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Analisarei a seguir o cinema visto como “simulacro da realidade”, que, sob a ótica de Baudrillard, converteu-se em “hiper-realidade”. No sentido baudrillariano, o cinema adquire uma função que ultrapassa todas as demais, o cinema é designado por Baudrillard como o "próprio simulacro".

Em Simulacros e Simulação (1991) Baudrillard diz que o cinema vai se aproximando com freqüência e a cada dia do real absoluto. Este real absoluto do qual Baudrillard se refere está relacionado com a pretensão do cinema em ser a própria realidade. O fato do cinema converter-se na própria realidade envolve sua necessidade de perfeição, suas características imediatistas, sua banalidade e sua predisposição à paranóia. Conforme suas palavras (1991, p. 64):

o cinema plagia-se e recopia-se, refaz os seus clássicos, retroactiva os mitos originais, refaz o mundo mais perfeito que o mundo de origem, etc. Tudo isso é lógico, o cinema está fascinado consigo próprio como objeto perdido tal como está (e nós) estamos fascinados pelo real e com o real em dissipação.

Mais especificamente o “hiper-realismo” no cinema consiste na duplicação minuciosa do real que é mostrado na tela de cinema. O cinema ultrapassa a noção de representação do real, e ele se recusa a ser exterminado. O “hiper-real”, conforme Baudrillard representa uma fase que é mais avançada que o próprio realismo, onde a metafísica foi abolida e as contradições entre aquilo que era considerado real e aquilo que era considerado como imaginário caiu por terra. Existe uma incrível semelhança do real consigo mesmo.

Baudrillard (1991) diz que o cinema construiu com o real uma relação que é negativa, ou seja, o que antes era considerado como uma “relação viva e plena” resultou em perda da especificidade de ambos, cinema e real. O autor menciona que a história do cinema, de caráter místico e fabuloso, está gradativamente se perdendo. O real, sob este prisma, foi absorvido pelo “hiper-real” cinematográfico ou televisionado. O próprio cinema contribuiu com o desaparecimento da sua história e para o aparecimento do arquivo: “O cinema hoje pode colocar todo o seu talento,

toda a sua técnica a serviço da reanimação daquilo que ele próprio contribuiu para liquidar. Apenas ressuscita fantasmas e aí se perde ele próprio” (BAUDRILLARD, 1991, p. 65).

O cinema, para Baudrillard, é definido como uma imagem e também e uma espécie de mito, que está relacionado com o “duplo”, o fantasma, o espelho e o sonho. Já a televisão não sugere nada mais que um ecrã, a televisão olha para o espectador como "uma fita magnética, uma fita e não uma imagem”.

Paralelamente, o autor também coloca que a realidade poderia ultrapassar a ficção, mas isso não ocorreu porque o imaginário era álibi do real. Hoje em dia, paradoxalmente, o universo se move de acordo com o princípio da simulação, no qual o próprio real se tornou uma utopia. Para Baudrillard, vivemos o fim da metafísica, da fantasia e da ficção científica e começamos a era da “hiper-realidade”, e, portanto, estamos entrando em um processo de:

... reinventar o real como ficção, precisamente porque ele desaparece da nossa vida. Alucinação do real, do vivido, do quotidiano, mas reconstituído por vezes até os detalhes de uma inquietante estranheza... procurando revitalizar, reatualizar, requotidianizar fragmentos de simulação, fragmentos dessa simulação que se tornou para nós, o mundo dito real (BAUDRILLARD, 1991, p. 155).

O equivalente da neutralização total dos significados pelo código é refletido de forma rápida na moda, nas mensagens publicitárias e, conseqüentemente, no cinema. Entre as grandes ameaças das novas tecnologias encontramos a abolição da distância entre o sujeito e o objeto, entre a obra audiovisual e o espectador.

