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A origem das redes remete a períodos distantes na história das civilizações humanas. Desde que o homem passou a viver em sociedade, começam a aparecer formas de organização visando estruturar as relações no campo social, político e econômico. Segundo POWEL (1990), as redes constituem uma importante forma de organização das sociedades, tendo surgido muito antes dos mercados e do próprio comércio.

Este autor defende que a rede pode ser considerada enquanto uma forma de coordenação alternativa aos mercados ou a firma integrada (hierarquia). Em ambientes de grande incerteza, as redes são apontadas por POWELL (1990) como o mecanismo de governança mais adequado, por sua flexibilidade e pela grande capacidade de adaptação dessas estruturas. POWELL (1990) ainda ressalta a maior capacidade das redes em permitir o intercâmbio de conhecimento e tecnologia, fato que explicaria o significativo número de redes nos setores de tecnologia mais avançada.

O estudo das redes tem inicio no campo da sociologia, como uma ferramenta para a análise de relações sociais. Esse aporte permite a identificação dos diferentes atores, de suas conexões e do papel por eles exercidos no funcionamento de um determinado setor. Avaliações críticas sugerem que esse aporte ainda se encontra muito fragmentado, não podendo ser considerado um referencial teórico único.

POWELL e SMITH-DOERR (1994) sugerem uma divisão do aporte de redes em duas abordagens. A primeira utiliza a rede como uma ferramenta para descrever as relações sociais dos indivíduos dentro e fora das empresas. A segunda descreve as redes como uma forma de governança que regula o relacionamento entre firmas, numa forma alternativa à integração proposta pelo modelo fordista de produção em massa. Trata-se de duas abordagens distintas, observadas na maioria dos aportes derivados das redes, e que apesar de analisarem objetos distintos, possuem uma série de pontos em comum.

A utilização do aporte de redes nesta pesquisa se concentra predominantemente na abordagem organizacional, focando as estruturas de governança que regulam as relações econômicas entre atores econômicos.

Na teoria econômica o aporte de redes também vem sendo incorporado em uma série de referências. Segundo BRITTO (2002) a teoria econômica tem tratado das redes ressaltando duas características principais. A primeira focaria as externalidades geradas por essas estruturas aos setores produtores e consumidores, os quais acabariam levando a rendimentos crescentes de escala para os atores envolvidos. Dentre as diferentes formas de externalidades em rede, o autor destaca externalidades técnicas, pecuniárias, tecnológicas e de demanda. As externalidades técnicas representam situações em que a interdependência entre os agentes, do ponto de vista técnico, altera as respectivas funções de produção. As externalidades pecuniárias incluem mudanças nos preços relativos dos fatores de produção, resultando em mudanças na estrutura de custos das empresas. As externalidades tecnológicas estão ligadas a questões de inovação e difusão de novas tecnologias em fenômenos como o spill-over (transbordamento de tecnologia). A última forma de externalidade, de demanda, está ligada a mudanças nos padrões de

demanda dos produtos de cada unidade de acordo com alterações na demanda de outras unidades ou da rede como um todo.

A outra corrente apontada por Britto se concentra no estudo da estrutura da rede como uma instituição que permite a coordenação das atividades econômicas. Neste foco, são ressaltadas as características dessas estruturas e seus processos de operação, procurando explicar os processos de mudanças a estímulos externos (ambiente) e internos.

A maior parte dos referenciais diretamente originados do aporte de redes, como as Redes de Empresas e as Redes de Poder que serão abordados à frente, buscam explicar a coordenação de redes e cadeias por outros mecanismos que não o sistema de preços, como o poder e a cooperação (ZAWISLAK e FURLANETTO, 2000). Tanto as relações de poder como a cooperação ocorreriam norteadas por instituições e assim estariam direcionando o comportamento dos atores econômicos. Ainda assim, esses atores seguem a uma lógica racional, apoiada na já mencionada dimensão regulativa dos institucionalismo (SCOTT, 1995).

O referencial de Redes de Empresa, por exemplo, apresenta exemplos de redes de pequenas empresas onde a cooperação tem papel importante, permitindo não só a redução dos custos de produção e transação, como também a implementação de ações coletivas que melhoram a competitividade de todo o setor. POWELL (1990) defende que a cooperação pode ser um mecanismo de coordenação sustentável no longo prazo tal como um arranjo efetivo.

Num nível mais amplo de análise, a Teoria do Capital Social (PUTNAM, 1996) também demonstra uma forte correlação entre nível de cooperação existente em algumas sociedades e a eficiência das relações econômicas. A existência do que esse aporte veio a chamar de Capital Social elevaria a cooperação e limitaria ações oportunistas, permitindo tanto o compartilhamento de custos de produção como a redução dos custos de transação devido ao

maior nível de confiança entre as partes. Exemplo disso são os distritos industriais na região da Terceira Itália1.

O poder também pode impactar as atividades econômicas. Relações de poder podem facilitar a coordenação das cadeias. Um agente mais poderoso pode direcionar a produção dos demais membros da rede, reduzindo tanto os custos de produção como os de transação. Essa coordenação tende a reduzir custos de monitoramento e coleta de informações.

Uma diferença importante entre os referenciais desenvolvidos no contexto do aporte de redes está no “recorte” e na “dimensão de análise” adotados. Esse “recorte” é a delimitação que permite a análise tanto de relações verticais, entre agentes de diferentes etapas de um processo, como de relações horizontais que ocorrem entre atores em um mesmo elo, desempenhando uma mesma atividade no processo. Esse recorte também pode limitar o espaço que será analisado dentro de uma rede mais ampla de relações.

Já as dimensões de análise referem-se às características que serão analisadas dentro do recorte utilizado. Um estudo poderia, por exemplo, analisar o tamanho dos agentes participantes, o tipo de relações que os une, características da rede onde estes se relacionam, etc... Dentre as principais dimensões utilizadas na maioria desses aportes, destaca-se a centralidade, variável que se refere ao posicionamento de um determinado ator dentro de uma rede. Partindo de uma noção intuitiva de que aqueles que estão posicionados entre um maior número de atores se tornam mais relevantes no funcionamento de uma rede, a centralidade busca explicar e mensurar essa importância a partir de uma série de características. Segundo FREEMAN (1979), apesar da centralidade ser considerada importante na maioria dos trabalhos sobre redes, há pouco consenso acerca do que é e como se pode medir essa característica. A centralidade e várias outras

1 O estudo mencionado busca comparar os níveis de capital social em diferentes regiões da Itália. Segundo Putnam (1996), essas disparidades ajudariam a entender as diferenças de desenvolvimento entre as regiões italianas.

dimensões foram melhor abordadas na apresentação dos referenciais teóricos que será feita adiante.

Muitas vezes, o recorte adotado por um referencial de análise acaba delimitando as dimensões de análise por ele ressaltada. Sobre isso, LAZZARINI, CHADDAD e COOK (2001) demonstram como diferentes linhas teóricas que focam relações mais verticalizadas, entre fornecedores e clientes, acabam destacando dimensões ligadas aos custos de transação como a incerteza, especificidade, etc... Outros aportes que focam mais as relações horizontais ressaltam dimensões ligadas à cooperação e a coordenação intra-setorial. Esses autores propõem um aporte integrado que capte tanto as formas de interação vertical como horizontal, ao qual esses autores deram o nome de “netchain analysis”.