Raquel começou dizendo que não frequenta a SIRP e não sabia como poderia me ajudar. Contou que se falasse que não se considera judia, seus pais ficariam muito chateados. Disse que se considera, mas não frequenta. Conhece a história, mas não sente mágoas pelo que aconteceu por meio de uma pessoa insana, sendo que poderia ter sido com qualquer outro grupo no lugar dos judeus. Não consegue olhar para a história e se sentir perseguida, como alguns se sentem, talvez por não ser tão religiosa e próxima da cultura. Para ela o judaísmo é uma religião e, acima de tudo, uma comunidade. Mas ela acredita que a religião está dentro das pessoas e que tem um deus dentro dela e não precisa seguir uma religião. Raquel acha que a história da sua família não a influencia, mesmo porque são pessoas que ela não conheceu.
Entrevista Raquel 19/02/2013 E: entrevistadora (Milena) RAQUEL: participante
Entrevista realizada na casa da participante.
Ao entrar em casa, Raquel já começou contando que não participa muito da SIRP e que não sabia como poderia me ajudar. Expliquei a importância da entrevista ser gravada e pedi para ligar o gravador.
RAQUEL: Então, eu não sei o que que você vai querer saber de mim, porque eu realmente comecei a ter mais contato com a... com a SIRP, a partir do momento que eu comecei a ir com a minha mãe,
E: Uhum
RAQUEL: né, porque eu não era de ir, então assim, não sei o que você vai perguntar...
Lemos e assinamos o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Perguntou se eu entrevistei uma sobrevivente do Holocausto que veio dar uma palestra em Ribeirão Preto, eu respondi que ainda não tive essa oportunidade.
RAQUEL: ela ia ser interessante... E: é...
RAQUEL: ela viveu o negócio...
E: Uhum. Você chegou a ir na palestra? RAQUEL: Fui! Achei muito interessante. E: é...
(terminamos de preencher o termo)
E: Eu queria saber, primeiro, se você se considera judia e, se você se considerar, o que significa ser judia pra você, como que é...
RAQUEL: (rindo) Que pergunta difícil!
E: E... levando em conta também, que ao longo da história os judeus tiveram dificuldades, perseguições, até o Holocausto, se você acha que isso tem alguma influência na sua vida...
RAQUEL: Olha, é difícil te explicar isso. E: Uhum
RAQUEL: Se eu te falar que eu não me considero uma judia... meu pai, minha mãe vai ficar muito ofendida. Mas na verdade eu acho assim, é... como que eu vou, que eu poderia dizer isso? Eu me considero, é, mas assim, não... não frequento, não conheço algumas coisas, sei do que aconteceu, mas, por exemplo, eu tento ver isso, agora eu não sei se é porque eu não passei... teve gente na família... acho que é tios da minha mãe, do meu pai...
E: Uhum
RAQUEL: A própria família do meu pai veio fugida, meus avós, alguma coisa assim, mas eu num... eu não consigo ter aquela é... como é que fala? Achar que o... tudo bem,
aconteceu, uma coisa horrível, que poderia ter acontecido com...com... com uma outra grupo de pessoas, mas foi escolhido lá que teria que ser os judeus, sei lá como que foi a coisa, mas eu quero dizer assim, é, não... não culpo, não tenho mágoas,
E: Uhum
RAQUEL: de uma pessoa insana que fez uma coisa dessa. Assim, foi um caso... não sei se pode dizer um caso isolado, mas foi uma coisa que aconteceu por uma pessoa insana, mas não que... é... que a raiva pelos judeus... foi.. foi... ele não gostava, agora, porque também não sei, mas eu digo assim, poderia ter sido, podia ter dado na louca dele ir atrás de outro grupo
E: Uhum
RAQUEL: mas eu digo assim, eu não consigo lev... ter essa raiva como o pessoal que é mesmo, que é religioso, que tem, que acha que o pessoal é antissemita, eu não consigo enxergar isso, não sei se é pela minha ignorância a respeito do assunto
E: Uhum
RAQUEL: ou porque eu penso diferente, (disparou o interfone)
RAQUEL: Então sabe, eu não consigo, eu não sei se é porque eu tenho uma formação religiosa, não frequentei, conheço um pouco da cultura, da religião, então, eu não consigo, as vezes eu acho que o pessoal se sente perseguido, que acha que todo mundo... né, eu já não consigo ver dessa maneira, eu com.... eu considero que assim, foi uma coisa horrível que aconteceu, uma coisa insana
E: Uhum
RAQUEL: mas eu acho que, muita gente morreu, muita gente sofreu, muita família foi destruída, entendo todo esse lado da... do sofrimento, mas eu acho que é... alimentar a raiva, o... a... o ódio que o pessoal tem, eu acho que isso não... não é bom, em nenhum, em nenhuma situação, eu acho que os extremos são ruins de qualquer situação, seja questão religiosa, questão política, econômica, o que for, o extremo é exagerado.
