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Background of the Study

Chapter 1: Introduction -Topic, Issues and Research Questions

1.2 Background of the Study

Entre as RTs que compõem o litoral, as entidades tradicionalistas gaúchas irão se concentrar nas cidades com os maiores índices de população do estado (gráfico 4). Logo, se faz necessário analisar o porquê dessa população urbana aderir à cultura campeira, dizendo ser uma “tradição de práticas do campo na cidade”. A partir dos dados populacionais do gráfico 6, é possível observar que as RTs com maior contingente populacional (7ª, 8ª e 9ª), estão no litoral.

Gráfico 6 - População por RTs em Santa Catarina.

Fonte: elaborado pela autora a partir de dados do arquivo do MTG/SC e dados populacionais do IBGE de acordo com a contagem da população 2007 (população recenseada e estimada, segundo os municípios de Santa Catarina – 2007)

É perfeitamente possível realizar uma análise sobre a quantidade de CTGs em locais onde as práticas campeiras faziam-se freqüentes, como um produto do meio, ou onde houve iniciativas de migrantes rio-grandense de fundarem entidades gaúchas em terras catarinenses. Entretanto, é um pouco complexo explicar uma tradição do campo em grandes centros urbanos226, onde essas práticas eram quase nulas, onde a diversidade cultural é soberana que é o caso das 7ª, 8ª e 9ª RT, onde se localizam cidades como Joinville, a maior cidade do Estado, Florianópolis e Blumenau, entre outras, ou seja, os maiores centros urbanos de Santa Catarina.

226

Sobre Rural e Urbano ver: VEIGA, José Eli. Cidades Imaginárias: o Brasil é menos Urbano do que se calcula. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.

10ª 11ª 12ª 13ª 14ª 15ª 16ª 0 50.000 100.000 150.000 200.000 250.000 300.000 350.000 400.000 450.000 500.000 550.000 600.000 650.000 700.000 750.000 800.000 850.000 900.000 950.000 1.000.000 1.050.000 P op ul açã o (e m m ilh ar es de ha b. ) 16 Regiões Tradicionalistas do MTG/SC

O primeiro fator que se pode considerar para a análise é o êxodo rural em Santa Catarina227, o crescimento da população urbana catarinense, superando a rural, pois principalmente nos anos 80, há o deslocamento da população do campo para a cidade, em busca de uma vida melhor, ou seja, a migração da população do interior do próprio Estado para as grandes cidades, como também do interior de outros Estados brasileiros para o litoral catarinense. Mas, principalmente do interior de Santa Catarina, caracterizando a intensa migração para os centros urbanos que vai concentrando-se de forma gradativa nas grandes cidades próximas ao litoral. Este aumento da população urbana vai coincidir com o crescente número de CTGs nestas grandes cidades, o qual inicia também na década de 80 e cresce ainda mais após os anos 90, quando os migrantes do interior estão estabilizados, social e financeiramente, nos grandes centros urbanos.

Gráfico 7 - Evolução da população rural e urbana em Santa Catarina entre os anos de 1950 e 2007.

Fonte: IBGE, senso demográfico de 2000 e contagem da população (estimada e recenseada em 2007).

Esse novo habitante da cidade se vê com uma necessidade de reconstrução e afirmação da identidade na diferença. Longe da realidade que o cercava, o migrante não quer voltar para o interior, mas quer reviver, os usos e costumes que tinha antes de migrar. O movimento tradicionalista gaúcho que, após os anos 90,

227 CORRÊA, Carlos Humberto (org.). A realidade catarinense no século XX. Florianópolis: Instituto

histórico Geográfico de Santa Catarina, 2000, p. 271.

