Na teoria histórico-cultural, a linguagem é um conceito chave, concebida como o grande elo de mediação e de comunicação produzido e desenvolvido simultaneamente ao desenvolvimento histórico e cultural da humanidade. Ao mesmo tempo em que a linguagem, como modo de mediatização da comunicação, propicia o avanço do processo de
desenvolvimento humano, esse processo, ao avançar, possibilita refinamento e qualificação da linguagem.
Na verdade, a linguagem é tão antiga quanto o primeiro ato mediado do Homo sapiens realizado em inter-relação social com outro Homo sapiens. Como bem afirmou Bakhtin (2010), para aparecer a linguagem não bastou que dois indivíduos da espécie humana se juntassem, pois o seu aparecimento somente ocorre em terrenos em que indivíduos humanos estejam organizados socialmente. A linguagem nasce nas e das relações entre homens; nasce no e do processo de trabalho socialmente dividido; nasce da necessidade sentida pelos homens de se comunicarem, de dizerem alguma coisa um ao outro (Leontiev, 1978; Luria, 2001). Apenas sob tais condições se torna possível a constituição da linguagem como um sistema de signos (Bakhtin, 2010).
Em sua gênese, a linguagem esteve estreitamente ligada a gestos, a sons inarticulados, cujos significados dependiam da situação prática, das ações e suas relações. Aliás, em seu estágio inicial a linguagem era fundida à prática, separando-se desta posteriormente, “ao se transformar num sistema de códigos sintáticos complexos” (...), “suficiente por si próprio para formular qualquer relação abstrata, qualquer ideia”, bem como para transmitir qualquer informação (Luria, 2001, p. 22-23).
Para esse autor, a linguagem humana, diferentemente da “linguagem natural” do animal, “designa objetos, características, ações ou relações” (idem, p. 25); os animais apenas expressam um estado ou vivência com o qual contagia outros animais, não se efetivando como uma linguagem em seu sentido completo, e sim como uma “quase linguagem”. Eis porque Vigotski (2009b) afirma que entre os animais, mesmo entre os antropoides, a comunicação não é mediatizada pela linguagem, daí nem sequer merecer ser chamada de comunicação.
Segundo Luria (2001), a aparição da linguagem humana foi o fator determinante para que o homem passasse da conduta animal à atividade consciente. Marx e Engels afirmaram que a linguagem é tão antiga quanto a consciência, nascem juntas e são inseparáveis:
A linguagem é tão antiga como a consciência, a linguagem é a consciência real, prática, que existe também para outros homens, que, portanto, também existe para mim mesmo; a linguagem nasce, tal como a consciência, do carecimento, da necessidade de intercâmbio com outros homens. Desde o inicio, portanto, a consciência, já é um produto social e continuará sendo enquanto existirem homens (Marx & Engels, 2007, p. 34-35).
Este posicionamento sobre a origem da linguagem e da consciência humana marca o pensamento marxista, o qual baliza diferentes estudos desde tempos remotos até a atualidade. Contrária aos pressupostos da psicologia tradicional, para a qual a consciência humana se origina das profundidades da alma e de mecanismos cerebrais, a teoria oriunda das teses marxistas explica a formação da consciência, tal qual já explicitamos em passagens anteriores, “na relação do homem com a realidade, em sua história social, estreitamente ligada com o trabalho e a linguagem” (Luria, 2001, p. 23). Em suma, linguagem e consciência são produtos da atividade humana, das relações humanas estabelecidas em coletividade.
Estamos nos referindo à formação da linguagem na filogênese, à pré-história da linguagem na espécie humana, a qual não se repete na ontogênese, ou seja, no desenvolvimento do indivíduo dessa espécie. A criança não aprende a se comunicar nas relações de trabalho, e sim na relação com o adulto e demais pessoas com as quais convive. Entretanto, ainda que a formação da linguagem no âmbito da ontogênese se diferencie de sua formação filogenética, resulta também na elaboração de um sistema de códigos em que a palavra é o seu elemento por excelência. Em relação à formação desse sistema de códigos e à formação da palavra, Luria (2001) chama a atenção para o fato de que os primeiros sons emitidos pela criança são apenas estados e não se desenvolvem ao grau da linguagem, pois as primeiras palavras não nascem desses sons, mas sim daqueles oriundos da fala dos adultos, por sua vez ouvidos e assimilados pelas crianças.