Quando se refere à questão dos filmes, Baudrillard (1996, p. 82) diz que: “O filme já não permite que o interroguemos, ele nos interroga diretamente”. A imagem cinematográfica nesse contexto como mensagem midiática libera mecanismos de respostas nos termos de estereótipos e modelos. Com isto Baudrillard quer dizer que os objetos e a informação resultam de uma seleção, de uma montagem e de um ponto de vista, ou seja, é o próprio cinema que testa e questiona a realidade. Sob essa ótica é possível estabelecer uma analogia entre a opinião pública e o público de cinema:

A opinião pública é evidentemente a mais bela dessas amostragens – não uma substância política irreal, mas hiper-real, hiper-realidade fantástica que vive apenas da montagem e da manipulação textual (BAUDRILARD, 1996, p. 84).

Toda a concepção contraditória do verdadeiro e do falso, do real e do imaginário foi abolida na ótica “hiper-realista” da montagem do cinema. Já não existe um grau de afastamento entre a pergunta e a resposta, pois a significação está ligada à capacidade de reações que se contrasta com uma gama de estímulos. O verdadeiro e o falso foram diluídos na “hiper-realidade” de Baudrillard.

É dentro deste prisma que Baudrillard (1996) remete ao pensamento de McLuhan, quando este último diz que “o meio é a mensagem”. O meio do qual o filósofo francês se refere envolve o modo de montagem, a interpretação e o corte. Esses elementos vão estabelecer a noção de significação. Baudrillard cita a importância das idéias de McLuhan, quando este último se refere à comunicação tátil. Para Mcluhan, as pessoas estão mais próximas de um universo considerado tátil, do que propriamente visual. O tato é visto como uma interação dos sentidos. Para Baudrillard o universo tátil de Mcluhan ultrapassou fronteiras. O autor se refere a uma simulação tátil na qual a mensagem passa a ser testada pelo homem. O teste corresponde à noção de célula motriz da pergunta / resposta que gira em torno de um código de comando. Sob a ótica de Baudrillard se pode dizer que o espectador de cinema, que é fruto da audiência, se converte ao mesmo tempo no meio e na mensagem.

Baudrillard (1996) aborda a complexidade da noção de “hiper-real” no cinema. A concepção de real envolve um sistema de equivalências que ultrapassa o próprio sistema de equivalência e reprodução. Quando o real adquire uma característica de poder ser sempre reproduzido ele é considerado como “hiper-real”. Para Baudrillard (1996, p. 96) o real é “aquilo que é possível dar uma reprodução equivalente”. O cinema é considerado, portanto, como uma forma de imersão da realidade no “hiper-realismo”.

Em A troca simbólica e a morte Baudrillard diz que não estamos vivendo o fim do real. Mas Baudrillard considera que o “hiper-real” ultrapassa a noção de

representação, porque está imerso na simulação. O mundo real para Baudrillard, conforme já foi dito, é “hiper-realista”. O filósofo diz que vivemos na alucinação estética da realidade. O clichê de que a realidade supera a ficção corresponde ao estágio surrealista da estetização da vida que já está ultrapassado.

A teoria de Baudrillard é mais abrangente quando o autor diz que (1996, p. 97): “(...) é a realidade inteira passada ao jogo da realidade-desencanto radical”. O princípio de simulação proposto por Baudrillard abole com a causa e o efeito, a origem e o fim, já que estes são substituídos pela duplicação. Conforme as palavras de Baudrillard (1996, p. 98): “O princípio de simulação aproveita-se tanto do princípio de realidade como do princípio de prazer”.

Entendo que, ao mesmo tempo em que a teoria de Baudrillard é coerente, pois muitas vezes aquilo que é visto na tela de cinema não apenas mostra a realidade como ultrapassa a noção de realidade, pois o espectador pode estar tão submerso a essa “hiper-realidade” a ponto de não conseguir distinguir o limiar entre a realidade vivida e a noção de simulação.

Por outro lado, Baudrillard é extremamente catastrófico quando banaliza com o cinema como se a própria história do cinema estivesse em processo de liquefação. Na contemporaneidade, medida em que o filósofo liquida com a noção de metafísica no cinema, destrói também com a possibilidade criativa do cinema em produzir o vital, o novo e o original. A rejeição ao novo é evidenciada na medida em que real e ficção, sujeito e objeto foram enterrados e, conforme suas palavras, viraram fragmentos da simulação ou “hiper-realidade”. Na medida em que o cinema se reproduz por equivalência, ele se torna radicalização utópica, é incapaz de produzir e, sob essa ótica, o cinema está morto.

