O filme A partida (2008) faz referência à morte de animais, o polvo e o salmão, nos apontando que onde há vida, a morte está presente. No início do filme, Mika chega a casa com um polvo que ganhou da vizinha, deixa a sacola no chão da cozinha e vai até a sala para conversar com Daigo. Ao voltar para a cozinha dá um berro, pois o polvo está vivo e se mexendo no piso. Decidem devolvê-lo para a água. Diante do rio, Daigo diz ao polvo “não se deixe pegar de novo” e o joga, com o impacto da queda na água, o polvo não se movimenta, está morto. Turra (2013), no debate sobre o filme A partida (2008) de Yôjiro Takita, em março de 2013, analisa a cena do polvo da seguinte forma:
[...] Onde tudo estava vivo, havia a morte. [...] e aí vem toda aquela sequência do polvo. Quando se pensava que o polvo estava morto, o polvo estava vivo. Quando se pensava que o polvo ia viver, o polvo morreu. Quando ele estava no meio da vida ele estava morto e quando estava no meio da morte, ele viveu. Essa transformação de onde se pensa que tem muita vida há algo de morte ali, e onde se pensa que há muita morte há algo de muito vivo ali.
Daigo e Mika percebem a morte do polvo, mas nada comentam sobre o fato. Essa cena talvez seja para o espectador tomar conhecimento da temática do filme e um alerta de que, no cotidiano da vida, a morte está entre nós, nos animais, no tempo e, sobretudo em nós mesmos. Esta cena aponta a primeira morte real apresentada no filme, aparece de forma sutil, delicada e poética.
Outra cena em que essa relação fica evidente é quando Daigo está na ponte observando no rio os salmões em seus esforços para subir a correnteza para desovar. Outros morrem nesta tentativa e são arrastados pela correnteza. Esse esforço dos salmões é chamado de “migração da desova”, algumas espécies percorrem 5.500 km enfrentando uma árdua e cansativa viagem (RODRIGUES, 2002, p. 1). OSr. Shokichi está atravessando a ponte, para, observa e ao se aproximar, comenta:
Shokichi - Olhando os salmões? Daigo - Oh... sim.
Shokichi - Estão lá, perto daquelas rochas. Vamos lá! Força! Força!
Daigo - É triste subir a corrente para então morrer. Por que tanto esforço para depois morrer!
Shokichi - Talvez eles queiram voltar para o lugar onde nasceram.
Esse diálogo alerta para a metáfora da vida. Podemos associá-la com nossa própria vida quando lutamos, batalhamos e nadamos por vezes contra a correnteza. Muitos têm êxito contornando os obstáculos encontrados no caminho. Já outros às vezes não resistem à pressão e sucumbem aos obstáculos e morrem arrastados pela própria correnteza da vida. A cena faz uma analogia à efemeridade, à fragilidade da vida. Mesmo que lutemos e vençamos nossas lutas pessoais, isso será apenas temporário, pois cedo ou tarde nos encontraremos com a morte, por certo nosso destino último. O Sr. Shikichi responde filosoficamente para Daigo apontando que os salmões voltariam para onde nasceram. No Canadá, três pesquisadores marcaram 469 mil jovens salmões num afluente do Rio Frasen nos Estados Unidos e recuperaram mais tarde 11 mil que regressaram ao local onde tinham nascido (RODRIGUES, 2002). Essa alusão permitir- nos pensar para onde o ser humano volta. Existe um início e um fim da vida dos animais, das plantas e dos humanos. É neste intervalo de tempo que a vida simplesmente acontece, existe. Não há nem antes nem depois. Apenas o intervalo, apenas o entre o início e o fim, eis o que denominamos vida.
O outro tópico abordado pelo diretor diz respeito ao tipo de alimentação humana baseada em comer carne de animais mortos, sacrificados para este fim. Na cena em que Mika coloca sobre a mesa de jantar uma vasilha com partes de galinha morta e suas vísceras. Imediatamente Daigo sente náuseas, vomita repetindo o mesmo mal estar ocorrido no trabalho no acondicionamento da idosa em decomposição, pois associa ao vivido, ao sentido, que foi traumatizante. Outra cena é quando Daigo decide pedir demissão do trabalho, e seu patrão está no terceiro andar da agência funerária em seu pequeno paraíso cercado de plantas. A chuva escorre pelos vidros, o ambiente é poético. O patrão está assando testículos de baiacu e oferece
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a Daigo que se senta à mesa com ele. O patrão comenta que até o que está comendo é um cadáver. Nossa alimentação permite-nos viver, ter saúde, energia, todos os seres vivos alimentam-se de outros seres mortos. Menciona a necessidade de alimentar-se para a manutenção da vida, ou seja, se não queremos morrer precisamos nos alimentar e já que temos que fazer, que seja então delicioso, especula o patrão.
Sr Sasaki - Até isto... (pega o testículo de baiacu com as duas mãos e come) é um cadáver. Os seres vivos comem outros seres para viver, certo? Exceto essas plantas. Haaa... Se você não quer morrer, tem que comer. E se tem que comer que seja gostoso. Delicioso de morrer (Daigo come, com expressão de satisfação). É muito gostoso não?
Daigo - É delicioso.
Sr. Sasaki - É delicioso, infelizmente.
Na sequência da narrativa fílmica, quase no fim, Daigo, Sr. Sasaki e Yuriko, os três solitários e agora amigos, estão comemorando a passagem do Natal. Eles estão comendo coxas de galinha assada, lambem os dedos demonstrando que há prazer e satisfação na refeição. No filme Ratatouille (2007) de Brad Bird, quando o inspetor vai fiscalizar a comida feita no restaurante, ele come Ratatouille e, ao degustar a comida, a memória da boca o lembra da comida de sua mãe, do sabor da infância. Comer não é apenas um ato de sustentar o corpo, a comida tem toda a simbologia da existência, dos afetos, da vida.
Yôjirô Takita, diretor desta obra de arte do cinema japonês, não se exime de certa ironia nestas cenas acima relatadas, pois questiona a relação que nós estabelecemos com os animais mortos, comendo-os nas refeições diárias. Criando uma associação de que de certa forma somos como vermes prontos para devorar um corpo morto. Afinal, vacas, bois, galinhas, peixes, porcos e aves em geral servem de alimentos nutritivos, saborosos e gostosos para os vivos (LINA, 2013).