A deficiência parece não ser percebida como fator direto de limitação para realização da atividade. Todavia, parece haver a identificação de limitações indiretas, ou seja, as limitações que têm a ver com o ambiente, ou com o outro. Em virtude dessas situações limitadoras, surgiu o núcleo de significação do trabalho como evidência de limitações, por vezes, do ambiente de trabalho, por vezes, pela não adequação da empresa às necessidades especiais, entre outros casos esmiuçados a seguir.
Um exemplo de limitação indireta consiste na evidência de situações e condições de trabalho inadequadas às necessidades, ainda que para pessoas sem deficiência. O relato de Maria, que tem uma limitação de movimentação em um dos braços, traz essa realidade, e ainda evidencia a limitação devido a não adaptação dos locais de trabalho para suas necessidades.
Então lá, nesse laboratório só tinham produtos em locais altos, em armários, que é totalmente contra indicado para armazenamento de produtos químicos, e eu ainda precisava dos dois braços para manusear esses ácidos... Como é que eu com um problema no braço, com essa limitação nesse braço, me colocam num canto com reagentes altamente perigosos, acido sulfídrico, sulfúrico, ácido nítrico, ácido clorídrico, todos esses ácidos para manusear com um braço? ... Além do mais, a estrutura foi feita para pessoas que não tem limitação alguma, a altura das bancadas, tudo é feito para pessoas que não tem limitação, ao passo que a minha, principalmente pelo braço, eu preciso de bancadas mais baixas, ou então, algo mais alto, em que eu consiga trabalhar. (Maria).
A deficiência de Maria faz com que ela necessite de ambiente adequado a sua necessidade, e atribui sentidos as limitações geradas, evidenciando a não adaptabilidade das empresas, percebendo o limite como sendo da empresa, e não, dela. O relato dela também demonstra o rico ao qual os trabalhadores (até os sem deficiência) se submetem para conseguir realizar o trabalho, quando não encontram situações ambientais adequadas.
Os relatos demonstram que dificuldades existentes também podem ser modificadas e transformadas para melhor atender às necessidades de cada pessoa. Mas, principalmente, reforçam o papel da organização e dos pares no apoio a qualquer pessoa
que chega para trabalhar, seja ela com ou sem deficiências. Sendo esse, um dos papéis da inclusão, cujo foco é propiciar uma realidade laboral (condições de trabalho) acessível a todos, independente das diferenças individuais.
Outra limitação causada indiretamente pela deficiência se configura nas concepções que as empresas ou pessoas têm em relação a alguém com deficiências.
Eu que sou transplantado renal, transplantado dos dois olhos e tenho uma deficiência auditiva, que não é tanta, mas tenho aparelho, não é fácil... então tinha essa questão que eu vou dizer que é como se fosse assedio moral mesmo, do chefe e seja de quem fosse, com todas as piadas, diziam: ‘é porque ele é doente’. (Josué).
No trecho acima, Josué destaca o preconceito e a falta de apoio do chefe e demais colegas; ainda relata que, nessa mesma empresa, todos os funcionários tinham uma participação nos lucros e que ele nunca recebeu, levantando suas suspeitas sobre os reais motivos que levariam ao não recebimento. Josué, ao significar o trabalho como um fator limitante, ele atribui sentidos da ordem da percepção negativa dos seus pares em relação a ele. Sua condição de saúde, e suas deficiências, fazem com que ele necessite de cuidado médico integral, e, fazendo também com que ele tenha sido alvo de “chacotas” em alguns ambientes de trabalho ao longo de sua história profissional.
Em alguns casos relatados, houve a dificuldade de realização de uma parte específica da atividade, devido à deficiência, como no caso de Mateus:
Pelo fato de eu ser totalmente dependente do implante, sem ele eu não escuto nada nada, aí quando dá algum problema técnico nele, ou quando eu estou sem o implante, aí eu fico sem escutar nada, aí eu pedia ajuda das pessoas que trabalhavam comigo. Se tava [sic] precisando falar com o fornecedor, aí pedia
“fulano de tal, me ajude aqui, ligue aí pro [sic] fornecedor, peça para ele entrar na internet”. (Mateus).
