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5. Diskusjon

5.3 Balanse mellom ulike styringsmekanismer i risikostyringen

Uma parcela dos assentados não tem demonstrado compromisso com a cooperativa e o fato de associar-se a ela foi motivada por interesses imediatos; econômicos, sobretudo. Não existe afinidade políticas no sentido de construir a Coagri enquanto um instrumento de luta destes trabalhadores. Isto pode ser verificado até pela comercialização da produção, quando os assentados inadimplentes junto à cooperativa, comercializavam sua produção com intermediários para que não fossem abatidas as suas dívidas.

A partir do momento que os benefícios se escassearam, a participação de parte dos assentados na cooperativa ficou comprometida. Este distanciamento provocado pelas dívidas dos assentados é verificado também no fato de compra de insumos, ferramentas, sementes fora da Coagri. A cooperativa não é vista como se fosse deles, mas como uma empresa econômica.

Muitos assentados vêem a cooperativa como se fosse da direção. As decisões centralizadas pelo MST para garantir as linhas políticas do Movimento para a Coagri também contribuem para desestimular a participação dos assentados na Coagri. O ex- gerente comercial da Coagri fala da falta de um de espírito cooperativista dos assentados, evidenciando a discrepância entre compreensão de produção do assentado e da cooperativa.

“Aí, quanto toda a estrutura da cooperativa estava muito bem montada, e tudo o que a gente faz é bem feito e eu tenho o maior orgulho, faltou fidelidade cooperativista do assentado, porque muitos não compravam e nem vendia na cooperativa”. (Ex-Gerente Comercial da Coagri, Nilo, 2001).

Mas, uma parcela significativa dos assentados visualiza a cooperação agrícola e a Coagri além dos benefícios econômicos imediatos, ou seja, vê a cooperativa também como um instrumento de luta, tanto política como econômica.

“Eu diria que quase todos queriam entrar Coagri porque não adianta somente a terra. Aí o pessoal vê na cooperativa a possibilidade de conseguir assistência técnica e uma forma de sair do tradicional com o desenvolvimento de linhas de produção como é o caso do leite, produção de pepino em conserva e soja orgânica, que estão sendo implantadas pela Coagri”. (Diretor da Unidade de Laranjeiras do Sul da Coagri, Gilmar, 2001).

Foi observado entre os assentados, compromisso e reconhecimento da importância da Coagri nos assentamentos. Os benefícios conquistados através das ações da Coagri como roças nos acampamentos, existência de supermercados e agro-veterinária em localidades que empresário nenhum iria se instalar, contribuição na organização de ocupações, marchas e as mais diversas formas de luta possibilitaram a compreensão da necessidade de manutenção da Coagri. Esta parcela dos assentados sabe do valor da Coagri e demonstraram nas entrevistas e questionários aplicados sua preocupação e empenho na solução das dificuldades econômicas enfrentadas pela cooperativa.

A concepção de cooperação agrícola a partir de um grande empreendimento econômico se mostrou equivocada, verificada pelas dificuldades econômicas e políticas enfrentadas pela Coagri. Esta forma de desenvolvimento de ações coletivas nos assentamentos, como é o caso das cooperativas na forma de uma CPS (Cooperativas de Prestação de Serviços - Regional) não está conseguindo cumprir satisfatoriamente o propósito de se constituir num instrumento de organização dos assentados.

As Cooperativas de Prestação de Serviços, como é o caso da Coagri, que surgem como uma alternativa a CPA, foi constituída como a principal forma de atuação do MST nos assentamentos da região Centro-Oeste/Pr. A Coagri iniciou suas atividades a partir da organização dos núcleos de produção, mas a idéia de fazer da cooperativa um instrumento de luta, não se completou, apresentando dificuldades na acumulação de força política para o MST. Segundo Carvalho (1999), esta deficiência é resultado não só do método de cooperação das CPS, mas “... deixou-se de perceber que poderia ter sido a própria cooperativa, enquanto ‘ferramenta’, a causa do problema”.(Carvalho, 1999, p. 31).

A idéia foi de que a implementação de uma grande empresa cooperativa, com forte presença no mercado ampliaria o potencial de organização dos assentados. Mas, o que se observou foi um distanciamento da base nos assentamentos. Isso não significa que a organização dos assentados numa cooperativa somente seja viável se for uma cooperativa pequena. A questão não está necessariamente no tamanho, mas na concepção de cooperativismo e de desenvolvimento de ações coletivas nos assentamentos.

Como foi visto, os projetos de investimentos em infraestrutura (armazéns, transportes, instalações, sedes) com os recursos do teto II, permitiram a criação de um empreendimento econômico complexo. A organização da Coagri e, conseqüentemente, dos núcleos de produção, foi feita em grande parte com o objetivo de alocação de recursos do teto II do Procera.

