5. DISCUSSION
5.2 M ASS BALANCE ON S VALBARD
Os participantes da pesquisa com os quais foram realizadas as entrevistas estavam em acompanhamento na unidade de internação ou ambulatorial da psiquiatria de um hospital terciário do Distrito Federal.
Como dissemos, daremos nomes fictícios a cada um dos indivíduos: João, Carla, Amanda e Luciana. Com o objetivo de possibilitar o conhecimento de aspectos da vida dos quatro participantes faremos um breve relato, resgatando alguns fragmentos da sua história clínica e do seu discurso.
João, 37 anos, entrevistado fora da crise
João nasceu no Nordeste e veio para Brasília com 16 anos. Apenas três anos depois, sua mãe e seus nove irmãos vieram morar com ele. O entrevistado define sua infância e juventude como muito sofrida. Seus pais se separaram quando estava com 12 anos e após essa separação, relata só ter visto o pai duas vezes. A segunda vez coincide com o período da primeira crise, quando estava com 26 anos. João afirma ter sentido falta da presença do pai e do carinho familiar.
Estudou até a 8ª série e atualmente mora com a mãe, três irmãos e um sobrinho, em uma casa que diz ter construído sozinho. Relata que parou de estudar porque trabalhava das quatro da manhã às nove da noite e culpa o excesso de trabalho como o responsável pelo desencadeamento de sua crise:
João: Eu tive uma crise, é... de loucura no meu trabalho, no meu trabalho. Trabalhei sete anos e eu não tinha hora para entrar e para sair. Eu era tipo um robô. Aquilo foi me consumindo, consumindo, até que um momento a mente não suportou e “pum”, fiquei agindo como uma pessoa desequilibrada.
Afirma que “[...] entrava no carguinho mais baixo, questão de pouco tempo já estava lá galgando o cargo lá em cima. Aí no último emprego que trabalhei, o último
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emprego fichado foi o de gerente. Entrei de caixa. Completou um ano eu fui promovido”. Diz que logo após essa promoção que começou a sua batalha: “trabalhava que nem um maluco”. Não tirava hora de almoço, folga ou férias. Nesse período estava com 26 anos e teve a primeira crise necessitando ser internado. João fala sobre o início das crises de uma forma muito concreta, segundo seu relato, “o mal espera uma brecha para poder entrar” e o acúmulo de trabalho fez com que “meus nervos estourassem, permitindo que o mal entrasse e eu começasse a ver coisas que não existiam”.
Teve três internações, sendo a última em dezembro de 2006. Na primeira internação recebeu o diagnóstico de esquizofrenia paranóide. Desde a primeira crise se sente perseguido, ouve vozes, vê vultos e apresenta dificuldade para dormir. Quando está em crise, tudo a sua volta parece ter vida e querer falar com ele.
Outra informação importante diz respeito à sua percepção de que cada crise tem sido pior do que a anterior: “Cada vez que tive uma recaída tem sido pior do que a outra”. Refere-se, ainda, a uma perda de memória, que contribui com a idéia de “degeneração” ou deterioração presente no quadro esquizofrênico:
João: [...] Antes eu tinha uma memória 100%. Agora parece que estou meio retardado assim, meio retardatário. Não consigo... Se eu pegar o número do telefone do senhor agora, daqui a dez minutos eu esqueci o número. Não sei mais qual é.
Em outro momento fala também de sua percepção com relação ao tratamento psiquiátrico:
Entr.: E o tratamento que você está fazendo na psiquiatria, você acha que tem melhorado? Como você está se sentindo?
João: Em parte tem me ajudado um pouco, mas não está como eu quero que esteja. Entendeu? Eu queria que cada vez que eu voltasse, tivesse um avanço, né? Fosse reduzindo a dosagem dos remédios... Fosse tornando mais fraco, né? Mas cada vez que eu volto o negócio está pior. Estava tomando só um remédio e um comprimido. Depois
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comecei a tomar quatro. Tô tomando quatro agora. Não está resolvendo.
Esta sua fala também deixa claro a percepção de que o seu quadro tem piorado com o tempo e que a medicação já não faz o mesmo efeito, necessitando o aumento da dosagem e da quantidade de medicamentos como tentativa de estabilização do quadro.
