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Faculdade de Motricidade Humana / Fórum Olímpico de Portugal

O presente ensaio tem por objetivo associar a primeira participação portuguesa nos Jogos Olímpicos (JO) da era moderna à fundação do Comité Olímpico Português (COP) patrocinada por um grupo de dirigentes amantes do desporto que, em 30 de abril de 1912, provocou uma rutura com a Socie- dade Promotora da Educação Physica Nacional (SPEPN)1 a fim de que seis

jovens atletas, entre eles Francisco Lázaro, pudessem participar nos JO da Vª Olimpíada da era moderna .

A questão olímpica há muito que era tema de interesse entre os apa- niguados das atividades físicas e do desporto . A 15 de novembro de 1878 ti- nha sido editado em Lisboa o primeiro número da revista O Gymnasta, onde, num artigo intitulado “ Noticia Sobre a Historia da Gymnastica desde os Tem- pos Antigos até aos Nossos Dias”, assinado por C M Pereira, o autor escrevia escrevia:

Foi Hercules que, de volta da expedição a Argos reunindo os argonau- tas nas planicies da Elida, instituiu os jogos olympicos. Faziam-se estes jogos em um circo, em um estadio ou em outros logares destinados a este uso. Estes espectaculos (que assim lhes podemos chamar) foram consagrados a divindades, e nunca se principiavam sem previamente se offerecerem os sacrificios.2

Muito provavelmente, foi a primeira vez que, nos tempos modernos, entre nós, um jornal se referiu aos JO . A descrição continuou nos números

seguintes . Contudo, ao contrário daquilo que acontecia noutros países, não foi feita qualquer alusão e ainda menos proposta para uma eventual edição nacional e moderna dos JO .

Em Portugal, os designados Jogos Olímpicos Nacionais (JON) só vie- ram a acontecer em 1910, sob os auspícios de D . Manuel II, com o objetivo de se apurar a equipa nacional que viria a participar nos JO de Estocolmo (1912) . A este propósito, em 23 de junho de 1910, o Conde de Penha Garcia (1872-1940)3 escrevia a D . Manuel II:

Amanha e no domingo realizam-se os Jogos Olympicos no Velodromo. Há 77 concorrentes inscriptos e esperamos que alguns se mostrem ca- pazes de com o treino no ano próximo poderem ir representar em 1912 aos Jogos Olímpicos Internacionais a Stocolmo (…)4

Este é o primeiro indício de que as elites começavam a tomar consci- ência do que estava a acontecer fora de portas . E em boa hora, na medida em que toda a lógica da institucionalização do desporto moderno a partir do ar- ranque do Comité Olímpico Internacional (COI) em 1894 aconteceu no sen- tido de se promover a competição formal entre atletas de diferentes países . Na realidade, este foi um dos objetivos principais senão o objetivo principal idealizado por Pierre de Coubertin quando naquela data institucionalizou os JO da era moderna .

Em Portugal, o processo de institucionalização do COP tinha come- çado quando, a 20 de novembro de 1905, D . Carlos, Rei de Portugal, iniciou uma visita oficial a Paris . O Monarca acabou por ficar por Paris mais umas semanas, até 20 de dezembro, data em que regressou a Portugal .

Como D . Carlos era um assumido desportista, na sua estada em Paris, participou em diversas competições de tiro . Muito provavelmente, foi duran- te uma daquelas provas que D . Carlos foi contactado por Pierre de Coubertin, o qual, certamente, lhe solicitou que nomeasse alguém da sua confiança, a fim de, em Portugal, representar os interesses do COI . Esta era a forma ha- bitual de Coubertin atuar . Em conformidade, D . Carlos acabou por indicar a Pierre de Coubertin o nome do médico António Lancastre, certamente por este estar ligado à Assistência Nacional aos Tuberculosos .

trumentos de promoção da saúde pela regeneração da raça, concretamente no combate ao flagelo da tuberculose . Assim sendo, D . Carlos indicou a Coubertin a pessoa que julgava mais competente para integrar o COI . O problema é que, muito embora as intenções do Rei fossem boas, ele estava completamente en- ganado . António Lancastre nunca tinha tido nem viria a ter quaisquer relações com o mundo da educação física e, menos ainda, com o do desporto . Contudo, António Lancastre, a 9 de junho de 1906, escreveu a Coubertin:

le Comité Olympique International dû á votre obligeance, tiendrait á m’élire representant au sein de votre honorable compagnie. Touché de votre bienveillance je m’emprèsse de porter á votre connaissence que j’acépte votre indication avec le plus grand plaisir, soucieux de appor- ter mon concour à votre oeuvre.5

Estava assim lançada pela mão de D . Carlos a semente daquilo que viria a ser a fundação do COP .