A aparição da palavra é relacionada a esse processo histórico e completamente vinculada a ele, seja na ontogênese, seja na filogênese. A palavra, como “célula da linguagem”, como seu “elemento fundamental e central” cumpre o papel de conter a generalização “como modo absolutamente original de representação da realidade na consciência” (Vigotski, 2009b, p. 407; Luria, 2001).
Em confluência com a perspectiva teórica referenciada, Bakhtin (2010) diz que a palavra surge exatamente da necessidade de materialização da comunicação, se constituindo como um “signo ideológico”. A palavra, exatamente por carregar essa função semiótica, abriga a consciência, a qual tem em comum com a palavra, “a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social” (idem, p. 36).
Sobre esse papel da palavra, Bakhtin (2010, p. 36) enfatiza:
A palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da
palavra é absorvida por sua função de signo. A palavra não comporta nada que não esteja ligada a essa função, nada que não seja gerado por ela. A
palavra é o modo mais puro e sensível de relação social (itálico no texto original).
Todavia devemos lembrar-nos do quão fluído e mutável é o terreno da palavra, uma vez que em seu papel de signo pode expressar qualquer consciência individual; pode representar qualquer sentido ou preencher qualquer função ideológica. A mesma palavra pode mediar conversações com pontos de vistas diferenciados e até contraditórios. Como instrumento da consciência, a palavra “acompanha toda criação ideológica, seja ela qual for. A palavra acompanha e comenta todo ato ideológico” (Bakhtin, 2010, p. 38 – itálico no texto original).
Vigotski, em sintonia com Bakhtin, nos fala da relação palavra/consciência:
A consciência se reflete na palavra como o sol em uma gota de água. A palavra está para a consciência como o pequeno mundo está para o grande mundo, como a célula viva está para o organismo, como o átomo está para o cosmo. Ela é o pequeno mundo da consciência. A palavra consciente é o microcosmo da consciência humana (Vigotski, 2009b, p. 486).
Vigotski reforça o papel da palavra como abrigo da consciência, a qual pode ser expressa não apenas por meio da fala, mas pela ação, escrita, gestos e, muitas vezes, por meio do silêncio, pois, em determinadas situações, a ausência física da palavra fala por si por conter palavras ocultas, nas quais subsistem pensamentos que se materializam no processo de comunicação. Enfim, a palavra em seus diferentes modos de expressão se constitui como signo ideológico por revelar nossos sentidos, isto é, o que somos e o que pretendemos nas e das relações humanas das quais fazemos parte – é a palavra que revela como o quadro do mundo se apresenta para cada um de nós: ela é o signo/instrumento mediador das relações constitutivas da atividade, sob o qual se mostra a consciência, identidade e personalidade humana.
Em continuidade a essa discussão contamos com Vigotski para aprofundar a relação entre o pensamento e a palavra. Para esse autor, a palavra é a substância material do pensamento, pois ao falarmos não estamos simplesmente exprimindo determinado pensamento, mas realizando-o. A linguagem não serve para exprimir um pensamento pronto e acabado, e nem linguagem e pensamento são a mesma coisa, como também não são funções independentes entre si. A relação entre pensamento e palavra se revela por meio de movimentos que perpassam planos internos e externos, intramentais e intermentais: o pensamento engendrado no campo da consciência passa por reestruturações e modificações
no plano interno e, pouco a pouco, toma a forma da linguagem exterior, consubstanciada em palavras. A palavra, portanto, em sua função semiótica, tanto advém do pensamento como o alimenta; tanto revela o conteúdo da consciência como o compõe.
