Nesse processo, González Rey (2002) defende que o pesquisador produz idéias no cenário da pesquisa e as confronta com o sujeito da pesquisa, gerando assim novos níveis de produção teórica, não se limitando apenas às informações geradas pelo instrumento.
González Rey (2002) atribui à teoria, o lugar de uma ferramenta a ser questionada e salienta que a teoria não apresenta uma dimensão supra-individual e que não pode ser uma camisa de força, tanto que compreende o conhecimento como uma
produção teórica, mas que nunca se expressa como um reflexo acabado do estudado. A teoria deve ser apenas um facilitador para perceber os fenômenos psíquicos. Na pesquisa qualitativa, pretende-se teorizar e apresentar propostas de modelos teóricos e não meramente generalizar os resultados obtidos para populações pretensamente semelhantes:
A pesquisa qualitativa se diferencia da quantitativa por estar orientada à produção de idéias, ao desenvolvimento da teoria. Os resultados nela obtidos são momentos parciais que geram novas perguntas. Desse modo:
“A teoria, como produção orgânica do pensamento, gera necessidades, que conduzem a categorias e construções que têm sentido só em relação ao corpo teórico em seu conjunto. A relação dessas categorias e construções com o objeto é só indireta; no entanto, é condição para o avanço da teoria em direção a novas zonas de sentido sobre a realidade estudada” (p. 61).
Sabendo que a análise dos processos da subjetividade não pode ser construída a partir de entidades homogêneas, definidas a priori, pois são irredutíveis a fórmulas universais que preconizam a comparação de elementos definíveis, tem-se que a generalização dos conhecimentos desses processos complexos terá um caráter teórico construtivo, deixando de ser um mero ato de constatação. Para González Rey (2002), a generalização é: “um processo teórico que permite integrar em um mesmo espaço de significação, elementos que antes não tinham relação entre si em termos de conhecimento” (p.164). O potencial de generalização de um conhecimento nessa perspectiva ocorre, portanto, por sua capacidade de ampliar o potencial explicativo de uma teoria. Ela não é um ato de significação estatística desconectado do processo de construção teórica do pesquisador, e assim, não está baseada em critérios de correlações, padronização ou repetição, mas na lógica do alcance das construções teóricas produzidos pelo pesquisador.
De acordo com esse enfoque, a aproximação da realidade é um processo interpretativo que conduz à construção de indicadores. Assim, os indicadores são elementos que adquirem significado por meio da interpretação do investigador, que no processo conduzirá ao surgimento de novos indicadores através de novas idéias do investigador associadas com a construção dos indicadores anteriores (González Rey, 2002). O indicador é um momento hipotético no processo de produção da informação.
Ele explicita elementos presentes na informação pesquisada que justifiquem a hipótese elaborada (González Rey, 2005a).
“O processo de definição dos indicadores é um processo de construção teórica de complexidade crescente, em que o indicador se torna elemento de relação entre os diferentes níveis da produção teórica e as zonas de sentido do objeto a que os ditos níveis dão acesso”. (González Rey, 2002, p.114)
Essas zonas de sentido serão criadas a partir do que o investigador entende como tendo sentido no estudo, ou seja, se constroem os indicadores e, a partir dessas construções, emergem as zonas de sentido. Partindo dessa perspectiva, a “análise dos dados” passa pela construção de indicadores que farão emergir as zonas de sentido. Segundo González Rey (2005a), os núcleos de significação são construções usadas para a organização e concretização do processo construtivo-interpretativo.
Segundo Aguiar & Ozella (2006), a análise frente a uma perspectiva de compreender o sujeito, se inicia pelos significados, pois se sabe que os significados possuem mais do que aparentam significar, são caminhos para o alcance das ‘zonas de sentido’. Lembrando que o sentido é mais amplo do que o significado, à medida que articula os eventos psicológicos que o sujeito produz frente a uma realidade.
A partir de Aguiar & Ozella (2006), entende-se que o processo de apreensão construtivo-interpretativo dos sentidos se dá por meio das construções dos indicadores das formas de ser do sujeito, que são processos vividos por ele. Esses autores apresentam três etapas da apreensão da constituição dos sentidos:
A primeira etapa se dá pela leitura flutuante e organização do material. As leituras são feitas do texto transcrito da entrevista, possibilitando que o pesquisador aproxime-se do material, apropriando-se dele; e nesse processo organiza e enumera os pré-indicadores. Os pré-indicadores são temas que se destacam por parecerem ter importância para o sujeito da pesquisa, por estarem carregados de carga emocional, ou também pelas ambivalências ou contradições do que é expresso pelas falas, sempre relacionando esses pré-indicadores com o problema de pesquisa proposto. O produto dessa etapa é uma lista de pré-indicadores que irão constituir em possibilidades de construções dos núcleos de significação.