1950 1960 1970 1980 1990 2000 2007 População Rural 1.197.785, 1.444.135 1.655.691 1.473.695 1.333.457 1.138.429 População Urbana 362.717 673.981 1.246.043 2.154.238 3.208.537 4.217.931 Total 1.560.502 2.118.116 2.901.734 3.627.933 4.541.994 4.875.244 5.866.252 0 1000000 2000000 3000000 4000000 5000000 6000000 7000000

ocupou uma posição de status como uma entidade que busca reviver práticas do campo, na cidade, chama também a atenção daqueles que se sentem deslocados no meio urbano, no sentido sócio-cultural, passando o CTG a atrair este migrante campeiro, agora totalmente urbano, para fazer parte dessa comunidade imaginada.

Nos anos 90, o MTG em Santa Catarina destaca-se nacionalmente e ocupa lugar de status no Estado. O novo habitante sente-se atraído, não pela história do gaúcho, mas pelas qualidades que contribuiu para a formação do mito do gaúcho, como visto no capítulo I, vindo a identificar-se com as qualidades de coragem, bravura, valentia, hospitalidade, entre outras, atribuídas ao mito do gaúcho ao longo do tempo. O novo habitante da cidade também se auto-intitula um “gaúcho”, pelo fato de que, com coragem e bravura, veio para a cidade e venceu os obstáculos, apropria-se de uma identidade a fim de garantir a sua permanência no novo ambiente. Na cidade ele não está no seu habitat de origem, sendo assim, não se sente, nem do campo, nem integrado à cidade. Segundo Bauman, este migrante sente-se total ou parcialmente “deslocado”, como se não estivesse totalmente em lugar algum. Esta sensação poderá ser uma experiência desconfortável e em muitos casos até perturbadora228, sendo que garantir a sua permanência no seu novo ambiente é necessário.

As práticas oferecidas pelos CTGs despertam a atenção neste momento e serão determinantes para a integração desse indivíduo no novo ambiente, pois são semelhantes àquelas vividas por eles no interior, e revivê-las na cidade por intermédio do CTG, permite-lhe suprir a saudade do campo, através de memórias, como também apropriar-se dessa identidade que é sinônimo de status. Sendo assim, a procura não é pelo “ser gaúcho”, mas participar das práticas do CTG que lembram algum momento da sua vivência no passado.

Essa busca por identificações do passado no seu presente, a fim de vivenciá- las, e assumir uma identidade, vai acontecer na cidade, não só no CTG como também nas Academias de Danças Gaúchas - ADGs*, pois mesmo com o

228 BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2005, p.

18 -19.

* ADG - Academia de Danças Gaúchas são grupos de pessoas, que em sua maioria não são filiados

aos CTGs e MTGs, mas que a partir de algumas práticas gaúchas, neste caso, a dança, formam grupos em média de 15 pessoas, a fim de ministrar cursos de danças gaúchas. Além da dança, são ensinadas outras práticas do viver gaúcho, como a história, a indumentária definida como gaúcha, a poesia, causos gauchescos, entre outras práticas, sendo a campeira, a única que não é passada devido aos locais serem inviáveis, pois são realizados em escolas, salões comunitários, clubes, grandes espaços alugados de particulares, entre outros.

crescimento no número de CTGs ainda há espaço suficiente para o surgimento de mais entidades. Logo, surgem as ADGs que irão trazer à tona outras práticas, além da dança gaúcha. A ADG vai ensinar o culto aos valores do gaúcho, valores estes pré-determinados pelo MTG/SC, mesmo que as ADGs não sejam filiadas ao MTG/SC. Contudo, são as ADGs que serão responsáveis por “formar gaúchos” em seus cursos, ensinando, segundo os tradicionalistas, a filosofia do gauchismo, como: princípios morais, valores da família, respeito, ética, honestidade, hospitalidade, enfim, uma filosofia tida como do gaúcho.

