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Textos relacionados aos, como o próprio nome diz, críticos e artistas, que participaram da Bienal em algum momento de suas histórias.
- “Mário Pedrosa”, da Fundação Bienal, p. 20 (Ed. nº 1); - “Maria Martins”, de Raul Antelo, p. 20 (Ed. nº 2);
O texto sobre Mário Pedrosa mostra um homem politicamente ativo e, ao mesmo tempo, ligado ao mundo das artes. A matéria começa narrando a atitude de alguns intelectuais e artistas internacionais que assinaram uma carta pedindo que o Presidente Médici libertasse o crítico, que era preso político aos 72 anos de idade. “A história de Pedrosa se liga aos acontecimentos políticos mais importantes do país e ao modo como a arte brasileira passou a pensar sobre si mesma no século 20” (FUNDAÇÃO BIENAL, 24 out. 2008, p. 20).
Sua ligação com as Bienais se tornou mais forte na sexta edição, da qual ele foi diretor artístico. Nessa exposição tentou trazer obras resultantes da primeira fase da Revolução Russa, mas a União Soviética não mandou para o Brasil suas principais produções artísticas do período. Mesmo assim, com obras de outros países do bloco comunista, a arte aborígene australiana, a história da caligrafia japonesa e os afrescos indianos, Pedrosa conseguiu realizar a sua Bienal. “Ao crítico brasileiro interessava não apenas mostrar obras, mas refletir sobre as circunstâncias e origens da produção artística. Um modo de olhar para a frente tomando de impulso o que foi deixado como herança” (FUNDAÇÃO BIENAL, 24 out. 2008, p. 20).
Já a história de vida mostrada no texto sobre Maria Martins, produzido pelo professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Raul Antelo, mostra uma mulher de vida, a princípio, parecida com a de Yolanda Penteado. Moça bem-nascida, que cresce em um ambiente cercado de políticos e artistas (seu padrinho é Euclides da Cunha) e que, também, tem a arte como habitus. “A menina aprendeu, logo no berço, que a escultura é uma questão de duração ou retard, um interregno, um vir fora de tempo, que não se define tanto pela supremacia do gênio do artista, e sim pelo trabalho de colaboração cultural coletiva” (ANTELO, 31 out. 2008, p. 20). O que difere as duas incentivadoras da Bienal é que, ao contrário de Yolanda, Maria não se contentou em ser apenas mecenas e trabalhou como artista plástica, em especial, escultora.
Casada com o diplomata Carlos Martins Pereira e Souza, a artista viveu em diversos países, onde pôde aprofundar seus conhecimentos sobre escultura na França e Bélgica. Ao se mudar para Washington (EUA), ela conheceu artistas renomados no país e, inclusive, integrou o grupo surrealista de Masson, Tanguy, Matta, Max Ernst e Marcel Duchamp. Foi graças ao relacionamento com este último que ela alcançou visibilidade e consagração com seu trabalho. Depois disso, ela expôs em várias galerias e museus tanto brasileiros quanto internacionais. “O crítico Geraldo Ferraz considerava Maria Martins o melhor aprofundamento da pintura antropofágica de Tarsila, particularmente em seu aspecto erótico e
reivindicatório do informe, captado em sua dimensão agarrada e tensa” (ANTELO, 31 out. 2008, p. 20).
É no artigo da pesquisadora Ana Cândida de Avelar sobre Lourival Gomes Machado que percebemos de maneira mais forte o poder legitimador da Bienal. A frase-tema da exposição de 2008, “Em Vivo Contato”, é um excerto do catálogo da Bienal de 1951 escrito por Lourival, que foi o diretor artístico da primeira edição do evento. Percebemos que, mesmo pertencendo ao campo das artes por sua trajetória profissional e tendo sido legitimado ao ser o diretor artístico da primeira e quinta edições do evento, agora ele é consagrado por essa mesma instituição por meio do uso de uma frase de sua autoria para nortear a edição a que se refere o 28b.
Gomes Machado era um intelectual extremamente ativo no meio artístico brasileiro desde os anos 40. Na época da criação da Bienal, o crítico paulista era diretor do MAM de São Paulo, assumindo o cargo em 1949, logo após a saída do crítico belga Léon Degand, primeiro diretor do museu. Gomes Machado era também professor de Ciência Política na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), e, pouco tempo depois, viria a dar aulas de História da Arte e Estética na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da mesma universidade. Ainda participou da renovação do currículo desse curso durante a década de 60. Como crítico, publicou artigos em jornais e revistas paulistas especializados em arte, além de capítulos em livros e catálogos de exposição (AVELAR, 21 nov. 2008, p. 20).
Gomes Machado foi um dos fundadores da revista Clima, a qual pretendia estabelecer um novo modelo de crítica cultural, unindo o academicismo a uma linguagem acessível. Trabalhou como crítico também nos jornais Folha da Manhã, Folha da Tarde, no Suplemento Literário da Folha de S. Paulo. E encerrou sua carreira como diretor de Assuntos Culturais da UNESCO. Mas, “mesmo quando não atuava na direção [da Bienal], o crítico participava do evento como membro do conselho de administração, do júri de seleção e do conselho e comissão artísticos” (AVELAR, 21 nov. 2008, p. 20).
A partir desses três textos podemos perceber que um dos motivos da consagração da Bienal foi o fato de ela ter sido estruturada por pessoas de renome no meio artístico, entretanto, a instituição tomou proporções tão maiores que esses artistas que, agora, quem os consagra é a própria Bienal.
A cada uma das posições no campo de produção e circulação corresponde, a título de potencialidade objetiva, um tipo particular de posições culturais (ou seja, um lote particular de problemas e esquemas de solução, temas e
procedimentos, posições estéticas e políticas etc.) que só podem ser definidas de maneira diferencial, quer dizer, em relação às demais posições culturais constitutivas do campo cultural em questão, e que também definem aqueles que as adotam em relação às demais posições e em relação aos que adotaram as demais posições (BOURDIEU, 1992, p. 160).
As posições ocupadas e as tomadas de posição referentes a esses três personagens definiram não só a legitimidade da Bienal, como também a consagração deles dentro do campo das artes, uma vez que, graças às suas participações na construção da instituição, ela se tornou legitimadora e consagrada.