ealizar uma pesquisa no campo da história da educação significou um grande desafio. No decorrer da investigação pude ir percebendo que, para entender como se deu o processo educativo num determinado período, teria que conhecer o que propunha educadores conhecidos ou projetos educacionais. Senti assim o desejo de penetrar no dia-a-dia de uma escola, entender como se davam as relações interpessoais, os métodos de ensino e o material utilizado.
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Foi então com este olhar para a história que mergulhei no fazer de uma mestra: Myriam Coeli. Para conhecer a prática dessa educadora, fiz uma viagem de volta ao tempo. Emprendi uma busca às fontes o que me reportava para um período não vivido e lugares desconhecidos. Inicialmente, a angústia em encontrar os dados que muitas vezes pareciam se esconder diante de um olhar inexperiente. Em seguida, a dúvida de como utilizar cada uma delas de maneira que entrecruzadas me possibilitassem mostrar a trajetória de Myriam Coeli, não deixando de estabelecer um constante diálogo com o seu contexto social e, principalmente, revelando aspectos da educação potiguar. Esses momentos estiveram presentes na construção deste trabalho.
As fontes, no entanto, não causaram apenas angústias. Nessa perspectiva de investigação histórica em que adentramos na intimidade do sujeito pesquisado, acabei por estabelecer um vínculo afetivo. A impessoalidade que se exige do pesquisador é, por vezes, deixada de lado
quando a emoção enche nossa alma. Minha admiração por Myriam Coeli não poderá deixar de ser percebida nas entrelinhas e nas adjetivações que por mais que procurasse evitá-las ainda permaneceram na minha escrita.
Conhecer e manusear objetos pessoais que pertenceram a ela se constituiu em um momento de prazer que as palavras não me permitem revelar. Remexendo objetos guardados, manuscritos atados por fitas que se esfarelavam pelo tempo, ler suas orações, tudo isso parecia nos unir em um presente. Estaríamos unidas pela nossa história? Duas mulheres, duas professoras?
Os aspectos concernentes à sua prática de sala de aula foram-me revelados através de entrevistas e dos seus planejamentos que permaneceram guardados em seus cadernos, denominados por ela mesma de cadernos de apontamentos. A análise me revelou uma professora que estava sempre preocupada em estar permanentemente estudando, mantendo-se sempre atualizada com o que propunha as mudanças educacionais por ela vivenciada.
O porquê de não ter encontrado o seu nome ligado a momentos em comemorações públicas, discursando, por exemplo, é justificado por seus contemporâneos pela sua timidez. Por outro lado, através da escrita, Myriam Coeli se revela para os seus leitores e faz uso da palavra para revelar suas emoções, sentimentos, angústias, escrevendo até que a morte a tirasse do convívio terreno.
Na tessitura deste texto, a constatação de como é difícil manusear as palavras e de como estamos ao seu serviço como a própria Myriam Coeli falou ao escrever a poesia Ode à palavra.
A palavra trabalha com hábeis mãos. Dela me sirvo à mesa
com esses poucos gestos que saciam meus segredos. Por menos que me baste, a ela servindo estou
e lhe ofereço o disfarce da ordem e da compreensão. Através dela me armo e soletro caminhos incertos com seus ardis tão certos.
Mas, animal, dela sou presa e me resumo na proeza de lhe dar formas libertas
– pois meu ofício é dar à palavra, invenção. Palavra é abismo, é infinito.
É lirismo e é blasfêmia. É amor e vômito. É o fel e a fez.
Antropófaga e artesã. Ave de asa tensa no cobalto. Queda no duro asfalto.
Cristo que se crucifica nos quatro infinitos cardeais Ela inquieta e perturba o equilíbrio de minhas intimidades, o chão e o âmago, o sonho e a agonia,
a vida que explode, a morte que desafia. E me convoca para o Sermão da Montanha que é o ato de lirismo,
embora incompleto o inútil gesto. Com ela eu faço a humilde doação e o mundo faz sentido e aceitação. (SILVEIRA, 1980, p. 31,32)
A exigência do cumprimento de um tempo me faz parar. Sei que muito poderia ser dito, no entanto diversas lembranças foram perdidas na memória dos informantes, os arquivos foram sendo desfeitos pela ação do tempo. Para alguns, Myriam Coeli continuará sendo uma desconhecida que teve o seu nome atribuído a uma rua ou a uma escola; outros, dirão que foi a primeira mulher a exercer o jornalismo como profissional da imprensa no Rio Grande do Norte.
A observação mostrou-me uma mulher atuante que não se acomodou diante dos obstáculos. Buscou vencer os desafios, alçou vôos não muito comum para alguém do sexo feminino em sua época, quando foi estudar na Espanha. Jornalista, escritora, professora, Myriam Coeli, em múltiplas versões,
foi acima de tudo uma mulher que contribuiu para a formação da sociedade letrada no Rio Grande do Norte.
Uma coisa me conforta para pôr um ponto final nesse momento: saber que o passado nunca é completamente apreensível em sua totalidade e que nenhum tema é esgotado na pesquisa.
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9. Referências
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