Essas iniciativas serão determinantes para atrair um grande número de adeptos ao gauchismo, principalmente nas grandes cidades dessas regiões tidas como alemãs, onde o tradicionalismo gaúcho vem firmar um sentimento de pertencimento, fixando os indivíduos a uma raiz, uma identidade própria, principalmente em uma região onde as festas tidas como “típicas” dos imigrantes começam a ganhar espaço. O próprio poder público estadual incentiva a exploração turística catarinense baseada no incentivo à tradições locais, procurando dar uma caracterização específica às cidades, dotando-as de uma identidade tipificada que pudesse ser colocada no mercado fazendo movimentar a economia local.229 Surge nos últimos anos a Oktoberfest em Blumenau, considerada a maior festa “típica alemã” do país, com o intuito de melhorar as finanças da cidade que havia sofrido uma seqüência de trágicas enchentes, após realização da primeira Oktoberfest, em outubro de 1984. Evento que já havia acontecido em janeiro do mesmo ano na vizinha cidade de Pomerode, uma festa para mostrar ao País a “cidade mais alemã do Brasil”230, muitas outras festas vão surgir no cenário catarinense, como

Fenachopp, em Joinville, que hoje já não existe mais; Schützenfest, em Jaraguá do

Sul, lembrando a tradição dos atiradores, cuja origem remonta à idade média na Alemanha; Fenarreco em Brusque, criada para divulgar um prato “típico” alemão; Marejada em Itajaí, considerada a maior festa portuguesa e do Brasil; Fenaostra em

229 BITENCOURT, J. B. Cidades em movimento. In: Ana Brancher. (Org.). História de Santa

Catarina: estudos contemporâneos. 2 ed. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1999, v. p. 37.

230 WOLFF, Cristina Scheibe, FLORES, Maria B. Ramos. A Oktoberfest de Blumenau: turismo e

identidade étnica na invenção de uma tradição. MAUCH, Cláudia; VASCONCELLOS, Naira. Os alemães no Sul do Brasil. Canoas: Ed. ULBRA, 1994, p. 214.

Florianópolis, festa naci darão ênfase a cultura e Muitos indivíduos atual conjuntura a popul de identificar as origens pessoas se identificasse estatuto do MTG – SC, n a filosofia do gauchismo.

Porém, o gauchis mesma forma como ac prenda suas “bambinas Prendas e peões car fandangos.232 É comum etnias, vestidos com a plena cidade de Blumena

231 As festas citadas, bem com

Catarina são encontradas no [http://www.belasantacatarina

232 FACCIONI, MAESTRI, op.

cional da ostra e da cultura açoriana, e e a economia local.231

s já não se sentem alemães, italianos, p ulação é resultado de uma miscigenação, s étnicas da maioria dos indivíduos, fazen sem com o CTG, que não exigia uma , não estipula uma origem, bastaria gostar

o.

hismo atraiu inclusive aqueles considerad conteceu no Rio Grande do Sul. As “m as” e os tozatti fizeram-se homens dent

arregados de sotaque dançam a chi ver muitos descendentes de alemães, ita a indumentária tida como gaúcha e freq

nau.

Figura 13 : Prenda da cidade de Blumenau.

Fonte: Jornal Buenas Chê, da cidade Blumenau.

[http://www.buenas.com.br/edi113/fuxicos.ht m] acesso em 17 dez. 2008.

omo outras que fazem parte do cenário das festas o site do governo do Estado:

na.com.br/festas.asp] acessado em 13/12/2009. p. cit., p. 206.

e muitas outras que

portugueses, etc. Na o, sendo assim, difícil endo com que muitas a origem, segundo o ar e se identificar com

ados de “origem”, da “mamas” vestiram de ntro das bombachas. himarrita e animam italianos, entre outras eqüentando CTG em

Através desta imagem fotográfica, podemos analisar a indumentária utilizada pelo sujeito que se deixou fotografar e o próprio sujeito. A semelhança deste vestido de prenda com os vestidos utilizados nas festas alemãs que acontecem na região ou nas comunidades imaginadas alemãs são visíveis, vindo retratar um hibridismo. A imagem é de uma prenda da cidade de Blumenau, que, por ocasião de seu aniversário no ano de 2002, foi fotografada por um colunista social, para que posteriormente a fotografia fosse publicada em um jornal gaúcho, Essa imagem, passará por um processo de multiplicação, ao olharmos a imagem, o vestido se destaca na fotografia e a alegoria chamará atenção para a comunidade alemã. Miriam Moreira Leite identifica como fotografias usadas de maneira dirigida:

