O início das preocupações com as dinâmicas de funcionamento de uma comunicação que se julga ‘intercultural’ está diretamente atrelado ao estudo antropológico de Edward Hall (1959), o qual, na verdade, lida explicitamente com o conceito de cultura. Segundo o autor, a
cultura é considerada comunicação (HALL, 1959, p. 119) e, nesse sentido, o conhecimento cultural só é possível por meio do estudo da comunicação per se. Além disso, Hall afirma ser não somente a comunicação verbal importante para se alcançar uma compreensão mais bem elaborada de cultura, mas também a linguagem não verbal. De acordo com o autor (HALL, 1959, p. 48), essa abordagem se deve ao fato de que o comportamento do ser humano (inclui- se aqui o comportamento comunicativo) é controlado pela cultura, sendo essa influência verbalizada na interação de modo completamente inconsciente – fala-se, com efeito, de uma silent language.
Interessante perceber que Hall trata a cultura como um objeto intelectual, passível de ser aprendido na comunicação. Por meio desse estudo, o indivíduo, além de passar a conhecer mais profundamente a perspectiva do outro, de seu interlocutor, passa também a conhecer a si mesmo. Em outros termos, é justamente por meio do aprendizado de uma língua estrangeira que o sujeito chega a conhecer a respectiva cultura. Nas palavras do autor:
I am also convinced that all that one ever gets from studying foreign culture is a token understanding. The ultimate reason for such study is to learn more about how one's own system works. The best reason for exposing oneself to foreign ways is to generate a sense of vitality and awareness – an interest in life which can come only when one lives through the shock of contrast and difference. (HALL, 1959, p. 53)17
No caso, tendo em vista a dificuldade de se definir o termo em análise, Hall inicia seus argumentos com base na defesa de que toda cultura é baseada em atividades biológicas – como, por exemplo, a noção de ‘territorialidade’ e todas as atitudes humanas que são por ela evocadas (HALL, 1959, p. 60-62). Essas atividades (dentre as quais ainda se destacam ‘interação’, ‘sexualidade’, ‘defesa’, ‘subsistência’, entre outros), segundo o autor, fazem parte do comportamento básico/natural de todo ser humano e a combinação das mesmas resulta no que é chamado hoje de cultura.
17Tradução do autor: “Eu também estou convencido de que tudo que se pode tirar do estudo de uma cultura
estrangeira é um token understanding. A razão principal para tal estudo é aprender mais sobre como o próprio sistema funciona. A melhor razão para se expor a modos estrangeiros é a geração de um senso de vitalidade e percepção – um interesse na vida que somente pode acontecer quando alguém vive por meio do choque de
Na verdade, essa é uma visão não tão alheia a trabalhos mais recentes sobre cultura. Ting-Toomey (1999, p. 10-11), por exemplo, entende cultura como um iceberg: a parte mais evidente se refere ao produto da atividade criativa e simbólica do homem (como a música, a moda e até mesmo a comunicação em interação), enquanto a parte submersa remete às tradições, crenças e valores que governam o emprego e a criação de todos os ‘artefatos culturais’ supracitados. Sob essa perspectiva, para que se possa compreender a realidade específica compartilhada entre as pessoas (a camada mais profunda do iceberg), é preciso que necessidades humanas universais sejam levadas em consideração – bem como sugerido por Hall. O estudo da cultura, portanto, parte de uma abordagem focada na atividade criativa do homem para que, finalmente, possa se ter acesso ao repositório de significados que justifica a própria atividade inicialmente analisada.
Desse modo, para que as diferentes culturas possam ser comparadas entre si, Hall propõe um sistema de análise tripartido, a partir do qual a cultura deve ser compreendida como um conjunto de ações (i) formais, (ii) informais e (iii) e técnicas. Com base nessas categorias, quanto menor for grau de formalização de uma atividade, isto é, quanto menos formal e mais técnica for uma atividade, mais consciência da mesma terá o indivíduo. Com efeito, atividades formais são aquelas guiadas por regras implícitas (compartilhadas pela comunidade), mas que não são questionadas – a transgressão ou a ignorância à regra, no caso, é altamente rejeitada pelos respectivos membros. As atividades técnicas, por sua vez, são muito bem representadas pelo conhecimento científico e acadêmico, com o qual os sujeitos, por meio de treino e estudo, tem acesso às regras que subjazem a qualquer atividade cultural e, com isso, podem escolher se se submetem à mesma ou se a ignoram. Já no que tange às atividades informais, Hall postula (1959, p. 92) que o indivíduo as põe em prática sem conhecer muito bem o apanhado de regras que as governam e que, justamente por isso, não consegue caracterizar com objetividade os comos e os porquês de cada ação. A título de exemplo, a comunicação – uma das atividades mais básicas da interação humana –, mesmo que não verbal, é guiada na maioria das vezes por ações altamente informais.