Em Portugal, o desejo de fazer renascer os JO através de uma edição nacional dos mesmos, ficou associado a alguns elementos da SPEFN única en- tidade que, em princípios do século XX, tinha por vocação coordenar a organi- zação da educação física no País, uma vez que o Estado, para além da Casa Real, estava completamente alheado das questões desportivas . Contudo, os Estatu- tos da SPEFN não expressavam, nem na letra nem no espírito, qualquer tipo de preocupação relativa ao Olimpismo e até mesmo ao desporto! O que se verifica é que a vocação da SPEFN estava fundamentalmente no domínio da saúde pelo que eram higienistas, tais como médicos, militares e professores de ginástica, os seus principais militantes . E eles tinham aversão ao desporto que, enquanto atividade popular que era, lhes destabilizava a ordem, a regra, a disciplina, a hierarquia e os procedimentos que advogavam através de métodos provenien- tes da Europa . A este respeito, em 1909, Duarte Rodrigues, diretor técnico da revista Tiro e Sport, manifestou-se contra um prestigiado higienista o Dr . G . Ennes que, no Diário de Notícias de 8 de setembro de 1909, escreveu um artigo com o elucidativo título: “Deve Proibir-se o Foot-ball?”6

Mas o desinteresse da SPEFN pelo desporto e a participação de uma equipa nacional nos JO de Estocolmo (2012) também se ficou a dever ao re-

gime republicano instituído em 1910 . O que aconteceu foi que, a 18-04-1911, a SPEFN foi convidada pelo Governo para elaborar um projeto de reforma do ensino ginástico .7 E a SPEFN, a 02-05-1911, entregou o projeto pedido na Di-

reção-Geral de Instrução Secundária, Superior e Especial que, transformado em diploma legal, acabou por ser publicado no Diário da República a 29-05- 1911 . O diploma legal institucionalizava um curso de docentes de ginástica a ministrar em três anos . Quer dizer, em vésperas dos JO de Estocolmo, a SPEFN estava envolvida na organização da educação física em Portugal que, do ponto de vista dos médicos e dos professores de ginástica, tinha muito mais interesse do que a participação de meia dúzia de desportistas nos JO de Estocolmo .

Como, por um lado, aquilo que os professores de ginástica mais dese- javam era um estatuto profissional que lhes permitisse o ensino da ginástica e, por outro lado, aquilo que os apaniguados do desporto mais ambiciona- vam era a participação de uma equipa portuguesa nos JO de Estocolmo, a 30 de abril de 1912, a fim de organizar a Missão Olímpica portuguesa que have- ria de representar Portugal na Vª edição dos JO da era moderna, um grupo de amantes do desporto fundou o COP provocando no movimento desportivo uma mudança organizacional de paradigma que ainda hoje se repercute no sistema desportivo nacional .

Apesar de estas questões estarem há muito clarificadas, os dirigen- tes do COP têm insistido em comemorar o aniversário da instituição no dia 26 de outubro de 19098 – que é a data da fundação da SPEFN – sem que,

alguma vez, tenham realizado um esforço minimamente sério para compre- enderem os factos e a dinâmica das ideias que configuraram os mundos da educação física e do desporto em Portugal em finais do século XIX princípios do século XX .