Para Bakhtin (2010) e Vigotski (2009b) pensamento e palavra se encontram no significado da palavra, ou melhor, na palavra com significado. Sem o seu significado, a palavra se reduziria a um som vazio, à sua realidade física, não mais pertencente ao reino do pensamento e nem ao reino da linguagem. Vigotski (2009b) elege o significado da palavra como a unidade do pensamento verbalizado, ou seja, como unidade da comunicação. Somente sob tal complexidade, a palavra realiza a sua função de signo no processo de comunicação e de transmissão de ideias e vivências.
Na realidade, o que pronunciamos e escutamos não são palavras com sons vazios, mas significados das palavras: pronunciamos e escutamos o conteúdo ou sentido ideológico ou vivencial da palavra – “verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc.” (Bakhtin, 2010, p. 98-99).
O ato da fala revela-se no processo de comunicação como um ato de natureza eminentemente social produzido nas interações verbais. O ato da fala, assim concebido, é denominado por Bakhtin de enunciação. A enunciação é, por conseguinte, esse produto vivo que advém das forças sociais de locutores e ouvintes em inter-relação. Nessa perspectiva, o falante sempre invoca uma linguagem social ao produzir uma enunciação, e essa linguagem social configura o que a voz individual do falante quer dizer (Werstch e Smolka, 2003). Colaço et al (2007) inspiram-se em Bakhtin para afirmar que a linguagem é um “processo enunciativo, dialógico e constitutivo de subjetividade”.
Nem seria preciso dizer que a palavra é o signo que medeia a conversação, ora pronunciada pelo locutor, ora pelo interlocutor; sempre apresentando suas duas faces, pois ora procede de alguém, ora se dirige para alguém. Nas próprias palavras de Bakhtin (2010, p, 117):
Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apoia sobre mim numa extremidade, na outra apoia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e interlocutor. (Itálico no texto original)
Para Bakhtin, a estrutura da enunciação é determinada pelo meio e situação social. Nessa compreensão, esse meio social, bem pode ser a sala de aula, delimitada como um auditório linguístico, por se tratar de uma comunidade linguística organizada socialmente sob características éticas, culturais e linguísticas pré-determinados por sua função social e cultural. Esse terreno definir-se-ia ainda mais se localizássemos, por exemplo, as enunciações numa sala de aula de ciências, composta por uma professora e estudantes dos anos iniciais de escolarização, o que permitiria a precisão sobre o contexto e relações sociais e sobre as interações de enunciações aí produzidas. Inspirados em Bakhtin, podemos afirmar que nesse contexto social e cultural, a fala pode se tornar um “fato de linguagem”.
Em um enfoque diferente de Bakhtin, mas não contraditório, Leontiev relaciona o conteúdo da comunicação ou da enunciação à atividade – contexto não tão amplo e genérico como o é meio social, tal qual delimita Bakhtin. Numa sala de aula, por assim dizer, no contexto da atividade de trabalho do professor e de estudo dos estudantes, as palavras nascem da necessidade de comunicação, da necessidade de realizar o motivo e objetivo da atividade em desenvolvimento: ensinar de modo que os estudantes se apropriem dos significados historicamente e culturalmente produzidos e de apropriação desses significados, no caso do professor e dos estudantes, respectivamente. Ou seja, o meio social indicado por Bakhtin como determinante da enunciação é aqui precisado como as relações estabelecidas entre sujeitos em atividade.
A sala de aula, concebida como um espaço multivocal, portanto, regido pelas relações mediadas e pelas tantas contradições imanentes às diferentes opiniões compartilhadas por meio da palavra, pode se constituir como uma comunidade de aprendizagem, a se compor, em outra dimensão, como uma coletividade gestora de atividades. Entretanto, coletividade é mais que um coletivo, diferenciados, sobretudo, pelos objetivos e motivos que orientam as ações numa coletividade, não tão precisos em um coletivo. Podemos dizer que numa coletividade há um movimento de construção de sentidos comuns para o grupo, ou seja, os participantes compartilham o motivo e o objetivo que estruturam a atividade, assim como compartilham a consciência sobre os laços que unificam as ações que compõe a atividade.