Além de categorizar as atividades humanas que compõem o cenário cultural de cada comunidade, Hall, na tentativa de estabelecer critérios mais rigorosos para a análise de culturas em geral (para que, por exemplo, um estudo cultural pudesse ser replicável),
estabelece uma comparação entre os elementos que compõem a comunicação e os que, de maneira similar, são constituintes da cultura – a saber, três categorias são focalizadas pelo autor, (i) os sets, (ii) os isolates e (iii) os patterns.
Segundo Hall, essas categorias se organizam de acordo com a progressão do aprendizado de uma língua estrangeira: primeiro, o sujeito percebe a existência descontínua de sets (palavras) e que estes são formados por isolates (sons), sendo que, finalmente, os mesmos sets se agrupam em patterns (padrões sintáticos) significativos – o aprendizado da cultura passa, a princípio, pelo mesmo processo de percepção. Por exemplo, no que diz respeito à percepção intuitiva dos sets, Hall menciona uma visita a um país árabe por um norte-americano e afirma:
What we perceive on a first visit to an Arab country is a series of interactions that we recognize as something akin to bargaining. That is, we perceive the sets: the actions, the motions, the rises in the tone of voice, increases in loudness, the withdrawal, the handling of the merchandise. (HALL, 1959, p. 129)18
Com efeito, como na lingual estrangeira, os sets perdem sentido se analisados em isolamento, alheios a qualquer contexto. É, no caso, somente por meio do conhecimento dos patterns ou padrões possíveis em uma cultura que o sentido de cada set se torna acessível. Interessante, aqui, é perceber certa semelhança entre essa premissa de Hall e a abordagem semântica distribucional baseada em corpora, segundo a qual o âmbito sintagmático (relacionado ao conceito de patterns) é essencial para a análise do significado de itens lexicais.
No tocante aos isolates, Hall (1959, p. 140) os considera a ponte de transição entre os sets e os patterns e defende a ideia de que a variação de isolados é a grande responsável pela mudança do significado de vários padrões. Por exemplo, o sistema entonacional de uma língua, considerado aqui como set, é subdividido a partir de seus tokens percebidos na fala – uma sentença em inglês, nesse caso, pode terminar com um padrão entonacional tanto ascendente quanto descendente. Essa variação dentro do referido sistema entonacional é, de
18Tradução e grifo do autor: “O que nós percebemos em uma primeira visita a um país árabe é uma série de
interações que nós reconhecemos como algo parecido com barganha. Isto é, nós percebemos os conjuntos: as ações, os movimentos, as elevações no tom de voz, aumentos no volume, o recuo, a negociação do produto.”
fato, o elemento responsável pela mudança de sentido de toda a sentença, de modo que uma afirmação passa ser compreendida como pergunta.
Os patterns, por fim, referem-se às regras culturais que guiam a organização significativa dos sets. Nesse sentido, pode-se ressaltar o caráter restritivo dos padrões em uma cultura – eles ditam, de certo modo, como o indivíduo deve se comportar (lê-se, aqui, rearranjar seu conjunto de isolates de forma tal que se possa atribuir sentido à ação). De acordo com Hall, embora o homem apresente impulsos que aparentemente são originados de forma independente, isto é, sem qualquer motivação cultural, estes são “radically altered by culture so that they are brought into play under controlled circumstances” (HALL, 1959, p. 144).19
Com base no exposto acima, Hall cria o alicerce dos estudos que estabelecem uma relação indissociável entre língua/comunicação e cultura. Afirma-se (AGAR, 2002, p. 189), além disso, que esse pesquisador foi um dos principais precursores do campo de estudos da ‘Comunicação Intercultural’. Em um exemplo interessante, Hall (1966) trata da relação dos alemães com o espaço a sua volta e como esse comportamento exprime um modelo muito básico de comunicação não verbal (a proxêmica). O autor afirma o seguinte:
Germans sense their own space as an extension of the ego. One sees a clue
to this feeling in the term “Lebensraum”, which is impossible to translate because it summarizes so much. […] In contrast to the Arab, as we shall see
later, the German's ego is extraordinarily exposed, and he will go to almost
any length to preserve his “private sphere”. (HALL, 1966, p. 134).20
A saber, não seria surpresa se essa comunicação territorial fosse caracterizada, nos termos de Hall (1959), como uma atividade formal, tendo em vista que os alemães possam apresentar um conhecimento bastante implícito das regras que governam esse tipo de interação, bem como reações negativas se tais regras fossem transgredidas (sobretudo se essa transgressão fosse feita por falantes com backgrounds culturais diferentes). Tal análise, por