Esta posição dos dirigentes do COP é incompreensível e inaceitável . A verdadeira data da fundação do COP é uma data mítica e sagrada para o Olimpismo em Portugal pelo que devia ser respeitada . Não pode nem deve ser ignorada ou substituída por uma outra qualquer que, por mera conveni- ência de circunstância, possa ser considerada mais oportuna . As datas estão ligadas a pessoas e acontecimentos, à vida e à morte, são elas que dão sentido àquilo que os homens e, através deles, as organizações, vão fazendo ao lon- go dos tempos . Como referiu Duarte Rodrigues, a data da fundação do COP

jovens que, por vontade própria e da população portuguesa que o apoiou, ganhou o direito de, pela primeira vez na história de Portugal, representar o País nuns JO internacionais, um certame que, ao tempo, já era considerado como um dos mais espetaculares acontecimentos realizados à escala do Pla- neta . E Duarte Rodrigues escreveu:

A razão porque a realisação dos Jogos Olympicos Internacionaes que se veem de realisar na capital da Suecia fez despertar um movimento de attenção e curiosidade em todo o mundo culto onde a nobreza de caracter se engrandece com a capacidade physica, foi a mesma porque todo o mundo desportivo se emocionou quando o telegrapho transmit- tiu a dura noticia da morte de Lazaro.

(…) foi a demonstração mais pura de que fazia desporto, essa que com- metteu deixando a Patria para ir ao Stadium de Stokolmo dizer que tambem havia em Portugal quem corresse a Marathona. E para não renegar o glorioso nome que justificadamente obteve na Marathona portugueza, para não dar uma pallida sombra de covardia, deixou-se morrer emballado nas ancias da victoria!

(…) Isto basta para mais nos animarmos com os resultados da sympathi- ca obra do Comité Olympico Portuguez, e de preciosa lição servirá, cer- tamente, para aquelles que, sendo maldizentes ou ineptos, corruptos ou ignorantes, não entravem tanto a marcha da propaganda portugueza.9

A fundação do COP está perfeitamente identificada . Conforme cons- ta na edição do Os Sport Ilustrados de 4 de maio de 1912, aconteceu numa assembleia conjunta de elementos da Direção da SPEFN e dos delegados das coletividades desportivas . Depois, a 12 de maio de 1912, Mauperrin Santos na qualidade de presidente do COP escreveu uma carta em papel timbrado da SPEPN a Pierre de Coubertin onde informa da fundação do COP . Ao fazê-lo, em papel timbrado da SPEPN, Mauperrin Santos, na inexistência de qualquer organismo do Estado, conferia credibilidade institucional à fundação do COP perante o Comité Olímpico Internacional (COI) .10

Entretanto, devido à 1ª Grande Guerra e aos conflitos políticos da Pri- meira República que se fizeram sentir fortemente no desporto, o COP, a par

de outras organizações desportivas entre elas a própria SPEFN, deixou de ter condições de funcionamento . Consequentemente, entrou em hibernação até 1919 ano em que, segundo José Pontes, o Comandante Prestes Salgueiro, Go- vernador Civil de Lisboa e antigo atleta do Clube Internacional de Futebol, to- mou a iniciativa de organizar o Comité Olímpico para os Jogos Olímpicos de Anvers (1920) . Entre os membros do COP renascido encontrava-se Francisco Nobre Guedes (1893-1969) que, a partir de 1924, viria a ser secretário-geral do COP e, a partir de 1957, seu presidente . Nobre Guedes, a 8 de fevereiro de 1963, portanto já na qualidade de presidente do COP, enviou um ofício dirigido a Otto Mayer chanceler do COI informando-o de que o COP havia comemorado o quinquagésimo aniversário em 1962 . Para o efeito o COP tinha mandado fa- zer uma placa comemorativa (1912-1962) que lhe enviava . Diz o ofício:

En 1962 le Comité completera son cinquième anniversaire, et nous avons fait frapper une plaque comemorative que nous avons oferte aux Comités Olympique existant en 1912, de même qu’à plusieurs person- nes et entités, les quelles le Comité Olympique Portugais a en très haute considération. 11

Foi necessário chegar a 1979 para que a data da fundação do COP fosse posta em causa quando os dirigentes do COP pretenderam comemorar as bodas de diamante em 1984 considerando a data da fundação da SPEFN (1909+75=1984) como sendo a da fundação do COP . Ao tempo, Orlando Azi- nhais, funcionário superior da Direção-geral dos Desportos, alertou para o facto da verdadeira data da constituição do COP ter sido a de 30 de abril de 1912, como tinha sido noticiado pel’ Os Sports Ilustrados .12 Assim sendo, as

