1. INTRODUCTION
1.1 BACKGROUND
Em seu projeto político-pedagógico, o IFRN dispõe de um conjunto de políticas e ações educativas33, que visam estabelecer mecanismos de formação,
participação, envolvimento, compromisso de todos os sujeitos envolvidos no processo educativo, voltado para possibilitar a efetivação de um fazer pedagógico institucionalizado, com qualidade.
Dentre estas, encontramos a de Assistência Estudantil, concebida como parte do processo educativo e que, configura-se como direito social dos educandos, por meio da garantia do direito à educação pública e de qualidade, na perspectiva de democratizar o acesso, a permanência e o êxito dos estudantes (IFRN, 2012). Para atender a esse propósito, há vários serviços de atendimento ao estudante.
O trabalho é desenvolvido por uma equipe multiprofissional que compreende profissionais de várias áreas como: médico, enfermeiro, fisioterapeuta, nutricionista, odontólogo, psicólogo, assistente social e educadores, entre outros. Os indicadores
33 Esse conjunto de Políticas e Ações Institucionais do IFRN se apresenta no Capítulo 4 do documento intitulado “Projeto Político-Pedagógico do IFRN: uma construção coletiva”. Aprovado pela Resolução 38/2012-CONSUP/IFRN, de 26/03/2012. Disponível em: <http://portal.ifrn.edu.br/institucional/projeto-politico-pedagogico>. Acesso em: 10 jul. 2014.
sociais que permeiam as ações de assistência social são: acesso e permanência, desempenho acadêmico, cultura, lazer e esporte, assuntos transversais.
São vários os programas disponibilizados por esse setor, tais como: Programa de Alimentação Escolar, de Auxílio-transporte, de Iniciação Profissional, de Bolsa para Cursos Básicos de Idiomas, de Fiscalização de Concursos, de Fomento ao Estudo para os Alunos do PROEJA (Resolução do Conselho Diretor, nº 10, de 28/05/2008). Todos eles são desenvolvidos tendo em vista a intervenção nas questões de vulnerabilidade social, cultural e econômica dos sujeitos, buscando favorecer a formação para o exercício da cidadania.
Este último programa se destina exclusivamente aos estudantes do PROEJA, tendo por objetivo contribuir para a sua permanência no IFRN e a melhoria do seu desempenho acadêmico, por meio da concessão de auxílio financeiro complementar para despesas com transporte, alimentação e aquisição de material didático. O valor do auxílio deverá considerar os recursos orçamentários da SETEC/MEC. No ano de sua instituição (2008), ficou estabelecido o valor do auxílio de R$ 100,00 (cem reais) mensais, para todos os alunos regularmente matriculados e cadastrados no Serviço Social. Vale ressaltar que este programa foi criado a partir do ano 2008, em decorrência dos altos índices de reprovação no PROEJA, como tentativa de diminuir esses resultados negativos, constituindo-se como um mecanismo para favorecer a permanência escolar, uma vez que a medida tem como foco complementar as despesas dos sujeitos jovens e adultos. Observamos nas entrevistas que, apenas uma estudante se referiu a esse programa do fomento como importante para a sua permanência no curso.
Dos 11 entrevistados, 4 tiveram acesso a uma bolsa de trabalho durante algum tempo, e os demais registram a relevância dos serviços da psicologia e da assistência social quando em momentos difíceis (pessoais) de suas vidas precisaram da intervenção desses profissionais. Registram também a contribuição do auxílio-transporte e o de alimentação. Eis alguns relatos a seguir:
E2JO: Era uma bolsa de trabalho. Fui bolsista depois que fiz uma prova de seleção, apresentei um projeto. Fui bolsista da usina, já estava na área, fiquei 10 meses na usina, “escravidão”, fazia de tudo lá. Pegava uns 50 litros de leite, mas, me ajudou muito.
E3AN: Sim. Por um tempo eu recebi o auxílio-transporte, depois tinha o auxílio-alimentação, e logo depois fui bolsista 06 meses na
usina. Aí, chegou aquele programa dos 100 reais, que a gente recebia todo mês.
