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BAGC: First-phase (2010-2015) pilot project opportunities and actors

2.4. KEY ELEMENTS IN THE BAGC INITIATIVE

2.4.3 BAGC: First-phase (2010-2015) pilot project opportunities and actors

O relevo interage nas pescarias em sua porção emersa e submersa. A configuração da linha da costa e sua continuidade abaixo d'água condicionam formas distintas de pescaria, tais como o arrastão de praia, o cerco da costeira, o cerco fixo, o cerco flutuante, entre outros.

O relevo emerso é parte da referência para os processos de marcação dos pesqueiros, dos caminhos e dos obstáculos submersos no fundo do mar - parcéis, pedras, naufrágios. Através da triangulação com pontas, marcas nas costeiras, topos de morros, entre outras referências que podem ser formações vegetais, construções e mesmo a luminosidade de cidades e vilas, nas pescarias noturnas, o pescador, a partir da sua visada do mar em direção à terra, traça o cruzamento das retas , determinando os pontos desejados - localização de caminhos e pesqueiros.

O relevo emerso é responsável ainda, em associação com a circulação das águas oceânicas, por características próprias do comportamento do mar, como áreas abrigadas, áreas batidas, áreas de embate de ondas. Especialmente no Nordeste, as linhas de recifes e arrecifes, ora emersos, ora submersos, constituem locais de embate, assim descritos por SARNEY (1995) em seu romance "O Dono do Mar", nas águas maranhenses:

" A Risca era uma linha de espuma vista de longe e, de perto, a batida de frente de duas marés, a que vinha da terra e a que vinha dos altos oceanos. Na cheia, era aquele turbilhão, sons de vagalhões batendo por baixo, nas pedras; por cima, a crista das ondas. Os arrecifes vinham das profundezas e não botavam a cabeça de fora, e eram tão alinhados que deixavam na superfície só um traço, uma linha de espumas, como se fosse uma estrada prateada, demarcando no azul sem-fim um terreno que não existia. Era preciso muito cuidado ao aproximar-se de suas bordas, que contornavam o confronto desta luta de centauros..." .

Áreas de embate também ocorrem em pontas muito salientes, tais como aquelas que demarcam a entrada da baia de Ilha Grande- Joatinga e Marambaia no continente, Dragos e Castelhanos na ilha. Em Almofala- CE , áreas de embate ocorrem para além das sessenta braças de profundidade, interpretado pelos pescadores como áreas de "emenda das águas" (CHAVES, 1975).

Ainda no Nordeste, a apreensão do relevo emerso e submerso é base para a pescaria de caminho e cabeço24, onde também são empregados os processos de marcação. A marcação também era empregada pelos pescadores cearenses de Almofala, nas pescarias do "mar de terra", mais próximo a costa e de onde se avista os referenciais da marcação. Marcação que é " sem dúvida uma prática social ligada a territorialidade, conceito que informa fundamentalmente o conhecimento marítimo e as outras práticas que a ela se associam na construção do horizonte de relacionamento das sociedades pesqueiras com o real..." (MALDONADO, 1993).

Vejamos a descrição da marcação partindo de um jangadeiro cearense da Praia de Redonda - Icapuí. O entendimento deste processo pressupõe uma mudança de ponto de vista, qual seja, a visada da terra a partir do mar, sendo que os caminhos no mar são dados pelos referenciais de terra, tais como o ângulo em que se enxergam as formas de relevo, porções de vegetação, construções, entre outras referências. Os locais onde se encontram os manzuás (apetrechos de pesca) também são localizados a partir das referências de terra.

" É o caminho que eu tô falando, é uma moita que existe aqui na Serra. Aqui é a serra, aqui a gente vai correndo pra fora, quando chega ali, numa certa base, aí tem uma moita, tá intendendo? Moita em cima do monte. Aí de lá a gente faz um caminho pro manzuá. Se o manzuá tá aqui, esse caminho aqui a gente fez esse caminho aqui é que nem uma bússola, que nem uma bússola. A gente vai, vai, vai, vem, vem, vem no caminho certo, o caminho que a pessoa já tem base pra isso aí. Vem morrer em cima, aí bota uma bandeirinha, o material aí com as boinhas que têm muita pequenininha. Aí quando a gente muda pra cá, pra cima, aqui já essa moita que tá aqui tá na serra ela já corre pra cá e daqui já faz outro caminho pra cá, outro manzuá e o mesmo material a gente coloca é o setor que ele tava . A gente vai caçando."

