A apreensão da identidade não cabe em um modelo pronto e acabado. É uma questão de dinâmica social dos indivíduos ao viverem sua socialização por meio de seus projetos de vida e sua história de vida. Nos últimos 80 anos, as mudanças permitiram nova conceituação da socialização, que é pano de fundo na constituição da identidade pessoal e profissional dos indivíduos. Dubar (1997) retoma os escritos de Max Weber e produz nova concepção de socialização. Para
Weber, na visão de Dubar (2005, 107), a questão geral da socialização não é, [...]
dissociável da questão das formas da atividade humana e principalmente dos modos de orientação de um comportamento individual em relação aos outrem.
Nesse sentido, a socialização é um processo central na constituição da identidade dos indivíduos, social e profissionalmente. Por meio das inter-relações com os outros, nos meios de nossa circulação, das mudanças e transformações sociais e vivendo nossas trajetórias de vida como ator e como protagonista, a identidade vai sendo diferenciada, vai sendo constituída.
Na contemporaneidade, o avanço tecnológico promovido pela Ciência, o acirramento da política neoliberal e a globalização interferem e promovem mudanças nas regras do trabalho que desencadearam a chamada crise das identidades. Por que é importante compreender a crise de identidade? Tudo hoje parece sinalizar para a crise das identidades do indivíduo, quando parece não mais haver a delimitação de fronteiras identitárias, quando parece ser tudo flexível, incontrolável, provisório, conforme Bauman (2004). Para a globalização, ou melhor, “a modernidade líquida”, como ele se refere ao momento atual de frágeis estabilidades nas relações sociais, também, interferem nas relações sociais, nas individualidades e na construção da identidade, que assume a forma de uma experimentação infindável, provisória e incontrolável.
Além disso, o indivíduo, também, não está sozinho vivenciando a constituição da sua identidade. Ele é o resultado das vivências durante sua infância no convívio com a família, das relações e transações com os outros, das circunstâncias sociais e econômicas, do habitus, de escolhas e de interação. Ele vive esse processo como projeto de vida que ocorre de maneira interativa, em um vir-a-ser constante, dando-se54 a partir das diferentes configurações e determinações da ordem social (SILVA, 1996, p. 32) e, também, da economia, do
trabalho e do emprego. Nessa perspectiva, a identidade é movimento, é desenvolvimento, é troca, é transformação que ocorre no contato com o outro em um espaço onde vivemos, social e interativamente, nossas experiências e histórias de vida, influenciando-nos mutuamente e nesse movimento, ter identidade.
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Daí, a formação da identidade pessoal estar condicionada pela nossa história de vida, experiências, nossas escolhas e influências recebidas do ambiente onde acontecem. Seus espaços de acontecimento são vários, associados à motivação, interesses, expectativas, atitudes. Esses elementos são constitutivos de nossas escolhas que movimentam nossa história, compondo nossa trajetória social e, também, profissional. Multideterminada que é, conforme afirma Gatti:
A identidade não é somente constructo de origem idiossincrática, mas fruto das interações sociais complexas nas sociedades contemporâneas e expressão sociopsicológica que interage nas aprendizagens, nas formas cognitivas, nas ações dos seres humanas. (GATTI, 1996, p. 86).
Assim, a identidade é fruto das interações sociais multideterminadas do indivíduo no e com o mundo, em um dado tempo e espaço, ou seja, em uma dada cultura e história de vida. Dessa maneira, há interesse em conhecer, não só quem é o professor e seu processo de constituição identitária profissional, mas como se dá esse processo. Por que o professor precisa tomar consciência de sua própria identidade profissional? Por que é importante conhecer quem é o professor, hoje? Qual a relação que há entre a construção de identidade profissional docente e sua formação nos cursos de licenciaturas e seu trabalho na escola? Estas são algumas perguntam que nos interessam, posto que envolvem questões importantes na medida que contribuem para a definição dos objetivos de políticas públicas para educação, colaborando também para compreender o papel profissional docente e as visões que o professor tem sobre si mesmo. Nisso tudo, a formação do professor assume um lugar de importância.
A tomada de consciência de sua própria identidade faz-se importante na medida em que vai se vendo fazendo parte de uma classe profissional, vai sendo despertado para esta classe, e com isso, o futuro professor vai tomando consciência do que será, o modo de ser de ser e de estar na profissão, fazendo suas escolhas e aproximações com a identidade profissional ao docente. É nisso que está o resultado da relação entre a formação inicial e a identidade profissional docente quando no curso de formação inicial começa a ser despertada o sentido
do ser profissional no futuro professor ao ir construindo sua identidade docente, a identidade profissional de seu trabalho.
