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Bago River water quality and the risk of not meeting good ecological status

In document Bago River Sub-basin Management Plan (sider 18-22)

A tarefa que cabe aos jovens estudantes de escolas finalistas do Prêmio Escola Voluntária, sob supervisão de jornalistas da Rádio Bandeirantes, é a produção de uma reportagem de dois minutos e meio sobre a ação social desenvolvida, como já explicado. O máximo aproveitamento desse tempo é a grande dúvida de alunos e professores durante a fase de capacitação. É nesta fase, portanto, que se enfatiza a

importância do ouvir, o que significa ter atenção ao texto, à escolha da sonora, ao

cuidado com a repetição das informações e das palavras...

Ao desempenharem o papel de sonoplastas e, ao mesmo tempo, de ouvintes, os estudantes são desafiados a permitir que o ouvido também compreenda a informação em forma de som. A apostila de capacitação e o conteúdo apresentado em sala de aula constantemente os fazem refletir sobre como contar histórias não apenas por meio do texto, mas também por meio do som de modo a, em alguns casos, fazer com que o efeito sonoro ou trilha musical ocupe o lugar do texto ou sirva de apoio à compreensão desse texto. Nesse sentido, Murray Schafer (1991, p. 214) propõe que se tente contar ―um conto de fadas bem conhecido, uma história bíblica ou uma história dos noticiários correntes, sem

palavras, apenas por meio de efeitos sonoros‖ e questiona se ―os outros poderão adivinhar que história está sendo contada.‖ É fundamental incentivar o aluno a considerar o som como elemento integrante da produção e, mais ainda, da compreensão da mensagem. Deve-se preparar o corpo, e não apenas os ouvidos, para que esse processo ocorra de forma satisfatória. Trata-se de criar novos hábitos nos alunos que já são bastante acostumados a aprender com o que se escreve em lousa ou o que está impresso no livro didático.

José Eugênio Menezes diz que:

―Na cultura do ouvir somos desafiados a repotencializar a capacidade de vibração do corpo diante dos corpos dos outros, ampliar o leque da sensorialidade para além da visão. Ir além da racionalidade que tudo quer ver, para adentrar numa situação onde todo o corpo possa ser tocado pelas ondas de outros corpos, pelas palavras que reverberam, pela canção que excita, pelas vozes que vão além dos lugares comuns e tautologias midiáticas‖ (MENEZES, 2012, p.33).

As palavras que reverberam e a canção que excita a que se refere Menezes são as escolhas que se esperam de alunos ao serem estimulados a realizar exercícios que lembrem o ambiente radiofônico. Os jovens devem saber reconhecer o som como elemento único para se contar uma história, para explicar algo, para ambientar alguém em algum lugar de modo imaginário. Da mesma forma, aqueles que ouvem e acompanham a apresentação dos exercícios devem se dispor a se informar pelo som. Ao exercer tais papéis, os jovens deverão levar em conta que imagens são criadas a partir do que se ouve e, portanto, do que se escreve e do som escolhido para comunicar algo. Qualquer tarefa que se proponha em sala de aula, mesmo que sem qualquer objeto como microfone, fones de ouvido e mesas de som, pode ser fator de estímulo à criatividade do jovem. Criar um ambiente de rádio em sala de aula é menos ter a reprodução exata de um estúdio e mais inserir o aluno em um ambiente em que ele possa imaginar para explicar e imaginar para entender, fazer gestos para expor e deixar que todo o corpo ouça que é exposto. De acordo com Norval Baitello,

―Sempre será necessário que as imagens geradas na mente emirjam à superfície, não importa se traduzidas em som, palavras (...) o que importa é que elas venham à tona para se transferir para outros, para vincular, para criar pontes com outros seres. Uma vez transmitidas, recebidas por outros, importa que elas alcancem a caixa de ressonância interior e profunda, gerando novas imagens, retornando às entranhas, reverberando novamente em múltiplas dimensões‖ (BAITELLO, Incomunicação e imagem).

A criação de pontes para vincular, para se transferir para outros é o que se espera a partir dos exercícios propostos em sala de aula. Trata-se de provocar sociabilização dos jovens entre si, entre os jovens e professores e até mesmo pais e funcionários da escola por meio de estímulos a um constante jogo de imaginação e criatividade que existe em um profissional de rádio. O aluno não precisa aprender a ser um exímio jornalista de rádio, mas deve usar de forma lúdica as características desse meio para aprender de forma motivadora. Desafiar-se a conduzir uma atividade diferente daquela com a qual está acostumado é a proposta, o que significa expor algum tema que integre o programa da disciplina pelo gesto, pelo som, pela voz... pelo rádio... e não por uma redação tradicional ou por um trabalho de Artes, por exemplo. O exercício de criar imagens, papel do aluno redator, e de compreender tais imagens, papel do aluno ouvinte, para que o aprendizado de um conteúdo disciplinar ocorra e, especialmente, o vínculo exista, deve ser estimulado no ambiente escolar. Essa disponibilidade de compreender e criar a imagem

sonora ocorre a partir do tipo de estímulo para tal.