bodas de diamante do COP só deviam ser realizadas em 1987 (1912+75= 1987) e não em 1984 . Perante tamanho imbróglio, Fernando Machado, mem- bro da Comissão Executiva do COP (tesoureiro), em 2/12/1979 escreveu uma carta a Monique Berlioux diretora do COI onde, sem quaisquer expli- cações, solicitava a confirmação da data da fundação do COP . Dizia Fernando Machado que o registo do COP indicava o ano de 1909 mas não indicava o mês . A troca de correspondência entre Fernando Machado e Monique Ber- lioux não deixa dúvidas quanto à forma pouco séria com que a questão estava a ser tratada .13

alizar um trabalho sobre a morte de Francisco Lázaro, publicado no Diário

de Notícias na edição de 14 de julho de 1984, intitulado “Aconteceu em Es-

tocolmo há 72 Anos – A Tragédia de Francisco Lázaro na Estreia Olímpica de Portugal”, começou a perceber que as datas não batiam certo pelo que, acerca do tema, publicou na Revista Atletismo vários artigos onde escalpe- lizou a situação . Já nos anos noventa Carlos Cardoso14, dirigente desportivo,

na edição de 3/4/1994 do jornal A Bola, publicou em grandes parangonas: “COP Festeja Aniversário em Data Errada” . Apesar de tudo indicar que havia um erro de datação, os dirigentes do COP mantiveram a posição e na mais profunda sobranceria e ignorância, felizmente na ausência do Presidente da República, comemoraram o centésimo aniversário do COP em 2009 quando só o deviam fazer em 2012 .

Os JO de Estocolmo (1912) eram, aos olhos do mundo, o maior acon- tecimento dos últimos tempos onde as nações, de uma forma pacífica, iam medir forças . Eram vistos como um processo de rejuvenescimento das raças pelo qual todo o homem moderno se devia interessar . Na perspetiva de Duarte Rodrigues não eram um mero certame desportivo mas um pretexto poderoso para cada povo, cada raça, poder mostrar o quilate physico e moral de que se deve exortar perante a civilisação e o progresso .15 E a 31 de julho de 1912,

portanto, depois da tragédia que foi a morte de Francisco Lázaro, Duarte Ro- drigues, fez o balanço da situação no que diz respeito ao MO no País e disse:

O nosso Comité Olympico, de recente constituição, contra o que seria de esperar, encontrou fartas difficuldades a vencer para levar a cabo a sua espinhosa e algo ingrata missão que a assembleia magna de clubs lhe confiou.

Vieram do proprio meio desportivo os maiores embargos ao trabalho produzido carinhosamente por um grupo de dedicados, não obstante a auctoridade e o prestigio de todos os seus membros.

(…)

Foi o Comité Olympico quem, a despeito de tudo que se lhe fez, con- seguiu, pela sua auctoridade moral e pelo seu saber technico, indis- cutivelmente acima de tudo, levar além das fronteiras, aos confins da Europa, uma équipe nacional a testemunhar a sympathia de Portugal

pelos grandes movimentos desportivos, que o mesmo é dizer positiva- mente que somos europeus.16

Mas Duarte Rodrigues também responsabilizava o Governo:

… os nossos governos se não interessassem por este importante as- sumpto, mesmo depois de se ver a approvação de creditos especiaes em paizes cujos usos e costumes tanto pretendemos imitar, não é para estranhar, se bem que não deva ser essa a orientação governativa.17

De facto, o Governo não se interessou ou sequer avançou com um pequeno subsídio para suportar os custos da Missão Olímpica . Em conformi- dade, no dia 26 de junho, a jovem equipa acabou por partir para Estocolmo no paquete Astúrias exclusivamente com os apoios de algumas pessoas e os esforços do recém-criado COP . E o povo de Lisboa acorreu ao Cais das Colu- nas a despedir-se daqueles que já eram heróis . Eram eles: António Pereira topógrafo-desenhador; António Stromp, estudante de medicina; Armando Cortesão, finalista do Instituto Superior de Agronomia; Fernando Correia, funcionário superior do Montepio Geral; Francisco Lázaro, operário de car- pintaria; Joaquim Vital, empregado do comércio . Fernando Correia era o che- fe de Missão e Joaquim Vital o massagista .