Para Nóvoa (1992), a formação do professor deve ocorre em espaço de reflexividade crítica sobre as práticas. Dessa maneira, o professor não está sendo formado, ele está em formação e tem consciência disso. Para o autor, a formação não se constrói por acumulação, pois é processo contínuo e se dá na perspectiva crítico-reflexiva. Por essa perspectiva, o professor deve perceber que sua formação se iniciou no curso de graduação e este precisa ser pensado e desenvolvido nessa perspectiva. Para Nóvoa (1992, p. 25) estar em formação
implica um investimento pessoal... com vista à construção de uma identidade, que é também uma identidade profissional, mas esse querer personalizado não
elimina a dimensão coletiva da formação de identidade, posto que a identidade é construída em espaços habitados por diversos indivíduos com quem trocamos experiências e negociamos nossas identidades. O professor não é, ele está sempre em formação.
Diante da acentuada desvalorização profissional por que passa a profissão de professor e da crise das identidades assinaladas por Dubar (1997; 2006), atualmente, é importante para qualquer trabalhador afirmar suas identidades pessoais, sociais e profissionais. No caso do professor, a afirmação de suas identidades pode contribuir para melhorias nas condições do trabalho docente, compreender as visões que o professor forma sobre si mesmo, sobre a escola e o aluno (GATTI, 1998).
Ao construir sua identidade profissional, o professor estará adotando normas e valores essenciais para o exercício da profissão (PONTES et al., 2003). Para esses autores, uma forte identidade profissional está associada a uma atitude de empenhamento em se aperfeiçoar a si próprio como educador e à disponibilidade para contribuir para a melhoria das instituições educativas em que está inserido. Muito mais que buscar saber quem é o professor, faz-se necessário compreender o professor nesses espaços multirreferenciais, que envolvem as relações entre os alunos e os colegas de profissão, as relações com as novas tecnologias com as mudanças sociais e econômicas, que influenciam a aquisição de sua identidade, além da necessidade de compreensão dos processos que
levam à sua constituição. Sendo assim, será que o professor que pesquisa e reflete criticamente sua prática encontra-se reconstruindo sua identidade docente? Em quais aspectos o Projeto Parceladas possibilitou condições para o licenciando rever sua identidade profissional?
A identidade é algo determinante na vida de uma pessoa, seja do ponto de vista particular ou profissional. Para Giddens (2002), a identidade particular de uma pessoa está no comportamento, está nas reações das pessoas, na predisposição que tem em manter sua história de vida, o que tem sido cada vez mais dificultado, pois as mudanças impostas na contemporaneidade pela tecnologia, relações de trabalhos, políticas e economia acentuam essa fragilidade. Mas, ninguém nasce com uma identidade definida e vive com ela para sempre, como era pensado na Modernidade.
Segundo Berger; Luckmann (1996, p. 230), a identidade vai se formando e sendo remodelada por meio dos processos e relações dialéticas com a sociedade. Ou seja, a identidade é um fenômeno que deriva da relação dialética entre um indivíduo e a sociedade, portanto, é um produto social, dinâmico, inacabado que vai se configurando também como espaço de lutas e de conflitos (NÓVOA, 1992, p. 16), resultando em um produto relacional de vários encontros (pessoal, social e profissional), configurando uma identidade pessoal. Com suas identidades (pessoal, social e profissional), cada indivíduo age e relaciona-se no e com o mundo, reconstruindo com o outro sua identidade, porque ninguém está sozinho nesse processo.
O termo identidade quer dizer igualdade e continuidade; está relacionado à história de vida de uma pessoa, em um dado tempo e espaço. Isso significa que a identidade é um assumir sucessivo de formas e maneiras de ser e estar no mundo, espelhando-se em referenciais. Para Dubar (1997, p. 13), a identidade é construída no decorrer da vida em um processo dinâmico e contínuo: [...] a
identidade não é dada, de uma vez por todas, no ato do nascimento: constrói-se na infância e deve reconstruir-se sempre ao longo da vida. Portanto, nascer,
crescer, tornar-se adulto e profissional é seguir continuamente construindo identidades.
