• No results found

Bakgrunn for prosjektet

Behovsprøvd rengjøring av vannledningsnettet Forstudierapport

2. Bakgrunn for prosjektet

O papel dos sentimentos, emoções, ou ainda, da afetividade em oposição à racionalidade figuram como preocupação para a humanidade desde o início da Filosofia do período antropológico, na Antiguidade Clássica. Esta foi inaugurada por Sócrates quando, no momento em que muitos pensadores buscavam compreender a origem e o funcionamento do cosmo, aponta a necessidade de o homem conhecer a si mesmo e, por intermédio da maiêutica, chegar ao conhecimento claro acerca da realidade. Dessa forma chama atenção para a razão, ou ainda, para a capacidade humana de conhecer.

Platão, discípulo de Sócrates, apresenta o homem como um ser dualista, composto por mente e corpo. Ao estabelecer a diferença entre esses dois elementos, Platão os dotou de valores opostos. A alma pertence ao reino das ideias que é permanente e perfeito, portanto, identificada com o bem e o bom. Ao passo que o corpo pertence ao mundo material que representa a parte inferior do universo. A alma quando ligada ao corpo teria três dimensões: uma racional, que se refere à inteligência; uma afetiva, relacionada aos impulsos e emoções; e a terceira é a sensual, ligada às necessidades corpóreas (FREIRE, 2014). Para o filósofo ateniense, cabe à alma racional comandar as outras duas como um cocheiro que controla dois cavalos. Dessa forma, os afetos, sentimentos e desejos, quando não controlados, são vistos como empecilhos para se alcançar o verdadeiro conhecimento. Pois a sabedoria só é possível quando as paixões estão sob o domínio da razão. Assim, no pensamento dualista platônico, os afetos são associados ao irracional, ao mal, àquilo que deve ser controlado pela razão.

Embora discípulo de Platão, Aristóteles discorda da visão dualista de seu mestre. Para ele, o corpo e a alma não podem ser divididos, pois, a essência não pode ser separada da existência material das coisas, e a alma é o princípio ativo da vida, o ânimo do corpo. Dessa forma, se desfaz o dualismo platônico e, portanto, a dicotomia entre razão e emoção. As paixões não são consideradas nem boas, nem más, mas podem ser nocivas quando em excesso, por isso devem estar sobre o controle da razão. Enquanto racionalista, Aristóteles, considera que a felicidade consiste em viver em equilíbrio, ou seja, livre de excessos. O que significa, em outras palavras, agir pela

razão. Assim, também na concepção aristotélica, as emoções, assim como as ações, devem estar sob o comando da razão (BRANDÃO, 2012).

Na Idade Média, com o advento do cristianismo, o conhecimento é subordinado à fé. Neste período surgem como expoentes os filósofos Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1225-1274). O primeiro, amparado em Platão, discorre sobre o dualismo entre alma e corpo, no qual a alma além de sede da razão era a expressão de Deus no homem. O conhecimento, portanto, era visto como iluminação divina e para alcançá-lo era necessário conter as emoções. O segundo apoia-se na distinção entre essência e existência de Aristóteles adaptando-a ao pensamento religioso. Para o tomismo, somente Deus é perfeito e, portanto, reúne a essência e existência. De maneira que a busca da perfeição humana seria buscar a Deus. Isso significa que o homem deve controlar as vontades e, pelo exercício da razão, escolher entre o bem, que o aproxima de Deus, e evitar o mal, que o distancia. Assim, as emoções aparecem na Idade Média como aspectos da condição humana que devem estar submetidos ao controle da razão, tal como na Antiguidade Clássica.

O Renascimento se caracterizou como um período no qual o homem tendo as verdades cristãs questionadas se encontra em uma condição de desamparo que lhe impôs novas formas de ser.

Não podendo esperar pelo conselho de uma figura de autoridade, o homem viu-se obrigado a escolher seus caminhos e arcar com as consequências de suas opções. Nesse contexto houve uma valorização cada vez maior do ‘Homem’, que passou a ser pensado como o centro do mundo(FIGUEIREDO e SANTI, 2006, p. 24).