A forma como os agrupamentos de assentados e núcleos de produção nos assentamentos Ireno Alves do Santos e Marcos Freire foram implementados e organizados também contribui para confirmar a idéia de que a Coagri deu prioridade à produção nos assentamentos para formar uma base de sustentação das propostas do MST.

A tarefa de estruturação dos grupos de assentados e núcleos de produção coube mais a um grupo de técnicos do que a militantes e dirigentes da cooperativa e do MST.

Em estudo realizado por um assentado e aluno do curso Técnico de Administração de Cooperativas no Iterra (Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa de Reforma Agrária) sobre a nucleação do assentamento Ireno Alves do Santos, existe a avaliação negativa das experiências desenvolvidas em torno dos núcleos neste assentamento. Atribui-se parte da deficiência, à própria direção do MST e da Coagri, que se preocuparam mais com a luta econômica.

“As direções do MST e da Cooperativa e os militantes falharam ao delegar para a equipe técnica vinda do Projeto Lumiar o trabalho político- ideológico, sendo que era um trabalho de sua responsabilidade (...) não conseguindo dar um bom acompanhamento, formação e consciência política organizativa aos assentados e salto de qualidade na cooperação” (Andreato, 2000, p. 22).

Os técnicos do Lumiar não atuam mais na assistência técnica nos assentamentos com a extinção deste Projeto em todo o Brasil. Inserida na idéia de “descentralização da reforma agrária” proposta pelo MDA/Incra (Ministério do Desenvolvimento Agrário), a assistência técnica oficial nos assentamentos está sendo colocada sob responsabilidade da Emater e Secretaria Municipal de Agricultura. Acrescenta-se que uma parcela dos assentados ficou sujeita à assistência técnica fornecida por empresas privadas de compra e venda de cereais, principalmente.

Um dos motivos do governo federal para o cancelamento de convênios de assistência técnica e extensão do Projeto Lumiar no Paraná, foi o fato do Incra entender que os técnicos desenvolviam mais atividades políticas e de organização dos trabalhadores assentados, estimulando as ocupações de terra, por exemplo, do que a função de prestar orientação técnica nos assentamentos. Entendeu ainda que existia um forte controle das cooperativas nos assentamentos sobre o corpo de técnicos das Equipes Locais de assistência técnica do Lumiar, desautorizando as orientações e diretrizes de assistência técnicas elaboradas pelo Incra, como se aquela assistência prestada pelos técnicos servisse ao MST e não aos assentados.

Por outro lado, o fato de suspensão do Projeto Lumiar de assistência técnica por parte do Incra, indica a preocupação desse órgão com a organização política dos assentados. As cooperativas, inclusive a Coagri, se constituíam como centro de gestão da

assistência técnica, e não o Incra, que desempenhava uma atividade acessória com a tarefa de financiar e não dirigir a assistência técnica nos assentamentos.

O controle da assistência técnica exercida pelas cooperativas, além de outros motivos, como a centralização da elaboração de projetos de custeio e investimento, contribuiu para que a Coagri se constituísse como um importante instrumento de força política e gestora de recursos destinados aos assentamentos. Isto motivou uma dura investida do MDA/Incra principalmente, contra as cooperativas dos sem-terra no sentido de enfraquecimento político através de um estrangulamento econômico. A não liberação de recursos para os assentados do P. A Marcos Freire é uma evidência desta investida.

O fim do Projeto Lumiar colocou dificuldades até para elaboração dos projetos de custeio e investimentos pelos assentados. Na ausência dos técnicos do Lumiar, muitos projetos não puderam ser elaborados de forma satisfatória.

Foram inúmeras as denúncias feitas pelo governo federal para desgastar as cooperativas diante da opinião pública com enorme propaganda na imprensa nacional sob a alegação de desvio de verbas da reforma agrária. O repasse de dinheiro pelos assentados à cooperativa, geralmente 3% dos recursos financeiros liberados pelo Incra, foi encarado como um caso de polícia, para enfraquecer a cooperativa como um instrumento de luta dos assentados.

As cooperativas e os assentamentos do Estado do Paraná foram os mais atingidos com auditorias e as investidas do Incra e da imprensa.

“O esquema montado em Bituruna–município que segundo o Incra há irregularidades-é amador se comparado a outro implantado no município de Laranjeiras do Sul, também no Paraná. Ali o MST controla uma cooperativa com porte de média empresa. Chama-se Coagri. É administrada por 11 diretores, todos provenientes dos quadros do movimento dos sem-terra.” (Souza, 14/05/2000, p. A13).

