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CHAPTER 1 INTRODUCTION

1.1 Background

Tânia Maria Diederichs Fischer

Vou começar por agradecimentos que gostaria de fazer a duas pes- soas. Uma delas tem de se retirar mais cedo, e esta é uma oportunidade que não posso perder. Porque aqui está Reinaldo Ferraz, que no Minis- tério de Ciência e Tecnologia teve um papel determinante na aprovação do programa que vou apresentar, e que se propôs como projeto inova- dor, e desta forma foi aceito. Um programa de Gestão Social lá no final dos anos 90, quando esta expressão “gestão e responsabilidade social” não tinha o efeito, digamos, até midiático que tem hoje. Então, foi uma aposta em um tema numa área nova, num programa ousado, que nada garantiria que pudesse acontecer. E o Reinaldo acreditou. Por isso, faço questão de dirigir este agradecimento público ao Reinaldo. Fico muito feliz, Reinaldo, de poder agradecer a você pessoalmente neste momen- to.

Estendendo agora os agradecimentos, ao Alexandre Paupério, que foi diretor da nossa fundação de pesquisa, a FAPESB, e também teve um papel decisivo para que esse programa acontecesse, quando conse- guimos recursos estaduais.

Então ficam feitos os agradecimentos e o reconhecimento a essas duas pessoas tão determinantes para que a gente pudesse testar um modelo de inovação, inclusive aproveitando alguns alunos aqui presen- tes e que poderão me contestar.

Na verdade, a nossa proposta é formar gestores de desenvolvi- mento social de territórios. E a questão seria o porquê, em quê e como inovar, e não o programa em si. Foi uma proposta de inovação num

design diferenciado que pretendia ser integrado, interativo, multifocal

As questões que nos orientaram foram como qualificar os gestores sociais e como inovar em design de ensino, pesquisa e difusão social. Esse programa se propôs a construir desenhos de ensino, ancorados em pes- quisa sobre desenvolvimento territorial e com difusão social simultânea.

Como construir e institucionalizar espaço e inovação em uma uni- versidade pública? Não o Reinaldo, mas uma pessoa que fazia parte do comitê gestor me perguntou por que eu iria colocar isso numa universi- dade ao invés de criar uma ONG, OSCIP ou alguma coisa do tipo, onde tivesse bem mais liberdade. Concluí que a universidade me daria uma legitimidade e uma permanência que uma ONG não me daria. Numa organização criada fora da universidade não vai haver garantia de permanência, nem o impacto social que poderia ter, porque esse pro- grama poderá continuar com outras pessoas no futuro. Ele não vai ficar dependendo de uma pessoa.

Como o nosso projeto contribui com esse programa para o desen- volvimento social de territórios? Bem, ele vai de 1999 até 2015, porque temos sempre que pensar para a frente e desenhar as coisas em função do futuro. Estamos formando hoje pessoas que atuarão daqui a cinco ou sete anos, então não adianta desenhar para o agora. A gente tem que tentar antecipar, como se tentou fazer em 1999, porque se o programa agora está respondendo é porque ele, desde o início, foi pensado com uma visão de futuro. Para ele continuar respondendo às necessidades sociais, ele tem que ser pensado já para 2015.

O programa criou um centro interdisciplinar de desenvolvimento em gestão social, e que dentro do novo desenho institucional da UFBA poderá se candidatar a ser como os outros centros multidisciplinares. Somos a universidade do País que mais tem centros disciplinares. Isso dá um bom estudo de desenvolvimento institucional, porque uma uni- versidade tão tradicional e de estruturas tão amarradas, talvez exata- mente por isso crie estruturas alternativas e inovadoras.

Os resultados esperados são: consolidar um centro de referência em gestão social e desenvolvimento, apoiar a capacitação da sociedade local, qualificar 500 gestores, número que já atingimos este ano (2008)/ em 2008, e criar polos de difusão, nacionais e internacionais.

Conseguimos alguns apoios graças ao fato de ser um Fundo Verde e Amarelo. Com o MCT, FINEP e CNPq conseguimos negociar a ex- tensão do programa e a renovação dele, sem acréscimo de recursos efe- tivos. Mas negociamos que ele se estendesse por seis anos, o que foi

uma vitória. O fato de termos o Fundo Verde e Amarelo nos credenciou e nos legitimou a conseguir outros apoios. A partir daí entrou a própria FAPESB, e a Fundação Kellogg. Nós temos hoje um programa de ensi- no à distância pelo Banco do Brasil, formando gerentes de agências de todo o País. Na Petrobras, temos alunos de especialização que fazem o curso juntos, enfim. E também com a atual Secretaria de Trabalho, Emprego e Renda do Governo do Estado, antiga Secretaria de Comba- te à Pobreza. Temos uma multiação de vários financiadores.