ERIALDO - Redonda - CE

Se o relevo emerso é visível e facilmente apreendido, a configuração do fundo marinho somente é conhecida a partir do uso de instrumentos. Ainda que equipamentos modernos cumpram esta função, o conhecimento de pescadores artesanais construiu formas simples de apreensão do fundo marinho. MALDONADO (1993) e CHAVES (1975) nos falam em sassanga, um cordão com um peso que o pescador segura na proa do barco. Nos depoimentos recolhidos, por exemplo do Sr. Benedito de Conceição da Barra, utiliza-se um prumo para medir a profundidade e este mesmo prumo com um pouco de sabão para averiguação do material presente no fundo marinho que é bastante diversificado segundo o depoimento a seguir:

Edu: Num pesqueiro desse aí, que é só céu e mar, você, pela cor da água descobre alguma coisa?

Bi: Pela cor da água fica difícil. Agora nós acostumamos a conhecer mais ou menos a região que nós estamos pela qualidade do terreno. Normalmente a gente usa uma sonda de mão, que eles colocam sabão e a gente arreia pro fundo. Pela profundidade, pela qualidade do terreno, a gente sabe e o horário de viagem, a gente sabe também. Quem viaja com uma carta que já são com os barcos maiorzinhos, num é pro pequeno, o pescador artesanal, é marcado mais ou menos o ponto de referência na carta o cara sabe mais ou menos onde ele está.

Edu: E que tipo de fundo tem aí?

Bi: Aqui nós temo coral, nós temo a lama, temo o cascalho, temo vários tipos de fundo aí,

tem aquele lisero que é o barro duro, tem o batinga, tudo nós temos aqui.

BI - Conceição da Barra - ES

Como no litoral capixaba, na Ilha Grande o fundo marinho é bastante diversificado, especialmente diferenciado entre lama, areia e parcél, que condicionam sobretudo a pesca de arrasto de camarão e os lanços de cerco de sardinha. Jogar a traina em um baixio de lama pode significar a perda da rede, ao passo que não marcar a área do arrasto pode significar o enrosco da rede em algum parcél. Nesta última forma de pescaria, o tipo de fundo é percebido pela velocidade do arrasto, mais rápido sobre fundos de areia do que de lama, e também pelos resíduos que acompanham as "portas" - pedaços de madeira presos na extremidade que afundam a rede e a mantém aberta durante a operação de arrasto. Vejamos este trecho do depoimento de Mestre Genésio sobre os aspectos acima citados:

Edu: Como é que o senhor conheceu esse fundo da baía aqui, o senhor arrasta até onde? Genésio: Ah, arrasto por aqui, Angra dos Reis, Abraão, Acaiá, Sandri, Parati ...

Edu: Essa área da baía toda. Como é que o senhor conheceu todo esse fundo aí, pra num engastalhar a rede?

Genésio: Isso que taí, rapaz, o pescador vem conhecendo porque o arrastão. Então tu tá arrastando naquele caminho, não demora pega parô, aí parô tu vai botar em cima, agarro, pedra, então tu olha se é de dia, se é de noite, né? Olha a luz do lugar, do outro e faz a marcação. Aí tu já sabe que naquela posição ali, naquele lugar tem pedra. Então dali tu sai pra outra, se tu pegar noutro lugar, a mesma coisa, tu faz aquela marcação. E assim tu descobre o fundo todinho.

Edu: Quer dizer que o senhor já agarrou muita pedra?

Genésio: Ah, muita coisa, porque num tinha sonda, né? Porque esses arrastão maiorzinho aí tem a sonda, né? Que vai marcando. Então é aquele negócio, o arrastão dá tempo de sair fora, porque ele tem mais ou menos, no mínimo, 100 m de cabo pela poupa, no mínimo 100 m, então o cara tá vindo nessa risca, quando chegou aqui, o barco tá aqui, marcou uma pedra aqui, mas a rede tá lá longe. Então aqui ele marcou a pedra, aqui dá volta pra cá. Então essa rede já num vai vir aqui nesse caminho, sai fora. A sonda pro arrastão é uma boa, o cara bota a rede na pedra se quiser, né?

Edu: E o senhor conhece aí o que tem pedra, o que tem areia, o que tem lama?

Genésio: É conheço, aqui pra nós conheço. Olha, nessa região da Marambaia, da praia pra fora, né? Aquela região ali pra Guaratiba. É tudo areia. Agora aqui já pra nós, aqui por dentro da ilha Grande, isso tudo já é lama. Aí pro lado de Parati, Tarituba, Furnas, essa costa toda aqui, já é lama. Agora pro lado aqui do Pouso, ali pra fora, Martim de Sá, aí vai correndo pro Ubatuba, São Sebastião, já tem lugar lá que é mais areia, aquela área por ali quase num tem lama. Você pode cercar com uma traineira lá em terrinha, no quebra mar que é areia e por aqui, na nossa região não, tem lugar que barco num dá de cercar porque é lama.

