O nome de nascimento de Evan Hunter era Salvatore Albert Lombino. Descendente de imigrantes italianos e filho único de um empregado dos correios, Charles Lombino, e de sua esposa, Marie Coppola, Salvatore Lombino nasceu a 15 de outubro de 1926, em Nova Iorque, metrópole que serviria de modelo para Isola, cidade fictícia que sobressai em suas histórias policiais, de detetive e de mistério. Vítima de câncer de laringe, ele faleceu aos 78 anos de idade, em Weston, Conecticut, em 6 de julho de 2005.
Salvatore A. Lombino cresceu no East Harlem, noroeste de Manhattan, parte da cidade de Nova York habitada por comunidades latinas, em que, anteriormente, predominavam os descendentes de italianos, passando, a partir dos anos 50, também a
42
Versos a um homem velho/O tigre na caverna do tigre/Não é mais irritável que eu./A cauda de chicote é menos fixa/Que quando eu sinto o cheiro do inimigo/Retorcendo-se no sangue essencial/Ou pendurado na árvore amigável./Se ponho à mostra o dente da argúcia/O assovio sobre a língua em arco/É mais afetuoso do que o ódio,/Mais amargo que um amor juvenil,/E inacessível a quem mal viveu./Refletido em meu olhar dourado/O bobalhão sabe que enlouqueceu./Diga-me se alegre não sou eu! (tradução da au
receber porto-riquenhos e descendentes de africanos. As escolas do bairro, caracterizado por problemas sociais, pobreza, crime e tráfico de drogas, apresentavam altos índices de violência, evasão escolar e baixos resultados em testes de rendimento.
Aos 12 anos, Salvatore Lombino e sua família se mudaram para o Bronx, mais a norte de Nova York, único distrito em terra firme, área que, nos anos 1630, pertencia à família de Jonas Bronck, fazendeiro sueco, e que se incorporou à cidade em 1898. Após a Segunda Guerra Mundial, levas de imigrantes, hispânicos de Porto Rico, das Antilhas, da América Central e de outras partes do mundo, testemunharam a drástica reconstrução da cidade, bairros negligenciados, péssimas condições econômico-sociais, que afetaram a cidade, do fim dos anos 1940 até início dos 1970, campo fértil para o crime, as drogas e a pobreza. Na sua cidade natal, Lombino frequentou Olinville Junior High School e Evander Childs High School. Recebeu uma bolsa de estudos e foi aluno da Art Students League, sendo depois aceito na escola de arte Cooper Union.
Durante a II Guerra Mundial, Lombino serviu na Marinha dos EUA, de 1944 a 1946, época em que começou a escrever contos. Estando num destróier no Pacífico, afirmava ele não ter muito mais a que se dedicar a não ser escrever. No entanto, nenhum desses contos foi publicado até que ele se estabelecesse como autor nos anos 50.
Após a guerra, Lombino retornou a Nova York e, em 1950, concluiu um B.A. (Bacharel of Arts43) da Hunter College, especializando-se em Inglês, Psicologia, Teatro e Educação. Publicava uma coluna semanal no jornal da faculdade como Salvatore Albert Lombino. Quando saiu da Marinha, as aspirações literárias de Lombino se
modificaram. Em maio 1952, mudou legalmente – tanto pessoal quanto
profissionalmente – seu nome para Evan Hunter. Um editor lhe dissera que uma obra teria mais valor mercadológico se não creditada a um autor latino. Um sobrenome de origem italiana poderia causar a rejeição a editores influentes. Em 1981, Evan Hunter declararia ter mudado seu nome em função do preconceito contra autores com nomes estrangeiros, que resultariam na execração dos trabalhos por parte dos editores. Hunter
43
Bachelor of Arts (abreviado como B.A., BA ou A.B.), do latim Artium Baccalaureus, pode ser traduzido como Bacharel de Artes ou Bacharelado em Artes, nos Estados Unidos, designa um grau acadêmico de graduação obtido após quatro anos (ou mais), equivalendo a Letras, Belas Artes, Faculdades de Humanidades, conforme explicitado nos Apêndices desse trabalho.
chegou a justificar-se: “If you’re an Italian-American, you’re not supposed to be a literate person”44
. Embora o próprio autor nunca tenha confirmado isso, o nome adotado teria sido derivado de duas escolas que Evan Hunter frequentara, Evander Childs High School e Hunter College. No entanto, ele chegou a afirmar que a identidade literária “Hunt Collins”, que ele também incorporava, teria se originado de Hunter College.
Evan Hunter passou por vários empregos antes de tornar-se escritor. Entre essas ocupações, é importante mencionar que, em 1950, Lombino trabalhou como professor na Escola Profissional Bronx, experiência que viria a formar a base para seu livro de 1954, The blackboard jungle. Chegou mesmo a tocar piano numa banda de jazz como profissional. Em 1951, aceitou um emprego como editor executivo da Agência Literária Meredith Scott, que lhe abriu algumas portas no ramo editorial, e uma carreira de sucesso como um agente literário, trabalhando com autores como Arthur C. Clarke, PG Wodehouse, Lester del Rey, Poul Anderson e Richard S. Prather, entre outros. Nesse mesmo ano, é lançado seu primeiro conto de ficção científica, “Bem- vindos, marcianos”, creditado a Salvatore A. Lombino.