Para Dubar (1997), nesse decorrer, o indivíduo vai forjando sua identidade, conforme vai entrando em contato com culturas diferentes, grupos sociais, na empresa e no trabalho. Para esse autor, a construção da identidade verifica-se baseada na história de vida de cada um e no relacionamento entre indivíduos, em um dado ambiente, que Dubar denomina de ambiente identitário, como a escola, a família, o trabalho ou a empresa. Portanto, identidade é um produto social e profissional, adquirido pela socialização, começando na infância, passando pela adolescência e chegando à fase adulta. Podemos perceber, ao longo da vida de um indivíduo que ele vai assumindo suas identidades, indo da particular à coletiva e profissional, na perspectiva individual, mediada por seus valores, concepções e sentimentos, portanto, subjetivas. Neste assumir as sucessivas identidades, há necessidade de conhecer o que significa identidade profissional docente. Quem é esse profissional? Como seu ser professor é construído? Quais os processos de construção? Qual a influência dos ambientes sobre sua identidade profissional? Podemos afirmar que os cursos de formação de professores são os espaços nos quais o futuro professor vai podendo rever crenças e concepções e, assim, vai construindo sua identidade profissional, fazendo suas comparações, escolhas e incorporações do modo de ser e estar na profissão.
Em nosso entendimento, uma única situação não detém sozinha o movimento de construção da identidade dos professores. No curso de formação que realiza, o professor não tem seu único referencial identitário. Ele entra para a formação com suas crenças, valores e concepções, com uma vida já vivida no mundo já experimentado. Dessa maneira, estamos de acordo com Pimenta, quando diz que: Uma identidade profissional se constrói, pois com base na
significação social da profissão; na revisão constante dos significados sociais da profissão; na revisão das tradições (PIMENTA E ANASTASIOU, 2002, P. 77).
Portanto, a identidade profissional docente é construída no embate entre o significado social da profissão e o que significa para o professor ser professor. Segundo Nóvoa (1992), toda profissão confere uma identidade, mas o ser dessa identidade está situado no mundo multireferencial, como a família, a escola, o trabalho, o sindicato, nos quais as imagens sobre a profissão são formadas, inclusive, ele próprio tem sua imagem.
Dubar (1997, p. 77; 1998), afirma que a identidade é um assumir sucessivo das formas mediadas pela história de vida e pelo ambiente social, cultural e de trabalho, que também imprimem formas de identidade. Para o autor, o trabalho está no seio dos processos de diferenciação identitária, circundado por nossas outras identidades. Ter uma identidade é, portanto, um estar-sendo-sempre possibilitado por sucessivos processos de socialização vividos em diversos contextos, como no contexto do trabalho, onde toda profissão afirma uma identidade, e o trabalho é também espaço para os processos de diferenciação da identidade, da produção de uma história de vida pessoal, social e profissional na construção das identidades. Assim, as identidades resultam do encontro de
trajetórias socialmente condicionadas por campos socialmente estruturados
(DUBAR, 1997, p. 77).
Dessa maneira, a identidade é um produto a ser negociado e forjado entre dois processos que Dubar (1997) denomina de biográfico e relacional. O primeiro, compreende o processo de aquisição identitária que se dá na socialização inicial do indivíduo dentro do ambiente da família, da igreja, nos espaços onde o indivíduo vive sua história de vida. Nossa identidade pessoal é formada nesse ambiente onde vamos diferenciando nosso papel de pai, mãe, filho, crente ou não crente. No processo relacional, o indivíduo precisa entrar no ambiente de trabalho em que participa sob várias formas das atividades coletivas organizacionais do grupo de trabalho e no qual o profissional constrói sua maneira de ser e estar na profissão.
A formação das identidades ocorre nos ambientes por onde o indivíduo entra em interação com os outros, desempenhando os papéis sob as contribuições de vários interventores sociais que influem nessa formação e por processos de diferenciação inacabados, sucessivos e em ambientes de contato e de interação, onde nos movimentamos para vir a ser, pois não somos o que somos para sempre. Dessa maneira, nossa identidade é o resultado conjunto da ação de vários processos de aquisição identitária redefinido no tempo e no espaço, quando vão sendo transformados.
Quando se fala da identidade profissional, a primeira ideia que emerge é fácil e comumente relacionada a algo que remete ao fazer mais imediato, ao que
é mais visível desse fazer. Assim, a formação profissional de todos os indivíduos encarna uma identidade. Com isso, quando se fala da identidade profissional docente, sua definição é alimentada por um imaginário do cotidiano de trabalho desse profissional, sobretudo, em situação de sala de aula, onde o ponto central de sua identidade está relacionado ao ensino. Mas a identidade docente é muito mais que isso. Ela não está somente vinculada a esses imaginários sociais que se reduzem em uma concepção aligeirada esse profissional e a um ser/fazer que lhe é mais imediato. Mas também incide sobre ele uma série de discursos oficiais, que insinua qual deve ser sua identidade, como ele deve e precisa ser visto.
