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Neste trabalho foi possível explorar e analisar a qualidade do engajamento dos alunos em um contexto de ensino de temas sociocientíficos fundamentados na abordagem CTSA. Conforme foi categorizado, os alunos reconhecem o impacto que artefatos tecnológicos, tal como a usina hidrelétrica e o computador, podem provocar, e, em muitos casos, provocam na sociedade, perdas nas tradições culturais, na criatividade, além do banimento das interações sociais e supressão da felicidade. Como também reconhecem que, frente a esses impactos, há necessidade de se fazerem escolhas. Através dessas concepções, pode-se inferir que ao longo dos debates analisados para este trabalho, as discussões sempre se fundamentavam nas escolhas que o cidadão deveria fazer ao se deparar com a tecnologia.

No entanto, alguns alunos possuem uma concepção de escolha, a qual está sob a égide do imperativo tecnológico, ou seja, a escolha de como usar o artefato está sob as condições que “ele” determina. O fato de o aluno reconhecer que o artefato possibilita as condições de escolhas já denuncia a lógica da dominação tecnológica, tal qual Marcuse defende. Para Marcuse (1966) concepções desta ordem expressam uma de suas predições, a qual versa que a própria irracionalidade tecnológica tornar-se-á confortável e, sob o espírito dessa época, será metamorfoseada para uma racionalidade aceitável, ou seja, a racionalidade instrumental.

Ora diante desta constatação percebe-se também que tais concepções de tecnologia e sociedade exibem a todo tempo uma hesitação dos alunos que denunciam os impactos tecnológicos no meio ambiente, nas relações humanas, já que o artefato possibilita a individualização do lazer, por exemplo, através de jogos de computadores, e com isso reduzindo as esferas das relações humanas, das interações sociais. O reconhecimento dessas marcas pelos alunos corrobora as denúncias de Marcuse, e também as patologias habermasianas de colonização do mundo da vida.

A colonização do mundo da vida, cujos reflexos se traduzem, na supressão do ato de jogar bola, de brincar de esconde-esconde evidencia a redução das interações sociais e, por conseguinte do fundamento que permite a constituição do ser histórico, do sujeito social, ou seja, a redução da socialização comunicativa.

Essas patologias entrecortam o indivíduo a todo o momento e promovem o desenvolvimento do hiperindividualismo. Particularmente esta patologia colabora com o banimento da solidariedade, aspecto da existência humana tão pertinente para se estabelecer ações comunicativas em busca de consenso. Assim, tais evidências que corrompem o ser, o acompanham em todos os setores da sociedade, tal qual a escola. De fato, não é de estranhar as denúncias nas aulas de Ciências sobre a dificuldade de se instaurar uma participação discursiva.

Porém, ao mesmo tempo em que alguns alunos trazem concepções que evidenciam o nosso nível de imersão na racionalidade instrumental, outros denunciam ações nefastas e indicam a necessidade de se reconhecer a inversão de papéis na relação homem-tecnologia. Para esses, a única saída se encontra no resgate da autonomia do homem em suas escolhas e de fato voltar a ser feliz.

Ao obterem-se essas constatações precisas no próprio ato discursivo do aluno, permite-se inferir que a racionalidade instrumental coaduna com todos os indícios de violação dos códigos de conduta e os princípios fundamentais da pragmadialética, que como foi exposto obstrui todo o processo discursivo, manipula e dificulta a busca por consensos frente ao tema sociocientífico.

A redução das interações humanas e, por conseguinte da “socialização comunicativa” tem aspectos nefastos no que tange à perda da identidade coletiva, como foi possível constatar na conduta discursiva de A5, ao tentar a todo o momento ser reconhecida pelo grupo, como também, através da conduta de A7 através das manipulações estratégicas em vista de legitimar a própria performance discursiva. Estes aspectos da conduta discursiva dos alunos contribuem com o processo de empobrecimento cultural. Já que o não reconhecimento da linguagem como meio de construção do conhecimento e da aprendizagem coletiva não contribui com o processo formativo.

São por estas razões, assim como outras que há necessidade de se buscar meios para luta e resistência contra as invasões da racionalidade instrumental no mundo da vida. No entanto, não é a proposta deste trabalho repudiar a racionalidade instrumental, pois esta tem

sua função e importância na sociedade, como por exemplo, na esfera da produção científica básica. A questão é desenvolvermos uma consciência crítica dessas invasões e resgatar o espaço público, no qual ocorre a socialização comunicativa, através de uma proposta de comunicação verdadeira, livre de coerções.

Por fim a escola é chamada a ser no lócus, o qual se encontra o potencial de desenvolver aquilo que Habermas pontua como “competência comunicativa”. É na escola em que esses dois sistemas se encontram e que por muitas vezes, por falta de uma ação comunicativa, entre professores e alunos-professores que o mundo da vida acaba por ser colonizado. Será pela ação comunicativa que, de fato, encontrar-se-ão meios para a luta e resistência contra a inversão de papéis, assim, uma pessoa só pode ser livre se todas as demais forem igualmente (HABERMAS, 2004).

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