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2. Diseases in relation to muscle changes

2.2 Bacterial diseases

Muito embora o campo de estudos do folclore tenha consolidado uma nova visão dos ofícios artesanais, atualmente, no Brasil, a ruptura entre artesanato e arte continua a ser justificada por visões hegemônicas e etnocêntricas. Por isso, as belas artes seguem consideradas por muitos como eruditas e universais e as artes populares, produzidas nas ruas, na periferia das grandes cidades e no interior do país, classificadas como primitivas.

Hoje, na esteira do Modernismo, proliferam políticas de valorização dos conhecimentos das comunidades tradicionais, entretanto a maioria dessas políticas orienta-se para uma espécie de multiculturalismo unilinear, em um movimento de mão única, ou seja, é a cultura ocidental que detém os parâmetros para valorizar a diversidade que inclui o não ocidental.

Valores artísticos renascentistas sobrevivem entre nós: algumas pessoas acreditam que a arte é pura imaginação e criatividade do artista e que, secundariamente, necessita de conhecimentos técnicos e habilidades. Para elas, a obra de arte é única e irrepetível, deve possuir a estirpe inconfundível do seu criador. A marca distintiva da obra é a originalidade, a autonomia, a inutilidade, ou

seja, ter um fim em si mesma sem ter de adaptar-se a alguma função. Reduzem o artesanato, por sua vez, à mera atividade manual isenta de criatividade, baseada na reprodução e aplicação de conhecimentos e de regras técnicas.

Na opinião de Coomaraswamy, não se pode estabelecer distinção estrita entre uma arte bela e inútil e uma arte aplicada e útil, muito menos entre as artes cultas e as populares. As diferenças que há entre elas se restringem mais à elaboração - às vezes, ao refinamento - do que ao conteúdo. O artista não difere do homem comum:

Ainda que possamos encontrar-nos com leis suntuárias, correspondentes à hierarquia funcional, as necessidades fundamentais da vida, sejam físicas ou espirituais, são as mesmas para todas as classes. Portanto, os usos e significado das obras de arte nunca necessitam ser explicados, pois o artista não é distinto do homem, mais que pela possessão de um conhecimento específico e uma tecnica específica (Coomaraswamy, 2001, p. 18-19).

No âmago da cisão entre artesão e artista está a separação entre trabalho intelectual e manual. O artista contemporâneo, de alguma forma, busca um lugar de distinção intelectual na sociedade, apartado da classe operária. Já o artesão

considera-se um operário e assume a condição de ter de comercializar sua obra, fator imprescindível para a sua sobrevivência e que marca a ambiguidade de sua posição social.

Para o oleiro Nelinho Mota, de Maragogipinho, artesão e artista encontram-se reunidos em uma mesma pessoa:

Eu acho que o artista tem que estar no artesão e o artesão no artista. O artesão está no trabalho mais árduo, nessa coisa de ter que produzir porque é o nosso meio de sustento, de sobrevivência. E o artista está naquela outra parte de você criar algo que encante, certo? Que as pessoas cheguem e gostem. (...). É como esta peça aí, eu não tenho compromisso nenhum com ela, não terminei, não sei quando vou terminar e eu fico tranquilo, não quero vender ela assim, quero até terminar... Então, esse é um pouco do artesão misturado com o artista.

Mário de Andrade (1975) defendia que uma forma para a superação do individualismo típico da modernidade estava em fazer o artista retornar à sua vocação artesanal original, que não há distinção entre artesanato e arte porque ambos constituem fazeres submetidos ao material e às suas determinações.

A discussão que tenta diferenciar artesão e artista é profundamente complexa porque envolve juízos de valor, hegemonia e divisão de classes. Evidentemente, não almejamos aprofundá-la neste trabalho. Durante a pesquisa de campo, o contato mais estreito que mantive com os oleiros e as pintoras de Maragogipinho me permitiu, apoiada em Andrade, religar os significados amalgamados das duas palavras.

Artista que não seja bom artesão, não é que não possa ser artista: simplesmente, ele não é artista bom. E desde que vá se tornando verdadeiramente artista, é porque concomitantemente está se tornando artesão (Andrade, 1975, p. 47).

Concordamos com Porto Alegre quando afirma que:

Todaà aà dis uss oà so eà f o tei asà e t eà a te à eà a tesa ato ,à e t eà a tista à eà a tes o ,à aà pa ti à doà dis u soà do i a te,à a e eà deà se tidoà dentro da perspectiva do indivíduo que exerce essa atividade, pois ele raramente separa a instância do trabalho manual ou mecânico (artesanal) do trabalho intelectual e confere a ambos igual dignidade (Porto Alegre, 1985, p. 10).

Por isso, nossos sujeitos são artesãos e artesãs, pessoas que trabalham e produzem artefatos com as mãos.

Diante da extensão das mudanças do mundo contemporâneo, do modelo de sociedade calcado no consumo desenfreado e na apropriação depredatória dos recursos naturais, esses artesãos e artesãs não são, absolutamente, agentes passivos. Seus fazeres e modos de vida mudam e se atualizam constantemente. Noà e ta to,à possue à u aà i í elà apa idadeà deà esist ia,à u aà tei osiaà esilie te ,à o oà afi aà Mo tesà 14, p.21), pois seus saberes passam constantemente pela prova do tempo e da experiência, e sobrevivem em modos de vida regulados pela harmonização entre homem, natureza e tempo.

Estavam na olaria, alinhados na bancada os seis bonecos pareciam aquilo que dramaticamente eram, seis objetos insignificantes, mais grotescos uns do que outros pelo que representavam, mas todos iguais na sua lancinante inutilidade. A fim de que o marido pudesse vê-los, Marta havia retirado os panos molhados que os envolviam,

mas quase se arrependia de o ter feito, era como se aqueles obtusos manipansos não merecessem o trabalho que tinham dado, aquele repetido fazer e desfazer,

aquele querer e não poder, aquele experimentar e emendar, não é verdade que só as grandes obras de arte sejam paridas com sofrimento e dúvida, também um simples corpo e uns simples membros de argila são capazes de resistir a entregar-se aos dedos que os modelam, aos olhos que o interrogam, à vontade que os requereu.

Potes no interior de uma olaria (https://farm4.staticflickr.com/3272/2551718940_c9eb2aef28_z.jpg?zz=1)