A segunda etapa se dá com o processo de aglutinação dos pré-indicadores levantados pelos critérios de similaridade, complementaridade ou de contraposição. Neste momento o pesquisador atua em uma análise do empírico atravessado fortemente pelo teórico, porém não é em si uma construção teórica em sua completitude. Identifica- se nesse momento os indicadores que emergem do processo de aglutinação dos pré- indicadores. Ressalta-se que os indicadores podem ter significados diferentes em contexto específicos.
A terceira etapa refere-se a dois momentos fundamentais para a elaboração de conhecimento a partir do empírico realizado. Como primeira fase, tem-se a construção dos núcleos de significação pelo entrelaçamento da articulação dos indicadores, oferecendo uma nomeação a eles. Esse processo ocorre seguindo os critérios de articulação dos conteúdos dos indicadores por semelhança, complementaridade e contradição. Dessa forma, acessam-se as transformações e as contradições que ocorrem no processo de construção dos sentidos e significados, objeto esses da análise da subjetividade.
Por meio do alcance, possibilitado por esse trajeto seguido até o momento da análise, o pesquisador consegue ir além do que é aparente, coloca-se em uma postura interpretativa do conhecimento construído a partir das falas do sujeito.
Para atingir o objetivo de analisar os sentidos subjetivos, é necessário apreender as mediações constitutivas, indo além da aparência visando o não dito por meio da análise do processo do sentido para esse sujeito ao: “analisar seu processo, que se expressa na palavra com significado e, ao apreender o significado da palavra, vou entendendo o movimento do pensamento” (Aguiar & Ozella, 2006, p. 225).
Os núcleos de significação elaborados são os pontos centrais e fundamentais que confluem as determinações constitutivas do sujeito com o problema proposto para a pesquisa. Inclusive, as nomeações dos núcleos de significação, baseiam-se em expressões retiradas das falas do sujeito que representam a articulação feita no desenvolvimento das emersões dos núcleos de significação com o processo do sujeito atravessado pelos objetivos do estudo.
O último momento é a análise dos núcleos, que passa de um processo de intranúcleo e segue para uma articulação internúcleos. Essa análise compõe o
movimento dos sentidos do sujeito com suas contradições. Nesse processo o pesquisador, por meio de uma postura construtivo-interpretativa, articula a fala do sujeito com o contexto sócio-histórico ao qual está imerso, a fim de possibilitar compreender o sujeito informante em sua totalidade. Para atingir a apreensão dos sentidos, os pesquisadores Aguiar & Ozella (2006) clarificam a importância de investigar as necessidades expressas pelos sujeitos para atingir as determinações constitutivas desses.
“Entendemos que tais necessidades são determinantes/constitutivas dos modos de agir/sentir/pensar dos sujeitos. São elas que, na sua dinamicidade emocional mobilizam os processos de construção de sentido e, é claro, as atividades do sujeito” (p. 13).
Conclui-se que a análise é um momento em que as falas e emoções dos sujeitos são organizadas em núcleos de significação e que precisam ser articuladas com o contexto histórico no qual o sujeito se constrói e se constitui. A base material sócio- histórica constitutiva da subjetividade explicita como o sujeito transformou o social em psicológico, construindo os seus sentidos subjetivos (Aguiar, 2001).
O instrumento de pesquisa adotado no estudo é a entrevista que González Rey adota no campo de discussão sobre usos de instrumentos sob o conceito de ‘conversação’, definido (González-Rey 2005a), como “um processo cujo objetivo é conduzir a pessoa estudada a campos significativos de sua experiência pessoal, os quais são capazes de envolvê-la no sentido subjetivo dos diferentes espaços delimitadores de sua subjetividade individual” (p. 126). Acredita que por meio da conversação o pesquisador chega à trama dos sentidos subjetivos, que expressam o mundo do pesquisado com suas reflexões e conflitos, que envolvem emoção, e que proporcionam o surgimento de novos processos simbólicos. Aguiar & Ozella (2006) concordam que a entrevista é um dos instrumentos mais ricos, a qual permite acesso aos processos psíquicos, o sentido e o significado.
O uso de instrumentos segundo González Rey (2005a) significa um momento em que: “o espaço social da pesquisa se converte em espaço portador de sentido subjetivo” (p. 45). Durante a ‘conversação’, o pesquisador e pesquisado confluem suas experiências, suas questões e problematizações em um processo que proporciona a
elucidação dos sentidos subjetivos. Esse instrumento propicia a expressão de argumentações e emoções na inter-relação entre pesquisador e pesquisado.
González Rey (2002) destaca que a expressão do sujeito frente aos instrumentos se dá no clima dialógico da pesquisa, sendo esse constituído do valor que o sujeito concede à pesquisa, de suas necessidades e conflitos e de suas relações com o pesquisador. Na conversação, ao dialogar, o sujeito da pesquisa confronta-se com a produção expressa e, desta forma, sua postura é de compromisso com o que fala. A partir desse compromisso e envolvimento espontâneo durante a conversação, González Rey (2005a) explica que, por isso, os trechos de informação são inacabados, tensos e muitas vezes contraditórios. Nesse contexto, o pesquisador, em sua postura ativa, posiciona-se e questiona os sentidos subjetivos expostos pelo sujeito.