Além de relacionar o aparecimento da patologia com o excesso de trabalho, outro fator, segundo ele, tem relação com o desencadeamento da esquizofrenia. No seu discurso ele deixa claro que um aborto realizado por uma namorada sua, pode ter relação com o seu adoecimento mental:
Entr.: Nas outras entrevistas você comentou sobre que tinha ajudado uma ex-namorada a fazer um aborto, não foi? Como isso aconteceu? João: É... Foi a minha primeira namorada. Tinha vinte anos. Tava namorando. Estava até bem, né? A gente gostava muito um do outro. Só que ela colocou na cabeça que tinha que casar. E na época não tinha moradia, não tinha casa. Porque eu pagava aluguel. E não estava seguro com relação a emprego. Aí eu falei assim: “não, só vou casar quando tiver a minha casa e um bom emprego para poder sustentar a gente”. Ela foi e falou... Ficou chateada com esse contratempo. Aí ela engravidou. Quando estava com um mês e quinze dias ela veio falar que estava grávida, eu falei “não, não quero filho agora não. Pode abortar. Quero não. Pode abortar”. Depois até me arrependi de ter falado para abortar, queria que nascesse. Aí fui falar pra ela deixar... Já tinha feito o aborto. Aí foi tarde. Abortou inclusive na minha casa. Esse dia eu tava com um cízio inflamado, né? Queixo inchado... Não sabia se chorava de dor física ou se dor... Pela dor dela estar sofrendo pela... Por aquele aborto. Ela chegava a gritar de dor quando estava fazendo o aborto. Aí depois que fez o aborto a minha mãe descobriu e minha mãe ficou muito chateada com a gente.
Brigou com a gente. Isso aí eu é... me sinto culpado, por parte. [...]
Além dessa relação direta que ele estabelece do início das crises com o trabalho e o aborto, também nos chama a atenção a dificuldade que ele apresenta em diferenciar a sua “dor física” da de ver o sofrimento da sua namorada no momento do aborto. A dificuldade parece estar em conseguir “sair de si” para estar com o outro, com a dor do outro, que também deveria fazer parte da sua dor, por se tratar da interrupção da
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gestação de seu filho. Esse fato sugere um alto investimento narcísico, que se relaciona com a auto-referência que João apresenta: “[...] tudo a minha volta tinha vida e falava comigo [...]”.
O seu relato nos permite pensar que existe algum tipo de interferência entre o espírito da criança que foi abortada com a sua saúde: “É espiritual. É um mal espiritual. Vem lá do mundo dos espíritos, sei lá”. A criança que iria nascer estaria se vingando de alguma forma no seu problema de saúde:
João: Esse meu problema talvez. Essa perturbação mental tá ligada a isso. Acho que deve estar ligado a isso.
Entr.: Você consegue pensar o que pode estar ligado?
João: É os... Não sei se isso existe, né? Aí... Reencarnação, essas coisas assim... Mas ou menos por aí... Acho que essa pessoa... Esse que ia nascer que eu interferi, deve estar se vingando de alguma forma de mim nos meus problemas. Eu acho assim.
Entr.: E o que você acha que ele pode estar fazendo?
João: Interferindo na minha saúde... Aí junto com mais algumas coisas que eu ando fazendo. Aí está pesando.
Entr.: Você falou em outras coisas que você anda fazendo, que outras coisas são essas?
João: Não sei. Alguma coisa errada que eu fiz. Eu não tenho assim em mente exatamente o que. Mas eu... Alguma coisa feia eu fiz. Não pensei em ter filho agora.
Entr.: Mas então você relaciona essas suas crises de hoje a essa sua ação lá do passado.
João: [silêncio] Às vezes eu penso que se eu tivesse deixado essa criança vir ao mundo, talvez fosse diferente. Me questiono com isso. Eu preciso pagar de certa forma porque tirei esta vida. Não deixei essa vida vir.
De certa forma, as experiências de vida de João parecem tomar um sentido muito particular que refletem a relação com a realidade na psicose. Como demonstraremos mais a frente, ele relata sofrer influências de forças negativas ou demônio que são percebidas como vozes que o controlam dizendo tudo que ele deve fazer:
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Entr.: E você pode me dizer o que essas vozes lhe falavam?