Portanto, numa coletividade podemos inserir os conceitos de atividade no sentido que lhe é atribuído por Leontiev e o de dialogia pronunciado por Bakhtin, este último mais abrangente do que a ideia normalmente associada à palavra “diálogo”. Segundo Werstch & Smolka (2003), o conceito dialogia aborda as muitas formas como duas ou mais vozes entram em contato. Qualquer enunciação só pode ser compreendida se entendermos sua relação com
outras enunciações e com os motivos e objetivos que orientam a atividade determinante da enunciação. Na sala de aula, por exemplo, só podemos compreender a voz do professor em relação às vozes dos alunos e vice versa, numa dinâmica em que uma enunciação é mediada por outra enunciação, encontra voz em outra enunciação, e se realizam uma na outra. Sem deixar de considerar, em momento nenhum, as necessidades e motivos imbuídos nos objetivos da atividade orientadora das ações e enunciações do grupo.
Segundo Bakhtin, compreender é mais que ouvir e interpretar o que o outro diz: a compreensão está na raiz da realização da enunciação e, subsequentemente, da dialogia, por se tratar de um processo empenhado em combinar a palavra de quem fala com uma contra palavra. Isto é, em contextos dialógicos, as vozes se contatam e se confrontam continuamente, uma vez que a voz de uma pessoa assume as palavras e expressões de outras. É o que podemos interpretar de mais uma enunciação de Bakhtin (Bakhtin, 1981, p. 293-294 5apud Wertsch & Smolka, 2003, p. 129-130:
A palavra na linguagem pertence parcialmente a outra pessoa. Ela se torna
‘palavra própria’ quando o falante a povoa com sua própria intenção, seu
próprio sotaque, quando se apropria da palavra, adaptando-a a sua própria intenção semântica e expressiva. Antes desse momento de apropriação, a palavra não existe em uma linguagem impessoal e neutra (afinal, não é de um dicionário que o falante tira suas palavras!), mas existe na boca de outras pessoas, nos contextos concretos de outras pessoas, servindo às intenções de outras pessoas: é daí que se pode apreender uma palavra e fazer dela sua própria palavra.
Tomamos como nossas essas palavras de Bakhtin. Como palavras apropriadas ou próprias, podemos dizer que elas são povoadas com nossas intenções, carregadas com os valores culturais e com os sentidos que atribuímos às coisas do mundo. Esses valores culturais e sentidos são gradativamente construídos na atividade e na relação com o outro, a partir da apreensão da palavra do outro. As palavras de Bakhtin, apreendidas neste trabalho, povoam o território da investigação que ora desenvolvemos, a qual é constituída com nossos próprios propósitos semânticos e expressivos.
Com efeito, conceitos contidos nas obras de Bakhtin e, sobretudo, nas obras de Vigotski são conteúdos de muitos trabalhos destinados a estudar o movimento discursivo em sala de aula. Conceitos como dialogia, linguagem social, gênero da fala, natureza social do funcionamento psíquico humano, bem como o caráter mediacional das linguagens sociais são
5
BAKHTIN, M. M. The dialogic imagination: four essays by M. M. Bakhtin. Editado por M. Holquist, traduzido pro C. Emerson e M. Holquist. Austin, University of Texas Press, 1981.
coincidentes e complementares nos pensamento bakhtiniano e vigotskiano (Freitas, 2003; Wertsch, 1991), os quais estão presentes em inúmeros estudos inseridos no campo das pesquisas em ensino de ciências, desenvolvidos da década de 90 até os dias atuais em diferentes países.
Com a intenção de nos aproximarmos de um aspecto muito importante focalizado por esta investigação – linguagem como signo/instrumento de mediação e de aprendizagem e desenvolvimento profissional docente em aulas de ciências – passamos a discutir mais especificamente acerca dos modos como linguagem, mediação e dialogia comparecem em sala de aula. Para tanto, nos apoiamos em estudos a respeito, principalmente naqueles fundamentados na perspectiva histórico-cultural.