleite da população simples do lugar, com os balcões servindo cervejas e rodas de conversas debaixo das luzes mortiças que estampam prateleiras de petiscos empacotados. Na rua da frente, cerca de quatro barracas vendiam pequenos artesanatos, sanduíches de pernil, de linguiça, além de copos de cachaça e cerveja. No outro extremo, uma piscina de bolinhas e um tiro ao alvo completavam as atrações.
Neste espaço, a pequena multidão circulava, enquanto na pequena igreja do Rosário, a novena tinha início com as senhoras que chegaram de braços dados. Encostado na igreja, um pequeno palanque e caixas de som se defrontavam com uma bateria de fogos de artifício. Seguimos para longe do burburinho, em busca dos catopês e seu Ivo. Caminhamos por ruas escuras onde mal se enxergava por onde pisávamos. Postes de luz bem afastados um
do outro, indicam o caminho a seguir. Sem grandes transtornos chegamos a uma casa mais iluminada. Nela encontramos os catopês em trajes civis e um Ivo alvoroçado. Demonstrando preocupação, gesticula e dá instruções a todos ao redor. Ficamos a uma distância suficiente para que não cause transtornos. Pelo lado de fora, janelas abertas derrubam as luzes internas que são prontamente engolidas pela escuridão da noite fechada. Conversas paralelas se distribuem pelo lado interno e externo da residência. Mulheres com crianças de colo embrulhadas em cobertores, jovens em bando e senhoras encolhidas observam os acontecimentos. Não se nota, aparentemente, a presença de membros da irmandade. O comando do andamento da celebração fica por conta de seu Ivo. Sendo assim, após uma reza de todos na sala, em volta de uma imagem e de uma cruz, seu Ivo ordena a caminhada rumo a um destino que ele determina. Aparentemente, não haverá nova parada no caminho rumo à igreja.
Os catopês chacoalham seus instrumentos e os tambores irrompem pela rua mal iluminada.O fogueteiro acende algumas mechas e estampidos arrebentam na escuridão, fazendo-se sentir ao longe, nas montanhas. Em seguida, distribui algumas luzes de artifício que ardem em volta do caminho do grupo. Curiosamente, é o mesmo responsável por este trabalho no Serro. Lá, mantém dois negócios em paralelo: especialista em fogos de artifício e uma empresa de transporte funerário. Os catopêsde Milho Verde avançam de forma resoluta e com cadência diferente quando comparados aos do Serro. Sua batida é mais forte no tambor, além de um caminhar mais rápido. Seu Ivo comanda com mais força, puxando o grupo sem evoluções desmesuradas, mas resoluto. Fica difícil acompanhá-los pela velocidade que imprimem no trajeto. Assemelham-se a um grupo determinado avançando para uma batalha decisiva. Uma senhora conduz uma imagem, enquanto outro leva a cruz menos imponente que a do Serro. Porém, a rusticidade da paisagem noturna provoca uma intensidade que potencializa os sentidos envolvidos. O terreno, embora plano, torna o caminhar mais difícil pelas irregularidades do piso de terra bruta e a iluminação escassa. Os reco-recos parecem ser raspados com maior força, impulsionando os passos mais à frente. A alternância de espaços com e sem iluminação, produzem uma sensação pulsante no séquito. Aos poucos, uma enorme multidão vai sendo agregada pelo caminho. Seu Ivo, com sua voz em
falsete, eleva o tom puxador com frases que lembram dialetos africanos, tendo resposta pronta do restante do grupo. Apesar de sua dificuldade em caminhar, seu Ivo é uma força motriz eficiente e segue incólume. As luzes dos fogos tornam sua expressão fantasmagórica, porém, poderosa na condução.
Neste ritmo, chegamos rápido ao largo da igreja. O grupo adentra com vigor, fazendo com que a pequena multidão se aglomere para acompanhar a passagem. Cervejas são abandonadas no balcão e guloseimas são proteladas para testemunhar a marcha para a igreja. Da porta, o padre aguarda a chegada da multidão, que adentra o pequeno espaço. Por ser diminuta, boa parte das pessoas não encontra espaço para acompanhar e permanece do lado externo. Um alto-falante cuida de reproduzir o som para os que ficaram de fora. Uma missa cantada tem início após o silêncio dos catopês. No lado profano, os componentes não se atiram aos bares como no Serro. Controlados com mão de ferro pelo mestre Ivo, resolvem não correr o risco. O movimento externo não é monumental, mas as poucas barracas são disputadas pelo público que se desloca de um lado a outro. Em Milho Verde, a festa noturna é mais concentrada em um espaço que toma o largo em torno da igreja. Na parte mais escura, atrás da igreja, casais de namorados procuram aproveitar os pais que se encontram ocupados com as rezas ou nas rodas de conversas.
Ao lado da bateria de fogos, o especialista do Serro ultima os preparativos. Nando e Bruno nos informam que faremos a primeira exibição do documentário na parte traseira da igreja, que possui uma parede clara que funcionará como uma tela. Seremos obrigados a interromper namoros e trocas de carinhos.Enquanto isto, a missa está em seus momentos finais. Ouvimos os primeiros acordes que indicam a saída dos catopês e o levantamento do mastro. O público volta a ficar concentrado pela expectativa do momento. Da estreita porta, surge a figura de seu Ivo ladeado pelos outros componentes, deixando a igreja em direção à área central do largo em busca do mastro que será erguido. Com uma meia-volta, os catopêsse concentram no mastro que está no chão. Do alto das cabeças, a madeira se eleva até ficar na vertical e é afixada no buraco previamente aberto. Os fogos são acesos e a bateria começa seu trabalho de fazer espocar luzes e sons que ricocheteiam pelo vale. Embora menos exuberantes e sofisticados que os do Serro, o espetáculo não deixa de empolgar a multidão presente, que acompanha com
gritos e suspiros cada estouro que alcança o céu estrelado. Enquanto luzes de artifício ainda ardem na base da bateria colocada no chão, os catopês formam uma coluna que começa um desfile ao redor desta luminosidade. As silhuetas dos componentes atravessam os fogos coloridos em tons de vermelho e amarelo, lembrando entidades que surgem de profundezas distantes. O som dos catopês ajuda a criar o ambiente sobrenatural da celebração, parecendo mostrar um lado assustador da força que a devoção promove. Algumas voltas e os tambores se calam. O público começa a se dispersar, mas o som de um microfone anuncia que na parte externa da igreja, o documentário “Ausência”, em homenagem a Crispim, será mostrado. Mesmo de pé, a multidão se concentra para apreciar o trabalho. Ficamos ansiosos pela reação. Fico próximo de seu Ivo que permanece estático e taciturno. A projeção começa e a sequência de imagens é acompanhada por comentários e sorrisos de lembranças. Ao final, quando as cenas do enterro aparecem, temos o surreal estampado pela imagem frontal da igreja projetada em seu lado posterior. Somos saudados por uma fila de pessoas que faz questão de apertar nossas mãos, enquanto vejo seu Ivo desaparecendo no escuro das ruas. Fico na dúvida sobre seus sentimentos quanto ao trabalho, mas tive este retorno apenas no dia seguinte, quando questionei o que sentira e ele me respondeu, com um olhar firme e consciente: “Gostei, está de acordo com que penso”. O silêncio não se restabelece, pois do salão ao lado do cemitério o forró que sai das caixas externas, indica que o baile está começando ao sabor da fumaça residual da queima da celebração. Nesta hora, tivemos a exata percepção do sacro e o profano combinando e medindo forças.