Depois de passar por Londres e Copenhaga, a equipa chegou extenu- ada ao destino, eram dez horas da manhã do dia 2 de julho .18

Os resultados desportivos conseguidos pela equipa portuguesa em Estocolmo foram de qualidade e a mostrarem que, com apoios, treino e pre- paração, os portugueses podiam ombrear ao lado dos melhores do mundo . Como refere Duarte Rodrigues29 perante o contingente de atletas inscritos em

Estocolmo, só por egoísmo tolo os portugueses poderiam almejar grandes vi- tórias para o País quando se sabia que os atletas portugueses iam competir com atletas provenientes de países como os EUA ou Inglaterra habituados a torneios internacionais, preparados com tempo e método, quer dizer, países essencialmente desportivos . Contudo, para Duarte Rodrigues, a participação portuguesa foi merecedora de uma parcela de glória tributada aos vencedores, porque vencedores são todos aqueles que conseguem uma classificação por pequena que seja num certame como os JO . Para além do mais, dizemos nós,

ainda tem razão de ser, ao tempo, muito mais razão tinha . E Duarte Rodrigues conclui fazendo o balanço da participação portuguesa: Armando Cortesão teve uma atuação brilhante, honrou Portugal porque se soube bater com denodo ao lado dos maiores campeões tendo obtido uma boa classificação nas meias- finais dos 800 metros . António Pereira também teve uma atuação excelente . Só foi posto fora de combate por uma decisão a todos títulos facciosa por parte do juiz . Fernando Correia na esgrima também obteve uma classificação honrosa . Infelizmente, concluiu Duarte Rodrigues, a fatalidade entrou connosco levan- do a vida do desditoso e valente Francisco Lázaro .

A corrida da Maratona estava aprazada para o dia 14 de julho de 1912 . A partida foi dada às onze e meia da manhã debaixo de um calor su- focante . Trinta e dois graus à sombra . Reza a história que, antes da parti- da, Lázaro afirmou solenemente a Fernando Correia: Ou ganho ou morro . Depois, em plena prova da Maratona, abateu-se a tragédia sobre a equipa nacional presente em Estocolmo . Francisco Lázaro, que todos esperavam que pudesse conseguir um lugar de honra entre os primeiros, ao quilómetro 30 desfaleceu, cambaleou, caiu, levantou-se e voltou a cair, para não mais se levantar . E, enquanto os colegas da equipa nacional olímpica, que acompa- nhavam a corrida a fim de o apoiarem, viviam o desespero de não o verem chegar ao estádio, já Lázaro, na maior das agonias, era conduzido ao Hospital Serafina . Acabou por falecer no dia seguinte, às 6 horas da manhã de 15 de julho de 1912, com apenas 23 anos de idade . Com a sua morte, consumou- se a maior tragédia até então vivida numa edição dos JO da era moderna . O desporto nacional e o País estavam de luto .

O corpo de Lázaro chegou a Portugal no dia 23 de setembro a bordo do navio Vendsysset . O ambiente em Lisboa estava ao rubro na emotividade da frustração dos portugueses . Ao morrer jovem em pleno combate, Francis- co Lázaro, no regresso à pátria amada, já morto, interpretou o papel trágico do grande herói grego . Como referiu Romeu Correia, Lázaro era visto como o soldado grego que, há vinte cinco séculos, correu de Maratona a Atenas a fim de anunciar a vitória sobre os persas .20 No dia seguinte, uma enorme multi-

dão de lisboetas e entidades do desporto e da política nacional, acompanhou em procissão o funeral até à última morada que Francisco Lázaro havia de ocupar no cemitério de Benfica .

Perante os acontecimentos e os factos que marcaram os anos glo- riosos do arranque do desporto em Portugal, o que se espera é que os fu- turos dirigentes desportivos nacionais saibam honrar a memória de Penha Garcia, Jayme Mauperrin Santos, Antonio Lancastre, Carlos Bleck, Manuel Egreja, José Pontes, Armando Machado, Duarte Rodrigues, Anibal Pinheiro, Antonio Osorio, Alvaro de Lacerda, Fernando Correia, Sá e Oliveira, Guilher- me Pinto Bastos, Pinto de Miranda, Daniel Queiroz dos Santos, José Manuel da Cunha e Meneses, Pedro Del Negro que, a 30 de abril de 1912, fundaram o Comité Olímpico Português que se encarregou de criar as condições para que um grupo de seis jovens portugueses, António Pereira, António Stromp, Armando Cortesão, Fernando Correia, Francisco Lázaro e Joaquim Vital, pela

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