João: Falavam para mim sair correndo, “age como louco, você é louco, você é doido, você não é uma pessoa normal, vai fazendo tudo o que eu te mandar”. Aí eu ia fazendo tudo, fazia assim, era coisa desconexa, ela dizia “pode ir fazendo, pode ir fazendo”. [...] “Agora você não é nada, nós que mandamos. Deixa quieto. Vai fazendo. Nós vamos mandando e você vai fazendo”.
Essas vozes de comando percebidas por meio da alucinação auditiva fazem parte de seu delírio de influência. Segundo o entrevistado, ele faz o que as vozes mandam, uma vez que elas ordenavam que ele fizesse o que elas estavam mandando. Para João, as forças negativas que o influenciam estão na atmosfera, mas não sabe explicar como isso acontece e diz: “Só sei que eu ouço e que vou fazendo”.
As vozes, inclusive, o impediram de comparecer à terceira entrevista. A justificativa apresentada referiu-se ao fato de que não queria sair de casa, mas depois afirma que foram as vozes que disseram que ele não iria para a entrevista:
Entr.: Na semana passada a gente havia marcado para se encontrar e acabou não sendo possível, aconteceu alguma coisa?
João: Não. Só fiquei... Não queria sair de casa. Na hora de vir pra cá me deu um branco. Não queria sair. Falando: “hoje não tô afim de ir pra lugar nenhum. Não quero ver ninguém. Não quero ver nada. Quero ficar só”. Aí não vim.
Entr.: Mas aconteceu alguma coisa que te fez tomar essa decisão de não querer ver ninguém? Ou o que te fez tomar essa decisão?
João: Eu só... [silêncio] Só as vozes: “não vamos pra lá hoje não. Vamos ficar aqui”.
Levando em consideração a influência que as vozes exercem em sua vida, João define o momento em que está em crise como “caos”:
João: As pessoas dizem “Não João você é forte. Você tem que se controlar, tem que se acalmar. Senão, você ficando do jeito que está você atrapalha você e quem está à sua volta”. Realmente quem está a minha volta fica mais nervoso que eu, quando vê o caos.
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Essa definição do momento da crise como “caos” relaciona-se com a experiência de aniquilamento e desmoronamento que os sujeitos com esquizofrenia apresentam. Caos é um momento em que está tudo fora do lugar, em desordem. Essa temática será explorada no momento em que formos tratar da questão corporal na psicose, que compreende uma percepção de despedaçamento corporal e desmoronamento do mundo interno.
João complementa essa percepção de caos no momento da crise ao dizer que é um período de muita perturbação e loucura, onde fala sem saber o que falou e vai fazendo o que as vozes mandam, sem saber que está fazendo. E percebe que vai “entrar” em crise com a agitação que começa a apresentar no início: “No começo fico inquieto, correndo de um lado pro outro. Começo a fazer uma coisa e paro. Deixo tudo ali. Tudo se embaralha”.
Após duas semanas da conclusão das entrevistas, João teve uma crise e ficou internado no Hospital São Vicente de Paulo – HSVP por três semanas. Quando obteve alta, retornou para o tratamento ambulatorial no HBDF. No primeiro contato que tivemos logo após a sua alta, João nos relatou que na ocasião da internação estava nervoso, falando coisas desconexas e em outros idiomas. Tinha a impressão que as pessoas estavam falando com ele. Relatou ainda a sua tentativa de se “segurar” para não entrar em crise: “Eu percebo que vou ter a crise, mas não consigo chegar para ninguém e pedir ajuda. Eu fico neutro”.
Carla, 22 anos, entrevistada na crise
Carla é a filha mais velha de uma prole de três, mas é a única mulher. Possui dois irmãos que não apresentam problemas psiquiátricos. Sua mãe teve depressão durante a sua gestação e o pai foi alcoolista por um período. As primeiras crises
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iniciaram-se por volta dos 16 anos, culminando com um diagnóstico de esquizofrenia e acompanhamento em hospital aos 20 anos.
