Tínhamos como objetivo, neste estudo teórico, realizar uma revisão bibliográfica de temas relacionados a diversidade, alteridade, diferença e sexualidade na educação, com foco nos teóricos franceses contemporâneos: Gilles Deleuze, Félix Guattari e Michel Foucault.
Desta forma, o alargamento da representação do que é diferente pode até ser visto como um avanço em termos de alteridade, ao ponto que traz para perto algumas representações historicamente renegadas, fazendo-se como um passo a frente para nos liberarmos deste ranço hegemônico.
Há de se observar os mecanismos pelos quais isto é feito: o contexto, suas relações e resultados. Não simplesmente em tom de crítica e de recusa, mas acreditando que o exame do que está sendo feito atualmente, sobretudo em termos de políticas públicas, é sempre válido para analisar nossas ações, visto que nenhuma medida que de fato objetive alterações no plano histórico por si só. Necessitariam sempre dos revezamentos e exercícios menores, de resistência e fuga postos na multiplicidade.
Da mesma forma, ‘colocar-se no lugar do outro’ conferiria uma ação nada revolucionária, visto que todo ato de ‘se colocar no lugar de alguém’ já consideraria o si como produtor desta situação. Logo, não é o outro quem estaria ali e sim ‘eu’ mesmo. Em outras palavras, quando o outro é requerido em dada situação ele é feito a partir das representações que ‘eu’ faço dele, logo ele seria o Mesmo.
É neste sentido, que se faz a crítica à diferença presente nos discursos de políticas públicas da diversidade. Esta diferença que estes discursos abarcariam seria produzida pela representação, ao passo que ela seria o oposto do que a identidade normativa é. Poderíamos até enxergar avanços deste ponto, mas estes avanços seriam muito limitados, pois a norma continua ali. A norma até pode ser vista amplificada, mas as verdades que a amparam continuam no seu alicerce. Por isso que se requer a diferença em detrimento da diferença.
A diferença de Deleuze existe e sempre existiu marcando seus territórios no movimento rizomático de se diferenciar e se repetir, diferenciar e repetir. A grande questão é que percebê-la e, portanto, requerê-la torna-se tarefa improvável, a menos que nos possibilitemos senti-la. Este exercício de senti-la nos possibilitará expandir o corte no caos que nos fará deparar com signos e afetos. E assim conseguir atravessar os limites do pensamento para pensá-lo além daquilo que já é conhecido e pensar a diferença muito além
daquilo que se é oposto do conhecido. Assim, tanto o ser quanto o outro ganharão outra existência, uma existência muito além daquilo que é representável.
Utopia? Eu preferiria dizer Exercício. Exercício no/de pensamento, exercício de consciência, exercício de errância e de tentativas. Dessa forma não se faria sentido basear-nos em verdades dogmáticas que baseassem as relações a menos que aceitássemos os centros e as hierarquias. A verdade que se reivindica nesta dissertação estaria sempre se modificando e se construindo ao passo que o próprio indivíduo estaria sob este processo.
E a docência nisso tudo?
Penso que tanto o professor quanto o aluno – é claro que se deve considerar a
diferença como potência da infância e a diferença das etapas de desenvolvimento e sociabilidade da criança adolescente – devem se exercitar para se lembrarem de que não são ‘donos da verdade’.
A docência não precisa de uma suposta verdade para estabilizá-la, talvez precise do dizer verdadeiro, no qual a verdade é dada apenas em relação a quem próprio está falando. Para que então, pela convicção do que está sendo dito, quem o ouve saiba que ele próprio poderá construir algo para si, constituindo a si mesmo neste processo. Seria algo muito mais próximo da amizade.
E os prazeres? E o desejo?
Por que privá-los? Por que restringi-los?
O liberar-se do desejo de domínio sobre o outro é um exercício quase tão difícil quanto a prática do exercício sobre nós mesmos. No entanto, mesmo que ambos os exercícios pareçam de conquista praticamente improvável, é somente o próprio exercício em Si quem possibilitará que o provável descrito no caos da multiplicidade aconteça.
Que possamos, à medida que queiramos encontrar potência de viver para que consigamos nos arriscar cada vez mais no encontro com as intensidades, signos e fluxos sem medo da diferença do outro. Este pode ser o exercício inicial.
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