Através de uma perspectiva epistemológica e prática, chegamos à gestão social e inovação de gestão do desenvolvimento social de territó- rios. Algumas capacitações básicas em gestão social, que vem desde gerir criativamente organizações e interorganizações; elaborar e gerir projetos de mudança em contexto sócio-territoriais em diferentes es- calas; potencializar espaço de aprendizado individual e social, difundin- do saberes e práticas; e sistematizar e avaliar a prática de desenvolvi- mento da gestão social.

Bem, e o que realizamos entre 2000 e 2008? Na Figura 2 vemos a linha de pesquisa. Alguns exemplos, que eu vou passar pelos títulos sem descrever, são alguns dos trabalhos que foram feitos de pesquisa e de intervenção e geraram conhecimento alimentando os nossos dese- nhos de ensino.

São eles: Projeto Itapagipe, Incubadoras Sociais Produtivas, onde estamos testando metodologias, e que tem, por base, a recu- peração do artesanato tradicional de renda na Bahia, o projeto Maricultura Familiar Solidário, feito em conjunto com o Instituto de Biologia. Temos também o Projeto Ecoluzia, que é muito importante e que possui mais outros três projetos, coordenado pelo Prof. Genauto França Filho, aqui presente, e a Maestria em Artes e Ofíci- os Populares, onde estamos fazendo o mapeamento dos mestres artesãos e seus saberes no território do sisal baiano. Este projeto vai gerar não só a identificação dessas pessoas que estão com idade avan- çada, e morrendo com o que sabem, mas também como poderemos oferecer dentro da Universidade de Verão estes saberes, e conceder títulos aos mestres, categorizar seus saberes e construir soluções para os museus absorverem essa arte popular com espaços virtuais e interativos.

Essa ideia dos mestres artesãos vem ganhando espaço. Realizare- mos um fórum internacional conduzindo essa ideia de cultura, entre outras, porque há uma desagregação muito grande nesta questão de artesanato. Cada um vai para um lado. Então agora vai se concentrar tudo isso numa política, ou quem sabe num programa baiano de artesa- nato. Hoje não sabemos quem são os dez melhores artesãos da Bahia. O lugar para se ver e se comprar o melhor artesanato da Bahia não é o Mercado Modelo, e está deixando de ser na Feira de São Joaquim, com a entrada de mercadorias chinesas.

Figura 2

Em 2002 e 2006, oferecemos cursos de extensão para 300 gestores de comunidades periféricas, quando se testou o modelo de extensão com alunos de graduação da UFBA e de outras instituições da comuni-

dade que fizeram a residência social. Tiveram aulas juntos, e depois esses alunos foram desenvolver um projeto com outros colegas na co- munidade. Isso testou o novo modelo de residência social.

Oferecemos um curso de especialização, testando um modelo com residência social em outros estados do País para 80 gestores, onde en- trou a Petrobras com 20 alunos, porque seriam 40, e a Petrobras ao trazer 20 permitiu que a gente oferecesse bolsas. Vejam que todos os cursos são gratuitos. Fizemos isso com base nas pesquisas e nos estu- dos, e com uma pesquisa de avaliação desse modelo de ensino, que vem desde lá até agora.

Em 2008, o que nós temos? Na Figura 29, o que já está concreti- zado: a extensão, a especialização presencial, a especialização à distân- cia, numa parceria com o Banco do Brasil, mestrado multidisciplinar e profissional aprovado pela Capes, e dois projetos. Um deles já aprova- do, o de graduação tecnológica e gestão social, que será feito à noite. É um curso experimental com desenho diferenciado como projeto de pesquisa, voltado a alunos de escolas públicas como prioridade, e que o Banco do Brasil pediu que estendêssemos aos assentamentos do MST, usando o sistema de ensino à distância da universidade aberta. Eles querem que a gente tenha um campus de experimentos nos assenta- mentos para nossos alunos que farão residência social por lá, e os assen- tados terão aqui a possibilidade de vir também.

O outro projeto é o da graduação, em fase de aprovação no REU- NI, e o doutorado para profissionais, que é um pedido que a Capes nos faz. Claro que eu não vou chamar de doutorado profissional, ele será um doutorado para profissionais. Isso significa que é um doutorado que tem as características do mestrado: não se dirige a um público com vocação acadêmica, mas para pessoas com inserções estratégicas em agências de desenvolvimento, em órgãos governamentais, em grandes organizações, na sociedade civil, enfim, em movimentos associativos. Esses profissionais vêm aqui para ter uma formação numa perspectiva mais estratégica, de refletir sobre a prática e poder tomar decisões com base em pesquisa. Se não feitas por ele, que se possa ter uma sensibili- dade maior para os problemas, baseados em dados robustos provenien- tes de pesquisas sérias.