Mais do que o aluno que apresenta algum trabalho e pratica um ato de criar essas imagens sonoras, aquele que escuta precisa estar disposto a aceitar essas imagens sonoras. O exposto fica claro a partir de Hans Belting:

―A interação entre imagem e tecnologia só se pode entender se observada à luz das ações simbólicas. A própria produção de imagens é um ato simbólico e, por isso, exige de nós um modo de percepção igualmente simbólico, distinto da percepção visual quotidiana (...) O meio portador é em si mesmo veículo de significado e confere a possibilidade das imagens serem percepcionadas (...) É a encenação através de um meio de representação que funda o ato da percepção‖ (BELTING, 2014, p. 32).

A encenação a que se refere Belting pode ser o exercício proposto em atividade escolar e é fundamental que seja compreendida como um vasto campo para que a criatividade do estudante seja estimulada. Profissionais que atuam em jornalismo de rádio convivem com a necessidade de produzir imagens aos seus ouvintes diariamente. Os ouvintes, por sua vez, também estão dispostos a praticar o

exercício de receber tais imagens de forma simbólica. A descrição de um lance em uma partida de futebol, de uma ação policial em uma grande avenida ou de um simples boletim sobre a situação do trânsito são exemplos de como se dá esse processo, tanto do lado de quem produz como de quem recebe essa informação. Nesses três exemplos, repórteres, geralmente, utilizam referências a imagens de conhecimento geral para que a notícia seja, de imediato, recebida e compreendida por seu ouvinte. Um repórter, ao narrar uma situação qualquer de trânsito na cidade de São Paulo, faz referência a locais conhecidos, como: o Sambódromo do Anhembi, o prédio do Conjunto Nacional, o caminho que leva ao Minhocão, a chegada à Praça da Sé, o trecho sob o Viaduto do Chá...

Ouvintes de qualquer emissora de rádio que buscam a informação já possuem tais imagens ―de tal modo interiorizadas‖ (BELTING, 2014, p. 33) que a informação/imagem é recebida mais facilmente. No caso do boletim de trânsito, os ouvintes mais acostumados com os problemas de tráfego de determinada região não hesitam em procurar novas rotas, pois a perda de tempo no trânsito já lhe pode ter causado atrasos em seu dia a dia de trabalho e, portanto, a essa imagem ele ―atribui a expressão de um significado pessoal e a duração de uma lembrança pessoal‖ (BELTING, 2014, p. 33). A partir do exposto, estudantes devem utilizar o recurso de criar ―imagens‖ no rádio a partir da realidade que se encontra na comunidade da qual fazem parte e onde, portanto, existe um amplo leque de situações, locais ou objetos de conhecimento comum que podem servir como referencial para a compreensão de um tema.

A assimilação de um conceito qualquer que faça parte de um conteúdo disciplinar pode ser melhor concretizada por meio do som. Se relacionadas a esse conteúdo, as imagens interiorizadas e o significado especial destas são processos que ocorrem da mesma forma. O aprendizado de um conteúdo escolar pode ser estimulado por meio de exercícios radiofônicos ou de elementos de uma realidade que possam ser associados a tal ambiente. Joachim-Ernst Berendt afirma que:

―O âmbito da visão é superfície. O âmbito da audição é a profundidade. Os olhos veem o superficial. No entanto, nada do que é percebido pela audição deixa de penetrar a fundo. Sim, mesmo quando ouvimos algo superficialmente, há maior penetração do que quando apenas vemos alguma coisa, pois o olhar que só detecta a superfície não vê além dela. A pessoa que ouve tem mais oportunidades de aprofundar-se do que aquela que apenas vê‖ (BERENDT, 1983, p. 20).

Significa dizer que exercícios escolares que estimulem a compreensão de qualquer assunto por meio do som podem ser estimulantes, em que pese uma disciplina apresentar possibilidades maiores de utilização desse recurso do que outra. O estudante deve ter em mente que uma música pode dizer algo e, portanto, não basta uma música que lhe agrade; é fundamental saber ouvir seu conteúdo para identificar se este vai ao encontro da história que se quer contar. O conteúdo da

Figura 4 tem o objetivo de fazer o aluno refletir sobre a trilha sonora que vai servir

de acabamento para a reportagem; na citação em destaque na apostila, o aluno e o professor que participam da aula notam que, em boa parte dos casos, vale mais a utilização de uma música eventualmente criada pelos próprios alunos do que aquela de conhecimento geral porque são valorizadas, desta forma, as noções de pertencimento a uma comunidade.