A fúria do Incra e dos meios de comunicação foi motivada pelo fato da Coagri se tornar um importante mecanismo de viabilização das lutas do MST. Enquanto a cooperativa desempenha papel essencialmente econômico no sentido de viabilizar a produção no assentamento, ela foi valorizada pelos órgãos oficiais. Mas, quando passa a desempenhar uma função mais vinculada à luta política, os setores dominantes e contrários ao MST mobilizaram recursos ideológicos e econômicos para inviabilizá-las. Isso foi o que ocorreu com a Coagri.

Embora a prioridade da cooperativa fosse a organização da produção, ela possuía grande capacidade de mobilização dos assentados para alocação de recursos financeiros, infra-estrutura e assistência técnica, projetos, etc. Esta capacidade de mobilização causou as investidas do Incra e isto indica que as cooperativas têm lugar nos assentamentos enquanto uma ferramenta de luta dos trabalhadores assentados.

As investidas do governo federal para desestabilizar o MST, somadas ao fato de que uma grande parte dos assentados já tinham esgotado o limite de financiamento de projetos (teto II), deixou a Coagri completamente desnorteadas, marcando o esgotamento deste modelo de cooperação.

Este modelo de cooperação não valorizou as pequenas receitas. Tudo tinha que ser grande. A cooperativa não se constituiu numa alternativa de organização produtiva para os assentados fora dos limites de um instrumento de alocação de crédito, comercialização de safras, insumos e máquinas. Em avaliação da direção do MST sobre a cooperação nos assentamentos estão sendo propostas de mudança na organização dos assentamentos.

“Nesta fase nós deveremos valorizar mais a mão-de-obra que os recursos e financiamentos. Voltar a reconstruir a concepção que é possível organizar as cooperativas de produção tendo como base a terra e a mão-de-obra. O crédito passa a ser complementar”. (MST, 2002, 04).

Diante da “crise”, não só da Coagri, mas do modelo de cooperação como uma grande empresa econômica, o MST está procurando implementar propostas diferentes daquela sustentadas na capacidade de alocação de empréstimos financeiros, mas no trabalho e na terra, voltando-se para dentro dos assentamentos.

No contexto de expansão e crise econômica da Coagri foi possível, apesar da prioridade secundária, desenvolver atividades de organização da base nos assentamentos. No interior da proposta de racionalidade econômica e gestão empresarial da Coagri e dos assentamentos são criadas formas de luta e resistência como a organização e formação dos núcleos de produção.

Foi pela Coagri que se organizaram os núcleos de produção, abrindo-se como possibilidades de resistência camponesa onde se constroem formas de organização econômicas alternativas sem assimilar os modelos de inserção mercadológica. Não se trata de obtenção de renda pela integração/inserção, pois o mercado capitalista já apontou que não há lugar para os camponeses. A resistência em forma de núcleos também não é

somente uma forma de organização para obtenção de renda na produção, mas de resistência à transferência de renda. Portanto, a fatia da renda que cabe aos assentados está sendo cobrada do Estado por meio das lutas e não de uma forma de organização da produção que tem como parâmetro a “sustentabilidade” pela produção de mercadorias.

A forma moderna e racional de fazer política por meio da organização e desenvolvimento das forças produtivas e a proposta de gestão empresarial como foi a Coagri, implicou na possibilidade de criação de outros espaços de socialização política, revelando um desigual desenvolvimento de relações. A força popular que marca as ações do MST permitiu o surgimento do descompasso entre a forma econômica e não- econômica dos assentados exercitar a política. Assim, se a direção da Coagri pautou-se na necessidade de constituição de uma empresa (cooperativa) para inserir os assentados no mundo da mercadoria e construir o exercício da política, de outro lado, a cooperativa possibilitou que outras formas de manifestações políticas pudessem emergir, como foi o caso dos núcleos de produção, por exemplo.

Acrescenta-se ainda que foi por meio da Coagri que se procurou forjar identidade política entre os assentados para a realização de lutas para reivindicar direitos e benefícios comuns. Foi por meio dos núcleos de produção formados pela Coagri que se realizaram luta para a conquista de recursos financeiros para investimento e custeio de lavoura, construção de estradas e habitações nos assentamentos, melhoria das condições de saúde e educação, etc. Além disso, os núcleos proporcionaram condições para a realização de discussões que resultam numa compreensão da sociedade organizada de forma a possibilitar igualdade de oportunidades de acordo com o trabalho e habilidade de cada pessoa.

Assim, os assentados não se aglutinam apenas para busca de benefícios imediatos. São capazes de visualizar projeto políticos coletivos. Aliás, a própria Coagri pode ser considerada iniciativa de projetos coletivos entre os assentados.