A residência social no mestrado já é internacional, ou seja, os alu- nos vão para outros países. Isso já está acontecendo com a primeira e a segunda turmas. Temos tido 600 candidatos. O curso é concentrado e

temos alunos de vários estados, com uma experiência muito diversificada, desde superintendente da Chesf, auditor principal do Ban- co do Brasil, até grandes ONGs. A futura Madre Abadessa do Conven- to do Desterro é nossa aluna, e a dissertação-projeto dela trata da revitalização do convento. Então há uma grande diversidade de alunos, e aprendemos muito com eles. Seguramente, pela competência e pela diversidade deles, talvez mais do que eles consigam aprender conosco. Esse é só o desenho do mestrado, eu não vou me deter. É um desenho diferenciado. A gente trabalha por sequências interdisciplinares e com a residência social ali colocada.

Figura 3

Fomos finalistas no prêmio FINEP de inovação tecnológica, pela residência social que a gente construiu e sistematizou como uma tecnologia social.

Hoje temos que redefinir o programa em função do futuro. E a gestão social não é só a gestão da simetria e a perspectiva da inclusão social. Nós temos que pensar, por exemplo, no urbano contemporâneo

e nas transformações que essa cidade está sofrendo, na acessibilidade e mobilidade, que hoje afeta a cidade, no desenho urbano, no que é o envelhecimento da população, do que são os novos interesses, as novas necessidades. A gestão social é mais ampla do que trabalhar com a po- breza, embora ela vá continuar sendo estruturante. Tem as questões do eixo da cultura e do ambiente. Quer dizer, é o social nesta modernidade que estamos vivendo em cidades, ou então, numa relação muito estrei- ta com esse desenvolvimento tecnológico fortíssimo que vem dessa zona e que interfaceia com a zona urbana.

Dessas discussões — se esse futuro é viável — o programa vai se colocar na perspectiva dessa discussão mais ampla da gestão da socie- dade. Esse desenho na Figura 30, mostra um currículo fractal. É um desenho de um desfile que houve em São Paulo de um costureiro japonês chamado Jum Nakao. Ele vestiu todos os manequins com rou- pas de papel que depois foram destruídas e essa é uma das estampas das roupas. Então, teremos relações possíveis e aproveitamentos mo- dulares possíveis em todos os cursos. Quem faz uma graduação tecnológica, na proposta do Magnífico Reitor, pode ter créditos aqui- sitivos para, digamos, uma extensão, que pode compor modularmente uma especialização, e que pode chegar a ser contemplada num mestrado ou doutorado profissional. Alguém que sai de um curso tecnológico, se tiver uma alta competência, poderá ir direto para um doutorado profissional. Enfim, como vamos compor esse desenho den- tro da universidade nova é uma reflexão que se deve fazer pra frente e mantém, digamos, a inovação do programa. O programa continua se discutindo e se reorganizando.

Bem, agora fechando. Eu vou terminar antes do tempo, pois atro- pelei muito para poder falar ainda com a presença do Reinaldo Ferraz. Aí vem esse cenário da Figura 4.

O que será a gestão social do desenvolvimento territorial em 2015? Que valores, que espaços de prática, que ancoragens locais, regionais, nacionais, internacionais, globais, e virtuais? Que campos de conheci- mento serão esses?

Hoje a gente tem muito presentes os campos de conhecimento, mas isso certamente vai mudando. Nós trabalhamos hoje com profes- sores da biologia e da engenharia, da filosofia e das ciências humanas. Estão aqui presentes os nossos projetos, por exemplo, de maricultura, e o projeto do Prof. José Pinho, do grupo Águas, com a engenharia.

Figura 4

Mas, como disse, isso vai mudando e nós estamos também numa discussão institucional. Porque se isso se coloca de uma forma cada vez mais multidisciplinar, para dizer o mínimo, interdisciplinar talvez, e mesmo transdisciplinar, quando a gente trabalha com problemas concretos, como é que nós vamos nos situar dentro dessa universida- de, estando sediados nesta escola? É uma escola de gestão, e eu acho muito importante que gestão seja o eixo orientador do programa, algo que o compromete decisivamente com a prática. Que campos do co- nhecimento, que perfil do gestor social, que domínio de competência, e como continuar inovando? Acho que esse é um desafio e que se coloca pela frente. Obrigada.