Figura 4. A importância da escolha da trilha sonora, conforme demonstrado em

Da mesma forma, o aluno não deve se satisfazer apenas com o que consegue compreender por meio da escrita tradicional. É importante que possa se comunicar por meio do som, desde o som pronto e existente até o som que nasce de forma criativa por meio da utilização de objetos encontrados na própria escola e que, eventualmente possam servir para contar uma história. O estímulo a essa produção criativa poderá desenvolver habilidades importantes no estudante de uma forma lúdica e instigante, que o faça ter motivação para o aprendizado. A seguinte observação de Berendt já se apresenta de maneira a provocar um debate bastante desafiador em sala.

―Deixe sua vista captar os sons. Então, finalmente, você terá a compreensão (...). Permita que seus ouvidos vejam a cor. Então, finalmente, você terá a compreensão. (...). O que importa é ouvir os sons inaudíveis, é experimentar a invisibilidade das cores, a visibilidade dos sons, a audibilidade das cores‖ (BERENDT, 1983, p. 50).

Não são necessárias respostas práticas sobre como ouvir a cor ou ver os sons, mas constantes exercícios que façam o aluno buscar formas criativas de ver o que normalmente apenas se ouve ou escutar aquilo que, em tese, é apenas enxergado. Por meio de comparações de textos bem escritos e narrações ainda melhores, será possível promover situações em sala que sirvam de impulso para estimular o estudante.

Boris Cyrulnik vai além, ao nos alertar que devemos ter atenção à forma como o outro interpreta o mundo. Há a necessidade de aguçar no jovem diferentes maneiras de compreensão de um conteúdo que não o visual apenas porque quem nos ouve provavelmente compreenderá nossa mensagem de uma forma diferente daquela com que nós compreenderíamos. Diz Cyrulnik:

―A forma do mundo percebido depende da forma do aparelho perceptivo (...). A penetração do observador depende também da maneira como sua faculdade de observação se elaborou ao longo de seu próprio desenvolvimento (...). Habitamos um mundo interpretado por outros, onde precisamos nos situar‖ (Cyrulnik, 1995, p. 8).

O estudante precisa treinar o ouvido para compreender a mensagem do colega, responsável pela mensagem sonora. Significa dizer que a importância do ouvir não está apenas integrada ao trabalho do grupo que produz o material em sala de aula, mas também à atividade daquele que a recebe. Professores devem provocar reflexões no aluno sobre diferentes maneiras de contar e de compreender uma história com o objetivo de valorizar a capacidade do estudante de trabalhar com diferentes formas de linguagem e expressão.

Sobre essa questão, José Eugênio Menezes destaca a observação de Rudolf Arnheim (ARNHEIM apud MENEZES, 2012, p. 31):

―O radiouvinte se sente seduzido a completar com sua fantasia o que falta na emissão radiofônica (...), no entanto (...) nada falta à emissão radiofônica, pois sua essência consiste precisamente em nos oferecer a totalidade, não apenas o audível.‖

Aos jovens no papel de repórteres e redatores, é fundamental que se oriente produzirem imagens que sejam de significado suficiente para a compreensão do aluno ouvinte. Ao falar em fantasia, Menezes aponta para a necessidade de quem recebe a mensagem, nesse caso, o aluno que acompanha a apresentação do colega, conseguir compreendê-la sem depender do auxílio da escrita. O exercício da criatividade é fundamental nesse caso, conforme Christoph Wulf:

―A fantasia é uma das capacidades humanas mais enigmáticas. Perpassa o mundo da vida e se manifesta das mais variadas formas. Torna-se manifesta apenas em suas concretizações. Ela mesma escapa a uma definição inequívoca. Fantasia abrange a capacidade de perceber imagens, mesmo quando a coisa representada não está presente. Caracteriza a capacidade de ver interiormente‖ (WULF, Imagem e violência. Imagem e fantasia).

É de se destacar que o estímulo ao ouvir, neste caso, significa outro caminho para a busca da aquisição do conhecimento por parte do aluno. Este, sempre acostumado a ler e a ver, deve também ouvir o que lhe é dito, não no tom professoral, mas, como diz José Eugênio Menezes, ao se referir aos processos de abstração, de uma forma que permita

―uma aproximação do homem com as coisas e com os outros homens, ou melhor, (...) a própria constituição do homem como um animal simbólico, histórico, capaz tanto de tomar distância como de vincular-se às coisas e aos outros‖ (MENEZES, 2012, p. 24).

Uma outra etapa da fase de produção das reportagens do Prêmio Escola Voluntária, em que o aluno locutor estabelece vínculos de forma solitária porque não enxerga a quem se vincula, é a gravação da reportagem. Gesto, som e voz trabalharão em sintonia para a formação de uma mensagem.

In document Bago River Sub-basin Management Plan (sider 18-22)