(filha passa e pergunta alguma coisa)
E: E você comentou que você ia com a sua mãe nas reuniões, você...
RAQUEL: É, frequento, porque minha mãe... por exemplo, a noite ela não dirige, então, a partir daí, ela começou a frequentar mais a Sociedade, inclusive ela é membro do... da... da SIRP, então eu levo, então eu comecei a me inteirar mais, a participar mais, mas mais pelo fato de eu ter que acompanhá-la do que por vontade própria, entendeu? E: Uhum
RAQUEL: Mas assim, me considero uma judia, mas assim, não praticante. Não sei... as... como é que fala? O rituais, as... como é que fala? Como que eu poderia dizer? Aquele negocio que não pode isso, não pode... não...
E: Uhum... você considera pela descendência?
RAQUEL: Isso, pelo fato dos meus pais, meus avós, os meus pais... eu não fui casada... não casei com um judeu, inclusive eu casei só no civil, porque aqui em Ribeirão, mesmo... primeiro, acho que, como na maioria das religiões, a mulher é muito discriminada, como, por exemplo, o homem tem que fazer a tal da Bar Mitzvah, a mulher, não é obrigada. Por morar longe, aqui, na época, quando eu era menina, nunca teve Sinagoga, nunca teve... não existia a SIRP, então a gente num... eu não fiz, eu não frequentava, né, e.... aí por, em respeito, em consideração aos meus pais, à família, que... eu não... eu não casei na igreja, casei só no civil, mas eu casei com um católico. E: Uhum
RAQUEL: Né, e meus pais nunca se opuseram que a gen... nem eles, nunca foram fanáticos, eles respeitam, comemoram as datas
E: Uhum
RAQUEL: também nunca foi aquele pessoal bitolado. E: Uhum
RAQUEL: Então, eu acho que, na verdade eu acho que a religião ta dentro da gente, na cabeça da gente,
E: Uhum
RAQUEL: eu não acho que você... tudo bem, é... (rindo) a... o judaísmo é um... é uma religião, mas acima de tudo é um grupo, é um, é uma comunidade, é um... e... mas eu não... não participo, assim, participo esporadicamente, acho... acho que todas elas, todas as religiões, independente do que aconteceu ou possa acontecer, pra mim elas são muito... tem uma certa hipocrisia nas coisas, então, eu acredito num deus dentro de mim, eu tenho uma fé nas coisas que eu penso, mas não... tenho um deus dentro de mim, não preciso ser judia, católica, protestante, não... entendeu?
E: Uhum
RAQUEL: Sou, respeito, mas... é isso.
E: Uhum... e você acha que saber da história, dos seus tios, avós, mesmo da sua família, tem alguma influência na sua vida? Mesmo não participando tanto...
RAQUEL: Ah, não sei, eu acho importante que isso seja passado de geração pra geração, pra humanidade conhecer o que aconteceu e que não se repita, mas eu acho
que... isso, talvez influenciou na vida dos... pais... dos meus avós, dos meus pais, a mim, diretamente, porque são pessoas que também eu nem conheci, afetou assim, pelo fato da atrocidade, a coisa horrível que aconteceu, mas assim, não, mesmo porque eu convivi muito pouco
E: Uhum
RAQUEL: né, nunca foi muito exigido, em compensação, por exemplo, minha mãe tem uma fi... o... os filhos de um irmão que mora lá em São Paulo, todo mundo é muito religioso, todo mundo... entendeu? Mas foi criado nessas condições, eu não...
E: Uhum
RAQUEL: Então, o pouco que eu conheço eu procuro ver, conhecer, pelo que minha mãe conta, pelo que conta a história, pelo que o pessoal conta, e tudo essas coisas, E: Uhum
RAQUEL: mas assim, acho que influenciar na minha vida de um... acho que não
E: Uhum... entendi. E tem mais alguma coisa que você gostaria de falar sobre estes assuntos?
RAQUEL: Acho que não
E: Então tá... é só isso... obrigada!! (anotei os dados)
E: Sua mãe comentou que as reuniões da SIRP eram na casa dela... RAQUEL: É, no começo era...
E: E você participava?
RAQUEL: Não, na época eu era casada... não participava. Finalizamos.