19 Tradução do autor: “radicalmente alterados pela cultura de modo que eles são ativados em circunstâncias controladas.”
20 Tradução do autor: “Alemães percebem seu próprio espaço como uma extensão do ego. Pode-se ver uma
pista para esse sentimento no termo Lebensraum, o qual é impossível de se traduzir, porque ele resume muita coisa. [...] Em contraste com o árabe, como nós veremos mais tarde, o ego do alemão é extraordinariamente
mais instrutiva que seja, apresenta um caráter altamente categórico, isto é, descaracteriza o comportamento do indivíduo em prol de uma descrição generalizante de cultura. Essa tendência é percebida, por exemplo, na própria citação sobre o comportamento proxêmico dos alemães, na qual o termo Germans sugere uma homogeneização radical da comunicação não verbal feita por alemães.
A saber, esse tipo de abordagem é percebida nos estudos culturais de Hofstede et al.. (2010), o qual, juntamente com seus colegas, desenvolve uma série de parâmetros para a análise comparativa de culturas.21 Convém ressaltar que os autores, embora percebam que uma sociedade não remete necessariamente a um país (com suas delimitações geográficas e políticas), defendem análises culturais que privilegiam o escopo da nação sem a consideração de grupos minoritários. Esse interesse em comparar culturas nacionais se deve, em parte, à pretensão de que haja maior cooperação entre diferentes nações caso seus traços culturais sejam analisados (HOFSTEDE et al., 2010, p. 21-22).
Acerca dos parâmetros acima mencionados, consideram-se quatro dimensões ou valores culturais tidos como estáveis para a comparação entre culturas: (i) relação com autoridade; (ii) relação entre indivíduo e grupo; (iii) conceitos de masculinidade e feminilidade e (iv) controle de agressão e expressão de sentimentos. Em uma escala de 100, por exemplo, é atribuído à cultura alemã o índice de 67 no que se refere à segunda dimensão cultural, isto é, os alemães, em termos gerais, são considerados mais individualistas que coletivistas. Isso quer dizer que, na Alemanha, os interesses do indivíduo são mais valorizados que os interesses do grupo no qual o mesmo se insere (HOFSTEDE et al.., 2010, p. 91-96). Em contrapartida, a cultura brasileira é ranqueada com o valor de 38, sendo, portanto, considerada uma cultura mais coletivista, na qual a identidade de cada indivíduo é determinada não por traços pessoais, mas sim pelas características de seu grupo de convivência, seja este a família ou os colegas de trabalho.
Por mais que Hofstede et al.. clame pela consistente qualidade de seus dados, cabe aqui a reflexão de que, ao atribuir a uma nação valores culturais em uma escala, tem-se a
21
Esses parâmetros decorrem da aplicação de questionários aos empregados de uma empresa multinacional (IBM – International Business Machines):
HOFSTEDE, G. Culture’s Consequences: International Differences in Work-Related Values. Beverly Hills, CA: Sage, 1980.
impressão de que a cultura é decomposta em seus traços característicos. Nesse sentido, ou uma cultura é considerada individualista ou coletivista, simplesmente de acordo com sua posição em uma lista. Consequentemente, mesmo com defesa de que a pesquisa deva focalizar somente sociedades nacionais e não características individuais em cada sociedade (HOFSTEDE et al., 2010, p. 40), é difícil não perceber a contribuição dessa abordagem para a criação de estereótipos culturais. Em outras palavras, no caso da Alemanha, parte-se da suposição de que valores comunitários não sejam levados em consideração, ao passo que a imagem do indivíduo deva sempre ser conservada, respeitada.
Críticas a perspectivas teóricas como essa são feitas, a saber, pelo antropólogo Clifford Geertz (1973), em sua ‘teoria interpretativa da cultura’. Segundo esse autor, cultura já é vista como webs of significance, as quais não são descritas para se chegar a uma lei, mas sim para se entender as diversas estruturas de significado que permeiam cada ação comunicativa do homem, em cada contexto específico (GEERTZ, 1973, p. 5-7). Uma investigação como proposta por esse teórico não busca por um status ontológico de cultura (como uma entidade abstrata residente na cabeça de todos e acessível para referências a qualquer momento), mas sim pela importância semiótica (significativa) da ação humana.