E4DA: Permaneci pouco tempo no trabalho, porque em pouco tempo, quando estava na EJA, consegui uma bolsa para trabalhar na usina, já para colocar em prática o que a gente aprendia em sala de aula. Aí, quando consegui a bolsa lá na usina, foi quando abandonei o comércio de vez e me dediquei só ao IF. Então, assim, a oportunidade de ter uma bolsa lá dentro já facilitou tudo.
E5KA: Sim. Durante o problema da separação, gravidez, tive apoio psicológico, a assistente social me ajudou muito.
E6ER: Fui bolsista de trabalho 2 anos no laboratório de alimentos e 1 ano e 4 meses. Aí, depois teve que trocar os bolsistas, aí me tiraram. E7VA: Eu passei, assim, por um momento difícil e tive um apoio do serviço social, da psicóloga, muito grande. [...] eu tive total apoio. O IF ligava, perguntava o que estava acontecendo, porque você não veio... Então, assim, eles tiveram essa preocupação de manter contato. A assistente social ou a psicóloga...
Com base nos depoimentos, percebemos o valor que a Assistência Estudantil apresenta como contribuição para a permanência escolar bem como para o desempenho acadêmico desses estudantes. De acordo com os relatos, observamos o grau de importância em relação ao Programa de Iniciação Profissional ou Bolsa de Trabalho34, uma vez que este programa faz uma grande diferença na
vida de cada um, de forma que ajuda na manutenção dos estudos, exige responsabilidade, habilidades e possibilita aprendizados que serão refletidos nos profissionais que irão se tornar.
Assim, entendemos que o Programa de Iniciação Profissional insere os estudantes em atividades de trabalho no âmbito do IFRN para valorizar as suas próprias potencialidades a fim de desenvolver atitudes e habilidades fundamentais para o exercício profissional, em qualquer área em que, futuramente, venha a se inserir. Depreendemos que os serviços de Assistência Estudantil contribuem significativamente para a permanência dos estudantes.
Percebemos, portanto, indícios de uma educação cidadã, a qual promove no sujeito o exercício da crítica pessoal sobre a sua realidade, reconhecendo-se no
34 Esse programa tem como objetivo proporcionar ao estudante de baixo poder aquisitivo, com matrícula e frequência regular na Instituição, apoio financeiro para manutenção de seus estudos, bem como propiciar uma experiência antecipada da atividade laboral, criando oportunidade de capacitação que possibilite o desenvolvimento de atitudes e habilidades inerentes ao exercício de uma profissão na sociedade. (IFRN, Resolução nº 25/2007-CD, de 31/08/2007).
direito e no dever de participar ativamente em múltiplos espaços por meio do diálogo, criando e recriando ações sociais de opção política com vistas à sua transformação (BRANDÃO, 2002).
Finalizando nossas análises apresentamos um quadro referencial que mostra alguns indícios da concretização de uma educação pautada na relação, considerando os arranjos culturais dos sujeitos e suas apropriações para sobreviver a uma cultura que oprime e que na maioria das vezes não consegue dar visibilidade aos saberes culturais construídos coletivamente.
