Part I: Synopsis
1.5. Thesis Structure
2.1.1. Background on e-assessment and e-exams 9
No teste de discriminação AX apresentado na seção anterior, foi possível verificar em que medida os falantes nativos do espanhol discriminam o contraste entre vogais médias tônicas em pares de palavras do tipo testa - texto, bolo - bola. Na tarefa de identificação, cujos resultados são aqui apresentados, a finalidade foi investigar se os informantes são capazes de identificar o tipo de vogal média produzido em palavras como teto, sebo, poço, foca, por exemplo. Para tanto, realizou-se, inicialmente, o levantamento das médias do grupo experimental, falantes não nativos, e do grupo controle, falantes nativos, com relação à identificação das vogais /e/ e /o/, vogais do português que não fazem parte do sistema vocálico do espanhol.
Na TAB. 4 a seguir apresenta-se a média obtida para cada grupo, nativos e não nativos, o desvio padrão, e os resultados do teste Mann Whitney (U) quanto à diferença que os dois grupos apresentam em relação à identificação das vogais /e/ e /o/.
Tabela 4 – Aprendizagem fonológica: Média de Identificação - grupo experimental e grupo controle Grupo Experimental (não nativos) (N = 32) Média (DP) Grupo Controle (Nativos) (N = 12) Média (DP) Mann Whitney p (significância)
Identificação de vogal /e/ 64,75 (20,25) 99,41 (2,02) (U = 0.000) 0,000 Identificação de vogal /o/ 61,16 (18,61) 98,83 (2,72) (U = 0.000) 0,000 Fonte: A autora
Os resultados apresentados na tabela anterior permitem constatar que a média do grupo experimental, falantes não nativos, foi de 64,75 (DP = 20,25) na identificação de /e/ e de 61,16 (DP = 18,61) na identificação de /o/. O grupo de falantes nativos, por sua vez, apresenta média de 99,41 (2,02) para a identificação de /e/ e de 98,83 para a identificação de /o/. O teste Mann Whitney comprova a diferença de comportamento entre nativos e não nativos na identificação de ambas as vogais (U=0.000, p = 0,000).
Entretanto, na tarefa de identificação, mesmo com diferenças significativas em relação ao grupo controle, falantes não nativos mostram um percentual relativamente alto de identificação, acima de 50%, tanto para a vogal /e/ quanto para a vogal /o/. Nesse caso, diante da possibilidade de que informantes não nativos, na tentativa de acertar ou por não estarem seguros de suas respostas, terem optado indiscriminadamente por vogal aberta ( /e/, /o/) ou, por vogal fechada (/e/, /o/) realizou-se o levantamento da média em que os estímulos apresentados com vogal média fechada (dedo, posto) foram identificados como vogal aberta (/e/ ou /o/).
Após o levantamento da proporção de acertos para todos os estímulos apresentados, incluindo os estímulos com vogal média fechada (texto, bolo) e os estímulos com vogal média aberta (seta, poste), verificou-se que, para a tarefa de identificação, comprova-se a premissa de haver tendência a uma única resposta, uma vez que, em muitos casos, informantes que apresentavam médias acima de 90% na identificação de vogal aberta (/e/ ou /o/) também apresentavam alto percentual de vogais /e/ e /o/ identificadas “equivocadamente” como abertas.
Diante dos resultados e da possibilidade de viés decorrente da preferência do informante por uma ou outra vogal, tornou-se imprescindível verificar o quanto tal tendência influencia nos resultados. Optou-se, então, por analisar os dados da tarefa de identificação com base nos preceitos da Teoria de Detecção do Sinal (GREEN; SWETS, 1966;
MACMILLAN; CREELMAN, 2005), a qual corresponde a uma medida que avalia o processo de decisão dos sujeitos com base em sua habilidade para detectar o sinal (quando o estímulo está presente) na presença do não sinal (quando o estímulo não está presente). A aplicação da teoria aos estudos de percepção vem ao encontro da necessidade de se analisar a sensibilidade que sujeitos mostram ao contraste, excluindo o viés decorrente de suas estratégias de resposta. A sensibilidade dos informantes para o contraste, seguindo a concepção da Teoria de Detecção do Sinal, foi medida a partir da média de hits (H) – percentual em que o sujeito identificou corretamente as vogais abertas (/e/ e /o/) como abertas; e da média de false alarms
(FA) – percentual em que o sujeito identificou equivocadamente as vogais fechadas (/e/ e /o/)
como vogais abertas. A média de hits e de falses alarms foi, dessa forma, calculada a partir da divisão do número de hits pelo total de estímulos com vogais médias abertas (leque, poça), e da divisão do número de false alarms pelo total de estímulos com vogais médias fechadas (seco, poço). O Quadro 8 a seguir exemplifica a forma como se realizou o levantamento e o cálculo da média de hits e da média de false alarms na tarefa de identificação deste estudo.