Ao longo da pesquisa para este trabalho, foi citada uma quantidade razoável de feições geomorfológicas associadas ao fundo marinho e para as quais os pescadores atribuem nomes específicos. Alguma delas são: o valão - uma depressão ao longo da plataforma do Rio Grande do Sul, de 5 a 10 metros mais profundas que o entorno e que

litoral sul baiano; as coroas - relacionadas a bancos de areia; os baixios - associados a fenômenos de deposição. Infelizmente estas formas somente estariam mapeadas em uma cartografia de detalhe da área costeira e da margem continental brasileira. Não é o caso das cartas náuticas, de grande generalidade e destinadas a outra função, que é a navegação.

Ainda assim, a partir destas, fiz um experimento com dois pescadores da Ilha Grande para mapeamento dos parcéis de uma das enseadas da Ilha, estando o resultado presente nas Figuras 8,9 e 10.

Estas apontam uma forte correlação entre o mapeamento dos pescadores e a carta náutica, demonstrando a apreensão de detalhes do relevo submerso que escapam da representação das cartas de navegação. A localização das lajes e a respectiva marcação são aprendidas e transmitidas no contexto da formação dos pescadores e podem ser mantidas em segredo, conforme o grupo.

Segundo DIEGUES, "O segredo parece estar ligado , de um lado à mestrança, à habilidades do mestre que lhe permite levar, com segurança de sucesso, o bote ao pesqueiro e, de outro lado, ao temor de que, visitado por outros pescadores, o pesqueiro viesse a empobrecer."

Um outro material interessante a ser explorado, num possível desdobramento da pesquisa é o Anexo 3 do Volume 9 - Aspectos da Atividade Pesqueira, do Diagnóstico Sócio Econômico da Região Cacaueira, produzido pela CEPLAC de Ilhéus em 1975. Este anexo traz arrolados os nomes de mais de 560 pesqueiros litorâneos e marinhos e cerca de 100 pesqueiros fluviais, lacustres e estuarinos da região cacaueira da Bahia. Deste material, destaco apenas alguns nomes com um forte componente localizacional ou de indicativo de uma característica natural, presentes da listagem: Baixa de São Gonçalo, Beirada do Norte, Camboa Velha, Coroa da Areia, As 13 Braças do Roxinho, Mangue Alto, são apenas alguns exemplos presentes neste material que traz ainda informações dos peixes mais comuns e épocas de maior utilização destes pesqueiros.

Na descrição dos processos de apropriação dos elementos naturais relatados, apresenta-se a questão da atualização dos pescadores frente às inovações tecnológicas. Se antigamente o tempo era previsto apenas pela observação, hoje uma rede de comunicação aliada ao uso de instrumentos subsidiam a observação e as tomadas de decisão. Se antigamente o fundo marinho era decifrado pelo prumo e pela marcação, hoje, equipamentos como a sonda e o GPS precisam o mapeamento das áreas de pesca.

No meu entender tais fatores contemplam os processos de atualização previstos no conceito de pescador artesanal fornecido anteriormente, e não caracterizam necessariamente uma outra forma de produção pesqueira, demonstrando a atualidade e contemporaneidade destes sujeitos sociais.

Aprendendo e apreendendo os elementos naturais, conjugando métodos de distintas temporalidades, pescadores se apropriam da natureza, constróem seu conhecimento para a lida com a pesca e constróem um primeiro nível da territorialidade presente no meio aquático. Identificam os pesqueiros e tem sobre eles algumas formas de controle, identificam os acessos e aprendem a ler a manifestação dos fenômenos naturais que separam o pescador do pescado. Este processo pode dar lugar a uma discussão mais precisa a respeito dos territórios pesqueiros, conforme veremos a seguir.

FIGURA 8 - ENSEADA DO SÍTIO FORTE E BANANAL - ILHA GRANDE, SEGUNDO TRECHO DA CARTA NÁUTICA

FIGURA 9 - LOCALIZAÇÃO DOS PARCÉIS, SEGUNDO UM MORADOR DA PRAIA DE PASSATERRA

FIGURA 10 - LOCALIZAÇÃO DOS PARCÉIS, SEGUNDO UM MORADOR DA COSTEIRA DE UBATUBA