Assim, os movimentos, mudanças e transformações do próprio mundo deixam de ser fruto da vontade de Deus e passam a ser entendidos como resultados de forças mecânicas. Ao homem, dotado de confiança e razão, cabe a função de conhecer e controlar a natureza.

Para tanto, são apresentadas duas formas de tentar prever e controlar o universo, uma pela via racionalista e outra empirista, que marcam o início da Modernidade. A primeira tem Descartes (1596-1650) como representante que busca obter um conhecimento seguro da verdade. Para tanto duvida de tudo que existe na busca de uma ideia clara, distinta e inquestionável que pudesse ser considerada verdadeira. Com esse intuito, quando tudo parece ser fruto da imaginação, o filósofo se percebe como sujeito pensante e, pelo menos enquanto sujeito que pensa, existe:

“penso, logo existo”. A ideia de um ‘eu’ que pensa, portanto, aparece como uma verdade clara e distinta e por isso passa a ser base de todo o conhecimento.

Pela via racionalista, Descartes considera que o conhecimento verdadeiro só é viável através da razão, à qual não é possível imputar nenhum erro. Estes são frutos das escolhas que, por sua vez, são obras da vontade e não da razão. A vontade, mecanismos do corpo, quando submetida à razão, faculdade da alma, está a serviço da verdade. E quando subordinada às emoções, também faculdade da alma, conduz o homem ao erro. Neste caso, os sentimentos são vistos como ideias que devem ser controladas a fim de que estasnão obscureçam a capacidade de discernimento do homem. Assim, os desejos do corpo devem ser dominados pela razão e não pela emoção (BRANDÃO, 2012).

Com o mesmo objetivo de buscar uma verdade segura acerca do mundo, Francis Bacon (1561-1626) apresenta um método de produção de conhecimento apoiado na experiência sensorial e racional. Para tanto é necessário a luta sistemática “contra as inclinações inatas ou aprendidas do homem que bloqueiam ou deformam a leitura objetiva do livro da natureza” (FIGUEIREDO, p. 15, 1991). O que significa que para se chegar ao conhecimento verdadeiro é necessário submetê-lo à experiência racional e excluir qualquer especulação cuja base não fosse a empiria.

Assim, Bacon classifica como ídolos ou falsos deuses da ciência todos os erros e preconceitos que distanciam o homem do conhecimento verdadeiro. A afetividade é caracterizada como ídolo da tribo e se refere a todo conhecimento originado pela percepção sensível e que, portanto, deve ser eliminada. Diante desse posicionamento rígido acerca das emoções do fundador do movimento empirista inglês, que as viam como obstáculo ao conhecimento e por isso devendo ser eliminadas, como atenta Brandão (2012, p.35) “torna-se perfeitamente compreensível a mesma atitude negativa que viria a ser entronizada séculos depois pelo positivismo e behaviorismo contra a subjetividade, no campo das ciências humanas e da Psicologia”.

Assim, a partir do século XV, a contemplação especulativa cede lugar ao conhecimento objetivo de cunho utilitarista alcançado através da submissão rígida do pensamento ao método científico, quer seja de base racionalista, quer seja empirista. Assim, Descartes e Bacon marcam o início do período denominado Modernidade, o qual se caracteriza por essa nova forma de conhecer e dominar a natureza através do método científico. Nesse período, ainda é claro o dualismo entre razão e emoção, bem como a defesa da necessidade do domínio daquela sobre esta. Muda-se a forma de

compreender o homem, mas a visão das emoções como obstáculo ao conhecimento verdadeiro permanece. Não mais sob a perspectiva ética ou moral, mas como questão epistêmica, cognitiva.

Quem rompe com a perspectiva dualista, e por isso é foco de interesse dessa pesquisa, é Espinosa (1632-1677). Este filósofo do século XVII apresenta uma concepção monista acerca do homem e natureza em uma época na qual, como já relatado, era muito presente o pensamento dualista que opunha mente e corpo, essência e existência, razão e emoção.