Quadro 8: Exemplo de cálculo da média de Hits e de False Alarms Identificação de /e/
Total de estímulos Resposta (é) Resposta (ê) Média
Estímulos com /e/ 15 Hits (acertos)
10
Miss (erros)
5 Hits = 10/15 0,66
Estímulos com /e/ 15 False Alarms (erros) 8 Rejeição correta 7 False Alarms = 8/15 0,53 Identificação de /o/
Total de estímulos Resposta (ó) Resposta (ô) Média
Estímulos com /o/ 15 Hits (acertos)
9
Miss (erros)
6 Hits = 9/15 0,60
Estímulos com /o/ 15 False Alarms (erros) 3 Rejeição correta 12 False Alarms = 3/15 0,2 Fonte: A autora
No exemplo representado no quadro anterior, observa-se que na identificação de /e/ o número de hits - /e/ identificado corretamente – foi de 10 em 15, o que equivale ao percentual de 0,66, e o número de false alarms - /e/ identificado como /e/ - foi de 8 em 15, que corresponde ao percentual de 0,53. Na identificação de /o/, o número de hits é de 9 em 15, com percentual de 0,60 e o número de false alarms 3 em 15, percentual de 0,20. No quadro representa-se também o total de erros (Miss) referente ao número em que /e/ e /o/ foram incorretamente identificados como /e/ e /o/, e o total de rejeição correta, isto é, o número em
que os estímulos /e/ e /o/ foram corretamente identificados. A sensibilidade, conforme discutido anteriormente, é avaliada com base na proporção de hits e de false alarms.
Pressupõe-se um bom desempenho quando o sujeito maximiza hits e minimiza false
alarms. Nesse caso, quanto maior a média de hits e menor a média de false alarms, melhor é
o desempenho do aprendiz. A média de hits e de false alarms, obtida conforme o exemplo do quadro anterior, possibilita medir a sensibilidade dos sujeitos ao contraste, a partir de um cálculo que considera a diferença entre a média de hits e a média de false alarms. Quando os dados apresentam simetria, a literatura (MACMILLAN; CREELMAN, 2005) recomenda o uso da fórmula estatística d’(d-prime), a qual consiste na diferença entre a transformada Z das duas médias, hits e false alarms (d’ = Z(H) – Z(F)). Entretanto, quando os dados não apresentam simetria ou distribuição normal, como é o caso que se observou neste estudo, indica-se, conforme Stanislaw e Todorov (1999), a utilização da fórmula A’ (A-prime), a qual corresponde a uma medida não paramétrica, obtida pela fórmula sugerida em Snodgrass, Levy Berger e Haydon (1985), exposta a seguir:
Quando H > FA, A’= 0.5 + [(H – FA) * (1+ H – FA)]/ [4* H * (1- FA)] Quando H = FA, A’ = 0.5
Quando FA > H, A’ = 0.5 + [FA – H) * (1 + FA – H)] / [4 * FA * (1 – H)]
A sensibilidade através da medida em A’ (A – prime) revela uma média que varia de zero (0) até um (1,0), com um ponto neutro em torno de 0,5. Quanto mais próxima de um (1,0) for a média, melhor é o desempenho. Dessa forma, o valor um (1,0) indica uma perfeita distinção entre o sinal (estímulo presente) e o não sinal (estímulo não presente). Valores de 0,5 indicam que não há distinção entre o sinal e o não sinal, enquanto os valores abaixo de 0,5 apontam para nenhuma sensibilidade ou confusão de respostas e, normalmente, ocorrem quando a média de false alarms mostra-se muito alta em relação à média de hits. A TAB. 5 a seguir apresenta as médias obtidas por meio do cálculo A’ para o grupo experimental de falantes não nativos, na tarefa de identificação.