Garcia et al. (2005) chamam a atenção para essas formas de influência na definição da identidade docente. Para eles, todo esse interesse por parte da mídia e dos discursos justifica-se, pois, em cada momento e lugar, em que o professor é intimado a responder, conforme os interesses do Estado, da política e da economia que juntos veiculam seus discursos na grande mídia contendo sua imagem do que deve ser um professor, potencializando a configuração da identidade profissional do professor na sociedade e no próprio professor.
Dessa forma, por meio de seus discursos sobre como o professor deve agir e quais são suas dificuldades e problemas, o Estado está também gerenciando a identidade profissional do professor, pois, conforme Lawn (2001), é uma tarefa da qual os governos vêm se preocupando para com isso poder gerenciar a condução do sistema educacional de uma nação. Ao fazer isso, o Estado produz parte das condições necessárias à fabricação e à regulação da conduta do professor. Contudo, como já se indicou, as identidades docentes não se constroem somente na escola e com base na orientação curricular oficial de cursos de licenciaturas e dos discursos que reduzem o que elas são. Para Garcia et al. (2005, p. 48), os docentes são mais que formadores de cidadãos, como querem as políticas oficiais. Os professores negociam suas identidades em meio a um conjunto de
variáveis como a história familiar e pessoal, as condições de trabalho e ocupacionais, os discursos que de algum modo falam do que são e de suas funções.
Como já foi referido anteriormente, a identidade é um processo dinâmico e contínuo de construção e deriva-se da interação dialética entre um indivíduo e a
sociedade e também entre o indivíduo e seu trabalho. Sendo assim, a identidade é muito mais do que aquela implícita e veiculada nos discursos oficiais, mesmo quando se está falando da identidade profissional, pois é com a identidade pessoal forjada durante a vida que o indivíduo irá negociar a construção da nova identidade. Não há um momento determinado e só um ambiente atuando na formação da identidade. Há um Eu em interação com o outro, onde este se encontra, e é a partir desse Eu consciente do que se é, que se afirma em que esse Eu é diferente do Outro.
Moreira (2005) concordando com Dubar (1997), refere que a identidade de um indivíduo é forjada com o Outro, que não pode ser dispensado nesse processo. Portanto, a identidade caracteriza-se por um processo de mudanças, não é estática nem está acabada e ocorre ao longo da vida de um individuo em suas relações com os outros e vai afirmando sua identidade a partir desse Outro, com base naquilo que ele diz que você é. A aquisição da identidade acontece por atos de negociação, quando o indivíduo aceita ou rejeita a marca que lhe é atribuída pelo outro.
Necessariamente, a identidade profissional está vinculada a um grupo, cujos membros se reconhecem na especificidade do fazer, configurando características que os ligam a uma profissão, produzindo sentimento de pertença. No processo de construção da identidade profissional, entram as trajetórias individuais de vida de cada um, e na interação com o outro, dentro de uma coletividade profissional. Assim, o indivíduo encontra as condições para construir sua identidade profissional.
Segundo Dubar (1997a; 1997b; 1998); Gatti (1996); Pimenta (1997); Viana (1999) existe uma correlação estreita entre a identidade pessoal e a coletiva, mesmo que essa não seja uma decorrência direta daquela. Mas o indivíduo interage com suas identidades pessoal e a social em qualquer processo de formação, quando recorrem às suas concepções, seus valores e sentimentos para agir e interagir. Assim, vai vivendo suas certezas e incertezas, afirmando, confirmando ou negando suas identidades. Desse modo, com suas identidades, particular e social, os professores estarão interagindo com os processos de
formação, de socialização na construção e reconstrução de sua identidade profissional.
Há uma razoável produção que associa a formação de professores e o contexto de trabalho (GATTI, 1998; MIZUKAMI, 2004; TARDIF, 2005). Nesse sentido, Dubar (1997a; 1997b) traz uma contribuição que poderá nos ajudar a compreender a construção de identidade em espaço de formação inicial e de trabalho do professor de Matemática. Sua contribuição está nas configurações significativas de quatro categorias que são modelos de formação identitária, que Dubar chamou de formas identitárias e que iremos expor a seguir, como forma de contribuição e considerando no contexto educacional.