De forma geral, teve uma infância definida como normal. No entanto, com 12 anos de idade, começou a apresentar um declínio em seu rendimento escolar. No ano seguinte, começou a demonstrar medo com relação à morte e alucinação visual, dizia ver caveiras em seus livros. Com 16 anos, este medo da morte se intensificou, ao apresentar episódios de choro, e com freqüência gritava dizendo que iria morrer. Sobre esse aspecto ainda relata:
Carla: [...] Aí às vezes eu fico pensando assim que desastre, essas coisas são terríveis. A gente não precisa viver. Eu não gostaria de viver assim, sabe? Morrendo... Vendo as pessoas morrendo. Esse sentimento que a gente sente. Tanta gente aí...
Esta dificuldade pode estar relacionada com a vivência de fim de mundo presente na psicose, como discutiremos mais á frente na relação do sujeito com a realidade e com os objetos.
Carla também afirma que nesta época se achava estranha nas fotografias que via:
Entr.: Quando você era mais nova Carla, com doze e treze anos, o que você fazia?
Carla: Eu costumo do mesmo jeito, aqui. Aqui aconteceu umas coisinhas. Meu irmão começou a estudar, ai começaram a bater fotografia minha, né? Aí eu fiquei olhando o meu rosto, eu fiquei achando estranho.
Entr.: Como é que você percebia o seu rosto?
Carla: É assim tipo, não digo barata não sabe? Não é animal barata. Tipo essas coisas. É um rosto assim... [silêncio] muito preto. Tem os cílios muito preto. Eu acho que sou assim. Eu tenho os cílios muito preto.
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Trataremos dessas experiências de estranhamento corporal e despersonalização, remetendo à maneira como o esquizofrênico vivencia o corpo em uma tentativa de reinvesti-lo.
Com 19 anos apresentou uma nova crise quando passou a falar “coisas estranhas”, sentia que era controlada por forças externas e ouvia vozes. Neste momento, teve sua primeira internação e começou a fazer uso de medicação neuroléptica. Mas foi com 20 anos que apresentou uma crise mais intensa com discurso desconexo, inquietação, choro imotivado e agressividade. Dizia querer matar o pai e ter relação sexual com a mãe. Falava também que iria morrer para salvar a mãe.
Carla fez vários tratamentos psiquiátricos e psicoterápicos nos anos seguintes, o que promoveu a redução da produção psicótica, mas continuou apresentando uma perda cognitiva e relacional. Não retornou à escola, não teve namorado e seus vínculos sociais permaneceram comprometidos, como demonstra aqui:
Entr.: Você sente dificuldade de conversar com outras pessoas? Carla: Sinto.
[...]
Entr.: Você está estudando Carla? Carla: Não.
Entr.: Tem quanto tempo que você deixou de ir à escola? Carla: O maior tempão.
Entr.: Por quê? O que houve?
Carla: Porque eu descobri que eu chegando no colégio, tem as outras meninas. Aí elas querem estudar também... Aí fica só eu na sala olhando lá. Aí as outras querem estudar, ficam olhando pra mim. Aí depois some tudo, depois acabou tudo, entendeu? Aí o colégio fechou. Todo mundo foi embora. Acabou tudo.
[...]
Entr.: Você tem vontade de ter um namorado?
Carla: Não, porque eu sempre penso que o mundo acabou.
Esses trechos de suas entrevistas deixam claro a sua dificuldade de relacionamento com outras pessoas, o que dificulta também a sua integração e freqüência na vida escolar. Essa dificuldade de relacionamento é agravada pela
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freqüente percepção de fim de mundo, onde tudo acaba e todo mundo vai embora. Neste momento em que tudo acaba e as pessoas vão embora não restam objetos nos quais possa investir, percepção que logo é interpretada da seguinte forma: “[...] parece que só existe eu na face da Terra, né?”.
Além disso, no início de sua crise também dizia: “achava que a minha mãe tinha virado um diabo”. Hoje diz que sua família é a mais moderna que existe:
Carla: É o seguinte, eu moro aqui em Brasília, né? E eu... teve um tempo que eu não sabia o que eu queria. Ser moderna, não sei o quê, não sei quê... E quando eu menos esperei a minha mãe disse que... A minha família já é a mais moderna que existe.