Tabela 5 – Aprendizagem fonológica: Média de Identificação em A’ prime Média em A’ Média Mínima Média Máxima DP
Vogal /e/ 73,69 38,00 95,00 13,07
Vogal /o/ 75,19 44,00 95,00 11,64 Fonte: A autora
De acordo com os valores apresentados na tabela anterior, a média do grupo não nativo em A’ para a tarefa de identificação foi de 73,69 (DP = 13,07) para a vogal /e/ e de 75,19 (DP = 11,64) para a vogal /o/. Tais resultados, considerando que quanto mais próxima de um (1,0) for a média de A’ melhor é o desempenho, revelam que não nativos, embora não alcancem perfeita sensibilidade, mostram tendência a identificar as vogais abertas do português, com média de A’ acima de 5,0 para ambas as vogais, /e/ e /o/. Os valores obtidos em média mínima e em média máxima para ambas as vogais, /e/ e /o/ permitem constatar variações individuais de comportamento no grupo, em que se observa que há, por um lado, informantes que não apresentaram nenhuma sensibilidade ao contraste, com médias abaixo de 5,0, e, por outro lado, informantes que alcançam quase perfeita sensibilidade às vogais, com média máxima de A’ acima de 90,00.
De acordo com os valores médios obtidos em A’, não nativos, considerando a média do grupo, mostram melhor desempenho na identificação da vogal posterior /o/, com média de 75,19 (DP = 11,64), em relação à identificação da vogal anterior /e/, com média de 73,69 (DP = 13,07). Essa diferença, no entanto, de acordo com o teste T para amostras emparelhadas, não se revela significativa (p > 0,05), conforme depreende-se dos resultados descritos na TAB. 6 a seguir.
Tabela 6 – Aprendizagem fonológica: Teste de diferenças em relação ao tipo de vogal
Tarefa de Identificação
Média Desvio Padrão T para amostras
emparelhadas p (significância) Vogal /e/ vs. 73,69 13,07 ((31) = 0,885) 0,383 Vogal /o/ 75,19 11,64 Fonte: A autora
Os valores apresentados na tabela anterior revelam que, quanto à tarefa de identificação, não é possível apontar diferenças significativas (t(31) = 0,885, p = 0,383) entre
a identificação de vogal média anterior /e/ e a identificação de vogal média posterior /o/. Diante dos resultados, a hipótese de que informantes apresentariam melhor desempenho na identificação de vogal anterior não se confirma e, nesse sentido, os resultados obtidos para a tarefa de identificação diferenciam-se dos resultados obtidos para a tarefa de discriminação AX, descrita em seção anterior, em que se constatou melhor habilidade na discriminação de vogais anteriores.
Os resultados obtidos para as tarefas de percepção, discriminação e identificação
permitem verificar que falantes nativos do espanhol, embora apresentem-se moderadamente sensíveis à realização fonética das vogais /e/ e /o/ do português, com média de A’ acima de 5,0 quanto à identificação, tendem a apresentar dificuldade para discriminar o contraste entre as vogais médias tônicas /e/ - /e/ e /o/ - /o/ em pares de palavras do tipo testa – texto, bolo – bola, conforme observou-se nos resultados da tarefa AX descritos na seção anterior. Pressupõe-se que a dificuldade de aprendizes em perceber a diferença entre as vogais /e/ - /e/ e /o/ - /o/ pode refletir-se na produção dessas vogais, em que se espera a pronúncia das vogais /e/ e /o/ com interferência das vogais /e/ e /o/ da língua nativa.
Após a descrição dos resultados de produção, apresentados na seção seguinte, serão discutidas questões referentes ao papel que desempenham variáveis relacionadas ao léxico e ao indivíduo na percepção e na produção de vogais médias tônicas.