Ele se utilizou do auxílio dos colegas para realizar a atividade. Segundo Vigotski (2011), a condição fundamental para que uma pessoa se desenvolva é de que passe por transformações essenciais, apoiadas na qualidade das interações sociais no grupo no qual está inserida. De maneira que o papel do grupo ou equipe é fundamental para a realização do trabalho bem feito, visto que, ainda segundo Vigotski (2011), todos os humanos podem encontrar dificuldades e se beneficiar do auxílio proveniente das interações e que, em determinadas situações, algumas pessoas podem ter mais condições e instrumentos para exercer determinadas atividades que outras.
O suporte que os pares oferecem se configura como decisivo tanto para a realização da atividade como para a sensação de acolhimento da pessoa com deficiência nas mais diversas situações de trabalho. Abaixo, outro depoimento que sustenta essa afirmação.
Quando eu entrei lá, eles [colegas de trabalho] foram orientados, eu tive a sorte de ter [um colega de trabalho], ele é um menino de 21 anos e a compreensão que ele teve, eu não acreditei nunca que ele fosse ter, nunca, nunca... Acho que foi mais ou menos na terceira semana e eu chorei para caramba, porque eu não imaginava, eu fui pro [sic] banheiro e chorei mesmo porque coisas simples que ele foi pegando e ele foi fazendo para mim, que ele viu que eu tinha dificuldade. O meu choro era de emoção, de emoção mesmo. Saber que aquela pessoa estava alí, que aquela pessoa foi sensível a mim, que não foi uma pessoa que em momento algum me questionou, em momento algum falou, ‘é sacanagem’. Então assim, ele teve essa percepção, de eu não precisar falar muito, ele entendeu desde o primeiro
momento, quando eu sentei nessa cadeira, ele perguntou ‘mas como é que é, como é que você vê? Como é que é?’ Ele se interessou por saber. (José).
Segundo José, ao longo de sua história profissional, o trabalho significava uma limitação que ele, a seu ver, sempre iria encontrar ao se relacionar com as pessoas no ambiente de trabalho. E ao se deparar com a situação de acolhimento e tentativa de compreensão de seu colega, ele atribuiu novos sentidos àquela situação que o fez sentir- se feliz e amparado.
Segundo Sawaia (1995; 1999), a comunidade, a sociedade e os pares, podem ser catalisadores da ideia de solidariedade e reciprocidade quando está apoiada em um movimento unificador das diferenças. Todos possuem diferenças e especificidades em seus modos de ser.
O único caso em que a deficiência foi limitante da atividade, aconteceu com José, devido a incompatibilidade da sua deficiência (cegueira parcial em ambos os olhos) com a natureza de uma de suas atividades (trabalho no cartório).
Para registrar contrato em cartório, você tem que ter um cuidado muito grande com a documentação né? Então nós não poderíamos registrar contratos cópias, tinha que ser contrato original, com assinaturas originais, o contrato tinha que estar impecável, não podia ter manchas, não podia ter rasuras, nem corrigido com corretivo. E eu comecei a cometer falhas graves no registro desses contratos. Eu registrei um contrato que era todo xerox [sic], eu registrei um contrato que estava com corretivo, eu registrei um contrato que estava manchado de café, eu não vi, e estava completamente manchado de café o contrato todinho. (José) José conta que após sucessivos erros, e de ter de arcar com alguns prejuízos, ele pediu demissão do emprego, pois percebeu que não tinha condições de continuar naquele
trabalho. A natureza do trabalho exigia uma acuidade visual que ele não tinha, e para ele, não faria sentido mudar de setor, pois todos os setores de um cartório precisam lidar, com acuidade visual, os documentos. Desse modo, aquela atividade perdeu o sentido para ele, e ele deixou de fazê-la.
O trabalho significando uma limitação foi encontrado em vários relatos, como destacado aqui, contudo, as origens dessas limitações foram variadas. Às vezes, causadas pelas condições ambientais, às vezes, pelas percepções de pessoas sem deficiências em relação a pessoas com deficiências e em poucos casos a deficiência foi, de fato, um fator de limitação.