O quadro 7 indica alguns sinais de mudanças profissionais e educacionais, conforme podemos ver a seguir:
Quadro de mudanças profissionais e educacionais
Código Turma Idade*¹ Atividade profissional
anterior
Atividade
profissional atual Escolaridade atual E1RU 2006.2 40 anos ASG Fiscal na Vigilância Sanitária (PMCN) Cursando Pedagogia PROUNI/UNP E2JO 2006.2 26
anos Guia turístico
Técnico em Alimentos e em Segurança do Trabalho Cursando Tecnologia em Recursos Humanos – UNP E3AN 2006.2 32 anos Dançarina de Banda Agente Comunitário de Saúde (PMCN) Licenciada em Química - IFRN Campus CN E4DA 2006.2 27 anos Balconista (Comércio) Professora substituta de Química no IFRN Campus Ipanguaçu Licenciada em Química - IFRN Campus CN E5KA 2006.2 35
anos Prof.ª na Ed. Infantil
Técnica em Alimentos Atua com consultoria
em empresas de alimentos Licenciada em Letras – UFRN Pós-graduação em Vigilância Sanitária E6ER 2008.2 32 anos Costura, Teatro, Reforço escolar. Empresa de Cerimonial de Festas, Costureiro Ensino Médio Profissionalizante E7VA 2008.2 43
anos Recepcionista Não está trabalhando
Cursando Licenciatura em Química – IFRN Campus
CN
E8JU 2008.2 40
anos ASG ASG
Ensino Médio Profissionalizante
E9FE 2008.2 23
anos Modelo Comércio
Cursando Tecnologia em Alimentos – IFRN
Campus CN
E10RI 2008.2 33
anos Porteira Não está trabalhando
Ensino Médio Profissionalizante
E11CL 2008.2 29
anos Dona de casa
Coordena equipe da cozinha em Pizzaria
Ensino Médio Profissionalizante *¹ Idade atual
* ASG: Apoio em Serviços Gerais CN: Currais Novos Quadro 7 - Fonte: Pesquisa da autora (2014)
O quadro acima nos apresenta informações relacionadas à elevação da escolaridade quando observamos que dentre os 11 (onze) estudantes, 7 (sete) conseguiram obter acesso ao ensino superior: 2 (dois) concluíram a Licenciatura em Química, 1 (um) concluiu a Licenciatura em Letras e se encontra cursando pós- graduação na área de Vigilância Sanitária e 4 (quatro) estão cursando um ensino superior.
Quanto às mudanças de profissão ou inserção no mundo do trabalho, observamos que 6 (seis) dos entrevistados conseguiram avançar em suas atividades profissionais, ampliando os horizontes, colhendo frutos plantados no percurso sinuoso do estudo em busca da qualificação profissional, como sujeitos da EJA.
Percebemos, portanto, a contribuição significativa do Curso Técnico em Alimentos na modalidade EJA para a melhoria da qualidade de vida desses sujeitos jovens e adultos no âmbito pessoal, profissional e porque não dizer em todos os aspectos que envolvem o ser humano em suas relações. Compreendemos que as mudanças se concretizaram a partir das vivências construídas em um conjunto de saberes e não saberes, os quais foram se entrelaçando, se encaixando formando, assim, uma grande teia.
Dialogando um pouco mais com Freire (2008), compreendemos que o homem está no mundo e com o mundo e por isso a sua capacidade de ir além é o que o torna “um ser capaz de relacionar-se; de sair de si; de projetar-se nos outros; de transcender. Pode distinguir órbitas existenciais distintas de si mesmo” (FREIRE, 2008, p. 30). Encontramos em Freire a compreensão de que o homem é um sujeito que se encontra em permanentes situações de aprendizagem e, por ser humano, necessita do outro no processo de (re)construção de si mesmo. E por isso não devemos prescindir dos saberes que emanam das relações humanas que venham fortalecer as relações com o outro, consigo mesmo e com o mundo.
A nossa pesquisa tem mostrado indícios de que quando aprendemos e percebemos que estamos aprendendo, passamos a nos valorizar, a nos ver diferentes, elevando a nossa autoestima, o nosso autoconceito e, daí, prosseguimos no caminho de novas descobertas, de forma desafiadora.
Nessa dimensão, a teia não se finda, pois outros fios se entrelaçam em busca de outros anseios, de novas esperanças que constituirão novos saberes. Nessa dimensão, Freire (2006) nos convida a pensar sobre uma das principais
características humanas que se encontra na consciência do ser enquanto inconcluso, incompleto e por isso nos encontramos sempre em situação de busca de saberes que venham conjugar e melhorar nosso modo de ver, pensar e fazer as coisas, num processo gnosiológico do saber como diz Freire (2006). E, assim, pensamos a formação humana como possibilidades de vir a ser, num processo infinito de trocas, de aprendizagens, de emoções, de construções, de gestos, enfim, da própria vida.