O valor de culto as imagens dá lugar ao valor de exibição (...). A multiplicação das imagens feita a ponto de anular a percepção de seu observador conduz ao problema da saciedade da percepção, um dos complicadores da leitura da imagem.233

No momento em que as pessoas olharem a imagem impressa em jornais, analisarão em seu primeiro momento a indumentária, que na fotografia é o que mais chama atenção, alterando assim a identidade da prenda (criada pelo MTG) e já que toda representação tenta passar a idéia de verdade, neste caso, será confundida com signos das tradições alemãs e ainda assim passará uma idéia de verdade, pois neste momento são os adereços que irão determinar e identificar o indivíduo. Através da fotografia, a alegoria que será confundida com a alemã, irá atrair mais adeptos ao movimento gaúcho pela eventual semelhança com a sua cultura de “origem”.

Sendo assim a 7ªRT, 8ªRT e 9ªRT, vieram atrair muitos adeptos na região considerada o “Vale Europeu” do estado de Santa Catarina, vindo a ser as regiões do litoral com maior número de CTGs. Alguns desses CTGs, a exemplo das festas “típicas” dos imigrantes, também nasceram com objetivos de obter lucros, ou são “CTG familiares”, e não uma associação de cunho ideológico. Recentemente, foi realizado um diagnóstico234 com os CTGs do estado de Santa Catarina, a fim de saber a atual situação dessas entidades, sendo possível constatar, dentre outras situações, os CTGs que pertencem a particulares.

233 MOREIRA LEITE, Miriam. A imagem através das palavras. in: retratos de família. São Paulo,

Edusp/Fapesp, 1993. p. 24.

234 O diagnóstico foi realizado através das primeiras Prendas do MTG – SC, e supervisionado pela

Figura 14: Proprietários do CTG –12ª RT Fonte: ZIMMERMANN, Eronides. SIEVERT, Allan. Diagnóstico da situação das entidades tradicionalistas gaúchas do Estado de Santa Catarina, Resultado das análises. São José. MTG – SC, 2006, p. 150.

Figura 15: Proprietários do CTG – 8ª RT Fonte: ZIMMERMANN, Eronides. SIEVERT, Allan. Diagnóstico da situação das entidades tradicionalistas gaúchas do Estado de Santa Catarina, Resultado das análises. São José. MTG – SC, 2006, p. 99.

Comparando a 12ª RT, situada no oeste catarinense, região onde inicia a criação de CTGs no final da década de cinqüenta e que hoje conforme o gráfico 4, é a grande região que possui o menor número de entidades, podemos perceber que embora haja poucos CTGs, não há entidades de cunho particular, e sim associativa, o que já não acontece no litoral, comparando com a 8ª RT no vale do Itajaí, embora seja a região com o maior número de CTGs do litoral, há uma quantidade significativa de entidades que não pertencem a associações, e sim a particulares, ficando conhecida entre os tradicionalistas como entidades que visam lucros, mas que também contribui para a expansão do gauchismo no litoral.

4) O parque de rodeios, assim como o CTG, é de propriedade de quem? Do Patrão Da comunidade associativa Outro Prefeitura Não respondeu

4) O parque de rodeios, assim como o CTG, é de propriedade de quem? Do Patrão Da comunidade associativa Outro (prefeitura Não respondeu

São diversos os fatores a contribuir para a construção dessa memória gaúcha no estado de Santa Catarina, além do discurso, as práticas do tradicionalismo gaúcho serão os fatores determinantes para atrair mais adeptos ao gauchismo, pois cada qual se identifica com determinadas práticas, adotando-as como suas, e passam a fazer parte dessa comunidade gaúcha.

3.3 NECESSIDADE DE RECONSTRUÇÃO E AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE NA