Entr.: Moderna como?
Carla: De televisão. Que aparece na televisão.
Essa temática será explorada quando formos tratar do narcisismo secundário e da megalomania na psicose, que é bastante presente na fala dela.
Carla demonstra em vários momentos que a sua questão gira em torno da beleza e da idealização corporal, como percebemos nessa passagem:
Carla: [...] Só que eu estou querendo criar problema onde não tem. Que não tem nada a ver, né? Japonês, o lugar que nasceu. Não tem nada a ver.
Entr.: Que tipo de problema você acha que está querendo criar? Carla: Quero criar problema quanto à beleza, não sei o quê, não sei o quê. Pra quê criar...?
Entr.: Quanto à beleza? Carla: É.
Entr.: Mas de quem isso? Sua?
Carla: É. Minha beleza. Pra quê criar alguma coisa contra a minha beleza? Isso é judiação.
Ademais, refere-se, ao seu corpo como diferente ao das outras pessoas:
Entr.: Você sempre achou diferente o seu corpo com relação ao de outras pessoas?
Carla: É. Eu sempre acho que é diferente. Entr.: Como é que o seu corpo...?
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Carla: O jeito deu pensar, algo tipo de vida, sabe? Geralmente as pessoas são tão diferentes da gente lá de casa que elas andam com tatuagem no corpo, sei lá. Os genes da pessoa nasceu diferente. É de outra família sabe. Aí poxa, meu pai não ia colocar uma tatuagem no corpo dele, não ia ficar legal. Fico imaginando, ele vai pra praia e tal lá no Piauí na praia, mas é totalmente diferente [risos]. É totalmente
diferente.
É possível notar que Carla enxerga a sua família diferente de qualquer outra, inclusive delegando essa diferença à questão genética. Sua família é totalmente diferente das outras. É importante salientar que a diferença de sua família parte da percepção de sua diferença corporal.
Essa diferença corporal é traduzida mais a frente em desejo de possuir o corpo perfeito:
Entr.: Você não queria envelhecer?
Carla: Não. Queria tudo assim... Na idade certa.
Entr.: Você não queria ter cabelo no corpo, não queria ter peito grande?
Carla: Não. Eu queria ter o corpo perfeito.
Em certo momento chega a fazer uma afirmação interessante sobre a percepção que tem de sua vida: “[...] Aí a minha vida se torna um cinema na vida real”. Demonstra aqui a mistura entre sua vida e a fantasia que a construção delirante traz para dar conta de suas questões corporais e narcísicas, temas que ficam evidentes em suas entrevistas e serão discutidos a seguir.
No momento em que as entrevistas foram realizadas Carla estava em acompanhamento psiquiátrico, mas não fazia uso de medicação neuroléptica.
Amanda, 40 anos, entrevistada fora da crise
Amanda nasceu em Mato Grosso do Sul e está em Brasília há oito anos, momento que coincide com o início de suas crises. Afirma ter saído de casa cedo com a
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irmã para “batalhar” e se sustentar. Relata brevemente como é sua percepção da falta que sente dos pais:
Amanda: [...] Porque eu sai muito cedo de casa. É... Pro mundo, eu e minha irmã. Sempre junto, batalhando junto. [...] Porque é difícil demais a gente não ter uma família, não ter uma casa, não ter um lar. É difícil, sabe? Ficar nas casas dos outros trabalhando. A gente é o primeiro que acorda, o último que deita, né? [...] É difícil não ter um pai, uma mãe, né? Ainda mais na hora que a gente precisa. Na hora da doença, na hora da tristeza, na hora da alegria. A gente compartilhar com eles, né? Eu... A minha vida foi muito difícil, né?
Casou-se pela primeira vez com vinte e um anos, mas em outro momento define esse casamento apenas como um relacionamento. Teve a sua primeira filha durante este relacionamento. Casou-se novamente e com este marido teve mais duas filhas. Segundo seu relato, este segundo marido estuprou a sua filha mais velha e ela só teve conhecimento quando veio morar em Brasília. Amanda refere que a sua primeira crise foi aos 35 anos, após ter descoberto que seu ex-marido havia estuprado sua filha,