Com base em nossas experiências com a apropriação pedagógica de tecnologias intelectuais digitais nas instituições educativas onde exercemos a docência, não estamos convencidas de que estamos diante de uma “nova” cultura, de “novos” alunos ou “novos” professores. Para nós, as práticas culturais acadêmicas são híbridos compostos por permanências e rupturas. Podemos verificar isso quando encontramos docentes usando alta tecnologia para ministrar aulas com enfoque metodológico extremamente instrumental e pragmático; e, discentes da geração high tech que não utilizam as tecnologias para constituir processos de aprendência.
O problema que orienta esta pesquisa consiste, então, em saber como a hibridação entre a cultura acadêmica e a cibercultura acontece e se ela possibilita aos(às) aprendentes ressignificar o ensinar e o aprender a partir da instituição de práticas acadêmicas mediadas por tecnologias intelectuais digitais. É razoável supor que uma concepção que separa essas duas culturas não favorece a produção conjunta de significados pelos(as) aprendentes docentes e discentes para as mediações estabelecidas com as tecnologias. Na maioria das vezes, as práticas acadêmicas são submetidas a rigorosos mecanismos de controle e seus significados são impostos aos aprendentes. Em resumo, podemos dizer que o que provavelmente ocorre com maior frequência nas instituições educativas é uma justaposição dessas culturas.
Entretanto, a nossa tese sobre a hibridação entre a cultura acadêmica e cibercultura pressupõem em seu segundo argumento que as culturas híbridas não se anulam nem se excluem mutuamente. Pois, seus elementos intrínsecos estão presentes nas misturas e condicionam a ressignificação das práticas culturais. Desse modo, pressupomos que a desconstrução da ideia de separação entre a cultura acadêmica e a cibercultura nos permitirá realizar essas misturas.
Outras proposições teóricas aproximam-se da ideia que subjaz o conceito de hibridação empregado por Canclini, a exemplo da Antropologia Simétrica, apresentada por Bruno Latour (2009). Em suas discussões, esse autor também busca a desconstrução da lógica dicotômica elaborada pelo paradigma moderno. Ele propõe o fim das separações e a ascensão da mistura, manifestas, principalmente, a partir da proliferação dos “híbridos”. Seus pressupostos, entretanto, não se voltam para análises sobre a separação entre culturas, mas para a separação entre natureza e cultura, entre aquilo que é material e o que é subjetivo. Suas contribuições assumem pertinência e relevância em nossa discussão em razão de estarmos analisando a hibridação da cultura acadêmica a partir da mediação estabelecida entre os(as) aprendentes e as tecnologias intelectuais digitais. Pois, a exemplo da separação feita entre culturas, a separação entre homem e técnica é recorrente em proposições filosóficas53.
Para Latour (2009), os híbridos são objetos nos quais natureza e cultura se misturam de um modo que não é possível explicá-los ou compreendê-los apenas com base nos princípios das ciências naturais ou das ciências sociais. Logo, esses objetos são dotados de uma complexidade epistêmica que os princípios do pensamento moderno não conseguem abranger. As tecnologias intelectuais digitais e os(as) aprendentes são compreendidos(as) nesta pesquisa como híbridos. Para nós, a ciência não deveria estudá-los em si mesmos sem considerar suas articulações filosóficas, sociológicas e culturais.
O pensamento de Latour (2009) nos auxilia a pensar as hibridações culturais segundo uma perspectiva complexa, como uma rede de atores (humanos) e de objetos (não-humanos) que é tecida em conjunto. Inúmeros híbridos, criados pelos homens a partir da mistura entre natureza e cultura passaram a integrar a existência humana, por vezes de modo irreversível. A ascensão de um olhar simétrico entre esses dois pólos (natureza e cultura) possibilita a desconstrução de discursos reducionistas e deterministas que ora condenam e ora salvam à humanidade de si mesma e da natureza. Podemos trazer à tona, por meio de análises dos híbridos, sob a perspectiva simétrica, os agenciamentos possíveis e necessários entre natureza e cultura, ressuscitando a política e a ética na produção do conhecimento científico e da vida.
É com base nos pressupostos da Antropologia Simétrica, que Pinho (2008) empreende sua discussão sobre as tecnologias intelectuais digitais e as distintas concepções filosóficas relacionadas com elas, demonstrando os equívocos encontrados tanto nos raciocínios que demonizam quanto nos que divinizam as inovações tecnológicas. Para ele, não precisamos
53Liliana da Escóssia (1999) realiza um estudo de base filosófica sobre a relação homem-técnica, no qual ela
organiza as proposições formuladas por diversos teóricos em quatro principais concepções: instrumentalista; anti-instrumentalista; dromológica; e, ontogenética.
temer a possibilidade de sermos dominados pelas tecnologias nem tão pouco acreditar na utopia tecnológica, segundo a qual encontraremos nelas as soluções para todos os problemas da humanidade, ou ainda, inocentar a tecnologia com base em sua suposta neutralidade, que lhe seria intrínseca e que depende tão somente dos usos que delas fazemos.