Hunter se casou três vezes. Em 1949, com Anita Melrick de quem teve seus três filhos: Ted Hunter, pintor, que morreu em 2006; e os gêmeos Mark Hunter, premiado repórter investigativo, autor, professor em INSEAD e no Institut Français de Presse; e Richard Hunter, músico. Em 1973, uniu-se a Mary Vann Finley, e passou a viver também com sua enteada. Em 1997, Hunter casou-se pela terceira vez, desta feita, com Dragica Dimitrijevic45.
Autor de vastíssima produção, em cinquenta e quatro anos de carreira, entre 1951 e 2005, exerceu toda sua atividade literária, como romancista, contista, roteirista de cinema e televisão, sob a identidade de diversos pseudônimos: Ed McBain, Hunt Collins, Curt Cannon, Dean Hudson, Richard Marsten, Ezra Hannon, John Abbott. Dedicou-se a diversos gêneros ficcionais, como romances policiais (crime fiction), ficção científica e de mistério (mystery fiction e science fiction), histórias infantis e peças de teatro.
44“Se você é ítalo-americano, acham que você é iletrado/é como se você fosse iletrado”. 45
Evan Hunter começou a usar pseudônimos no início da carreira, quando, ainda muito mal remunerado, via-se na contingência de escrever muitas histórias para uma única edição da mesma revista, sem que sua identidade fosse revelada. Surgiram, assim, romances, que incluem – mas não se limitam a – histórias de motoqueiros, de aventuras, de detetives, e até de ficção científica. A maioria, senão todas, as suas obras publicadas sob esses pseudônimos estão esgotadas, embora – independentemente dos méritos literários – sejam muito valorizadas no mercado paralelo.
Como Evan Hunter, o autor ganhou notoriedade com a obra de 1954, The blackboard jungle, que lida com a criminalidade juvenil e a rede pública de ensino da cidade de Nova York. Em 1955, o livro foi transformado em filme. No prosseguimento da carreira, aconselhado por seus agentes a evitar desgastar sua imagem literária, usou outros pseudônimos, como: Curt Cannon, Collins e Richard Marsten, para dedicar-se à escrita de outras obras e de outros gêneros. O seu mais famoso pseudônimo, Ed McBain, foi usado pela primeira vez em 1956 ao escrever o primeiro de uma série famosa, Cop Hater: an 87th precinct mystery novel (Os mistérios da 87ª delegacia/distrito). McBain escreveu vários romances sobre as tensões familiares entre gerações, incluindo Mothers and daughters (1961), Last summer (1968, levado ao cinema em 1969), Sons (1969) e Streets of gold (1974). Quase todos os livros escritos sob o pseudônimo de Ed McBain são histórias policiais, cuja ação ocorre no 87º distrito de uma grande cidade perversa, chamada Isola46, muito parecida com Nova Iorque. Incluem, entre outros, Cop Hater: an 87th precinct mystery novel (1956, no cinema em 1958), Fuzz (1968, no cinema em 1972), Widows (1991) e Mischief (1993).
Muito embora tivesse negado, várias fontes o contradizem: Hunter teria escrito, como Dean Hudson, romances pornográficos para a Editora William Hamling. O fato é que, entre 1961 e 1969, noventa e três romances foram publicados sob o nome de Hudson. Contudo, não se sabe ao certo quais livros seriam realmente de autoria de
46
Situada em uma metrópole como Nova York, chamada Isola na ficção de Hunter, Cop Hater estabelece a fórmula que define o romance policial urbano contemporâneo, incluindo a cidade grande, perversidade dos personagens como num drama; múltiplas linhas de história; exposição rápida e cinematográfica; cenas de ação brutal e imagens marcantes de violência do gueto; metódico trabalho em equipe; autênticos procedimentos forenses; policiais resistentes, cínicos, simpáticos em diálogos reais. Qualquer semelhança com essa estruturação de Evan Hunter e os seriados de TV não é mera coincidência: o autor inaugura esse gênero e contribui com sua propagação na literatura, nos roteiros cinematográficos e televisivos.
Hunter, pois constituía uma prática comum à época disponibilizar a outros os próprios nomes ou pseudônimos.
Tal como The Blackboard Jungle, vários dos seus livros acabaram por ser adaptados ao cinema. Depois de Strangers when we meet (1958) e de A matter of conviction (cujo nome nos EUA foi The young savages – 1959) terem se tornado best- sellers, McBain produziu o argumento para ambos (1960-61), bem como para o filme The birds (Os pássaros), de Alfred Hitchcock, de 1962, entre outros. Hunter também foi bem sucedido como roteirista de cinema e televisão. Para manter toda essa produção, de acordo com declarações do próprio autor, trabalhava de seis a dez horas por dia, de segunda a sexta-feira, tentando escrever oito páginas por dia. Nos períodos em que mantinha um emprego regular, com expediente das 9 às 5, costumava escrever à noite e nos fins de semana.
Nas suas histórias policiais, Hunter demonstra conhecer procedimentos sobre a atuação policial, resolução de crimes, aplicação da lei, enorme facilidade para descrever a ocorrência de crimes e delitos. Como fontes para sua produção, pode-se mencionar a manutenção de boas relações entre Hunter e policiais, provendo informações sobre assuntos relacionados ao trabalho de investigação criminal. Quanto às influências literárias, apenas bons autores: James Joyce, Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, John O’Hara, Raymond Chandler, Dashiell Hammett, James M. Cain, T. H. White47.
47