Sob a ótica de Geertz, considerar a cultura como o repositório mental de crenças, tradições ou conhecimentos (que tradicionalmente são passados de geração em geração) resulta na suposição de que esse mesmo conjunto de valores seria passível de ser sistematicamente estudado, operacionalizado, a fim de que, por exemplo, algum estrangeiro pudesse se passar por nativo. Com efeito, o escopo de análise da Comunicação Intercultural serviu de base teórica para o surgimento de vários trabalhos que objetivaram certo treinamento intercultural, voltado principalmente para a adaptação de emigrantes em seus novos países ou para a harmonização de relações empresariais entre colegas estrangeiros (ROST-ROTH, 2006). Geertz, todavia, critica essa abordagem na medida em que aponta para a inaplicabilidade de se atestar o que, de fato, significa ‘ser nativo’ – não há como saber se a descrição dos valores e tradições de uma cultura reflete exatamente o que os nativos pensam ou se essa análise se configura somente como um simulacro com certa consistência lógica (GEERTZ, 1973, p. 11). Para sintetizar seus argumentos, o autor explica que
We are not, or at least I am not, seeking either to become natives (a compromised word in any case) or to mimic them. Only romantics or spies would seem to find point in that. We are seeking, in the widened sense of the term in which it encompasses very much more than talk, to converse with them, a matter a great deal more difficult, and not only with strangers, than is commonly recognized. (GEERTZ, 1973, p. 13)22
Geertz não acredita em uma relação de causa e efeito entre cultura (vista como repositório mental) e os eventos sociais dela derivados. Na verdade, projeta-se a noção de cultura para cada contexto social específico em que os indivíduos se fazem entender por meio de recursos simbólicos. Nesse sentido, o trabalho do antropólogo (ou de qualquer teórico que se propõe a estudar culturas) é de criar uma descrição – interpretar – sobre o funcionamento desse processo de compreensão contextual recíproca.23
Tendo em vista o caráter contextual da abordagem antropológica de Geertz (1973), pode-se afirmar que a mesma se coloca como contraponto teórico ao que é proposto, por exemplo, por Hall (1959, 1966). No caso, este considera cultura como condição para comunicação, visto que o comportamento humano (inclusive o verbal e não verbal) é controlado por traços culturais específicos. Geertz, por sua vez, considera o inverso – a comunicação como condição para a formação da cultura, isto é, a cultura é vista como resultado observável e interpretável do comportamento humano.
Essa disputa de abordagens contribui, de certo modo, para que outras propostas teóricas sejam formuladas,24 cujo objetivo não trata da relação de causa e efeito entre cultura
22Tradução do autor: “Nós não estamos, ou pelo menos eu não estou, procurando ou nos tornar nativos (uma
palavra comprometida em qualquer sentido), ou mimetizá-los. Somente românticos ou espiões poderiam encontrar uma razão para isso. Nós estamos procurando, nos sentido mais amplo do termo no qual ele abrange muito mais que conversar, comunicar com eles, uma questão muito mais difícil, e não somente com estranhos,
do que se comumente reconhece.”
23É preciso salientar, segundo Geertz, que esse esquema de descrição cultural é, na verdade, uma ‘ficção’, uma
criação intelectual que tenta interpretar o modo de pensar e agir de um dado grupo de pessoas. Essa descrição, porém, não representa o modo de pensar e agir de um grupo (como se a análise fosse intrínseca àquilo que é descrito), mas sim a interpretação do pesquisador a respeito daquilo que o grupo pensa ou faz. O estudo cultural passa, necessariamente, por um crivo ficcional, interpretativo e, portanto, influenciado pelas suposições e preconceitos referentes ao próprio pesquisador (GEERTZ, 1973, p. 13-16).
24A respeito dessa dicotomia analítica, Schröder (2008) caracteriza como ‘mentalistas’ abordagens similares à de Hall, sendo os postulados de Geertz considerados ‘relativistas’. A autora, além disso, julga mais sensato
privilegiar uma postura construtivista de cultura, segundo a qual esse termo se define não somente como condição e resultado da comunicação, mas também por meio de uma dimensão mediadora, intitulada
e comunicação (como se o objetivo do pesquisador fosse, em última análise, conseguir traçar o elemento que fosse mais importante – a cultura ou a comunicação), mas sim da constante (re)atualização e negociação de construtos culturais na interação.