Todos esses argumentos encontram aportes nos princípios do pensamento moderno que propaga a separação absoluta entre nós (humanos) e as tecnologias (não-humanos). Pinho (2008) toma o conceito formulado por Guattari (1992) para afirmar que nossa subjetividade é composta por elementos materiais e imateriais e, portanto, não deve ser entendida apenas como resultado de mecanismos psicológicos. Ele assevera que a subjetividade também é constituída pela materialidade que nos envolve. Ou seja, sofremos a ação das tecnologias que nos cercam, interagimos com elas, as transformamos e somos transformados pelas múltiplas interpretações e usos que dela fazemos, numa relação de contínua interdependência que nega a possibilidade de existência de domínios puros (dos humanos ou das tecnologias), não havendo como chegar às essências nem do humano nem do artificial.
Pinho, então, conclui que, desta forma, tudo se produz em um híbrido. Os compostos que encontramos são sempre misturas de vivos e não-vivos. Esses pressupostos assinalam para novas concepções de ciência, como as de Prigogine e Stengers (1991), capazes de abrigar as instabilidades, as crises e as evoluções, inconcebíveis pelo pensamento moderno. Nelas, considera-se ser impossível organizar e explicar tudo de forma linear, imutável, previsível, por meio de leis fundadas na inércia e na permanência e não no “movimento” e na “ruptura”. Nessas recentes concepções, o homem perde sua pretensão de domínio sobre a natureza e a cultura e passa a integrar uma cadeia de inter-relacionamentos em que não há lugar para explicações científicas com base na ideia de causa e de efeito ou em recortes dualistas.
Tal perspectiva filosófica retoma a ação política e considera o potencial de intervenção humana na transformação social resultante dos usos da técnica. Mas, acrescenta que, nesse processo, nós, os humanos, somos também continuamente redefinidos culturalmente por meio das relações de sociabilidade e de corporeidade experimentadas nas mediações que realizamos com as tecnologias intelectuais digitais. De acordo com Latour (2009), o humano é definido como um permutador ou recombinador de morfismos. Somos também o resultado das hibridações e dos agenciamentos entre natureza e cultura. Logo, somos híbridos.
Pinho finaliza salientando que as discussões e questões pertinentes ao futuro das tecnologias não podem prescindir da política, da ética e da busca de soluções para o hiato existente entre o superdesenvolvimento tecnológico e o subdesenvolvimento social, conforme também destacou Néstor Canclini em suas teorizações. Desse modo, ao invés de temermos a
ameaça do domínio tecnológico é mister empreendermos agenciamentos que reavivem a política e minimizem a deserção dos atores sociais do âmbito público para o privado.
Conforme propomos no terceiro argumento de nossa tese, não há cultura sem sujeitos, nem sujeitos sem cultura. Por conseguinte, os(as) aprendentes e as tecnologias intelectuais digitais compõem híbridos que possibilitam a ressignificação do ensinar e do aprender a partir das mediações realizadas em suas práticas acadêmicas. Assim sendo, consideramos pertinente propor que não estamos diante da emergência de uma “nova cultura acadêmica” que se opõe ou aniquila a “velha cultura acadêmica” e, dessa maneira, preconiza o surgimento de uma “nova escola”, um “novo aluno”, um “novo professor”, “novas metodologias de ensino” e “novas formas de aprender”. Mas, estamos diante do desafio epistemológico de compreender a hibridação da cultura acadêmica com a cibercultura a partir das mediações estabelecidas entre os(as) aprendentes e as tecnologias intelectuais digitais, considerando a instabilidade como peculiar à natureza da cultura.
Canclini e Martín-Barbero concluíram em suas análises da cultura latino-americana que as hibridações entre a cultura erudita e a cultura popular não ocorrem nem pela dominação nem pelo consenso. Mas, são produzidas no interior dos conflitos que as suas misturas suscitam e em meio a relações de poder. Entretanto, nas culturas híbridas, os poderes em jogo são oblíquos e não hierarquizantes. Vamos exemplificar: a interculturalidade ocorrida entre a cultura erudita e a cultura popular deu origem a práticas culturais impuras que, nesta pesquisa, chamamos de híbridas. Os híbridos produzidos por essas práticas culturais manifestam-se na música, nas artes, na literatura, na dança e possuem elementos da cultura tanto das classes eruditas quanto das classes populares que são compartilhados e consumidos por elas. Canclini cita o gênero quadrinhos e a arte digital como alguns desses híbridos.
De modo semelhante, propomos que as práticas acadêmicas que surgem das mediações entre os(as) aprendentes e as tecnologias intelectuais digitais também são híbridas. E, assim como afirmamos anteriormente com base em outros autores citados neste texto, o que pretendemos ressaltar agora são os aspectos políticos que estão postos nos conflitos que ocorrem nessas mediações. Pois, supomos que são eles que favorecem ou restringem a hibridação da cultura acadêmica e da cibercultura.