Uma característica que pode ser constatada em relação ao teórico francês está relacionada com o fato do autor, na maior parte de sua obra, não estudar com maior ênfase e especificidade o cinema. Na maior parte dos seus livros, o cinema usualmente aparece associado aos estudos de televisão e associado de forma genérica à moda e à publicidade.

Constata-se também que se Baudrillard admite que o filme nos interroga e que a mensagem emitida pelo cinema passa a ser testada pelo homem, então reconhece que o cinema não está morto. Sob esse prisma, reconhece que o espectador se converteu em “meio e mensagem”, porque ele está sendo testado por esse meio e porque ele tem a capacidade de interpretar o significado da imagem na tela.

Mas o grande paradoxo de Baudrillard consiste na idéia de que, na medida em que o filósofo abole com as noções de metafísica, psicologia e a noção de subjetividade, abole também com o cinema.

Conforme já foi dito, para Bazin a concepção de realidade no cinema existe, sob a forma de ilusão da realidade. Dessa forma, o posicionamento de Bazin que considera a idéia de “fingir ser o que não se é”, conforme Baudrillard, não altera o princípio de realidade, pois a realidade é dissumulada e, portanto, existe.

Baudrillard, por sua vez, diz que o cinema se converteu em simulacro, noção que altera o princípio de realidade, baseada no pressuposto da ausência de realidade. O filósofo diz que o cinema foi arquivado e está morto. Mesmo asssim, o próprio cinema pode ser analisado pelo espectador sob a forma de arquivo. O cinema como tal pode ser visto como um instrumento para o entendimento das relações humanas. A compreensão das relações humanas no cinema envolve subjetividade e pausa para a reflexão. Reflexão esta que Baudrillard radicaliza em determinados momentos. O filósofo, muitas vezes, anula com o ato reflexivo aberto para o novo e o criativo proposto pelo realismo de Kracauer tão necessários para o crescimento do ser humano. O poder do sentimento e da afetividade foram esvaziados em meio à aridez do pensamento baudrillariano.

Ao mesmo tempo que Baudrillard diz que a metafísica perdeu o sentido, ele disseca a metafísica quando fala de sedução. Conforme suas palavras (1991, p. 11): “o cinema sempre resplandeceu graças a essa sedução pura, por essa vibração pura do não sentido, vibração quente e tanto mais bela porque vinda do frio”.

É, em sua vertente contraditória, que Baudrillard considera que o cinema e a sedução questionam o espectador. A sedução é considerada como vibração pura e está associada a uma “sedução fria”. A sedução fria para Baudrillard está inserida dentro do contexto do lúdico descrito pelo teórico como (1991, p. 185): “o encanto narcisístico dos sistemas eletrônicos e informáticos, o encanto frio do medium e do terminal que todos nós somos, isolados na auto-sedução manipuladora de todas as massas de comando que nos rodeiam”. O cinema, portanto, pertence à ordem do lúdico e da sedução fria que, sob a ótica do filósofo francês, faz com que o espectador entre em processo de total sedução com o filme projetado na tela. Porém, o filme não deixa de ser uma ausência de realidade e, por esse motivo, há uma relação fria e de distanciamento com o observador.

É sob a ótica do lúdico baudrillariano que transitam de forma complexa e paradoxal as relações humanas no mundo do “simulacro” e da sedução fria, que serão analisadas as narrativas fílmicas Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol. Nos capítulos a seguir, analisarei a interrelação entre o pensamento baudrillariano do “simulacro” como destino, morte, sedução, amor, poder, solidão e tempo nas narrativas fílmicas já citadas.

A definição de simulacro como “hiper-real” abordada no capítulo I é fundamental para a compreensão de outros objetivos da pesquisa, que serão analisados na seqüência: tentar compreender o “simulacro” como imortalidade e morte e destino para Baudrillard e a interrelação dessas questões nas narrativas fílmicas Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol.

Enfatizo mais uma vez que os fragmentos dos textos fílmicos das narrativas Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol analisados a seguir serão considerados como “simulacros”. O “simulacro”, conforme já foi mencionado, pode ser compreendido como o mundo real para Baudrillard.